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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A SOLIDÃO NA OBRA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


James Joyce (1882 - 1941)


A solidão na obra



Manuel Soares Bulcão Neto




De fato, entre os artistas e escritores há forte tendência, intencional ou não, no sentido da margem, para a proscrição social. Primeiro, porque o processo criativo somente se desenvolve quando o criador encontra-se em estado de solidão, tanto no momento da concepção mental da obra (o “projeto” demanda forte introspecção, um diálogo concentrado “entre si consigo mesmo”) como na fase “prática”, de formalização “material”. — “O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas.” — Escreveu João Cabral de Melo Neto.
(Na verdade, o estádio subjetivo e o objetivo se interpenetram, justapõem-se no tempo “com atrito”; o projeto, malgrado sua inércia, modifica-se ao longo de toda a práxis, o que faz do criador um solitário ininterruptamente atormentado.)
Em segundo lugar, porque o “estar só” do criador implica riscos psicológicos, talvez mesmo um “custo”, que Thomas Mann identificou e comentou em sua novela A morte em Veneza. Transcrevo o trecho abaixo:
“As observações e os acontecimentos do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusos e mais penetrantes que os do sociável (…) Imaginações e percepções que poderiam facilmente ser postas de lado com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões, ocupam-no sobremaneira, aprofundam-se no silêncio, tornam-se importantes, acontecimento, aventura, sentimento. (…) A solidão acarreta o original, o ousado, o estranhamente belo, o poema. Mas a solidão também acarreta o errado, o desproporcional, o absurdo e o proibido.” (O itálico é meu.)
Realmente, muitos excêntricos por caráter, de forma consciente ou não, valem-se da arte ou literatura como tentativa de comunicação — esforço que, no limite mínimo (porém supremo), consiste em exteriorizar seu hermetismo subjetivo em objetos herméticos que, na verdade, são “recriações” radicais da semântica e da linguagem (mecanismo psíquico que Jacques Lacan designou com o termo “sinthome”, ilustrando-o com algumas obras de James Joyce, Finnegans wake e outras. — Aliás, Lacan confessou algures que, para não enlouquecer de vez com tantas discussões acirradas “entre si consigo mesmo”, criou o seu próprio “sinthome”: o inconsciente “Real”. Sucesso! Conseguiu reunir uma plêiade de místicos laicos afeitos aos mais exóticos esoterismos).
Não são poucos, entretanto, os casos de artistas/escritores antes sociáveis, mentalmente equilibrados que, devido ao hábito de viverem na “solidão do criador” (e pelas razões apontadas por Thomas Mann, mais potentes após um divórcio), terminam se transformando em “esquisitos assustadores” — amiúde ao ponto de, por onde passam, os cães latirem e os bebês chorarem. (Claro, estou caricaturando).
Obviamente, pelo fato de existirem flutuações estatísticas “contingentes”, ocorre de também haver um e outro artista/escritor normais (por rigorosa sacação, calculo em dois por cento). Mesmo esses, porém, são de uma normalidade tão certinha, exacerbada e redonda que chega a ser teratológica. — Se tomam um cafezinho às sete da noite, passam a madrugada acordados; para comer uma maçã, antes a lavam, tiram-lhe a casca e a dividem em fatias absolutamente simétricas… — Em suma, ninguém escapa.
Outra força centrífuga, talvez a mais poderosa, a qual o artista encontra-se submetido consiste no fato de ser a arte a parte da Cultura menos reiterativa e, portanto, a mais dinâmica — pois que se trata “fundamentalmente” (mesmo a mais realista e figurativa) de criação.
Ora, por sua essência criadora – desligada de qualquer senso prático-utilitário – a atividade artística exige dos seus agentes uma postura mais crítica, inconformista, descontente e “corajosa” que a normal, coragem inclusive para aceitar seu custo, muitas vezes alto: o choque frontal contra opiniões públicas ao mesmo tempo graníticas e paroquiais, assentadas em valores miúdos, forças dissuasivas – mediante ameaças de ostracismo – de etiquetas morais.
Sem dúvida, uma força intensa e constante que acentua os aspectos negativos da solidão do artista. Se não mata o talento logo no berço ou o sufoca em claustros, aos poucos o destrói – mormente o dos mais gregários – por meios vicários, explorando-lhe a vaidade, jogando com seus conflitos — até, enfim, transformá-lo em mais um trágico ghost writer do impessoal pronome “Se”: “pensa-se como ‘se’ pensa; julga-se como ‘se’ julga; gosta-se do que ‘se’ gosta; cria-se como ‘se’ cria; escreve-se como ‘se’ deve escrever…”.
Tantos talentos dissolvidos na impessoalidade da massa evocam, por contraste, a trajetória singular de um dos maiores escritores do século XX, Marcel Proust. Morto aos cinquenta e um anos de idade, por três décadas levou a vida como frívolo homem de salão — um esnobe adotado pelas múmias aristocráticas do Caubourg Sair.t-Germain. Requintado na futilidade, sempre ocupado em cumprir à risca todos os ritos de etiqueta, tratava sua erudição como um precioso “enfeite”. Vale lembrar que, ainda em sua fase de intensa vida social (bem no centro da cloaca do Grand Monde e em plena Belle Époque – isso é que é glamour!), Proust publicou um livro, Os prazeres e os dias, obra que, malgrado o valor literário, só foi considerada por seus “pares” – palermas engalanados em sua maioria – em virtude do prefácio de Anatole France — o que o autor obteve não por reconhecimento autêntico, mas por vias mundanas e através de terceiros: a atenção de Anatole a um apelo de Madame de Caillavet.
Havia, porém, em Proust, dois traços que o faziam destoar daqueles bípedes implumes que compunham seu seleto círculo: uma sincera generosidade com as pessoas simples, presente em seu cuidado de evitar qualquer ato capaz de deixar um garçom com a sensação de ter sido humilhado, ou dar impressão de desprezo a uma camareira ou chofer. Quanto ao segundo traço, trata-se da qualidade de enfermiço – era asmático desde a puberdade.
Pois, na iminência dos quarenta, a moléstia agravou-se sobremaneira, tornando-se incapacitante. Foi quando, intuindo a proximidade da morte, Proust tomou-se de fastio por aquele ambiente de parolagens e parvoíces e seus viventes meio que fantasmagóricos. Decidiu, então, dedicar o tempo restante, integralmente, à sua autêntica vocação: a Literatura. Para tanto, abandonou os salões, isolou-se em sua casa do boulevard Haussmann e, mesmo sofrendo de crises asmáticas intensas e sob febre quase constante, construiu sua monumental Em busca do tempo perdido — obra em que, seguindo as orientações de Flaubert, tratou os aristocratas parisienses com a mesma objetividade com que um paleontólogo estuda a estrutura fossilizada de répteis mesozóicos.
Foi no isolamento voluntário e na doença – infenso a deferências narcísicas – que Proust encontrou-se, fez-se como homem. E – fato curioso! – ao contrário de Fausto e Adrian Leverkühn, para realizar suas potencialidades teve, antes, que passar a perna em seus Mefistófeles empoados.


01/2012



Um comentário:

  1. (Comentário enviado por e-mail pelo escritor Carlos Vazconcelos)

    Caro bulcão,

    Aqui do SESC não dá mesmo para deixar comentário nos blogues. O sistema trava. Tentei de novo, mas desiludo-me.



    Abaixo o que escrevi. Se você não se incomoda, pode postar em meu nome. Eu não me incomodo.

    Abraço.



    Muito bom, caro Bulcão. A vida literária pode ser um risco para a literatura, sobretudo quando ela tende para a frivolidade. Pode tornar-se muito atraente, no plano da vaidade, espécie de canto da sereia. Portanto, se há uma obra a ser feita, algo a ser dito irremediavelmente, melhor não se dispersar. Abraço.

    Carlos Vasconcelos

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