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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

SINTOMA E SINTHOMA: DUAS VERTENTES NA ARTE DE JAMES JOYCE (MARIA DO SOCORRO MONTEZUMA BULCÃO)

Jacques Lacan (1901-1981)



“O psiquismo humano é equipado de uma álgebra semântica (expressão cunhada pelo antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss). Alguns indivíduos, porém, ao longo do seu desenvolvimento neuropsicológico, deparam-se com obstáculos que impossibilitam, de maneira absoluta, a formação de determinado significante (conforme Lacan, o nome-do-pai), fundamental na estrutura da referida álgebra e cuja falta é a porta aberta da psicose. Ocorre que o Eu consciente/pré-consciente, diante desse “furo”, não queda impotente, ao contrário: mediante o processo criativo – que não é senão atividade produtora de objetos “significativos” – busca algo que funcione como substituto desse significante “foracluído” (isto é, “não incluso” – sequer na condição de recalcado ou reprimido – no aparelho neuropsíquico). — Entendo que o sinthome seria esse substituto.” (Manuel Soares Bulcão Neto)

Sintoma e sinthoma: duas vertentes na arte de James Joyce


Maria do Socorro Montezuma Bulcão (*)


RESUMO: Um recorte do Seminário 23, destacando duas vertentes da escrita de James Joyce,  exemplo tomado por Lacan para buscar responder, no ano daquele seminário, à questão relativa ao efeito da arte sobre o sintoma. No caso de Joyce, sua escrita/artifício constituiu-se num sinthoma na medida em que, fazendo suplência à falta de inscrição do Nome-do-Pai, lhe garantiu manter juntos os registros do real, simbólico e imaginário do seu nó, com aparência de enodamento borromeu.

Palavras–chave: Pai, Nome-do-Pai, sintoma, sinthoma, escrita/escritura, suplência, nó borromeu.

“Velho pai,velhoartífice,valha-meagora e sempre.”1


Ao iniciar a primeira aula d’O Seminário 23 – O sinthoma, Lacan menciona que, segundo afirmação de Philippe Sollers, Joyce teria escrito em inglês, “de tal maneira que a língua inglesa não existe mais”.2 E prossegue dizendo que, embora não sendo fácil escrever em inglês, mas devido à pouca consistência dessa língua, Joyce, pela sucessão de obras que escreveu, acrescentara à língua inglesa algo que o fazia afirmar que precisava escrever – l’élangues. Note-se aí a aglutinação de palavras:

L’(ELAN)GUES = LE + ELAN + LANGUES.

Vale aqui destacar inicialmente algumas definições do termo elã em nosso idioma: movimento súbito, espontâneo; sentimento ardente, entusiasmo criador, arrojo, ímpeto, rasgo, inspiração3.

Partindo de tais conceitos, pode-se pensar que diante dessa aglutinação de palavras – L’(ELAN)GUES – a afirmação de Lacan é no sentido de que Joyce tinha o ímpeto de escrever e o fazia por necessidade.

É ainda Lacan que afirma:

“Suponho que, assim, ele procura designar alguma coisa como essa elação que, dizem-nos, está no princípio de não sei qual sinthoma que, em psiquiatria, chamamos mania”.4

Seria isso dizer que o sinthoma de Joyce era determinado por uma necessidade maníaca? E o que existia de natureza tão determinante por trás desse elã, a desencadear uma escrita cujo caráter era o de império, de mister? A relação sintoma/sinthoma parece indicar algum esclarecimento sobre essas questões.

Lacan afirma que o sintoma e o sinthoma são “duas vertentes que se ofereciam à arte de James Joyce”5. Mais adiante vai dizer que (...) o pai é um sintoma, ou um santo varón (saint-homme)6. O pai, este santo varão que ao desempenhar eficazmente a função paterna, faz surgir daí o sujeito do desejo. Eis a vertente sintomática que se oferece à obra de James Joyce: o pai, e no caso dele, melhor seria dizer a falta da inscrição do Nome do Pai. A falência paterna apresentava-se para Joyce como determinante da sua necessidade de escrever. Tal necessidade era decorrente de um império ainda maior: o da inscrição do Nome do Pai. Sobre o sintoma de Joyce afirma Lacan: “Ulisses testemunha que Joyce permanece enraizado em seu pai, ainda que o renegando. É efetivamente isso que é seu sintoma.”7

Sabe-se que em O retrato do artista quando jovem, Simon Dedalus, pai de Stephen Dedalus, era um sujeito ordinário e decadente, um pai falido. O personagem Simon Dedalus é, na verdade, inspirado em John Joyce, pai de James Joyce.

É esse pai falido na sua função de inscrição do Nome do Pai, que vai determinar, em James Joyce, a necessidade de inventar algo capaz de fazer suplência à citada falta, sendo essa criação a sua escrita. Não se trata, entretanto, de uma escrita qualquer, mas de uma escrita inventiva que progressivamente vai se afastando da língua comum rumo à outra direção, via pela qual Joyce transita em direção ao real, na tentativa sempre frustrada de tocar o impossível. Tal forma de escrita é, portanto, a via eleita por Joyce “por onde tomar a verdade do sujeito”8, do seu sujeito. Essa escolha faz Lacan reconhecer em Joyce um herético, mas herético “de uma boa maneira”9 , na medida em que essa escolha, segundo Lacan, “uma vez feita não impede ninguém de submetê-la à confirmação”... A boa maneira ... que por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu real, até se fartar.”10

Essa escrita incomum e inventiva tem, no dizer de Jacques Aubert, “o selo da Necessidade”... e segundo ele “é uma escritura que ‘se pretende’ deciframento, que, em outros termos, está à procura ela mesma de uma escritura desaparecida, uma escritura que visa devolver (a) palavra e (a) vida a uma escritura fantasmática, mas bem real.11 É nesse sentido que a escrita/escritura de James Joyce se constitui num sinthoma, a outra vertente da arte de Joyce citada por Lacan e que tem o condão de fazer suplência a uma falha no nó borromeu, suplência à falta de inscrição do Nome do Pai e que permite manter unidos os três registros pelos quais passam toda a experiência de um sujeito: Real, Simbólico e Imaginário.

A invenção de James Joyce serve de ilustração à pergunta anunciada por Jacques Lacan no primeiro capítulo do Seminário 23, sua interrogação para aquele ano sobre a arte: “Em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim posso dizer, o que se impõe do sintoma? A saber, a verdade?”12

Não há dúvida de que para Joyce a escrita, como sinthoma, foi o artifício que o retirou da condição de pobre-diabo para, na medida de sua singularidade, elevá-lo à de herói – em Stephen Hero – e de O artista – no Retrato do artista quando jovem. É nesse  sentido que, se referindo a Joyce, Lacan afirma que “foi a sua arte que supriu a sua firmeza fálica” e que (...) “é nisso que sua arte é o verdadeiro fiador do seu falo.”13

E de que modo identificar a singularidade dessa escrita? O que lhe dá esse  caráter de originalidade, de invenção, de artifício, enfim, de sinthoma capaz de suster o nó do sujeito Joyce, impedindo o seu desatamento?

Existe na escrita de Joyce um processo que tende à desarticulação da língua (inglesa) que, como afirma Lacan, não começa em Finnegans wake, e que já estava presente em Ulisses14. Na proporção em que esse processo de desarticulação da língua inglesa transita na contramão da significação, ou seja, indo do sentido em direção ao não sentido, é que se vislumbra a tentativa de Joyce de tocar o real. Vale lembrar que, segundo Lacan, Joyce, por sua escrita, atingiu o melhor que uma análise poderia alcançar em seu término.15

Se a análise é a resposta a um enigma16, Joyce perseguiu a resposta quanto ao enigma do seu sujeito através da escrita, via por onde teceu suturas e emendas17, tal como se faz em análise. Esse artifício é o que comprova a afirmação de Lacan de que “A arte pode atingir inclusive o sintoma”.18

É também nesse sentido que a escrita de Joyce se constituiu como um sinthoma, isto que Lacan veio a definir como “o que permite ao nó de três não só se manter nó de três, como se conservar em uma posição tal que ele tenha o aspecto de constituir nó de três.”19

Lacan afirmou ainda: “Joyce não sabia que ele fazia o sinthoma, quero dizer, que o simulava. Isso era inconsciente para ele. Por isso, ele é um puro artífice, um homem de savoir-faire, o que é igualmente chamado de um artista.”20

Partindo-se dessas referências acerca do que vem a ser o sinthoma, particularmente no caso de Joyce, é inevitável suscitar a curiosa, polêmica e sedutora questão levantada por Lacan acerca da suposta loucura de James Joyce, mas sempre valendo lembrar que foi o próprio Lacan que ao argüir tal hipótese, teve o cuidado de afirmar que não o analisou. 21

A afirmação de que Joyce não fazia sinthoma, e sim o simulava, leva ao  entendimento de que o nó de Joyce não era borromeu, e que tinha apenas aparência dessa espécie de nó, o que justifica a hipótese sustentada por Lacan quanto à loucura de Joyce.

Louco ou não louco: eis a questão.

Saber se James Joyce era ou não louco é uma pergunta que sempre fará questão e não constitui o cerne deste trabalho. Aqui a intenção foi destacar d’O seminário 23 – “O Sinthoma” –, a via eleita por um determinado sujeito – James Joyce – que, sendo louco ou não, lançou mão da escrita de uma forma singular e revolucionária para o seu tempo, e mesmo para o nosso, reescreveu a sua história e alcançou o seu desejo de se dar um nome que não lhe fora garantido pelo pai.

Se, conforme ensinamento de Lacan, “o pai é esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real”22; se o pai, para James Joyce, não lhe garantiu a inscrição do Nome-do-Pai e, consequentemente, um enodamento genuinamente borromeu; por outro lado, o sinthoma construído por Joyce manteve junto os registros do simbólico, imaginário e real do seu nó, fazendo suplência a essa falha e dando ao seu nó a aparência de nó borromeu.

Finalmente, não se pode olvidar que Lacan também deu ao pai outro nome: sinthoma, quando afirmou:

“O pai é esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real. Mas há um outro modo de chamá-lo. É nisso o que diz respeito ao Nome-do-Pai, no grau em que Joyce testemunha isso, eu o revisto hoje com o que é conveniente chamar de sinthoma.” 23

Assim, para James Joyce, onde não foi o Nome-do-Pai, foi o sinthoma:
sinthoma em Nome-do-Pai.

Notas e Referências Bibliográficas

1 JOYCE, James – Um retrato do artista quando jovem – p. 266. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 1996).



2 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
3 Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, p. 1106. Ed. 2004. Rio de Janeiro: Editora Objetiva.
4 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Editor.
5 Idem. P. 16.
6 LACAN, Jacques – El Sinthoma – Seminário XXIII, p. 08. www.psicoanalisis.org.br
7 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 68. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução -Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
8 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 16. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
9 Idem.
10 Ibdem.
11 AUBERT, Jacques – Prólogo a Um retrato do artista quando jovem – Tradução de Analucia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra Freudiana, ano XII, nº 13, 1993, p. 43.
12 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
13 Idem, p. 16.
14 “Muito antes, especialmente em Ulisses, ele tem uma forma de picar as frases que já vai nesse sentido. É verdadeiramente um processo exercido no sentido de dar à língua em que ele escreve outro uso, em todo caso, um uso bem distante do comum. Isso faz parte de seu savoir-faire.” LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 72. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
15 LACAN, Jacques – Outros Escritos. Lituraterra; p. 15. Ed. 2003. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
16 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – p. 70. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
17 “É de suturas e emendas que se trata na análise” – Idem, p. 78.
18 Idem, p. 41.
19 Idem, p. 91.
20 Idem. P. 114.
21 O que há de terrível , com efeito, é que fico reduzido a lê-lo, posto que é certo que não o analisei. LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 77. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
22 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 163. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Anexos — “Joyce, o sintoma”, Conferência de 16 de junho de 1975, no anfiteatro da Sorbonne, na abertura do V Simpósio Internacional James Joyce.
23 Idem.

Bibliografia

LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução – Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2007.
LACAN, Jacques – El Sinthoma – Seminário XXIII. www.psicoanalisis.org.br
JOYCE, James – Um retrato do artista quando jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 1996.
AUBERT, Jacques – Prólogo a Um retrato do artista quando jovem – Tradução Ana Lúcia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra Freudiana, ano XII, nº 13, 1993, p. 43.
LACAN, Jacques – in Outros Escritos. Lituraterra. Ed. 2003. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Ed. 2004. Editora Objetiva.


(*) Juíza estadual, membro da Escola Letra Freudiana.

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