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Ficção/crônica/poesia

Portas Fechadas


Raymundo Netto


Todo mundo sempre me dizia: quem tem depressão, não pode deixar as portas fechadas!
Não entendia o porquê das portas, mas sabia, sim, o que era depressão. Uma tristeza sem fim, sem razão, e, ao mesmo tempo, com todas elas. Uma sensação de vazio imenso, a angústia, o coração apertado, uma vontade sofrida de chorar... Aliás, certa, certa, só mesmo essa vontade, quase vergonhosa, de chorar.
Geralmente, minha casa estava escura. Trancava as portas e as janelas, não queria ver ninguém. Era doído mostrar um sorriso de aparência, fingir atenção ao ouvir as medíocres histórias do dia a dia de todo o mundo, assisti-los a rir de piadas velhas ou a me contar de suas esperanças e crenças e, o pior: vê-los a zombar das próprias desgraças!
Televisão ou rádio, eu nem ligava. Ouvia música, sim, mas sempre, sempre, as percebia tão tristes quanto eu.
No mais, sempre me diziam: Olhe, quem tem depressão nunca pode deixar as portas fechadas, hein?!
Pus a fazer assim: não as fechavas mais, contudo, também não aparecia mais à porta, para que não me vissem, não me incomodassem... esquecessem de mim! Então, quando os mendigos ou carteiros batiam palmas no portão, eu ficava imóvel, silenciado, olhando pela fresta da basculante até eles se irem de vez.
Eu escrevia. E escrevia sempre, seja o que fosse, escrevia. A cabeça sempre ocupada, cheia de pensamentos a se acotovelarem, não me deixando dormir. Assim, varava as madrugadas e escrevia. Os meus dedos cumpriam por mim aquelas prometidas caminhadas pela praça ou à beira-mar, recomendadas pelos amigos, como terapia. Eles já achavam: precisava de terapia.
Em minha mente se passavam todos os tipos de acontecimentos, porém, na minha vida mesmo, sentia que nada acontecia; nada me suportava a vida!
Sentado diante do computador, lembrava momentos passados, rostos quase esquecidos, antigas promessas, dentre elas a maior, a da felicidade, feita ainda à juventude, que se foi sem que me desse conta. Não acreditava um dia envelhecer. As pessoas diziam: “mas você não tem nem quarenta anos!” Eu nem que acreditava...
Olhava a caixa de e-mails de cinco em cinco minutos: nada! Ficava pensando que logo, logo, alguém escreveria falando de seus planos e eu, com ele, sonharia, desfiando o sonho alheio, ponto a ponto, até cansá-lo e tirar-lhe o gosto. Eu mesmo, fazia tempo, não colecionava sonhos, não esperava por nada nem por ninguém. Eu não acreditava mais.
Nisso, de repente, um vento entrou e fechou-me a porta da sala. A casa escura!
Lembrei: quem tem depressão não pode deixar as portas fechadas!
Senti medo. O que aconteceria, então? Vozes frequentes ao pé do ouvido mudaram o discurso: ele morreu? Ele morreu? Ele morreeeu… Uma sombra pesada em tom de cinza pairou sobre minha cabeça. O frio desceu-me a nuca e fiquei em silêncio, atônito, a esperar, mas nada aconteceu. Na sala, tudo parecia olhar para mim: os livros, os quadros, as prateleiras, as canecas….. Até o gato que não ria nunca, numa apatia incômoda, também me fitava… eles sabiam… mas nada aconteceu!
Fui ao banheiro, olhei para o espelho, e não era eu quem estava lá. A garganta apertava-me, e eu chorei, chorei, chorei, abri as torneiras… mas nada aconteceu. Nada acontece nunca e nunca mais abri as portas nem os olhos, trancado para sempre na minha mais absoluta depressão.

Extraído de Os Acangapebas, coletânea de contos de Raymundo Netto, ainda no prelo.

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TRÊS POEMAS DE FRANCISCO MOREIRA JÚNIOR (O BIGO)

O MEDO

O medo
O medo do medo
O medo do medo do medo
O medo do medo
O medo

E a vida passando pela janela…
BATRAQUIANA

SocioloGIA
AntropoloGIA
PsicoloGIA
EpistemoloGIA…

Eu trocaria todas essas JIAS
Pela tua perereca nua
Atrás do muro da Universidade.


MANCHETE

Notícia do jornal:
Os cemitérios da cidade estão lotados
Os cemitérios da cidade estão lotados
Os cemitérios da cidade estão lotados

Definitivamente, não tenho mais
para onde ir. 

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Afinidades

Carlos Vaz

Ela me fitou com a surpresa de quem vê o arco-íris. De repente o deslumbramento, e o rápido esquecimento. Fui seguindo-a até a outra seção. Seus olhos me devolviam ao passado.
Você me lembra uma pessoa de quem muito gostei.
Essa cantada é muito velha.
Não é cantada. Você me lembra a Helena.
É... Você também me lembrou o Evaldo, assim que olhei. Mas você não é o Evaldo.
A gente poderia se conhecer melhor, eu seria seu Evaldo e você seria minha Helena.
Tudo bem. Desde que você não seja realmente o Evaldo.
Como assim?
É que se você for o Evaldo vai ser muito mulherengo. E vai me fazer sofrer de novo.
Mas você gosta do Evaldo, e sente saudades.
Sim, mas o Evaldo que eu conheci, assim como estou conhecendo você. Não o que ele se tornou, depois que conheceu a tal de Vânia.
Ele te traiu?
Era um grande amante. Mas as cartas que me mandava, mandava para ela também. Fotocópias.
E o que você fez?
No começo fiz vista grossa. Não iria perdê-lo assim...
E depois?
Depois descobri que havia pelo menos mais cinco vânias, e tânias, e sônias, até apolônias.”
Apolônia? De Apolo?
O raio que a parta!
Como você consegue sentir saudade de um pilantra como esse?
Alto lá! Veja como fala do Evaldo.
O que é que há com você, hein?
Ele era um grande amante!
?
Foram sete anos maravilhosos.
O quê? Você aguentou sete anos?
Sim. Até o dia em que conheci o Ribamar, um maranhense cabra da peste.
Aí largou o Evaldo?
Não. Envenenei-o!
??
Mas... você não falou ainda da Helena. Me conta!
Coincidência! Estrangulei-a!
Mas como? Não a amava?
Sim. Mas ela queria amor exclusivo. Não aceitava que eu amasse outras helenas, e milenas, e açucenas...
Taí! Gostei de você! Acho que vamos nos entender.
Também acho. Dá cá um beijo. Aceita um sorvete?


 
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