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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

OSSOS E HÁBITOS DO OFÍCIO, BRINCADEIRAS TESTOSTERÔNICAS & BOEMIA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Luís XIV da França: o Rei Sol.
"Nada mais risível que um narcisista paparicado que se leva muito a sério." (Manuel Bulcão)

Ossos e hábitos do ofício, brincadeiras testosterônicas & boemia

I – Happy hour de bancários

“Não leve problemas do trabalho para casa”, determina o bom senso. Mas… E quanto a nós, escritores, que trabalhamos em casa, sob – como se costuma dizer – os “tormentos da criação”? E sem ganhar dinheiro?! Por isso que minha mulher (inteligente e pragmática como todas as advogadas) pediu o divórcio. Decisão sensata.
Quanto aos “hábitos” do ofício, ora, passamos a maior parte do nosso tempo de vigília trabalhando. Tão condicionados ficamos que impossível não levá-los para onde quer que vamos.
A propósito, lembro-me da época em que fui bancário (escriturário do extinto BEC). Nas sextas-feiras à noite relaxávamos eu e outros – todos estes estudantes ou formados em Contabilidade – pelos bares da Avenida Tristão Gonçalves. Pois, bêbados ou não, em qualquer conversa manifestavam sua “visão contábil do mundo”. Exemplo: à luz de um globo colorido e giratório, contei a um deles que, logo após o big bang, igual era a quantidade de matéria e de antimatéria – sim, meu papo sempre foi teórico, abstrato e chatíssimo –; que houve um processo de aniquilamento mútuo, restando, como refugo, um oceano de fótons e ínfima quantidade de matéria: esta de que nós somos feitos. Meu insólito ouvinte, com ar de espanto, exclamou: “Então quer dizer que somos parte do patrimônio líquido do universo!”.
Noutra dessas “noites no século”, o mais feio e desengonçado deles – do tipo que, por mais caríssimas que sejam as roupas de griffe que vista, em vez de elegante fica só “enfeitado” – afirmou, jactando-se, estar namorando uma mulher casada. O único que acreditou passou-lhe um sermão: “Essa senhora” – nestes termos falou – “é um crédito indevidamente lançado no livro-caixa da sua vida. Estorne-a!”
Havia, ainda, o poeta da turma (*). Romântico – sim, empacou no romantismo –, costumava afetar profunda introspecção e melancolia (ou, como ele preferia chamar, tedium vitae), principalmente na frente de mulheres, entre as quais escolhia, para namorar, a mais “bandida”: só para ser corno (outra vez, sempre) o mais rápido possível, curtir aos prantos a dor de cotovelo e ter inspiração para escrever poemas — versos que recitava para outra musa “com cara de safada” num eterno retorno de dar piedade. Por sinal, ele lembrava muito aquele poema Elegia desesperada, em que Vinicius de Moraes roga a Deus que tenha piedade das meninas feiosas que, na adolescência, adquirem buço, dos que andam de ônibus, dos que empobreceram, dos práticos de farmácia que queriam mesmo ser médicos, dos ficcionistas frustrados que, para compensar, tornam-se ensaístas (poxa, o Vinicius foi muito cruel!) e, também, “muita (sic) piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta…”.
Pois, também bacharel em Contabilidade, às vezes, prospectando minudências de sublimes mistérios – como o único centavo que faltou para fechar o balancete – nas profundezas abissais do seu espírito, levantava-se da mesa, saía do bar e, na calçada (um cigarro no canto da boca, parecendo o Bogart) contemplava o firmamento infinito — contemplação à maneira contábil; isto é, ficava a “contar” as estrelas e com o cuidado de não deixar passar nenhuma célula falsa: “Uma, duas, três, quatro… não, aquilo é um avião… quatro, cinco, seis, sete…”.
Seu insight poético mais hilário e criativo, porém, foi na vez em que, agraciado não com um chifrezinho qualquer, mas com uma galharda do já extinto alce canadense (a maior entre todas as registradas nos anais tanto da zoologia como da paleontologia e também seria, caso existisse, da teratoexoesqueletologia), abraçou-me aos soluços e desabafou: “Bulcão, minha autoestima nunca esteve com o passivo tão a descoberto!”. “Ó que bela metáfora!”, foi o que me saiu da boca. Ele, mesmo chorando, abriu leve sorriso. “Obrigado…”, balbuciou, comovido com o elogio.
E por falar em poetas, estes, tanto os profissionais (isto é, os raríssimos que vivem do seu ofício literário) como os permanentemente desempregados (em cada esquina existem pelo menos doze) mantêm o cérebro operando, o tempo todo, no modo mágico-poético. Em tudo vêem metáforas e metonímias — e se rimarem, melhor. Um mundo, portanto, literalmente onírico e de tal modo fantástico que, estando o poeta em saias justas ou situações-limites, de seus atos e palavras podem surgir imagens as mais inusitadas e de uma criatividade que somente os deuses, “quando ainda crianças”, são capazes de manifestar. Conheço um caso bem ilustrativo. Não sei se devo contá-lo… Vou!
Meu saudoso amigo Francisco Moreira Júnior (“Bigo”, entre os mais íntimos), poeta (um dos mais criativos que já conheci), nos episódios maníacos do seu transtorno bipolar, perdia o controle sobre as pulsões eróticas do id. Em consequência disso, flagrei-o, num recanto escuro do campus do Benfica, dando o maior amasso na garota com quem eu estava “ficando” (aviso que, na época, eu ainda era solteiro!). Pareciam dois animais!… Bem, na verdade não — pelo menos não conheço nenhum animal que saiba fazer aquilo. A menina, morta de vergonha, limpou as mãos na calcinha e as levou ao rosto. Quanto ao Moreira, antes de meter o pé na carreira, disse-me a seguinte pérola: — “Bulcão, pelo amor de Deus entenda tudo isso no sentido figurado!”

NOTA
(*) Para evitar mal entendidos, ressalvo que o referido personagem não é um poeta que, por acaso, é bancário (lembro que James Joyce foi bancário), mas o ideal-típico “poeta do pedaço”. Aquele cria por necessidade interna; este é motivado tão somente pelo glamour do ofício. Não lê nada. E sempre que se depara com uma moça solitária, ato contínuo leva a mão ao coldre e tira a caneta e uma caderneta. E haja a rimar, forçando a barra, "arrebol" com "asseptol", "colombina" com "aspirina", "aurora boreal" com "flora intestinal". Costuma levar muita surra dos namorados das assediadas.
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II – Um novo homem
(Crônica de uma desvirginada com um toque lírico, outro cômico e uma pitada de Bukowski)

O amor não é o amor de Feuerbach pela humanidade, nem o amor de Moleschott pelo metabolismo, nem sequer o amor ao proletariado, mas o amor pela bem amada. O amor por ti permite ao homem tornar-se novamente homem.
Karl Marx, carta a sua esposa Jenny (1856)

Conheci Nina quando era estudante de Biologia da Universidade Federal e um revolucionário comunista.  Na época — logo depois da dissolução da URSS —, ganhava a vida como professor de cursos noturnos para vestibulandos, e tirava das horas de descanso o tempo sem o qual não caberiam, no dia a dia, todas as atividades que exercia: as militâncias sindical e estudantil, os estudos universitários, a leitura dos clássicos do marxismo e a faina do magistério. Dormindo mal, alimentando-me pessimamente, era magérrimo e anêmico (por troça, diziam que minha cor era branco-agonia). Mas eu gostava daquela aparência de vampiro. Via naquela compleição de quem sofre de porfiria terminal o atestado da renúncia aos mesquinhos prazeres do individualismo burguês e da absoluta entrega aos interesses históricos do proletariado.
Pois, certa madrugada, quando, no meu quarto-e-sala, corrigia testes de alunos, ouvi gritos na rua, logo abafados pelo ladrar dos cães das redondezas. Não dei atenção. Um bêbado, certamente – pensei –, ou um viciado atrás de boca de fumo que acabara de ser assaltado. Mas a voz grave perseverou até se sobrepor à algazarra canina. Percebi, então, que era por mim que chamava: “Alex! Ô Alexandre!”. Fui à janela e divisei pelas persianas um casal. O homem acenou. Era Gervásio, membro do Comitê Central do Coletivo Rodolfo Coutinho – Secção Brasileira do CPQI, a organização trotskista a qual eu pertencia. Quanto à mulher… não era Natacha, sua companheira.
Naquele pardieiro não havia interfone nem sistema de controle remoto, e o horário do porteiro terminava às dez da noite. Peguei o chaveiro e desci, às apalpadelas, seis vãos escuros de escada, chutando gatos e tropeçando em embriagados comatosos. Abri o portão do átrio e abracei meu camarada. Seguiram-se as apresentações:
“Alex, esta é Nina Mainardi. Nina, este é Alexandre Matos.”
“Muito prazer.” Disse, estendendo o braço para a moça. Ela segurou minha mão e puxou-me para junto de si, envolvendo-me, beijando-me as fácies hipocráticas. Graças à minha ultrassensibilidade sinestésica de virgem tardio, senti, no contato do seu corpo com o meu, todas as propriedades dos seus mamilos: eram pequenos, mais para cor-de-rosa do que para marrom e estavam enrugados, provavelmente devido à friagem. E cheiravam a azul de metileno (sinestesia é isso: anormalidade neurológica em que sensações diversas evocam-se arbitrariamente, com no poema Vogais de Rimbaud).
“Ah, então você é o Alex!”, exclamou Nina, “a maior autoridade em Hegel do Ceará…”
“Não! De todo o norte-nordeste brasileiro!”, Retificou Gervásio, que costumava superestimar os amigos, elevando-nos a latitudes polares.
“Pobre cantão este cujo maior conhecedor de Hegel é um rapazola que só fala português e a língua do ‘P’, quando todo mundo sabe que só é possível filosofar em alemão.” — Era esta a frase inteligente que eu ia dizer, com aquela inflexão que acusa falsa modéstia e, ao mesmo tempo, sub-repticiamente, uma real modéstia (tinha lido em algum lugar que a ambiguidade é sedutora). Mas, em vez disso, o que saiu em meio ao ricto e à cuspideira foram tão-somente interjeições cretino-microencefálicas, alguma coisa como “Ah! Como? Que é isso! Guê… ri ri ri!”.
Isso sempre acontecia. Toda vez que uma mulher não muito feia olhava para mim — e não, como normalmente, “através” de mim —, sorrindo e me afagando com palavras doces, todo o sangue das minhas pernas e genitália fluía para o rosto, acometia-me uma sudorese e nada que prestasse saía da minha boca.
Por algum tempo, sob o olhar de Nina, permaneci catatônico, enxugando as mãos na camisa, até que uma turba ruidosa dobrou a esquina. Os cachorros voltaram a latir.
“Alexandre”, interveio Gervásio, “nos convide para entrar antes que esses lúmpens resolvam nos recepcionar à maneira deles!”
* * *
Duas semanas atrás fora com Gervásio ao aeroporto. Conversamos sobre política e bebemos café até o seu avião decolar rumo à Buenos Aires, onde se realizaria o II Congresso do CPQI (Comitê Pró-Quarta Internacional). Gervásio levava apenas bagagem de mão. Agora, de volta, sem ter passado antes por sua casa, irrompe em meu quarto-e-sala à uma da madrugada, com um belo espécime do sexo feminino e uma mala abarrotada, além da sua mochila cáqui. Ao vê-lo colocar a bagagem junto da minha cama, veio-me à mente uma suposição pavorosa: “será que ele está de caso com essa moça e, decidido a se separar de Natacha, veio-me pedir abrigo?” — A situação era complicadíssima, pois o apartamento consistia numa quitinete dividida ao meio por um biombo de madeira compensada; espaço insuficiente, portanto, para três pessoas, e muito mais para alojar ao mesmo tempo um casal em lua-de-mel e um donzel onanista. Além do mais, eu era obsessivo-compulsivo, um sujeito cheio de cacoetes e manias inconfessáveis que, por isso, zelava muito pela privacidade. Eram tantos os meus bloqueios!… Por exemplo: não conseguia urinar em banheiro público, e quando, sentado numa privada, alguém mexia no trinco da porta, todos os meus esfíncteres se contraiam por não menos de uma hora — eu era o rei da prisão de ventre.
O problema maior era que, se fosse este o caso, não havia como recusar, pois incrível era a minha dificuldade de dizer não, quase nunca dizia não. “Oh Deus!” — Pensei, começando a entrar em pânico. — “Como sobreviverei nessa condição?”. Sentindo as forças faltarem e o ar se rarefazer, procurei a poltrona, mas Nina já estava lá, esplendidamente acomodada. Ouvi Gervásio me dizer alguma coisa. Nada entendi. Ele continuou falando cada vez mais alto. Mesmo assim, embora identificasse uma e outra palavra, não conseguia apreender o sentido das frases. Então ele me segurou firme pelos ombros, sacudiu-me e gritou:
“Alex! Que foi que houve? Não está passando bem?”
“Quê? Oh, não foi nada”, respondi, reanimado pelos solavancos. “Apenas uma vertigem. Ontem trabalhei muito, não tive tempo sequer para comer.”
“De qualquer modo, a Natacha está vindo me pegar de carro. Caso não melhore, a gente o leva ao pronto-socorro.”
“Ah, vocês não vão ficar para dormir? Que pena… Não, insisto que pernoitem!” Disse, sentindo-me completamente recomposto.
“Eu vou pra casa, mas a Nina fica.” Falou enquanto tirava da mochila duas garrafas de vinho argentino. “Mas antes vamos degustar um Cabernet Sauvignon com pedigree, muito diferente desses vinagres que se costuma beber por aqui.”
Enquanto pegava no armário copos e o saca-rolha, Gervásio colocou no toca-fitas meu cassete de cabeceira: uma coletânea de músicas de compositores engajados. Do meio da chiadeira a voz de Mercedes Sosa prorrompeu: Despues de vivir un siglo / Es como descifrar signos / Sin ser sabio competente / Volver a ser de repente…
Nina entrou no banheiro com toalha, sabonete, xampu, creme rinse, um pote de hidratante e roupas limpas.  Iria demorar ali pelo menos uma hora. Na ausência dela, Gervásio me puxou até a janela e, em voz baixa, disse-me:
“Alex, o negócio é o seguinte: a camarada Nina é uma profissional da Organização e um dos nossos quadros mais promissores. É formada em Sociologia pela PUC de São Paulo. Por decisão do comitê central, vai ficar aqui por algum tempo ministrando cursos de formação política para militantes e simpatizantes. Eu iria hospedá-la em minha casa, mas dona Leda, quando a consultei por telefone lá da Argentina, fez o maior escarcéu. Disse: ‘Ou eu ou essa macaca’. Como você sabe, minha mãe está cada vez mais ranzinza. Aproveita-se da condição de proprietária do imóvel para me humilhar. Então pensei que você poderia quebrar esse galho. Afinal, temos aqui dois compartimentos, além do banheiro. Você pode ficar em um e ela no outro; ou talvez” — cochichou-me com sorriso sátiro — “podem até compartilhar a mesma cama. Hein, hein?”
Então devaneei, imaginando aquela mulher cor de neve, com seus cabelos lisos e negros à la chanel emoldurando o rosto dolicocéfalo e o longo pescoço, andando pelo apartamento só de calcinha ou apenas de blusão, com olhar progesterônico – essa metáfora é de um grande poeta da terra – de “me pine” – já essa é minha –, pronunciando meu nome com sua voz rouca e aveludada (é clichê, mas é lindo!), preparando meu café da manhã e – the best of the best! – achando charmosíssimas todas as minhas excentricidades. Sem pensar outra vez, assenti entusiasticamente:
“Tudo bem, não há nenhum problema. Você sabe que o meu quarto-e-sala é um aparelho da Organização acessível a todos os militantes, a qualquer hora e… friso: pelo tempo que quiserem!”
Eufórico, quase hipomaníaco, abri uma das garrafas. Enchi dois copos e ergui o meu, propondo um brinde: “Às resoluções do II Congresso!”. Gervásio balançou negativamente a cabeça.
“Onde já se viu”, reclamou, “beber Cabernet Sauvignon em copo de geleia descartável! Você não tem taças apropriadas?”
“Rapaz, seja comunista e deixe de frescura!”
Mesmo contrariado segurou o copo, girou-o na palma da mão e, com pose de enólogo, analisou detidamente a cor da bebida, sua consistência e a aderência do líquido no vidro; aspirou o buquê, sorveu um pouco o conteúdo, bochechou-o, degustou-o revirando e arregalando os olhos (se estivesse usando pincenê, este teria caído) e finalmente engoliu. Depois começou a dissertar sobre uvas viníferas. 
Fiquei perplexo com o seu suposto saber enológico, adquirido em tão pouco tempo. Ele, que até duas semanas só bebia vodca com refrigerante de laranja ou caipirinha, agora explanava sobre vinhos com a desenvoltura de um francês de Bordeaux. Da sua boca saíam expressões tais como “teor de tanino”, “bouquet do tinto”, “aroma do branco”, “sabor frutado” entre outras. Falou das combinações ideais entre pratos e vinhos (infelizmente, não tínhamos queijo Cheddar ou Camembert para acompanhar o Cabernet — na minha geladeira, além de garrafas com água e cubos de gelo só havia meia dúzia de ovos, e para este alimento, como fiquei sabendo, o vinho apropriado é o Sauvignon Blanc).
Quando então comentava sobre o alto grau de toxidade dos vinhos tintos de mesa vendidos em garrafões (puro suco de anilina alcoolizado, segundo ele), Nina saiu do banheiro e toda a quitinete foi tomada pela fragrância do jasmim com azul de metileno. Ainda enxugando os cabelos, vestindo uma camiseta sem mangas e um short folgado que deixava metade das coxas descobertas, sentou-se na cadeira da escrivaninha e, nos vendo beber, fingiu-se de zangada.
“Ah, não esperaram por mim!”
Enchi outro copo e quando lhe fui entregar dei com o pé numa pilha de livros, derramando metade do vinho.
“Valha minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, isso é um pecado!”, gritou o ateu Gervásio, sorrindo e nos olhando. Eu e Nina, descontraídos e para agradar o rapaz, caímos na gargalhada.
* * *
A parolagem seguia animada: conversávamos sobre vinhos, os dois bêbados capotados na escadaria do prédio, os rufiões que quase nos abordaram, as músicas que estávamos a ouvir… Nenhuma palavra, porém, ainda fora dita sobre o II Congresso do CPQI. Mas quando, no toca-fitas, Jorge Mautner com seu violino começou a tocar o hino da Internacional Comunista, Nina e Gervásio se calaram e toda a alegria arrefeceu-se. Trocaram olhares escrutinadores até Nina romper o silêncio:
“Não vamos informá-lo do que aconteceu no Congresso?”
“Prefiro deixar isso para mais tarde”, bocejou Gervásio, “estou muito cansado. E a Natacha que não chega!…”
“Mas me adiantem alguma coisa!”, Insisti.
“Quer mesmo saber a verdade?”, perguntou Gervásio. “Pois a verdade é que o CPQI não tem futuro, vai morrer prematuramente por má-formação congênita. Houve dissensões de todos os tipos: sobre conjunturas nacionais, o caráter das insurreições no leste europeu e mesmo questionamentos de alguns pontos do Programa de Transição. No fim, uma única resolução foi tirada: a realização de outro congresso com data e local a serem marcados, onde se resolverão as questões pendentes, isto é, todas. Mas ninguém saiu de lá acreditando que tal congresso se realizará. Aliás, este fiasco é o motivo da presença de Nina aqui. Faremos vários cursos de formação política tendo em vista fortalecer os laços ideológicos entre os militantes e impedir qualquer inserção em nossas fileiras dos neolambertistas e do trânsfuga paulista cujo nome me recuso a pronunciar.”
E continuou falando febrilmente, o discurso cada vez mais carregado de “trotsquês”, até que um automóvel buzinou. Era Natacha. Desci com Gervásio para abrir o portão. Depois de alguns beijos, abraços e recomendações, despedimo-nos.
Quando voltei, Nina, debruçada na janela, ainda bebia. Perguntei-lhe se não estava com sono. Ela respondeu que não, nem um pouco, pois havia dormido no avião durante toda a viagem.
“E você?”, quis ela saber. “Já são quatro da manhã e hoje é quinta. Não terá que trabalhar mais tarde?
“Oh não! Estou de folga.” Na verdade, eu estava abarrotado tarefas.
Ela encheu mais dois copos com aquele Cabernet travoso e foi até a estante.
“Então vamos ver o que você tem aqui.” Disse, manuseando meus poucos long-plays.
* * *
(Entre os comunistas, os trotskistas são os mais cerebrais. Quando, numa festinha de aniversário – e depois de se embriagarem com ponche – um deles conta uma piada, aqueles que, por meio da leitura de alguns filósofos tardios da Escola de Praga, assimilaram algo do método de Husserl, recolhem-se para proceder a uma epochê, isto é, uma redução fenomenológica em que se põe entre parênteses o politicamente correto para, deste modo, extrair o eidos hilário. Tem-se que esperar uma semana pelo riso deles. Ou então por um relatório crítico enumerando as capitulações pequeno-burguesas, o que quase sempre enseja rachas. Como esta história nada tem de realismo mágico, ao contrário, aconteceu realmente da maneira mais lógico-conceitual possível, sinto-me obrigado a reproduzir uma altercação teórica insólita entre mim e Nina. Para facilitar a compreensão de quem nunca foi trotskista ou não manteve contatos imediatos de segundo ou terceiro grau com o trotskismo, acrescentei algumas notas de rodapé. Desculpem-me.)
“Ah, Bob Dylan! Eu gosto, mas este não é o Dylan em sua melhor fase”, disse Nina.
Apesar da objeção, pôs Nashville Skyline, o disco country de Dylan, na vitrola.
Tentei me inocentar alegando que ganhara aquele disco na última festa de fim de ano, no sorteio do amigo secreto.
“E o que deu em troca?”
“Um estojo de sabonetes Palmolive.”
“É… Acho que você não perdeu muito.”
Como toda criatura humana, gosto de música, porém não sou do tipo aficionado. Numa granulação grosseira do ponto de vista informático, até consigo, nesta esfera da arte, discernir o bom do ruim. Naquela época, no entanto, eu achava que, de posse de uma boa biblioteca, podia viver no silêncio absoluto pelo resto da vida.
  Quanto àquele disco, eu o ouvira meia dúzia de vezes, e algumas faixas me agradaram. Além do mais, fiquei confuso com o comportamento de Nina, de repulsa e receptividade ao mesmo tempo. Então lhe perguntei sobre o critério que ela se valia para distinguir o bom do mau Dylan.
“O melhor Dylan”, respondeu ela, “é o compositor de folck music, o que gravou The Freewheelin e compôs as músicas Blawin’In The Wind e Master of War.  Depois, descambou para o escapismo pequeno-burguês cult, blues-rock, para o brega country, atingindo o fundo do poço quando virou autor de gospel.
“Mas você não acha o country de Dylan tão bom como o seu folck, do ponto de vista estritamente musical?”, indaguei.
“Pode até ser, mas isso apenas prova que a beleza não basta em uma obra de arte. Em Auschwitz, a orquestra dos judeus cativos tocava Schumann tanto para alegrar os carrascos como para anestesiar os condenados. E aí?”
“E aí é que isso atesta que nazistas e judeus eram humanos e não indivíduos de espécies diferentes, lobos e ovelhas, ou melhor, super-homens e subumanos: razão suficiente para refutar o racismo. Além disso, se levarmos o seu argumento às últimas consequências, então temos que renegar toda e qualquer música puramente instrumental e só considerar como autênticas apenas composições vocais com conteúdo literário. Ridículo, não é? Mas saiba que essa proposta foi defendida por alguns estetas stalinistas. Aliás, você já assistiu ao filme nacionalista grão-russo Alexander Nevsky, dirigido por Eisenstein sob pressão e orientação de Stalin? Pois bem, toda a sua trilha sonora é uma cantata (1). Sinceramente” — arrematei, com a certeza de que a aniquilaria — “suas alegações estão fora de sintonia com o que Trotski defendeu em sua obra Literatura e revolução. Cheira-me a Proletkult, realismo socialista, Zdhanov…”
“A-ha, então tudo que o papai Trotski escreveu no seu livro sobre arte o filhinho diz amém. Você não acha que está precisando de uma psicoterapia?”
“Olha só quem fala”, rebati, “a líder revolucionária que jamais arreda um milímetro do Programa de Transição! (2) Está claro que quem anda atrás de um substituto do pai é você; eu preciso é de uma mãe!” — Esta última frase saiu de súbito, irrefletidamente: um ruído estocástico provocado pelo calor da discussão. Por conta disso, tive que suportar uma risada debochada.
* * *
Em minha conversa com Nina, sentia-me não só muito loquaz como bastante agressivo (agressividade viril, não raivosa). Seria apenas efeito do vinho? Não. Antes, às onze da noite, havia tomado dois comprimidos de anfetamina para poder varar a madrugada corrigindo provas. A combinação com o álcool e com o extra de testosterona no sangue (consequência do domínio daquela mulher sobre todos os meus sentidos) fez a lombra. Como estava me sentindo muito bem e querendo ficar melhor, resolvi tomar outra pílula.
“O que você está pegando na gaveta?”, perguntou Nina.
“Bolinhas.”
“Ah, eu também quero.”
* * *
Quando tocava Peggy day, Nina me puxou para dançar. (Foi quando me dei conta de que, para aquela mulher fálica, discussões ásperas a dois são carícias preliminares.) Terminou a música, começou One more night e continuamos dançando. Nina, olhando-me ternamente, disse que eu me parecia com o Fábio Júnior. Achei engraçado (“Ah! Como? Que é isso! Guê… ri ri ri!”), pois a maioria dos que me conheciam — principalmente as crianças — considerava-me a cara do Salsicha do cartum Scooby-Doo.
De repente, em meus braços, Nina deu um grito. “O que houve?”. Sentei na cama e “ela se acomodou no meu colo”. Disse-me que foi apenas uma distensão muscular e me pediu para lhe fazer uma massagem. Massageando-a e olhando o sulco de suas nádegas sob a malha translúcida, inacreditavelmente tive uma ereção. Ao sentir o volume, Nina tirou a camiseta e se deitou. Seus mamilos, do jeito que eu os imaginara — pequenos e rosados —, pareciam me fitar. Então lhe arranquei o short com os dentes e, antes de me precipitar em seu busto, beijei-lhe a boca.
Mais carente de ternura do que de sexo, desejei que aquele beijo durasse a eternidade.
Não há dia em que eu não contemple a tatuagem de um êxtase: no momento do orgasmo, Nina, eu e a alvorada éramos uma coisa só.
* * *
Onze horas da manhã desci para comprar pão, margarina, queijo, leite, mortadela, aspirinas e um garrafão de vinho tinto de mesa. O céu estava límpido, o dia estava lindo, eu não era mais virgem e lá em casa uma mulher nua me esperava. Sentindo-me estranho, com o corpo todo dolorido, porém extraordinariamente feliz, de bem com a vida — sentimento perigoso para um revolucionário —, comecei a cantarolar uma balada de John Lennon e Yoko Ono:
Oh! My love
For the first time in my life
My eyes are wide open… (3)

NOTAS
(1) Cantata: gênero de música vocal-instrumental de origem religiosa.
(2) O Programa de transição foi elaborado por Leon Trotski, revolucionário russo dissidente, para servir de guia de ação da nova internacional comunista, a quarta, fundada em 1938. Depois do seu assassinato em 1940, lutas intestinas reduziram a QI a uma miríade de correntes mutuamente hostis. Uma confissão do autor: embora pós-trotskista, não sou “parricida”: mantenho fortes laços afetivos com o Velho (afinal, não se pode discordar do pai?); tanto que, em uma das paredes do meu quarto, há gravura do seu rosto junto com as de Marx, Engels, Kropotkin, Ho Chi Minh e Gretchen.
(3) “Oh, meu amor / Pela primeira vez na vida / Meus olhos estão abertos…”.

Manuel Soares Bulcão Neto
2011

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