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sábado, 10 de dezembro de 2011

FACIES HIPPOCRATICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


O texto abaixo é seção de um dos ensaios do meu livro Contra o princípio copernicano. Nesse ensaio, em que trato do questionamento do Ser na ficção literária, após dissertar sobre os mais excêntricos personagens da literatura russa intoxicados pelo Absoluto e outras questões metafísicas – a maioria por (pré-) maluquice, feiúra celibatária, falta do que fazer ou tudo isso junto –, seguem-se as linhas aqui transcritas.
O livro está escrito, passando por revisões. É dedicado ao poeta Carlos Nóbrega e ao meu pai (minha última tentativa de superar o complexo de Édipo e deixar de ser tão infantil). Infelizmente, estou muito doente: liseira crônica fatal; logo, sem condições para financiar a publicação. Mesmo assim, com a maior cara, ou melhor, “fácies hipocrática” de pau, ando atrás de editoras, enchendo-lhes o saco. Não é possível que, entre essas “personalidades” jurídicas (personalidades!) não exista alguma com alma caridosa que facilite as coisas o máximo possível — até o limite entre a ordem e o caos. (Manuel Bulcão)


Facies hippocratica


Manuel Soares Bulcão Neto
(Trecho do livro Contra o princípio copernicano)


A personalidade fictícia da literatura russa que considero a mais perturbadora, porém, não está entre os marginais: os obcecados por grandes questões metafísicas (Chátov, Kirílov, Ivan Karamázov…) cujos impactos no pensamento pouco ecoam no coração comum; os intelectuais de alma pequena resignados ao tédio (Bazárov, Raskólhnikov…)[i] ou que nele alicerçam distopias genocidas (Chigáliev, Piotr Stiepânovitch…); os párias da aristocracia (Nikolai Stavróguin); os dissolutos, picarescos, humilhados e ofendidos.
Estranhamente, o personagem mais profundo – creio – não é nenhum excêntrico cuja idiossincrasia – assim pensa muita gente asséptica – constitui ameaça ao bem-estar social: o “irresponsável”, o “antissocial”, o “louco” por opção estética que as pessoas normais – pais provedores, pessoas produtivas sem as quais a sociedade não se manteria – olham de esguelha, na melhor das hipóteses com a curiosidade de quem se depara com algo exótico; na maioria das vezes, entretanto, com desconfiança e ar de reprovação. — “Se morrer não fará falta, nem me causará compaixão”, afirmam mesmo alguns — falta de empatia pelo “diferente” que evoca o alemão “normal” do III Reich, nazista de carteirinha.
Esse alter ego que se confunde com nossa própria sombra, reproduzido nas letras geniais de Leon Tolstói, é o homem normal “que venceu na vida” e em sua curta sobrevida de doente terminal. Trata-se do Conselheiro da Corte de Apelação Ivan Ilitch.
Desenvolto ou reprimido, Ivan Ilitch está em cada um de nós. Homem mediano com o saudável desejo de reconhecimento social, retroalimentando-se com testosterona a cada sucesso, sempre querendo mais. “Como inseto atraído pela luz” – assim o descreve Tolstói – “sente-se arrastado para o convívio dos que têm status mais elevado, assimilando-lhes as maneiras e a concepção de mundo.” É competitivo, porém não selvagem (i.e., segue regras); competitividade que, mesmo urbana, implica alguma ambivalência emocional em relação aos outros. Casou-se com Praskóvia porque, assim procedendo, “faria jus às pessoas que formavam a alta sociedade”. E não era tão feia.
Esforçava-se – atitude natural – para “manter a aparência exigida pela opinião pública.” Era gentil, correto e mesmo amigável com os que dependiam dele, porém de maneira tal – mantendo sutis entrelinhas – para lhes fazer sentir que poderia esmagá-los. (A consciência desse poder “temperado” era o maior atrativo das suas funções em cargos públicos que lhe conferiam autoridade.)
Aprazia-se quando ultrapassava colegas na hierarquia, evitava parentes pobres, afastava-se dos amigos que não o acompanhavam na escalada social. — E todos “os normais” agiam uns com os outros mais ou menos do mesmo modo.
A única relação desinteressada entre ele e seus colegas – a que lhe dava “verdadeira alegria” – era a do carteado: partidas de whist a quatro.
Até que Ilitch adoeceu. “Gosto estranho na boca, mal-estar no lado esquerdo do ventre.” Os médicos não se entendiam quanto ao diagnóstico. Passaram-se meses e só piorava. Tornou-se lamuriento, irritadiço, ao ponto de a esposa e a filha o isolarem “num quartinho contíguo ao gabinete”. Amigos deixaram de visitá-lo: seus sofrimentos incomodavam como a visão de um cão sarnento. E – c’est la vie… – tinham mais o que fazer. A mulher culpava-o pela doença: “não toma os remédios corretamente!”, “faz cena para me atormentar!” — Secretamente, começaram a desejar sua morte. Melhor para todo mundo. No tribunal, especulavam sobre as alterações que acarretaria a vacância do seu cargo. Praskóvia já calculava a pensão.
Enquanto isso, Ivan Ilitch, abandonado no quarto, foi-se afeiçoando de Guerássim, seu criado. Percebendo a humanidade daquela pessoa humilde, deu-se conta também da sua. [ii] Sentiu nojo das pessoas de sua classe. “Terão que passar pelo mesmo que eu. Mas agora se rejubilam, os estúpidos, os animais!” E regozijava-se com essa certeza.
Sempre pensara na morte como algo impessoal: “morre-se”. Então, de chofre – num insight – conjugou pela primeira vez o verbo na primeira pessoa do singular. Horror! “Gritou sem cessar três dias seguidos.” Com exceção do criado, aos outros não era tanto a dor e desespero de Ivan – do esposo, do pai, do amigo… – que incomodava. Era o barulho.
Em certo momento do seu extremo sofrimento, Ivan Ilitch pensou “que sua vida não foi o que deveria ter sido”. Era, no entanto, demasiado vivaz. Melhor a vida errada que nada. “… Não, não! Tudo é preferível à morte!” — E se assim pensou, então escapou do fracasso absoluto:

Fracassar
É desejar não ter nascido
No instante da morte. [iii]

“Acabou-se a morte! — disse Ivan Ilitch de si para si. — Ela não existe mais.” — E morreu.
No funeral, seus colegas (achando tudo muito maçante) dirigiam-se à Praskóvia “com lábios premidos, sérios e olhar risonho.” Com piscadelas e sussurros, decidiam sobre o lugar onde jogariam whist naquela noite.
Diante do caixão, porém, sentiam-se perturbados: “O rosto do morto tornara-se mais belo e, sobretudo, significativo. Além disso, exprimia uma censura e uma advertência dirigida aos vivos.” [iv]






[i] Raskólhnikov, protagonista do romance Crime e castigo de Dostoiévski, pertence àquela intelligentsia lúmpen que extrai a autoestima do conhecimento acadêmico científico que possui, o que faz dele membro de minoria seleta. No pano de fundo newtoniano (físico-clássico) da sua visão de mundo, nada existe além de relações de forças (por conseguinte, na sociedade, tão-somente relações de poder). Entediava-se com a doxa das pessoas comuns. Até que, vendo-se em situação de pobreza, e se considerando, graças à ciência, um vivente acima do bem e do mal, assassinou duas pobres mulheres para se apossar de suas economias. (afinal, o que são duas carolas e suas anáguas diante do infinito do espaço e do tempo?). De uma coisa, porém, Raskólhnikov não se deu conta: além do neocórtex prenhe de ideias abstratas, também possuía um “primitivo” hipotálamo mamífero. E deu no que deu: numa história de tirar o fôlego.
[ii] Ivan Ilitch ao menos teve a sorte de ter como último companheiro um homem como Guerássim. A esmagadora maioria de enfermos em sua condição, ao contrário, vive seus últimos dias sob a tirania de pobres-diabos ressentidos e sádicos.
[iii] Poema Fracasso (Manuel Soares Bulcão Neto).
[iv] TOLSTÓI, Leon. A morte de Ivan Ilitch / Senhores e servos. Tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 20.

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