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terça-feira, 11 de outubro de 2011

CRÍTICA DO MATERIALISMO HISTÓRICO I – BURGUESIA DE JALECO E INTELLIGENTSIA PERIFÉRICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Ossada das vítimas do Khmer Vermelho (Partido Comunista do Kampuchea Democrático). No período em que esteve no poder (1975-1979) e sob a liderança de Pol Pot (1928-1998) essa organização pseudomarxista (na verdade, anarcocomunista) assassinou 1,7 milhões de pessoas: cerca de vinte por cento da população do Camboja. Pol Pot (Saloth Sar), de origem abastada, estudou engenharia eletrônica em Paris. Tiete do anarquista russo Kropotkin (infeliz Kropotkin... outra vítima do Khmer vermelho), fez do Estado totalitário do Kampuchea Democrático o único Estado clandestino da História até o momento. —  A nação sem um centro urbano administrativo (toda a população de Phnom Penh - então [e atual] Capital cambojana - e demais cidades foi transferida compulsoriamente – sob violência indescritível – para o campo). Suprimiram a moeda e qualquer intercâmbio, mesmo o escambo, passou a ser reprimido. A maioria dos intelectuais (considerada uma massa de dissidentes potenciais) foi fuzilada (bastava ter diploma de técnico em datilografia e pronto: mais um cadáver de "intelectual perigosíssimo!"). Estabeleceram uma tirania da juventude imberbe sobre as gerações mais velhas – conforme defendera Nikitichi Tkachev e outros anarquistas russos (narodiniks) ensandecidos –. O conjunto do aparato burocrático e agentes políticos vivendo em acampamentos provisórios, escondidos sob a folhagem densa da selva, deslocando-se regularmente como que envergonhados do seu próprio poder político… Tudo, enfim, a simular grotescamente uma sociedade anarcocomunista formada de produtores absolutamente iguais (sem Shakespeares, Dantes, Einsteins…) — um “paraíso” chigalieviano sem moeda, sem antagonismo campo/cidade, sem contradição entre trabalhos intelectual e manual, “virtualmente” sem Estado. A propósito, Pol Pot tinha aversão ao culto à personalidade, inclusive a dele; e – dizem – era meigo, gentil. Talvez até tivesse um bom caráter. Ah, o que ideias “parasitas” e esse senso de certeza absoluta são capazes de fazer com as pessoas! (Manuel Bulcão)
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BURGUESES E TECNOCRATAS — Segundo H. Braverman, contrariamente à Revolução Industrial do século XVIII, que se deu em virtude de uma invenção particular – a máquina a vapor –, a atual revolução científico-tecnológica não está associada a uma inovação específica ou a uma série de avanços, como a eletricidade, o aço, o motor de explosão… Na verdade, o que define esta nova revolução é a transformação do conhecimento científico numa mercadoria capitalista, a conversão de “toda a ciência” e sua engenharia num fator de produção (ao lado do trabalho, da terra, da capacidade empresarial e do dinheiro); ou, nas palavras do autor de Labor and Monopoly Capital (1974), “a inovação chave [da revolução técnico-científica] não deve ser encontrada na Química, na Eletrônica, na maquinaria automática, na Aeronáutica, na Física Nuclear ou em qualquer dos produtos dessas tecnologias científicas, mas antes na transformação da própria ciência em capital”. [i]

Na época do mercantilismo, o Estado absolutista incorporou ao sistema feudal os mais destacados membros da burguesia comercial, convertendo essa “nata”, mediante concessão de terras, cargos administrativos e títulos nobiliárquicos, numa “nobreza togada” (noblesse de robe). De modo semelhante, com a integração da ciência ao projeto do capital a partir da segunda metade do século XIX, uma fração da intelectualidade déclassé – isto é, da camada social que, segundo o sociólogo alemão Karl Mannheim, constitui uma “inteligência livremente flutuante” – passou a compartilhar com os capitalistas as mais finas iguarias da Civilização. Como coadjuvantes desse empreendimento irracional que é a busca insaciável da quantidade pura ou da riqueza abstrata (dinheiro ao qual se acresce mais dinheiro até o infinito), muitos intelectuais responsáveis pela produção do conhecimento científico vieram a formar um novo estrato da classe dominante: a “burguesia de jaleco”.

Com o advento do capitalismo das grandes corporações, o crescimento econômico passou a ser impensável sem um paralelo desenvolvimento científico e vice-versa. Significa dizer que a ciência, agora convertida num setor da produção, proporciona à indústria capitalista, além de ativos fixos com grau de produtividade em ascensão contínua (máquinas operatrizes cada vez mais automatizadas), uma miríade de novos produtos de consumo final, como automóveis, eletrodomésticos, metralhadoras, aparelhos de telefonia celular com GPS e saca-rolha... — Propicia-lhe, também, por meio de uma engenharia humana (Human Engineering) assentada na psicologia científica – no behaviorismo de Watson e Skinner, no cognitivismo comportamental e até na psicanálise – técnicas de estímulo-resposta com o objetivo de fazer com que as pessoas desenvolvam o “impulso” para a compra desses produtos (realmente, como bem demonstrou John K. Galbraith em sua obra clássica The New Industrial Stade [1978; capítulos 18 e 19], as grandes empresas oligopolistas não só produzem a oferta: os departamentos de marketing e propaganda, que antes se limitavam a divulgar pelos mass media os produtos aos consumidores, converteram-se, com a ajuda das ciências do comportamento, em “fábricas de consumidores”, em laboratórios montados com o fim precípuo de produzir e disseminar novas “necessidades”).

De outra parte, como contraprestação, a indústria capitalista fornece à comunidade científica novos e potentíssimos instrumentos de pesquisa, observação, medida e processamento de informações: os microscópios eletrônicos, os telescópios-satélites, as sondas espaciais, os radiotelescópios interferométricos, os relógios atômicos, os tomógrafos por emissão de pósitrons (PET scanners), os computadores…

Sim, não há dúvidas que existe, atualmente, uma relação simbiôntica entre a produção capitalista e a atividade científica. Mas disso não se infere que o capitalista e o cientista formam um casal perfeito, uma junção de caras-metades, uma união sólida tanto no amor como no crime, à la Bonnie e Clyde. Na verdade, trata-se de uma relação ciclotímica, de uma aliança que não se baseia numa identidade de propósitos, mas numa oposição conjunturalmente complementar que muitas vezes se rompe. Tanto é assim que, na literatura acadêmica, há muitos trabalhos que tratam desse conflito latente, destacando-se, entre eles, o ensaio do economista norte-americano Thorstein Veblen, The Theory of Business Enterprise (1904).

Em sua obra, Veblen identifica, no seio da empresa capitalista moderna, um choque de interesses entre os homens de ciência e os homens de negócios. Estes, com a atenção centrada no valor de troca dos produtos, buscam submeter o ímpeto criativo dos primeiros aos critérios da manutenção dos preços e da maximização do lucro, ao passo que os cientistas e engenheiros, por priorizarem o valor de uso de suas criações, frustram-se com as imposições mercantis à sua atividade. Realmente, eles – os homens de ciência – não se conformam com o fato de muitas inovações permanecerem indefinidamente congeladas na prancheta, no protótipo ou na maquete, porque, segundo os homens de negócios, não são “lucrativamente vendáveis”. Além do mais, os donos do dinheiro costumam vetar, por serem muito “arriscadas”, prospecções científicas de longo prazo, o que os indispõe com aqueles cientistas que levam demasiadamente a sério a asserção de Popper segundo a qual toda hipótese científica há de correr o “risco” de ser falseada. (Em La logique de la découverte scientifique, Popper defende que o cientista deve procurar as hipóteses menos prováveis, ou seja, as mais arriscadas, e tentar refutá-las).

Do mais, até os anos 30 do século XX a atividade científica tinha por paradigmas o racionalismo monista e o determinismo laplaciano. Com efeito, contra a suposição de uma evolução baseada em mutações ocasionais do germoplasma, Darwin defendeu a hipótese das gêmulas; [ii] em oposição à ideia da liberdade do sujeito histórico, Marx propunha que a vontade humana, longe de ser livre, é ferreamente determinada pelas condições materiais; Freud, por sua vez, aventou um estrito determinismo psíquico; e Einstein, incomodado com o indeterminismo físico-quântico proposto pela Escola de Copenhague (Bohr, Heisenberg…), defendeu até a data da sua morte (1955) a existência de uma causalidade escondida, isto é, de “variáveis ocultas”.

Nos campos ideológico e político, a expressão sistêmica desse determinismo avesso ao acaso e suas leis – desse culto à previsibilidade científica “precisa” e, ipso facto, ao progresso econômico “sem atritos” – é o positivismo tecnocrático, que, em oposição ao liberalismo ortodoxo dos homens de negócio, propunha minimizar ou mesmo suprimir a anarquia do mercado através da intervenção “racional” de um Estado-gerente, isto é, por meio de ações planejadas de médio e longo prazo (planos trienais, quinquenais…) de modo a contornar as situações de caos estocástico que o automatismo mercantil, cego e irrefletido, costuma gerar.

Como, por exemplo, as crises periódicas de sobreprodução: situação de extrema irracionalidade em que, grosso modo, “a abundância de cobertores e de alimentos é causa de mortes por hipotermia e desnutrição”. Ou seja, devido ao excesso de riqueza produzida – a existência de uma oferta de produtos para a qual não há demanda monetariamente solvível – empresas vão à falência, fábricas fecham suas portas, trabalhadores são demitidos e os espectros da fome e do frio passam a assombrar. — Por minorar o sofrimento das massas, por diminuir significativamente a margem de incerteza da vida e por evitar a destruição periódica de imensa quantidade de riqueza, as políticas econômicas anticíclicas elaboradas pela tecnocracia representam, sem dúvida, uma grande conquista da civilização.

A relação conflituosa entre teologia liberal e positivismo tecnocrático acusa uma luta pela hegemonia no seio da megaempresa capitalista moderna: embate entre os donos do capital-dinheiro e os titulares do capital-ciência. 

A INTELLIGENTSIA NA PERIFERIA DO CAPITALISMO — Uma das consequências da revolução técnico-científica foi a proliferação, por todo o mundo (inclusive em países muito atrasados), de escolas politécnicas, faculdades de engenharia e universidades voltadas não tanto para o saber humanístico, mas sobretudo para a formação de profissionais da área de ciência e tecnologia. Além disso, muitas famílias de aristocratas fundiários das nações periféricas mandavam seus filhos estudarem nos grandes centros do conhecimento: Londres, Berlim, Viena, Paris, Bruxelas etc. Esses jovens, após se formarem e se converterem à ideologia do progresso científico e econômico, voltavam para casa. Mas o que encontravam em seus países de origem? Um Estado dominado por uma oligarquia retrógrada e sua boracracia indolente, um capitalismo não só incipiente como também impotente para promover grandes mudanças estruturais; uma burguesia cartorial e tacanha que, tomada pelos hábitos e vícios da aristocracia dominante, dilapidava a maior parte de seus lucros em consumo conspícuo, ostentatório, nababesco.

O resultado disso é que, em muitas nações pobres, pré-industriais, desenvolveu-se uma numerosa e culta “burguesia de jaleco” (cientistas, engenheiros etc.). Nessas nações, entretanto, não havia uma base material capaz de propiciar emprego ao fator de produção do qual esse sujeito econômico é o titular: o conhecimento científico. Condenada a ociosidade e a humilhante condição de séquito dos senhores da riqueza, essa nova elite passou a alimentar profunda hostilidade não só à aristocracia da terra como também à exangue burguesia autóctone, vista como mais um fator de atraso. Em tal situação, o conflito de interesses apontado por Veblen logo se converteu em antagonismo social, em “luta de classes”.

Assim, uma fração dessa nova elite passou a propor a substituição do capitalismo de livre-mercado (anárquico) por um capitalismo “organizado”, inspirado no positivismo clássico, ou mesmo pelo socialismo “científico” de Marx/Engels. E contra as formas de Estado então existentes, isto é, o dos reis absolutistas “esclarecidos”, o Estado mínimo gendarme dos ideólogos do laissez-faire e até a democracia (que teria por titular uma maioria inculta e/ou iludida, submetida a uma “falsa consciência”), propunham eles a instauração, se necessário pela força, isto é, por meio da violência “revolucionária” (“armagedônica”!), de um Estado-Gerente criptomessiânico promotor de projetos radicais – estilo Parúsia – de engenharia social.

A ELITE TECNOCRÁTICA E A MASSA TRABALHADORA — De acordo com o materialismo histórico “autocompreensivo”, toda ideologia busca identificar – e assim legitimar – os interesses particulares de um determinado estrato, classe, estamento ou casta com os interesses do conjunto da sociedade — com o bem comum, a vontade de um deus benevolente, a necessidade história que conduz ao reino da liberdade, os anseios do povo, da massa, dos trabalhadores…

Neste sentido, os ideólogos do capitalismo defendem que, numa economia de mercado, “o consumidor é, por assim dizer, o rei” (Paul Samuelson); que todo o poder está nas mãos do consumidor: um sujeito racional (os lucrativos cassinos de Las Vegas City fornecem boa amostra desses consumidores altamente ponderados) que busca maximizar suas satisfações a um custo mínimo e que, manifestando sua vontade soberana no mercado, instrui o produtor, determinando o que deve ser fabricado e a que preço. Em miúdos, segundo essa apologética – esse canto de sereia liberista –, no capitalismo “o consumidor é o senhorio do produtor, sendo o lucro ‘apenas’ o termômetro que mede a eficiência do súdito”.

Ora, todos nós somos consumidores “monetários” de alguma coisa. Logo, é de se concluir que, no capitalismo, um barnabé, uma camareira e um operário são tão soberanos e altivos como o alto executivo que, hoje, acordou em Chicago, barbeou-se a bordo de um jato (em voo de cruzeiro sobre o Atlântico), participou de uma reunião de negócios em Londres, esteve com a amante em Tóquio – para manter a relação em sigilo, já que nessa cidade todos os caucasianos são aparentemente idênticos (conforme a anetota do chinês: "Rosenberg, Spielberg, iceberg, erbeg... tudo a mesma coisa!") – e, dependendo da conveniência do fuso horário, pernoitará em Johannesburg ou em São Paulo. Certamente que um discurso como este há de melhorar a autoestima de qualquer zé-ninguém, mesmo daqueles que jamais puseram os pés fora do seu arraial e que se valem de copas de árvore e das noites de lua nova para ocultarem suas “relações perigosas”.

Entretanto, se a ideia da soberania do consumidor é válida numa economia mercantil simples, não o é no capitalismo. Pois, neste sistema de mercado particular, como bem intuiu Adam Smith, “(...) a produção e não o consumo [é] o fim último e o objeto de toda a indústria e comércio”. No capitalismo, a sociedade está a serviço da economia, a economia tem por objetivo a máxima lucratividade – sendo o consumo apenas um meio de realizar lucros – e “o dinheiro é a religião” (E. Luttwak). Aliás, vimos que o departamento de marketing das grandes corporações – para as quais trabalham altos executivos, como o acima citado – são verdadeiras fábricas de consumidores, laboratórios que, com seu corpo de cientistas altamente qualificados – psicólogos, neurologistas, sociólogos, antropólogos… – estão sempre a produzir novas necessidades, valendo-se, para tanto, de técnicas pavlovianas (associações arbitrárias entre estímulos e respostas), exploração dos básicos instintos, apelo às pulsões narcísicas, indução à compulsão e incitamento, mediante efeitos sonoros, feromônios e outros truques, das regiões cerebrais mais arcaicas, aquelas que compartilhamos com pombos (a cobaia preferida de Skinner), ratos e até mesmo lagartos: o chassi neural, o bulbo olfativo etc. — Por isso, não é por funcionalidade ou puro critério estético (arte pela arte) que se fabricam automóveis arredondados; seus formatos têm uma razão mais mundana: sugerir curvas femininas. Quanto a seus faróis dianteiros, obviamente que muitos deles são projetados de modo a imitarem sedutores olhinhos infantis (observem o Honda Civic e o Toyota Corolla, ambos têm os “faroizinhos puxados”); ou então, em se tratanto de veículos off-road, o olhar determinado dos aventureiros. [iii]

No fim do século XIX e começo do século XX, a burguesia de jaleco que então flutuava no império dos czares e em outros arrabaldes do capitalismo decidiu largar a âncora não no recôncavo dos consumidores – como o fizeram os economistas acadêmicos adversários dos monopólios –, mas na enseada dos produtores, ou seja, no movimento operário e camponês. Para tanto, afinou a sua ideologia do progresso exponencial sem atritos com os anseios mais comezinhos do trabalhador simples: emprego estável e digno (isto é, livre de humilhação, insalubridade e despotismo), pão na mesa todos os dias e um pouco mais de tempo para amar, instruir-se ou simplesmente vadiar.

Nesse período de ebulição política – fase anômica de transição entre o capitalismo livre-concorrencional e o capitalismo corporativo – proliferavam sistemas filosóficos que pugnavam por mudanças sociais apocalípticas. Dentre essas construções teóricas, a que melhor convinha à intelectualidade lúmpen (os homens de ciência sem emprego, subempregados ou "mal empregados e mal pagos") dos países periféricos era o socialismo “científico” de Marx e Engels. Por quê? — Por aliar ciência com revolução (válvula de escape perfeita para a agressividade reprimida, descolada e decorrente de suas frustrações sociais); por entender que a atividade política dos trabalhadores deve elevar-se ao estatuto de práxis científico-experimental;  por conferir aos intelectuais um papel crucial nesse processo, a saber: inculcar no proletariado “a partir de fora” (cf. Kautsky e Lênin), por meio de um partido de vanguarda (o intelectual coletivo ou o “príncipe moderno”, para usar uma expressão de Gramsci), a consciência-de-classe operária em seu grau mais elevado, a “ideologia cientificamente fundamentada” pela qual o operariado toma consciência da sua missão histórico-universal “e a conduz até o fim”.

Se, de acordo com o materialismo histórico de Marx/Engels, o proletariado fabril é o sujeito da revolução socialista, não se trata, entretanto, na opinião de Kautsky e Lênin, da classe operária empírica com sua “burguesa” consciência sindical, “trade-unionista”. Ao contrário, a classe operária como sujeito revolucionário é o produto da ação “catequética” de uma elite de intelectuais, que para tanto se vale de uma organização espartana: o partido comunista, “a expressão tecnológica da ciência da história”. (Essa ideia se baseia no fato de os trabalhadores, por não disporem de tempo livre nem de meios de acesso à cultura, e por viverem sob o jugo da ideologia burguesa, não podem eles mesmos elaborar uma teoria científica revolucionária [uma teoria à altura da sua “missão histórica”]. Aliás, o próprio Marx por vezes manifestou esta compreensão. Em um de seus escritos juvenis [Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Introdução], afirmou que “[…] a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material; mas a teoria também se transforma em poder material logo que se apodera das massas [segundo outra tradução, ‘quando penetra nas massas’].” Ora, o apoderado ou penetrado é um agente “passivo” que “sofre” uma ação “externa”; no caso, a ação educadora dos intelectuais revolucionários.)

Não existe, porém, matéria-prima “absolutamente maleável” que não resista em algum grau ao processo de transformação. Assim como a criança – refém do narcisismo primário – é relativamente refratária ao processo de socialização, também a classe operária, entretida com seus “interesses imediatos”, há de manifestar alguma resistência à atividade prático-teórica que objetiva alterar radicalmente sua condição: de classe-em-si em classe-para-si; de um agente absorto no cotidiano “burguês” numa espécie de deus: o “sujeito-objeto idêntico da História” (Lukács). Isso significa que a relação entre a elite intelectual revolucionária e o proletariado, longe de ser aquele idílio rococó pintado pelos adeptos do “realismo socialista”, é na verdade tensa, contraditória, e, em situações de refluxo da maré revolucionária, fadada a rupturas. Em tais situações de prostração da classe operária, como de fato ocorreu na URSS durante os anos 20 do século passado, o partido da revolução, arvorando seu papel de guardião dos interesses de longo prazo dos trabalhadores, reclama o “direito histórico de afirmar sua ditadura” (Trotsky, X Congresso do Partido Bolchevique, 1921) e de se colocar não mais “à frente” do movimento operário, mas no seu lugar.

A autonomia do partido (isto é, da casta dos intelectuais revolucionários “profissionais”) em relação à classe operária – autonomia que lhe permite passar da condição de vanguarda para o estatuto de sucedâneo – é mesmo uma inferência implícita da teoria da revolução mundial.

Com efeito, até o advento da teoria do “socialismo em um só país”, era ponto pacífico entre os marxistas a ideia de que as relações de produção socialistas, por herdarem as forças produtivas “globalizadas” do capitalismo, haveriam de ter, necessariamente, um caráter internacional. Por essa razão, a revolução socialista seria, em princípio, um acontecimento global; ou seja, um movimento que, uma vez iniciado num determinado país, ultrapassa suas fronteiras, vindo a se concluir apenas a nível mundial. Vale salientar que essa tese implica a possibilidade de que o estopim – e somente a espoleta, frise-se – da revolução mundial venha a se dar não num país de capitalismo desenvolvido, mas em alguma nação periférica, de economia semifeudal ou mesmo patriarcal (logo, com uma classe operária incipiente ou mesmo inexistente). Essa possibilidade foi avaliada com profundidade pelos revolucionários russos, entre os quais Lênin – que criou a expressão “revolução ininterrupta” – e Trotsky, o teórico da revolução permanente e da tese do “desenvolvimento desigual e combinado”.

Acresce dizer que o próprio Marx já havia esboçado hipótese parecida numa carta dirigida à Vera Zasulich, uma ex-anarquista russa (narodnik) convertida ao socialismo “científico”. Na polêmica que então travava com seus antigos camaradas, Vera contestava a possibilidade de se queimar etapas históricas e, através de uma revolução levada a cabo não por operários, mas por camponeses, passar diretamente de uma economia agrária (comunal e não monetária) para o último estádio da civilização: o comunismo. Pois, ironicamente, na carta citada, Marx deu razão aos anarquistas, admitindo que um salto desta natureza seria possível na Rússia e em outros países asiáticos onde as comunas camponesas haviam sido preservadas, e caso recebessem a posteriori ajuda material dos Estados operários europeus, muito mais ricos e industrializados.

Nesse caso, mesmo que a força principal do movimento revolucionário seja o campesinato, a revolução tem um caráter operário, pois seu objetivo é realizar a “missão histórica” do operariado: a construção de uma sociedade industrial moderna, socialista, com uma agroindústria no lugar de pequenas propriedades camponesas. Obviamente que, numa situação anômala como esta, os intelectuais organizados no Partido da Revolução figuram não como vanguarda do proletariado urbano (já que este é incipiente ou sequer existe), mas como o seu substituto: um lugar-tenente.

Ressalte-se, entretanto, que o que legitima essa condição é a hipótese da revolução mundial. Ocorre que a revolução não se completou. Como diria Karl Popper, a hipótese “científica” aventada pelos clássicos do marxismo foi dramaticamente falseada. O que fazer, então, com o trabalho incompleto?

A história demonstrou que, livre de um controle institucional a partir de baixo e na falta da revolução mundial, essa tecnoburocracia de esquerda tende a endurecer, a perder a ternura com os oprimidos. Senhora absoluta do seu quintal, substitui paulatinamente, inclusive dentro do seu próprio círculo, a política pela polícia, o convencimento pela intimidação, a discussão interna pela disputa intestina, até que não reste mais nada entre o “príncipe moderno” – reduzido a uma confraria de homens de baixa estatura moral, como Beria – e o mito morto da lei do progresso histórico. Falando sozinha em nome dos interesses de longuíssimo prazo de um abstrato, hipostasiado e platônico “Proletariado Mundial” (solilóquio de cínico ou de demente), a casta dos “cientistas da História” não vacila em tiranizar os camponeses e também o raquítico operariado nacional, qualificado de “apático” “aburguesado”, desprovido da “verdadeira” consciência de classe. Isso aconteceu na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Camboja…

“O socialismo é igual a poder soviético mais eletricidade”, proclamou Lênin na tribuna do VII Congresso dos Sovietes (dezembro de 1920). Lênin morreu, amordaçaram os sovietes. O que restou? — Despotismo com eletricidade.

Um despotismo, aliás, que o próprio Lênin defendera como “saída honrosa de uma situação-limite”. Com efeito, em “O Capitalismo de Estado e o Imposto em Espécie”, Lênin escreveu que, na eventualidade de uma derrota da revolução na Europa, o Estado soviético deveria “seguir a escola do capitalismo de Estado dos alemães, imitá-la com todas (…) as forças, não temer os métodos ditatoriais para acelerar essa assimilação da civilização ocidental pela Rússia bárbara, não vacilar diante de nenhum meio bárbaro para combater a barbárie”. [iv]

Bem, não é minha intenção defender incondicionalmente preceitos morais abstratos, que, segundo Pareto, têm servido amiúde como instrumento de dominação: “faça o que digo, mas não faça o que faço”, diz o ébrio fidalgo para o vassalo embriagado, esperando que, no outro dia, graças à amnésia etílica, ninguém se lembre de nada. Aliás, até concordo com Trotsky quando este afirma que “o meio não pode ser justificado senão pelo fim”; razão pela qual “um tiro de arma de fogo (…) disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável, [ao passo que] disparado para matar ou praticar violência é um crime”. [v] Todavia, creio que Lênin (e Trotsky), ao superestimar a violência como meio – ao fazer dela uma ponte privilegiada entre o império da necessidade e o reino da liberdade –, negligencia uma verdade “darwiniana” elementar: que o emprego sistemático de meios bárbaros cria um ambiente estável de barbárie em que “somente os mais bárbaros sobrevivem” (afinal, em pântano quem melhor se movimenta é o rastejante de sangue frio, não o bípede de sangue quente), de modo que, no fim, em vez de civilização o que advém é uma “barbárie high-tech” — não o “homem integral” do comunismo ou sequer um pacato cidadão urbano, mas um babuíno montado numa bomba atômica.



BULCÃO NETO, Manuel Soares. Sombras do Iluminismo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, pp. 81-94 — Versão modificada e resumida.




[i] BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 3ª edição, p. 146.
[ii] “Admitiu ele [Darwin] que cada célula do corpo adulto derrama no sangue e em outros fluidos do corpo algumas ‘gêmulas’, que são diminutas cópias da célula que as produziu. As gêmulas então se fixam nos órgãos reprodutores e ali formam as células sexuais. Quando essas células dão origem a um embrião, as gêmulas se transformam em novas células do corpo, do tipo das que originalmente as formaram”. — DOBZHANSKY, Th. O Homem em Evolução. São Paulo: Ed. Polígono, 1968, p. 29.
[iii] Como vimos antes, as crises do capitalismo não são crises de penúria, de subprodução de bens de consumo, mas crises de sobreprodução. Vale dizer: “não é por haver demasiadamente pouco que comer, mas por serem relativamente demasiados os produtos alimentares que os desempregados bruscamente morrem de fome” (Ernest Mandel).  Esse fenômeno esdrúxulo demonstra que, se há racionalidade no mercado capitalista, esta se volta periodicamente contra o consumidor em particular e o homem em geral, deixando claro que tanto a Lei de Say como a ideia da soberania do consumidor não passam de mitos científicos. 
[iv] Apud BANDEIRA, Moniz. Lênin: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 191.
[v] TROTSKY, Leon. A moral deles e a nossa. São Paulo: Publicações Liga Bolchevique Internacionalista, 2ª edição; 2003, pp.  14 e 46.


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