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segunda-feira, 11 de julho de 2011

PORTAL 2001: FICÇÃO, SIM (CRÔNICA DE NILTO MACIEL)

Cena da primeira adaptação cinematográfica do romance Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley, realizada em 1910 por Thomas Edison.

“Segundo Arthur Clarke, ‘a única forma de descobrir os limites do possível é indo mais além deles, ao impossível.’ De fato, Einstein, que sempre se valeu da intuição – como visualizar-se montado em um raio de luz – antes de pôr os pés no espaço-tempo da sua Teoria, visitou, na imaginação, muitos universos impossíveis. Quanto à ficção científica, esta nos leva, por meio de imagens e licença poética, às fronteiras ‘imprecisas’ da ciência, desempenhando, assim, como toda grande arte realista, importante função cognitiva. Também nos mostra, às vezes, situações absurdas — ‘absurdo’ no sentido de ‘possível, mas que não deve ser’ (o ‘proibido’ como equivalente moral do ‘impossível’). O romance gótico Frankenstein, por exemplo, é uma especulação literária sobre quais limites impor ao manejo da técnica científica.” (M. Bulcão)





Portal 2001 é um livro de contos. Pode ser lido como uma antologia de narrativas curtas. Na capa, apenas o nome (título). A segunda folha traz uma apresentação (prefácio) por Nelson de Oliveira, que anuncia: “Este é o quinto de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit”. Logo, não se trata de livro. Em um texto de divulgação do empreendimento vem explicação: “Projeto Portal é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit”. Por isso, não há ficha catalográfica, indicação de editora, etc. Apenas os créditos: data (inverno 2010) e nomes dos responsáveis pela publicação, como o de Nelson: Coordenação editorial. Em outra comunicação há esta descrição sucinta: “São 31 narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, utopias e distopias, de 16 autores contemporâneos”. Ou seja, composições de ficção científica.

Mas o que é ficção científica? Para Wilson Martins, “A chamada ficção científica, que não é ficção nem científica, tampouco alcança os planos da literatura porque nela a função catalítica do estilo é, por definição, posta à margem como desprezível”. Pois Tibor Moricz (que não tem o prestígio do intelectual considerado por muitos como o último crítico brasileiro por excelência), em “Gênero X Mainstream”, faz a seguinte observação: “A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone”.

Essa mudança de status se dá ao longo do tempo. Assim como “A invenção de Morel” (Bioy Casares) “desceu um degrau”, Poe subiu. Edifício literário como o de Uilcon Pereira, por exemplo, alcançará algum dia o Cânone? Ou ficará no limbo: nem popular, nem canônico?

Os males ou os defeitos da ficção científica, o que a afasta do Cânone assim como do mainstream, sua pobreza (como um todo, ressalvadas as peças mais louvadas pela crítica), assim como (em menor grau) da literatura fantástica, sua penúria talvez esteja no distanciamento que o narrador guarda (nelas) de seus semelhantes, dando mais ênfase a objetos (máquinas, naves, etc.), ao espaço sideral e viagens pelo Cosmos, em detrimento dos problemas pessoais (humanos) dos personagens. O leitor se vê diante de seres sem estofo, ocos, quase máquinas, “sem alma”, sem sentimentos, inumanos. Em consequência, a trama foge dos seres e suas ações e sentimentos para se voltar para o espaço, as coisas (espaçonaves), medidas, velocidade, etc. A ação é desvinculada do humano, dos dramas psicológicos. Só mesmo escritores mais criativos conseguem fazer com que a “coisa” sobrenatural e o espaço de atuação do alienígena ou do ser irreal não substituam a pessoa, como na literatura fantástica (o Horla, de Maupassant) ou em José J. Veiga (a estranha máquina extraviada).

Porém, à medida que os cultores desse gênero se aproximam dos modelos da literatura canônica (Casares, Poe) – pela técnica e pelo tratamento literário dos temas, das tramas, etc., sua “ficção científica” se revela como ficção, como literatura e perde o rótulo renegado pelos acadêmicos e críticos.

Braulio Tavares, no conciso “A república do recurso infinito”, lembra Kafka ou o mundo ficcional de 1984 (Orwell) e alguns clássicos da ficção científica. Em “Universos tangenciais (improviso)”, lê-se um sonho dentro de outro, e este de outro. “Aquele de nós (improviso)” é uma maravilha. Veja-se o epílogo a um tempo metaficcional e filosófico: “Ele sabe que todos os seus semelhantes são ficções, e que ele próprio não passa de um Terminal através do qual se manifesta a Nossa existência.”

Brontops Baruq, com “Planetas invisíveis: Diana”, segue a mesma linha de Braulio. Algumas vírgulas de menos não o impedem de ser muito criativo, além de ferino crítico da sociedade moderna. “Rebobinados” é ótimo como FC: a humanidade é a mesma aqui e agora (presente), nos idos da Roma Antiga (passado) e nos tempos fora da Terra (futuro). Onde houver homem, haverá “humanidade”, isto é, ódios, amores, ciúmes, inveja, todos os chamados pecados. E assim Baruq se distancia do descritivismo científico.

De Claudio Parreira é o estranho “Além do espelho”. Trata da solidão, o que o humaniza e o torna próximo da grande literatura. O drama não se dá no interior de uma nave nem em outro planeta. Ocorre na Terra, na famosa Rua Augusta, São Paulo: “Estava na padaria havia pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber”. (...) “A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas”.

Na mesma pegada vem Daniel Fresnot. Em “Exit”, o clima é de tragédia no espaço, em competição pela chefia da nave. E ainda o problema da solidão: “Agora estamos os dois flutuando fora d nave e o problema é que não há mais ninguém lá dentro para nos abrir a porta!” (...) “portanto, vamos morrer de sede.” Em sentido amplo, “A vida sexual dos dinossauros” é uma aula. Já em “Convenção” talvez se possa vislumbrar o próprio fazer Ficção Científica. Ricardo Delfin, em “Destino”, começa assim: “Prefiro estar morto...”. Em “Futuro do pretérito”, chama logo a atenção do leitor: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. Em “Gazeta marciana”, o mundo de Marte se assemelha ao da Terra. O planeta vermelho num futuro (mas o que é futuro, presente, passado, tempo no espaço?) será como na Terra hoje. Outro Delfin (sinto falta de sobrenome), com “Sentinela”, mostra excelente composição na 1ª pessoa feminina, o que é raro. Basta ver que dos 16 contistas da publicação só há uma mulher: Maria Helena Bandeira, que, em “Neve e sanduíches”, lida com o fundamental humano, como na fala de Ingborg: “De que adianta continuar a viver se não temos lembrança de quem fomos?”. Outra constatação muito lida em FC: “Humanidade que há muito desapareceu, tragada pelo frio”. Outra peça muito estranha é “A gruta de Vênus”. “Eblon” é o paraíso. Em “Mãos de borracha” e “Quem sabe?” há diálogos e uma sentença paradigmática: “no mundo virtual de agora, ninguém tem controle sobre o que é real ou imaginário”. Colóquios também são bem utilizados por Marco Antônio de Araújo Bueno. Como em “Sem nome”, dividido em duas partes distintas: a primeira de conversações, a segunda uma narração ou um relato em primeira pessoa. “Arquivo truncado” vem na 1ª pessoa. Em “Seguimento dezenove” também há diálogos. Outro que se vale bem deles é Rodrigo Novaes de Almeida. Em “Contato Alpha 9” lê-se um delírio em frases curtas e diálogo direto. “Zaratustra” é curto e estranho, diferente dos demais da coleção.

Um dos epistílios da FC é a “brincadeira” (FC é, sobretudo, entretenimento) com o tempo. De Mayrant Gallo é “A paz forçada”: o drama se dá num futuro próximo e tem assim o início: “A nave surgiu no céu de um azul intenso” (...). Sid Castro, em “Prometeu acorrentado reboot”, se refere à nave Prometheus Vinctus, em travessia pelo hiperespaço. Vinha de um planeta solitário. Alusões a mitos gregos: Prometeu e Érebo. Belíssima alegoria. Luiz Bras, em “Primeiro de abril: Corpus Christi”, oferece como cenário uma cidade chamada Primeiro de Abril. O narrador brinca com personagens da ficção cinematográfica, como Capitão América, Capitão Gancho, Homem de Lata. Roberto de Sousa Causo, com “Arribação rubra”, nos leva ao planeta Reiboro e nos põe em contato com o humano professor Neftaim Zibeon.

Há muito de alegoria, principalmente na crítica aos humanos, na Ficção Científica, o que às vezes a afasta do puro entretenimento. Marcelo L. Bighetti, em “Novo início”, faz aparecer em cena um Adolfo Hitler imaginário a quem é apresentado “um pequeno e mirrado ser humanóide”. A seguir, relata-se uma viagem ao passado (em FC viagem é, quase sempre, na direção do futuro) e a chegada de colonizadores ao Brasil de 1500. Essa viagem ao futuro se vê em Rogers Silva. Lê-se em “Amor-perfeito”: “Quando o Apocalipse sobreveio” (...). Uma novidade (para mim) é o tratamento dado ao tema do homossexualismo: “não porque sou ingênuo ou exagerado, mas apenas porque te amo”, diz um personagem a outro (anjo Gabriel e Lúci). Além disso, Rogers utiliza uma das técnicas da nova (?) narração: um narrador cede a voz a outro, mudando o ponto de vista.

Um dos momentos áureos da coletânea está em Mustafa Ali Kanso, principalmente com “Herdeiro dos ventos”. O protagonista, que nasceu prematuramente, “em um caderno amarrotado começou a ensaiar seus primeiros contos envolvendo fantásticas máquinas voadoras e extraordinárias viagens para a lua” e “tinha o pérfido costume de ler”. Mais adiante, “como todo bom escritor, a despeito das evidências, desafiou o que era correto e continuou voando.” Até que decidiram “acorrentá-lo a uma bola de ferro.” É composição fantástica belíssima. Em “Uma carta para Guinevere” há algo de romantismo nos tempos das viagens cósmicas.

Para finalizar: Portal 2001 é bom entretenimento, sobretudo para o leitor de Ficção Científica, exibe “textos” muito próximos da literatura canônica e, portanto, é ficção.


Fortaleza, 21 de novembro de 2010.

Nilto Maciel

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