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segunda-feira, 4 de julho de 2011

POESIA & GEOMETRIA, JOAQUIM CARDOZO (CRÔNICA DE ANA MIRANDA)




Espiral de Fibonacci
  

A poesia dos ritmos, a simetria dos signos, a semântica dos números, a matemática dos sons, a música das cores, a cromodinâmica das ideias, a lógica das metáforas.

        

       
         Muitas vezes ouvi alguém dizer de alguém: ele é frio e calculista. Frio e calculista sempre foram duas palavras afins, inseparáveis, como se ninguém pudesse ser frio sem ser calculista, e vice-versa; e fazem supor que você precise ter cabeça fria para calcular, ou seja: o sentimento atrapalharia os cálculos. Então imaginamos que a expressão de um calculista é fria, por associação. Existe um calculista notável na história do Brasil, que simboliza todos os calculistas; ele é o engenheiro Joaquim Cardozo, que calculou as colunas do Alvorada, as hastes magníficas da catedral de Brasília, o chapéu de freira da igrejinha de Fátima dos joelhos de minha infância, e tantas outras estruturas que parecem suspensas, ou querendo voar, ou pairando no ar.
E esse engenheiro calculista era poeta. Claro, como diz um amigo meu, a poesia é uma ciência tão exata como a geometria.  Da geometria à poesia, um átimo, e vice-versa. Quem imagina que a poesia de Joaquim é fria e calculista, surpreende-se com o lirismo contido nas estruturas e cálculos de palavras, com o sentimento que ele expressa, suas iluminações instantâneas a partir de uma chuva no telhado (simetrias perpendiculares?), suas madrugadas eternas (linhas infinitas?), seu coração encerrado em grades de pedra (linhas paralelas?), suas saudades das ilhas e o desejo de desvendar (calcular?) o segredo das águas, sob a capa vazia do tempo (o infinito negro?), o tempo que cristaliza em dimensão natural (espaço?).
Ele acreditava que a poesia não carrega sempre o verdadeiro estado interior do poeta, pois se exprime por convenções e símbolos (tracinhos e rodinhas) e associações e decalques (abstrações); que as palavras escritas são frias (calculistas?) e mortas (o zero?); acreditava que o ser humano possui um campo infinito e mais ou menos contínuo de poesia (geometria?), mas nem sempre consegue vencer a repugnância de revelá-la (calculá-la?); que a revelação da poesia é uma impureza (interrupção?), pois exprimir um sentimento tão indefinido (interseção?) é tarefa inatingível (estrutura?). No entanto venceu a repugnância e revelou sua expressão límpida (matemática pura?), quase seca (física?), íntima (topografia?) e encantadora (poesia).
Nos velhos anos de Brasília falavam dele com tanta admiração que eu também a sentia, e nem sabia que era poeta, achava só que era calculista, coisa inimaginável em minha mente antimatemática; e, portanto, ele era superior (ou interior?) à arte, a arte era o meu cotidiano, coisa tão natural... Homem cultíssimo e declamador, conversava ali com os arquitetos usando a simplicidade de um guarda-livros (seu pai era escriturador de livros mercantis). Joaquim era um dos ídolos da construção da cidade, bastava dizer o nome, o Lúcio, o Oscar, o Juscelino, o Luiz Humberto, o Athos, o Joaquim...
Hoje conheço mais de sua pessoa, li muitos de seus poemas, que compreendem a beleza das prostitutas, das pontes, das cidades, dos rios, e sabem a cor da tempestade. Sempre em busca da “forma formante e formada”. Hoje entendo. Seu poema de que mais gosto (por ser literário?) talvez seja o do furo que ele vê num livro, apenas um pontinho na capa, e, à medida que ele vai passando as páginas, o furo vai se abrindo e fazendo uma escultura vazia no interior do livro e depois vai voltando a ser apenas um ponto. Mas também gosto das que escreveu para Recife, para as mulheres que amou, para os relógios, para as paisagens erguidas no prisma azul, calculando os esquadros, parafusos, as curvas das marés...

ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.


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