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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O QUE HÁ DE NIETZSCHE EM RAUL SEIXAS (ARTIGO DE LUCIANO BONFIM) (*)

Friedrich Nietzsche por Edward Munch, pintura de 1906


Neste breve artigo apresentamos algumas possibilidades da presença do pensamento filosófico de Friedrich Nietzsche na obra musical de Raul Seixas. Para cumprir esse objetivo dividimos a argumentação em 6 (seis) momentos: no  primeiro momento denominado: primeiro acorde da canção, apresentamos as questões que motivaram a pesquisa; no segundo momento, o caso Nietzsche, sucintamente, apresentamos a vida e a obra de Friedrich Nietzsche; a vida e a obra de raul Seixas são apresentadas no terceiro momento, denominado: as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor; palavras cruzadas, é o quarto momento onde apresentamos as possibilidades da presença do pensamento filosófico de Nietzsche na obra musical de Raul  Seixas; no bloco denominado: à guisa de conclusão, realizamos as considerações finais e apontamos algumas possibilidades de aprofundamento da pesquisa, para em seguida apresentarmos a bibliografia consultada.


*

Sem música a vida seria um exílio
 Nietzsche

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Raul Seixas


Para Djacir Soares e Chico Barros.


PRIMEIRO ACORDE DA CANÇÃO


Muitos são sabedores das inclinações de Friedrich Nietzsche para a música e das  letras das canções de Raul Seixas apresentarem um quê de filosofia, tendo o primeiro realizado, para aquém do seu pensamento, algumas poucas composições e o segundo, para além da sua música, ter adquirido a fama de filósofo do rock.

Então, em que esquinas da vida poderiam se encontrar tais senhores? Em que momento, se é que existe mesmo esse momento, a música produzida por Raul Seixas se aproxima da filosofia de Friedrich Nietzsche? Vejamos...

O CASO NIETZSCHE

Nietzsche nasceu em Röcken, pequena cidade próxima a Leipzig, em 15 de outubro de 1844. Em homenagem ao rei da Prússia, que fazia aniversário naquela data, foi batizado Friedrich Wilhelm.
Nascido em uma família historicamente vinculada à Igreja Luterana, seu pai e seu avô haviam ensinado teologia e sua mãe era filha e neta de pastores luteranos; segundo RUSSELL [2001:372], esta circunstância conferiu ao seu lar um fundo de piedade e retidão;  matiz que se conserva no tom altamente moral das obras de Nietzsche, mesmo nas mais rebeldes.
Segundo nos informa HALÉVY (s/d),

O pequeno Nietzsche foi tardo em falar. Olhava para todas as coisas com olhos graves, e calava-se. Aos dois anos e meio, diz sua primeira palavra. O pastor gosta muito deste companheiro silencioso e leva-o com prazer nos seus passeios. [...]Nietzsche jamais se esqueceu do som dos sinos longínquos sobre a planície imensa e semeada de lagos, nem da impressão de sua mão apertada na forte mão de seu pai. [HALÉVY, s/d: 7]

Seu pai, no mês de agosto de 1848, enquanto tentava consertar o telhado da igreja da paróquia onde era pastor, tombou do alto de uma escadaria e bateu violentamente com a cabeça nas pedras da calçada. O choque precipitou a eclosão de uma terrível doença. Karl-Ludwig Nietzsche, homem culto e delicado, perdeu a razão e morreu depois de um ano de loucura e sofrimento.
No mesmo ano, 1849, morre Joseph, irmão caçula de Friedrich Wilhelm.
A mãe, por conta dos últimos acontecimentos, mudou-se com a família para Naumburg, pequena cidade às margens do Saale, onde durante os dez anos seguintes viveria o pequeno Nietzsche em companhia de sua mãe, Franziska, e de sua irmã, Elizabeth, dois anos mais moça que ele – além da avó e duas tias.
Como todos os homens da família, quis também um dia ser pastor – um dos eleitos que vivem perto de Deus e falam em seu nome; tanto era o seu intento e dedicação que chegou mesmo a ser cognominado, pelos seus colegas de escola, “pequeno pastor”.
Deste período registram-se suas primeiras tentativas como compositor e poeta.
Segundo HALËVI [s/d],

Aos nove anos, suas inclinações artísticas se estenderam: a música foi-lhe revelada por um coro de Haendel que ouviu na igreja. Estudou piano. Escreveu versos e, mãe, avó, tias e irmã receberam, em cada aniversário, um poema com sua respectiva música. [...]Tivera, desde a primeira infância, o instinto da frase e da palavra, do pensamento visível. Não cessou de escrever, e nem uma nuance de sua inquietação nos ficou escondida. [HALÉVY, s/d:14].

Com amigos de infância, em 1860, ainda em Naumburg, criou uma sociedade lítero-musical denominada “Germania”, em cujas reuniões apresentou peças musicais, poemas e ensaios de sua autoria.
Na literatura: Hölderlin, acima de tudo. Além deste, seus interesses e leituras estavam então voltados para a mitologia nórdica, Goethe, Byron, Shakespeare, Schiller e Lessing.
Na juventude, em certa ocasião folheou uma obra cujo autor lhe era desconhecido: O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer. Desde então, a filosofia passou a interessá-lo.
Nietzsche estudou letras clássicas na célebre Escola de Pforta e na Universidade de Leipzig. Foi professor, durante onze anos, de grego e latim na Universidade da Basiléia, na Suiça, e por outro igual tanto de tempo vagou errante, em pequenas cidades da Itália, Suíça, França e Alemanha.
Escreveu, entre tantos livros essenciais para o pensamento ocidental: “A Gaia Ciência”, “Humano, Demasiado Humano”, “Assim Falava Zaratustra”, “Além do Bem e do Mal”, “Genealogia da Moral”, “Ecce Homo”, etc., tornando-se o filósofo da potência, do além do homem, da crítica ao homem rebanho, da crítica à moral cristã, da crença otimista na vida construída pelo ótica dos fortes, dos que não se anulam porque aguardam a chegada de um mundo ideal ou fictício.
No início de 1889, como acontecera anteriormente com seu pai, Nietzshe perde a razão. Viveu, quando se agravaram as crises, sob os cuidados da mãe e da irmã, vindo a falecer, vítima de uma infecção pulmonar, no dia 25 de agosto de 1900.

AS AVENTURAS DE RAUL SEIXAS NA CIDADE DE THOR 

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, em 28 de junho de 1945 – 101 anos após o nascimento de Nietzsche,  e no ano da bomba atômica, como diria depois, em diversas entrevistas, o próprio Raul Seixas.
Filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Santos Seixas, teve um único irmão: Plínio Santos Seixas, nascido em 1948, para quem, mais tarde, Raul iria escrever e vender histórias e desenhos.
Em entrevista concedida a Ana Maria Bahiana, Raul Seixas relatou um trecho de sua história de vida assim:

Quando eu era guri, lá na Bahia, música pra mim era uma coisa secundária. O que preocupava mesmo eram os problemas da vida e da morte, o problema do homem, de onde vim, pra onde vou, o que é que eu estou fazendo aqui. O que eu queria mesmo era ser escritor. Desde pequeno eu fazia e vendia livros pro meu irmão menor, quatro anos mais moço que eu. [PASSOS, 2003: 13].

Durante os anos de 1952 a 1956 fez o curso primário. No ano de 1957 funda o Elvis Presley Rock Club e, no mesmo período, durante o curso ginasial, repete a 2a série três vezes, o motivo, segundo o próprio Raul Seixas, é que: matava aula pra ouvir discos de rock.
Cria em 1962 o grupo Os Relâmpagos que em 1963 muda o nome para The Panthers, em seguida modificado para Raulzito e os Panteras –  regularmente acompanhavam nomes consagrados da Jovem Guarda quando estes iam se apresentar na Bahia.
Raul Seixas sempre leu e gostou de filosofia, vindo mesmo, desde cedo, a desconfiar da existência da verdade absoluta. Ao iê-iê-iê ingênuo e romântico presente na cena musical brasileira dos anos de 1960, Raul Seixas, através das letras de suas canções, acrescentou desassossegos para a construção de uma sociedade galgada na lei e na moral do mais forte.
Em 1968 grava o primeiro LP, Raulzito e os Panteras, também neste período realiza composições que são gravadas por outros interpretes.
Após este momento, com outros companheiros de aventura, e sem a devida permissão, grava e lança o LP: Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 – o que resulta na sua demissão da gravadora CBS, onde era produtor musical.
Com os Beatles [ALVES: 1993, 27]Raul percebeu que poderia usar a música para dizer o que ele pensava – era isso que faziam os Beatles. Raul começa a compor, para dizer em suas músicas, o que ele pensava.
Em 1972 participa do Festival Internacional da Canção com Let Me Sing, Let Me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo. Gravou em 1973 o LP Kring-Há, Bandolo!, onde aparecem sucessos como “Ouro de Tolo’, “Metamorfose Ambulante”, “Mosca na Sopa”, entre outros. Ganhando, a partir de então, notoriedade nacional como cantor e compositor.
Grava, em 1974, o LP Gita, que lhe garante um disco de ouro e traz músicas como “Medo da Chuva”, “As Aventuras de  Raul Seixas na Cidade de Thor”, “Sociedade Alternativa”, “S.O.S”, “Gita” e “O Trem das Sete”.
Gravou muitos outros discos. Foi polêmico e controverso. Tornou-se um artista ímpar em nossa cultura brasileira. Disse não pertencer a nenhum grupo dentro da linha evolutiva da música popular brasileira e buscou abrir portas para “verdades” individuais, as suas e as dos outros.
Este mesmo Raul Seixas, vítima de uma parada cardíaca causada por pancreatite crônica, morreu em São Paulo em 21 de agosto de 1989.

PALAVRAS CRUZADAS

            Nietzsche escolheu e utilizou, principalmente, o aforismo como forma de inquietar o mundo através de seu pensamento. Em livros construídos com a matéria, perspicácia e maestria de um grande artista consciente da força e da beleza de sua arte, nos legou inconformismos e desconfianças que ainda hoje soam como marteladas que podem dobrar até os mais densos metais.
CHAUÍ [1994:354], aludindo ao pensamento de Nietzsche, nos diz que:

Contra a moral dos escravos, afirma-se a moral dos senhores ou a ética dos melhores, dos aristoi, a moral aristocrática, fundada nos instintos vitais, nos desejos e naquilo que Nietzsche chama de vontade de potência, cujo modelo se encontra nos guerreiros belos e bons das sociedades antigas, baseadas na guerra, nos combates e nos jogos, nas disputas pela glória e pela fama, na busca da honra e da coragem. Essa concepção encontra-se em Nietzsche e em vários filósofos contemporâneos.” [CHAUÍ, 1994: 354]


Incluímos neste rol o mago inglês Aleister Crowley que muito influenciou o pensamento de Raul Seixas e Paulo Coelho, este, seu parceiro mais constante.

Nas letras de suas canções, como propôs Nietzsche em sua filosofia, Raul Seixas realiza, e também sugere, uma “transvaloração” de valores – dos valores presentes e vigentes em nossa sociedade. Esta inquietação é passada para os seus fãs, capturados pela audição, de maneira rápida e agradável através da pulsante batida  do rock’n’roll, conseguindo assim, mesmo que não saibam da fonte primeira, um grande número de interessados para este pensamento – algo que a obra de Friedrich Nietzsche, pela natureza de sua filosofia, pela construção e não convencionalidade de suas idéias, ainda não conseguiu alcançar em nosso meio.
            Raul é um filósofo no sentido de manter acesa a chama das indagações sobre o mundo e a vida, possuindo frente a estas questões uma verdadeira atitude filosófica, pois segundo CHAUÍ [1994],
 
[...] interrogando-se a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são as nossas crenças e os nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica. Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido. [CHAUÍ,1994:12].


E segundo MARTON [2000: 47],


[...] é preciso coragem para praticar a desconfiança, descartar os pré-juízos, evitar as convicções. É preciso destemor para desfazer-se de hábitos, abandonar comodidades, renunciar à segurança. É preciso ousadia para abrir mão de antigas concepções, desistir de mundos hipotéticos, libertar-se de esperanças vãs. Enfim, é longo o processo para o espírito tornar-se livre [MARTON, 2000: 47].


Apesar de corajosamente manter esta atitude filosófica em sua obra e em sua vida, não se pode atribuir a Raul Seixas a denominação de “filósofo” no sentido de ele ter construído um sistema de pensamentos, valores, regras, escolas, ou de ter realizado uma investigação aprofundada sobre a vida e o mundo
Que a obra de Raul Seixas está repleta de referências filosóficas é um fato, e muitas vezes por não conter a identificação de seus autores primeiros, acaba-se creditando ao maluco beleza algo que não foi construído pela sua mente, como nos informa FRENETTE [1999], quando comenta o livro Baú do Raul:.

[...] deixando nesses textos mais qualidade literária do que aquela que pretendia exprimir nos textos “filosóficos”. Também há nesse Baú do Raul muitos textos escritos sem muito, digamos, rigor técnico, o que leva o leitor, sobretudo aquele menos afeito a leituras, a crer que quem disse que “O homem nasce livre mas em toda parte encontra-se acorrentado” e afirmou que “Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano e eu o declaro meu inimigo” tenha sido Raul Seixas; quando, na verdade, a primeira frase é o início do famoso Contrato Social de Rosseau, e a Segunda é uma premissa anarquista de Proudhon. Porém, como estamos no mundo do rock, e não numa academia de letras, está tudo certo. Mas essas observações são importantes para esclarecer aqueles que, por serem fãs de carteirinha, querem dar a Raul o que não é de Raul. Ele foi um roqueiro, e dos bons, mas não um filósofo. Tentou filosofar, e ganhamos com isso, pois, ao confundir egocêntricas divagações existencialistas com filosofia, trouxe ao rock nacional um discurso libertário que estava fazendo falta. [FRENETTE, 1999: 24].

Há homens que nascem póstumos, esta pérola do pensamento de Nietzsche, a encontramos dentro do referido livro Baú do Raul, sem nenhuma indicação de quem é o autor, o que, se não confirma o que esta indicado acima, aponta para esta possibilidade.
            Raul Seixas realiza este ato de livre “transposição de filosofias” para as letras de suas composições de maneira brilhante mas, parecendo não se contentar, também a realiza com algumas melodias e arranjos, por exemplo: Rock das ‘Aranha’ apresenta enormes coincidências com Killer Diller, do americano Jim Bredlove, e da guitarra presente na introdução de Rock do Diabo com o início da música It dos Beatles; quando perguntado sobre estas coincidências, Raul Seixas ria e depois, geralmente, dizia: Meti a mão!
            Mas como nos indica o próprio NIETZSCHE [2005a:123] quando a arte se veste de tecido mais gasto é que melhor a reconhecemos como arte;  e um bom escritor não tem apenas o seu espírito, mas também o espírito de seus amigos.
Ana Maria Bahiana, jornalista e pesquisadora, arremata a questão nos dizendo que:

[...]é possível discutir tudo em Raul Seixas: suas proposições, suas crenças, sua música, sua posição dentro da música. (É formidável que exista uma pessoa ainda capaz de provocar tais tumultos ideológicos.) Mas é um pouco difícil ficar imune ao fascínio que ele exerce. Raul Seixas, polígono de muitos lados, espelho de muitas imagens. (PASSOS, 2003: 30).

Assim: Raul Seixas realiza uma transmutação de pensamentos que, muitas vezes, pela formulação e profundeza originais, não se tornam de fácil entendimento, e os transforma em uma espécie de filosofia ao alcance de todos. Raul, vale lembrar, ousou perguntar de maneira inédita o que até então não havia sido considerado tema na história da música popular brasileira.
E, no que se refere especificamente ao pensamento de Nietzsche, ressaltamos os seguintes aspectos presentes na obra de Raul Seixas: a filosofia e a vida vinculadas à ação, a transvaloração dos valores, a possibilidade de nos tornarmos homens e espíritos livres, a construção de uma nova moral que se encontra presente na moral dos fortes, dos senhores[diferente da moral construída sob a ótica dos servos e escravos], uma constante atitude de desconfiar das verdades absolutas, a clareza e a coragem de se impor para que não se torne mais um “homem-rebanho”.
Onde encontramos estas manifestações na música de Raul Seixas?
“Aumente o volume”  e confira em canções como:

Ouro de Tolo
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Eu devia estar contente/Porque eu tenho um emprego/Sou um dito cidadão respeitável/E ganho quatro mil cruzeiros por mês// Eu devia estar contente/Por ter conseguido tudo o que eu quis/mas eu confesso abestalhado/que eu estou decepcionado// Porque foi tão fácil conseguir/E agora eu me pergunto: e daí?/Eu tenho uma porção de coisas grandes/Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado// É você olhar no espelho/Se sentir um grandessíssimo idiota/Saber que é humano, ridículo, limitado/ Que só usa dez por cento de sua cabeça animal// E você ainda acredita que um doutor, padre ou policial/ Que está contribuindo com sua parte/ Para o nosso belo quadro social// Eu que não me sento/No trono de um apartamento/Com a boca cheia de dentes/ Esperando a morte chegar.

Sapato 36
[Composição: Raul Seixas. Disco: O Dia em que a Terra Parou. Ano: 1977, Gravadora: WEA]
Eu calço é 37/Meu pai me dá 36/Dói, mas no dia seguinte/Aperto meu pé outra vez/Eu aperto meu pé outra vez// Por que cargas d’águas/Você acha que tem o direito/De afogar tudo aquilo que eu/Sinto em meu peito/ Você só vai ter o respeito que quer/Na realidade/No dia em que você souber respeitar/A minha vontade/Meu pai/Meu pai.

A Lei
[Composição: Raul Seixas. Disco: A Pedra do Gênesis. Ano: 1988. Gravadora: Copacabana]
A lei do forte/Essa é a nossa lei e a alegria do mundo/Faz o que tu queres há de ser tudo da lei/Fazes isso e nenhum outro dirá não/Pois não existe Deus  senão o homem.// Os escravos servirão/Viva a sociedade alternativa/ Viva viva.

Conserve seu medo
[Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho. Disco: Mata Virgem. Ano: 1978. Gravadora: WEA]
Conserve seu medo/Mas sempre ficando/Sem medo de nada/Porque dessa vida/De qualquer maneira/Não se leva nada/E ande pra frente/Olhando pro lado/Se entregue a quem ama/Na rua ou na cama/Mas tenha cuidado.


Carpinteiro do Universo
[Composição: Raul Seixas e Marcelo Nova. Disco: A Panela do Diabo. Ano: 1989. Gravadora: WEA]
O meu egoísmo é tão egoísta/Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar/Mas não sei porque nasci/Pra querer ajudar a querer consertar/O que não pode ser//Carpinteiro do universo inteiro eu sou, assim/No final/Carpinteiro de mim

Eu sou Egoísta
[Composição: Raul Seixas e Marcelo Motta. Disco: Novo Aeon. Ano: 1975 Gravadora: Philips]
Eu sou estrela no abismo do espaço/O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço/Onde eu tô não há bicho papão não, não/Eu vou sempre avante no nada infinito/Flamejando meu rock, o meu grito/Minha espada é a guitarra na mão.

Sociedade Alternativa
[Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho. Disco: Gita. Ano: 1974. Gravadora Philips]
Viva /Viva, viva, viva a sociedade alternativa/Faz o que tu queres/Há de ser tudo da lei/Viva, viva, viva a sociedade alternativa/Viva/A lei de Thelema/Viva, viva, viva a sociedade alternativa/A lei do forte, essa é a nossa lei e a alegria do mundo/Viva, viva, viva a sociedade alternativa.

Por Quem os Sinos Dobram
[Composição: Raul Seixas. Disco: Por Quem os Sinos Dobram. Ano: 1979. Gravadora: Warner Bros]
Nunca se vence uma guerra lutando sozinho// Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz/Coragem, coragem, que eu sei que você pode mais.

Mosca na Sopa
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Eu sou a mosca que pousou em sua sopa/Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar.

Metamorfose Ambulante
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Prefiro ser esta metamorfose ambulante/Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. 

À GUISA DE CONCLUSÃO

Neste breve artigo apresentamos algumas possibilidades da presença do pensamento filosófico de Friedrich Nietzsche na obra musical de Raul Seixas.
Um artigo desta extensão não pretende esgotar tão fértil tema. Indicamos, sem falsa modéstia, veredas, neste grande sertão do conhecimento, que, posteriormente, poderão ser aprofundadas, , por outros pesquisadores.
Lembrando, como aprendemos, que o que conduz a pesquisa é a incerteza mesmo que a filosofia tenha nascido como pretensão de verdade. 
Assim como para RUSSEL[2001:374] Nietzsche foi um grande artista literário, e suas obras mais parecem prosa poética do que filosofia, para ALVES[1993:50-1], Raul tentou encorajar aqueles que se sentem acuados diante do medo da sociedade, em todo seu trabalho ele tenta mostrar que o homem é capaz de fazer o que quer se sua vontade for forte o bastante. Todas a músicas de Raul Seixas expressam a sua preocupação com a busca do EU. Elas estão voltadas para o despertar da lei do forte, da lei da vontade. Tal assim como falou Zaratustra, quando nos diz que:

Desgarrar muitos do rebanho – foi para isso que eu vim. Devem vociferar contra mim povo e rebanho: rapinante quer chamar-se Zaratustra para os pastores. Pastores digo eu, mas eles se denominam os bons e justos. Pastores digo eu: mas eles se denominam os crentes da verdadeira crença. Vede os bons e justos! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator : mas este é o criador. (NIETZSCHE, 1996: 212-13).

Nietzsche e Raul Seixas tiveram a coragem de rebatizar, cada um em seu tempo e a seu modo, o seu lado mau como o seu lado melhor, e buscaram, assim, deixar portas abertas para verdades individuais.
Assim sendo, a distância entre dois pontos, ou o sentimento de distância entre estes dois pontos, diminui, ou reduz-se, quando a dimensão de linha que antes, supostamente, os separava, serve agora, de fato, para uni-los - mesmo que as luzes sejam curvas quando dispersas em universos paralelos.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALVES, Luciane. Raul Seixas – O sonho da sociedade alternativa. São Paulo: Martin Claret, 1993.
BOEIRA, Nelson. Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
FRENETTE, Marco. O Mito Caboclo. Revista Caros Amigos Especial: Número 4 – Agosto de 1999.  Páginas 24-5.
HALÉVY, Daniel. Vida de Frederico Nietzsche. São Paulo: Editora Assunção, s/d. Tradução: Jerônimo Monteiro.
MARTON, Scarlett. Extravagâncias – ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial/Editora UNIJUÍ, 2000.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005a. Tradução: Paulo César de Souza
_____. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho.
_____. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005b. Tradução: Paulo César de Souza.
MUGNAINI JR. Ayrton. Eu quero cantar por cantar – Raul Seixas. São Paulo: Nova Sampa Editora, 1993.
PASSOS, Sylvio[Org.]. Raul Seixas por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2003.
RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental – A aventura das idéias dos pré-Socráticos a Wittgenstein. 3a ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. Tradução: Laura Alves e Aurélio Rebello.
SEIXAS, Kika e SOUZA, Tárik de. [Org.] O baú do Raul. 25a edição. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2001.




(*) Artigo publicado em Nietzscheanismos (Coleção Diálogos Intempestivos). Edições UFC, 2008. Organizadores: José Gerardo Vasconcelos, Cellina Rodrigues Muniz e Roberto Kennedy Gomes Franco. Luciano Gutembergue Bonfim Chaves é professor do Curso de Pedagogia da UVA (Universidade Estadual Vale do Acaraú, Mestre em Educação Brasileira - FACED/UFC e autor dos livros de contos Mobiles (2007) e Dançando com Sapatos que Incomodam (2002); e dos livros de poemas Beber Água é Tomar Banho por Dentro (2006) e Janeiros Sentimentos Poéticos (1992).

Um comentário:

  1. Como é interessante seu ponto de vista. O "maluco beleza" não era tão maluco assim...brincadeirinha, mas é muito saber que algumas lições são tiradas das músicas de que tanto gosto. Abraço

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