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domingo, 25 de setembro de 2011

O JAGUAR E A ALCATEIA: ADVENTO DO SOCIAL DARWINISMO DE ESTADO (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


"A Política é biologia aplicada" - Ersnt Haeckel (1834-1919)


"Às ficções de Justiça, Igualdade e Fraternidade, a política científica prefere a realidade das Forças, das Leis, das Raças e da Evolução."

Georges Vacher de Lapouge (1854-1936)
Antropólogo e teórico da eugenia

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O JAGUAR E A ALCATEIA — Em condições normais, a gravitação é a mais fraca das quatro forças da natureza (as outras três são as forças nuclear forte, nuclear fraca e eletromagnética). Entretanto, em regiões onde a densidade da matéria é extremamente elevada, a interação gravitacional apresenta-se com um poder estupendo, ao ponto de nada a deter (nem mesmo o princípio da exclusão de Pauli) [1] e nada lhe escapar — até os raios de luz são por ela aprisionados, tragados por um redemoinho cujo centro, supõe-se, é uma “singularidade”, um ponto matemático inextenso, um buraco negro na teia espaçotemporal onde as leis da física não mais se aplicam.

De modo análogo, e conforme Marx descrevera, a luta newtoniana pela riqueza – pela melhor fatia do excedente ou sobreproduto social – à qual nos referimos gera um movimento crescente de concentração e centralização do capital: um processo “natural”, automático e que tem por desfecho uma situação de colapso em que as leis do livre-mercado cessam de funcionar. Isto é, neste novo contexto, os preços das mercadorias já não são mais formados pela lei “impessoal” da oferta e da procura, uma vez que as grandes corporações capitalistas, por responderem pelo grosso ou mesmo pela totalidade da produção de determinado artigo, podem, mediante o controle da demanda (e a expensas de quaisquer outros critérios, como, por exemplo, os interesses do consumidor), estabelecer o preço que melhor lhes convém.

Essa situação instaurou-se, de fato, durante as primeiras décadas do século XX. Neste período, em que grandes conglomerados empresariais (trustes, holdings e cartéis) passaram a dominar a economia, a figura glamorosa do capitalista individual self-made man – o solitário jaguar da selva do mercado – começou a ser obliterada por um tipo novo de sujeito econômico: o capitalista coletivo das sociedades anônimas.

A substituição do capitalismo individualista pelo capitalismo corporativo deu-se de forma mais célere e completa naqueles países cujo processo de industrialização iniciou-se tardiamente, e que, para compensar a fraqueza e o atraso, tiveram que contar com uma participação mais efetiva do Estado na economia. Ou seja, devido às condições desfavoráveis tanto internas como na arena do comércio internacional, o Estado não podia se portar apenas como um gendarme.  Antes, tinha que agir no sentido de criar toda uma infraestrutura, inclusive, se necessário, atuando ele próprio como capitalista (mediante empresas estatais monopolistas e sociedades de economia mista). Entre os países que emergiram por esta via, a Alemanha é, certamente, o emblema, o exemplo mais acabado — tanto o é que, nas ciências econômicas, a expressão “via prussiana” é muitas vezes utilizada para designar processos de modernização “pelo alto”, isto é, receitas de desenvolvimento capitalista elaboradas e promovidas por um Estado autoritário ou por um concílio permanente das elites: banqueiros, potentados da indústria e do comércio, aristocratas fundiários, tecnocratas e, à frente, o aparato burocrático civil e militar.

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO COMO FATOR DE PRODUÇÃO — Um fato importante a ser ressaltado é a nova relação entre ciência e economia que se estabeleceu sob a égide do capitalismo corporativista emergente. — Se, no princípio, a indústria capitalista apenas explorava o acervo técnico pré-existente e o conhecimento científico até então acumulado – feitos e descobertas cujas fontes eram a engenhosidade lúdica, o amadorismo e a curiosidade –, com o surgimento dos monopólios/oligopólios e seus vultosos investimentos surgiu, também, a necessidade de “racionalizar” o processo de desenvolvimento científico-tecnológico; de torná-lo sistemático – isto é, não esporádico e incerto – e mais adequado aos propósitos econômicos. Assim, além da demanda capitalista por ciência e tecnologia que já existia, a partir das duas últimas décadas do século XIX passou a existir, também, uma oferta capitalista permanente (não mais uma oferta irregular advinda “de fora”) desses preciosos bens. Em síntese, a pesquisa científica, antes uma atividade extraeconômica orientada pelos paradigmas do saber clássico (humanístico), converteu-se, sob os auspícios das grandes corporações, num empreendimento integrado e subordinado ao processo mais geral de produção de mercadorias.

Nesse processo de transformação da ciência em força produtiva a serviço do capital, a Alemanha, mais uma vez, desempenhou papel de vanguarda. Realmente, como escreveu Harry Braverman:

A história da incorporação da ciência à empresa capitalista começa propriamente na Alemanha. A primeira simbiose entre a ciência e a indústria, que foi desenvolvida pela classe capitalista daquele país, demonstrou ser um dos fatos mais importantes da história mundial no século XX. Ela capacitou a nação para duas guerras mundiais, e ofereceu às demais nações capitalistas um exemplo que elas aprenderam a imitar apenas quando foram obrigadas a fazê-lo muitas décadas mais tarde. O papel da ciência na indústria alemã foi o produto da fraqueza do capitalismo alemão em seus estágios iniciais, junto com o estado avançado da ciência teórica alemã. [2]

A propósito, a Krupp – o maior conglomerado industrial alemão – foi a primeira empresa capitalista a fazer constar em seu organograma um setor de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Esse potentado estabeleceu, em Essen, o primeiro “laboratório de pesquisa industrial de iniciativa privada”, o qual se tornou modelo para os que surgiram depois em todos os países, inclusive Estados Unidos e Inglaterra.

A CIÊNCIA COMO IDEOLOGIA “HOLÍSTICA” — Essa iniciativa de estabelecer uma sociedade entre indústria e ciência não era, entretanto, estritamente pragmática, isto é, voltada exclusivamente para aquelas disciplinas científicas – sobretudo a Química e a Física – cujos conhecimentos entravam na composição dos produtos. Na verdade, tal iniciativa era bem mais ambiciosa, pois que objetivava, também, estabelecer uma cosmovisão que justificasse, no plano científico, os interesses e ambições imperialistas desse novo sujeito econômico: o “capitalista coletivo” das grandes corporações, das companhias de capital, das gigantescas “sociedades anônimas”.

O primeiro e mais forte indício dessa ambição deu-se quando, no ano de 1900, Friedrich Fritz Krupp – Senhor do Aço e dos Armamentos e voz uníssona do capitalista coletivo teutônico – patrocinou um concurso de monografias na área das ciências biológicas. Segundo John Cornwell, a intenção de Krupp “era estimular e premiar biólogos que promovessem uma nítida equivalência entre a história social e política e a influência da herança biológica”. [3] Tão claro era esse propósito que Krupp fez constar no intróito do edital que o concurso era um procedimento de busca de “uma fórmula para revitalizar as políticas conservadoras [isto é, contrárias à política socialista-revolucionária] no governo do Estado”. [4] Aliás, vale notar que uma das figuras escolhidas por Krupp para compor o comitê de organização e a banca de julgamento do prêmio foi o biólogo Ernst Haeckel, eminente discípulo de Darwin, um dos principais teóricos do racismo “científico”, autor do termo "ecologia" e da sentença "a Política é biologia aplicada". Quanto ao vencedor do certâmen, o psiquiatra Wilhelm Schallmayer, este defendia em seu ensaio políticas antiliberais e eugênicas, ou seja, “uma nação forte, assentada em princípios biológicos hereditários e com ubíqua intervenção do Estado”.

Como se vê, a nova classe capitalista – que se apresenta não mais como uma soma de sujeitos econômicos, mas como um “feixe” (fascio), um “corpo” dotado de um único cérebro – manteve do capitalismo individualista e livre-cambista precedente a sua ideologia pseudocientífica: o darwinismo social. Manteve-a, no entanto, numa forma transfigurada e adaptada às novas circunstâncias.

Com efeito, uma vez que a elite emergente consistia num sujeito coletivo – a expressão antropomórfica do Capital Social –, já não era mais conveniente dar tanta ênfase ao indivíduo, tomá-lo como a unidade exclusiva da seleção natural. Mais propícia ao novo “mundo das corporações” é a ideia – que, diga-se de passagem, não é totalmente infundada – segundo a qual a seleção estabelece a triagem não só de indivíduos mas também de coletivos – grupos, "raças"... – e, segundo uma versão light mais recente, dos igualmente “impessoais” pools genéticos.

Além do mais, o capitalismo corporativo opera no mercado internacional não apenas através da compra e venda de mercadorias, mas, sobretudo, mediante exportação de capitais. [5] Ocorre que, se uma mercadoria é paga no ato da venda ou no espaço de alguns meses, o capital investido em países estrangeiros necessita de anos, às vezes décadas, para ser amortizado. Sendo assim, é natural que as nações capitalistas exportadoras, preocupadas em minimizar os riscos, busquem estabelecer controle, de preferência de forma direta – domínio político-militar – sobre aquelas nações que constituem o seu campo de investimento. Ora, o velho darwinismo social de mercado – agora uma ideologia reacionária de outsiders e de pequenos e médios empresários – não oferece justificativa para essa relação de dominação metrópole-colônia, já que, muito pelo contrário, apregoa o liberalismo, enaltece a igualdade de oportunidades e rechaça a princípio quaisquer interferências de fatores extraeconômicos – sobretudo da violência estatal – na “luta pela existência”. Mais adequado ao novo modelo é o evolucionismo que fala em hierarquia de raças, no apto como o mais forte e na predisposição para cooperar com o próximo na guerra contra o distante (visando à defesa do território, à conquista do Lebensraum[6]) como a mais nobre das vantagens seletivas.

(Diga-se, ainda, que o racismo “científico” apologético da guerra de dominação foi assimilado com mais profundidade pelas potências imperialistas incipientes – principalmente Alemanha e Japão – que ficaram de fora da partilha do mundo em zonas de influência, realizada no período de 1880-1900, entre Grã-Bretanha, França, Holanda e Bélgica. Por terem sido marginalizadas, a luta desses jovens impérios pelo “espaço vital” deu-se não tanto de forma direta, contra as populações nativas da “periferia” do Planeta [uma vez que estas já haviam sido conquistadas]; antes, tratou-se de uma guerra “fratricida” entre capitalistas coletivos. Como, tirante o Japão, as nações beligerantes eram “brancas”, isso explica, em parte, a tentativa de identificar a elite econômica dos países imperialistas mais antigos – e somente a elite – a uma determinada raça “sem solo”, espalhada por toda a Europa, o folclórico “bode expiatório” de praticamente todos os povos cristãos daquele continente. Da tensão interimperialista surgiu, portanto, o mito do Banqueiro Judeu – uma figura diabólica, um espécime subumano patogênico, o anti-homem, enfim – que, seguindo a estratégia traçada no lendário e forjado Protocolo dos Sábios do Sião, buscava a conquista do mundo não por meios convencionais, mas de forma sub-reptícia: a apropriação da riqueza de todas as nações através da especulação, da usura, da sabotagem e da insuflação de revoluções operárias. No que diz respeito à Alemanha, esta considerava a Eurásia – o subcontinente eslavo, área de influência da Rússia – o seu “espaço vital” [Lebensraum] a ser conquistado. Por isso, após a Revolução de Outubro de 1917, os partidos políticos organicamente ligados ao capitalista coletivo teutônico passaram a considerar o “judaísmo-bolchevismo” como um dos inimigos mortais da nação alemã).

Assim, no lugar do atomismo de antanho, estabeleceu-se uma ideologia “holística”. Ou, dito em outros termos, das antigas visões mecânica e termodinâmica da relação do indivíduo com a sociedade e desta com a natureza, passou-se a uma concepção orgânica – “organicista”, para ser mais preciso – e a uma ideia de comunhão beatífica assentada nos mais naturais e primitivos dos vínculos: Blut und Boden (Sangue e Solo). [7]

De Aristóteles, resgataram o princípio de que o todo é anterior às partes; de Hegel, assimilaram a ideia segundo a qual o estado da natureza – estado de guerra permanente onde a força é a medida do direito – não está no começo, antes de um hipotético contrato social celebrado pelos indivíduos, mas no fim: na relação entre as nações; do nietzschianismo, aproveitaram, sobretudo, a noção de que o mundo é uma luta sem tréguas entre forças ativas (vontade do Poder) e forças reativas (vontade do Nada).

DARWIN: HOMEM DE UMA ÉPOCA — No que diz respeito à teoria de Darwin, dela retiveram, além dos princípios gerais (a luta pela existência e a sobrevivência do mais adaptado, erroneamente identificado com o mais “forte”), a ideia, apenas esboçada em The Descent of Man (1871), de uma evolução dos “instintos gregários” nos animais em geral e no homem em particular.

Também pinçaram das obras de Darwin, principalmente do ensaio acima citado, algumas opiniões absolutamente marginais do autor — assertivas que, longe de serem inferências necessárias das premissas de sua teoria, apenas acusam o homem “datado” e socialmente condicionado (in casu, o súdito inglês abastado da Era Vitoriana) por trás do cientista, os arraigados preconceitos da sua época e por ele assimilados de forma irrefletida.

Antes de Darwin, houve algumas tentativas de conferir ao racismo há muito existente e largamente aceito um teor científico. Dentre elas, considera-se como a mais significativa a aventada pelo diletante francês Conde de Gobineau. Em seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1855), o autor defende, como o título sugere, uma hierarquia das raças – com o estrato caucasiano ocupando o zênite da pirâmide, “obviamente” – e a ideia de que a principal força motriz da História seria a “vitalidade racial”. As ideias de Gobineau tiveram ampla divulgação na Alemanha, onde, combinadas com o misticismo pangermânico do inglês Houston Stewart Chamberlain (cuja mãe era alemã), deu origem ao mito da superioridade teutônica.

No entanto, assim como uma tela em branco apenas assinada por Salvador Dali vale muito mais ("valor monetário", ressalve-se) que um quadro de um pintor talentoso, porém pouco conhecido, pela mesma razão – ou melhor, “desrazão” – os palpites infelizes de Darwin (um Cientista com “C” maiúsculo, criador da revolucionária teoria sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou das raças favorecidas na luta pela existência) [8] contribuíram muito mais para dar a esse monturo de excrementos cerebrais a aparência de doutrina “científica” sólida.

Por mais que se tente, atualmente, desvincular Darwin da ideologia biologista promovida pelas corporações capitalistas no início do século XX (eugenia, a ideia da raça como unidade da seleção natural e da guerra como forma par excellence da luta pela existência), a verdade é que, em sua obra The Descent of Man (1871), Darwin relaxou os esfíncteres da intuição, lançando ao vento insights que endossavam a cosmovisão pseudocientífica então em voga. — cosmovisão esta que, décadas depois, a gangue de Hitler converteria num implacável “guia de ação”.

Com efeito, não é difícil encontrar, no ensaio mencionado, “sacações” à la Gobineau e Chamberlain. Por exemplo, no terceiro capítulo, Darwin tece comentários acerca das “diferenças [abissais] entre homens superiores de raças superiores e os ínfimos selvagens”. [9]

Em outra passagem da mesma obra – da qual o mínimo que se pode dizer é que encerra temerária ambiguidade – Darwin fala de um futuro extermínio das raças inferiores pelas raças superiores. Textualmente:

No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo o mundo. No mesmo período os símios antropomorfos, conforme tem observado o prof. Schaaffhausen, terão sido sem dúvida exterminados. A fratura entre o homem e os seus mais próximos afins se tornará então ainda mais ampla, visto que será fratura entre os homens, num estágio ainda mais civilizado do que aquele caucásico (é o que esperamos nós) e alguns símios inferiores como o babuíno, ao invés de ser entre o negro ou o australiano e o gorila. [10]

Quanto à forma como se daria o extermínio, Darwin sugere, no mesmo ensaio (p. 217), que “a extinção é fruto principalmente da luta entre tribos e entre raças”. E, na página seguinte, emenda: “Quando nações civilizadas entram em contato com povos bárbaros a luta é breve, exceto nos casos em que um clima duro venha oferecer um apoio aos nativos”.

Acresce dizer que, em muitos trechos, Darwin manifesta alguma concordância com as ideias de Francis Galton, seu primo, discípulo e fundador da “eugenia”: técnica pseudocientífica, supostamente baseada nas leis da genética, que propõe uma ação deliberada tendo em vista o aperfeiçoamento da raça (leia-se raça “superior”). A seguinte sentença ilustra bem essa convergência:

Nos selvagens, as fraquezas do corpo e da mente são imediatamente eliminadas; aqueles que sobrevivem, apresentam normalmente um vigoroso estado de saúde. Nós, homens civilizados, por outro lado, envidamos todos os esforços para deter o processo de eliminação; construímos asilos para loucos, aleijados e doentes; instituímos leis para os pobres e os nossos médicos exercitam ao máximo a sua habilidade para salvar a vida de quem quer que seja no último momento. (…) Desta maneira, os membros fracos das sociedades civilizadas propagam o seu gênero. Nenhum daqueles que se têm dedicado à criação dos animais domésticos duvidará que isto pode ser altamente perigoso para a raça humana. (…) Com exceção do homem, é raro que alguém seja tão ignorante ao ponto de permitir que os próprios animais piores se reproduzam”.
(…) Devemos, portanto, suportar o efeito, indubitavelmente mau, do fato de que os fracos sobrevivem e propagam o próprio gênero, mas pelo menos se deveria deter a sua ação constante, impedindo os membros mais débeis e inferiores de se casarem livremente como os sadios. [11]

Conquanto Darwin, às vezes na mesma página – quando não no mesmo parágrafo – apresente adendos com a clara intenção de não permitir generalizações precipitadas, [12] tal atitude, infelizmente, é impotente frente ao fato de que, para uma boa racionalização, meias verdades bastam.

DARWINISMO SOCIAL DE ESTADO — Como já assinalamos, o velho darwinismo social de mercado de H. Spencer & Cia. sustentava que o Estado – mormente o Estado democrático – desenvolve uma ação contrária às ações direcional e normalizante da seleção natural. Sua política assistencialista, de socialização da medicina e de amparo aos doentes (uma política, em suma, demasiadamente centrada no mote revolucionário Fraternité) estabelece condições artificiais em que, nas palavras de Darwin, “os fracos sobrevivem e propagam o próprio gênero”. Segundo os sectários dessa ideia, tal ação contrária às leis da vida conduz necessariamente à degeneração da raça e, por conseguinte, ao seu rápido extermínio.

Quanto à variante subsequente desse cientificismo, o entendimento acerca dessa questão é, em alguns aspectos, diametralmente oposto. De acordo com essa nova visão, entre os instintos gregários selecionados e retidos pela evolução figura o sentimento de simpatia pelos semelhantes. Ocorre que nós, seres humanos, tendemos a ser simpáticos até para com os mais diferentes, já que sempre é possível enxergar alguns traços comuns, uma e outra característica com a qual nos identificamos. Essa capacidade “arbitrária” de abstração com generalização produz uma versão hipertrofiada e “nefasta” do senso de simpatia: a piedade, o amor pelos fracos, a benevolência para com os espécimes inferiores. Por compaixão, impedimos que os doentes e malsãos tenham o seu destino “natural”: a morte prematura. Movidos pela caridade, amparamos e alimentamos os inaptos, o “rebotalho da raça”, permitindo que se reproduzam feito erva daninha, que se proliferem como células cancerosas.

No início dos anos 40 do século XX, o etólogo Konrad Lorenz (àquela época, um jovem cientista simpatizante do nacional-socialismo) esforçou-se para dar embasamento a esse ponto de vista: defendia ele que o processo de civilização é idêntico ao processo de domesticação; que, assim como o animal domesticado, o homem civilizado retém na idade adulta muitos caracteres infantis dos seus ancestrais; que, por se manter largamente imaturo (juvenil) durante toda a vida, o indivíduo humano não desenvolve o “salutar” instinto de rejeição que o animal maduro tem pelos espécimes mal-formados do grupo, horda ou ajuntamento gregário ao qual pertence.

Em síntese, conforme essa versão do darwinismo social, a complacência juvenil, a piedade e o amor universal – efeitos colaterais da evolução dos instintos gregários – representam fatores internos degenerativos, visto que reagem, no interior do grupo, à ação benéfica da seleção natural, minimizando ou mesmo anulando seus resultados.

Para resolver esse impasse, K. Lorenz faz descer em cena o deus ex machina idealizado por Hegel e seus discípulos de direita: o Estado ético-político. Ou seja, sendo o Estado o “corpo” da Razão (Razão que não só avalia, mas também julga), aos seus músculos devemos confiar, pois, a tarefa de neutralizar os efeitos “irracionais” da compaixão, de contrabalançar esta e outras “forças reativas” – para usar uma expressão de Nietzsche – da evolução. Vale dizer que, contra o amor romântico que protege o frágil, o inepto e o doentio, cabe ao Estado a atitude clássica de, através de uma legislação eugenística, restritiva do casamento e da procriação, impedir que a cepa deteriorada continue a “propagar seu gênero”.

Em outras palavras: como bom cidadão austro-germânico zeloso de sua estirpe, K. Lorenz propôs, sem nenhuma sombra de constrangimento, que, diante da perda da capacidade do homem civilizado de distinguir, isolar e destruir os espécimes doentes e fracos da sociedade, o Estado então passasse a exercer a função “benigna” da agressão intraespecífica. Para tanto, deveriam os políticos e a burocracia estatal instituir um sistema de leis com o objetivo de impedir não só a reprodução dos inaptos como também a mistura das raças; pois entendia ele, como de resto a maioria dos geneticistas da década – dentre os quais se destaca o “esquerdista” H. J. Muller – que as populações heterozigóticas resultantes da mestiçagem eram, em todos os aspectos, inferiores às de raça pura, predominantemente homozigóticas. Essa ideia, como demonstrou mais tarde Th. Dobzhansky, não tem o menor fundamento. — Segundo este que foi um dos fundadores do neodarwinismo, [13] o intercâmbio sexual – e, portanto, de genes – entre indivíduos pertencentes a raças diferentes incrementa a variedade genética (o polimorfismo) da população. Ora, “uma população ou espécie abundante em variedade genética pode ter um domínio melhor do complexo de ambientes do que teria uma população geneticamente uniforme [isto é, predominantemente homozigótica ou que apresenta, na maioria dos loci dos cromossomos, apenas um tipo de alelo ou alelomorfo]”. [14]

Outro importante ideólogo do darwinismo social “de Estado”, o médico Alfred Ploetz, num rompante de piedade revelou um meio de dar sentido à vida dos espécimes inferiores, qual seja: utilizá-los como bucha de canhão — propunha ele que, em caso de guerra, somente os indivíduos repositórios da tara genética fossem enviados ao Front. Ploetz, no entanto, erguendo a bandeira do pacifismo, [15] afirmava preferir outro método para o que ele denominou de “higiene racial” (rassenhygiene): a promoção, pelo Estado, de uma medicina preventiva “holística”, voltada mais para a saúde da raça do que para o bem do indivíduo.

“O NACIONAL-SOCIALISMO É BIOLOGIA APLICADA” — A culminância de todo esse embrulho pseudocientífico foi, como sabemos, o advento do III Reich na Alemanha e a grande catástrofe que se seguiu, a Segunda Guerra Mundial. Neste conflito, em que a ciência figurou, concomitantemente, como protagonista e antagonista, isto é, como vilão e mocinho, assombroso não foi apenas o número de mortos (somente na Europa, cerca de trinta milhões de vidas humanas foram ceifadas), mas sobretudo o fato de que, pela primeira vez na História, a morte foi produzida não apenas num ritmo febril, mas também de uma forma fabril. Com efeito, no complexo de campos de extermínio criado pelos nazistas, o assassínio em massa foi perpetrado do mesmo modo “racional” como se manufaturam enlatados, isto é, segundo a técnica e o critério da indústria moderna: com divisão do trabalho, cooperação, sangue-frio, sob o acicate da gerência científica e tendo em vista a quantidade pura.

Sobre a Segunda Guerra Mundial, muitos historiadores sustentam que esse conflito reuniu, de um lado, o espectro inteiro dos herdeiros do iluminismo (da violeta liberal à cor vermelha comunista) e, da outra parte, todas as nuanças do obscurantismo, todos os matizes cinzentos da Reação. Realmente, apesar dos reveses e vicissitudes, as democracias ocidentais e o socialismo constituem o verso e reverso da grande tradição racionalista que teve início na França do século XVIII, através dos trabalhos dos filósofos que formaram a célebre Enciclopédia (Diderot, D’Alembert, Voltaire etc.). Quanto ao nazifascismo, pela sua ética aristocrática, seu culto ao Estado totalitário dos césares, sua apologia da guerra, seu misticismo exacerbado… por todas essas características, esse movimento de massa representou a erupção de forças irracionais atávicas não suplantadas, mas apenas “contidas” – como o vapor d’água numa panela de pressão – pelos novos regimes que se seguiram às grandes revoluções liberal-democráticas. — Segundo Isaiah Berlin, a persistência dessas forças (sua permanente “atualidade”) indica que “o desejo de se imolar, de sofrer, de se prostrar diante da autoridade e de um poder superior seja qual for a origem deste, e o desejo de dominar, de exercer a autoridade, de buscar poder por ele mesmo [são] forças historicamente tão poderosas quanto o desejo de paz, prosperidade, liberdade, justiça, felicidade e igualdade”. [16]

Essa avaliação, entretanto, não considera que, assim como os ideólogos da Ilustração, e excetuando-se alguns grupelhos excêntricos (como a facção agrária do Partido Nazista, encabeçada por Walter Darré e da qual Heidegger foi o simpatizante mais ilustre), também Hitler e Mussolini instituíram um culto à Ciência e à Modernidade. Realmente, ao se estabelecer tal correlação e oposição, esquece-se que, na Frente Oriental, deu-se o choque mortal entre dois totalitarismos “cientificistas”; uma vez que tanto o nazi-fascismo como o bolchevismo, apesar de professarem paradigmas éticos diametralmente opostos, ambos reivindicavam para si o estatuto de “expressão política do conhecimento científico”.

Hitler, nos saraus que promovia, blasonava seu “oceânico” – i.e., “vasto e profundo” – saber científico; F. T. Marinetti, poeta fascista que escreveu o Manifesto do Futurismo (1909), glorificava o inconformismo, a invenção, a produção e a máquina; Hans Schemm, presidente da National-Sozialistischer Lehrer-Bund (Liga de Professores Nacional-Socialista), fez da paráfrase “O Nacional-Socialismo é biologia aplicada” o slogan da associação; Alfred Rosenberg, intelectual da velha guarda nazista e membro do entourage do Führer, sentenciou: "o que chamamos de 'a ciência' é criação originalíssima da raça germânica" .

A RELIGIÃO COMO NECESSIDADE NATURAL (VOLKSGEIST E O INSTINTO RELIGIOSO) — Decerto que, ao laicismo do Estado Democrático de Direito e ao ateísmo do socialismo “científico”, o nazifascismo opunha um teísmo inflamado e uma religiosidade arroubada, extasiada, “mística”. Mas… será que essa diferença é tão fundamental assim? Existirá mesmo uma incompatibilidade de princípios entre religião e ciência? Pode o pensamento conceitual substituir integralmente a mitologia ou, em vez disso, haverá sempre, na vida psíquica “saudável”, espaço para a magia e o mito? Em suma, não é razoável supor – ou pelo menos, mesmo não concordando, admitir que se trata de uma hipótese logicamente plausível – que os produtos do pensamento mágico, longe de serem meramente logros e enganos, são, na verdade, objetos fantasmáticos que satisfazem uma determinada necessidade humana universal? Caso não, então como se explica o fato de muitos ateus e intelectuais racionalistas se deleitarem com os romances “mágicos” de Gabriel Garcia Marques, com os contos surrealistas de Guillaume Apollinaire e com as fábulas – mitologias literárias – do escritor italiano Ítalo Calvino?

Qualquer indivíduo não muito estúpido ou bitolado e que goste de literatura, enquanto lê Cem Anos de Solidão ou O Barão nas Árvores, mantém desligado ou em funcionamento latente (creio que uma tomografia funcional por emissão de pósitrons pode comprovar isso) a região do neocórtex responsável pelo pensamento lógico. Procedendo assim, o leitor percepciona a narrativa apenas pelos cânones de uma álgebra semântica mais primitiva. Nesta percepção, um tapete voador, mesmo sendo algo que se sabe irreal, é “significativo”.

O teólogo e “sacerdote ateu” da Igreja Anglicana Don Cupitt observa que as histórias naturais e os mitos religiosos não existem para fornecer informações, mas para programar a mente: “Você pode passar dez anos lendo histórias para seus filhos – histórias de bruxas, gigantes, animais mágicos que falam, histórias com um aparato sobrenatural elaboradíssimo –, mas nem uma só vez os escutará reclamar da implausibilidade do que você está contanto. As crianças aceitam as histórias sem objeções, e sabem exatamente como deverão entendê-las, onde deverão arquivá-las e o que farão com elas no futuro”.[17] — E quanto às brincadeiras infantis? Um menino de dez anos, “cônscio” de que um cabo de vassoura não é um cavalo, mesmo assim coloca-o entre as pernas, batiza-o de Alazão e se põe a “cavalgar”.

Pelos mesmos mecanismos neuropsíquicos, até um cético perfeitamente são e um naturalista da estirpe de Jorge Amado – que certa vez escreveu “meu materialismo não me limita” – pode, ao se submeter aos rituais de uma determinada igreja ou durante a leitura dos relatos mitológicos da comunidade a que pertence (com a qual mantém vínculos afetivos), experimentar êxtase religioso.

Alfred Rosenberg, principal teórico do Nazismo, escreveu O Mito do Século XX. O autor define sua obra como “um estudo científico que demonstra a superioridade da raça ariana e que a cada raça está associado um impulso religioso”. Essa declaração – uma asneira reducionista sem igual – parte do pressuposto de que a cultura, longe de ser relativamente autônoma e possuir dinâmica própria, é fundamentalmente determinada pelos genes; que as diferenças culturais entre os povos se devem menos a razões históricas e à diversidade ambiental do que às diferenças genéticas entre as várias etnias que formam nossa espécie politípica. Rosenberg, entretanto, através do naturalismo obtuso que professa, confere à religião e seus deuses zoomórficos, quiméricos e antropomórficos um papel relevante, fundamental mesmo (uma função de integração social), dentro das comunidades humanas.

A assertiva de Rosenberg deixa claro que o nazismo, assim como o marxismo-leninismo, é uma variedade de cientificismo. Um cientificismo que, no entanto, não renega o sentimento religioso e que propunha até mesmo fortalecer os vínculos com a infância da raça: os ritos e mitos da floresta, as expressões espirituais do passado neolítico. Segundo a ideologia nazista, o homem é um ser natural como qualquer outro animal ou planta, sendo a crença religiosa apenas uma das necessidades “materiais” do bicho humano.

VOLTAIRE E O “GRANDE INQUISIDOR” — Aliás, alguns Estados liberal-democráticos (sobretudo monarquias constitucionais) que têm por alicerces as ideias centrais do iluminismo também expressam uma concepção análoga da relação entre Razão e Mythus, na medida em que preservam, em sua constituição, o instituto da “religião oficial” (caso do Anglicanismo no Reino Unido). Esse “neoconfessionalismo”, no entanto, é tão alegórico e destituído de poder quanto o próprio monarca, uma vez que, além de não proibir a liberdade de culto, restringe-se aos aspectos litúrgicos da religião hegemônica e não à doutrina — desta, a tutela estatal recai apenas sobre aqueles princípios éticos gerais compatíveis com o pluralismo e o racionalismo; como, por exemplo, o princípio da igualdade entre os homens, “já que todos somos filhos de um único Deus”.

Quanto ao nacional-socialismo, devido aos seus fundamentos ideológicos (o nacionalismo exacerbado, as crenças na desigualdade entre os homens, na existência de raças superiores e na guerra como a “mãe da História” - para o marxismo-engelsianismo, a violência é apenas "parteira" ), é ele incompatível com qualquer religião de cunho universal. Por isso, em razão desses princípios, Rosenberg e seus sequazes defendiam que somente uma religião “nacional”, no caso o paganismo das tribos germânicas – seja em estado quimicamente puro ou então combinado com um cristianismo “germanizado” – haveria de receber a tutela do Estado, de ser erguido à condição de culto oficial.

Com efeito, em 1920, o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialistas Alemães propôs, num manifesto de 24 pontos, que, como religião de Estado, fosse adotado um cristianismo positivo e condizente com o impulso religioso do povo germânico. Por que “positivo”? — Porque o Cristo a ser cultuado deveria ser o Cristo vivo que trouxe a espada (Mateus 10:34), e não o Jesus morto e crucificado do cristianismo universalista. Posteriormente, após iniciada a Guerra, Rosenberg publicou um programa de 30 pontos para a Igreja Nacional do Reich. Nesse programa, o ideólogo nazista sugere medidas paradoxais, como, por exemplo, a proibição da circulação e difusão da Bíblia (uma vez que o cristianismo positivo repugna todo o Velho Testamento e boa parte do Novo, sobretudo os escritos de S. Paulo), sua substituição pelo Mein Kampf e a remoção da cruz dos locais de culto, colocando em seu lugar a cruz gamada e a espada. Quanto à figura de Jesus, obviamente que o cristianismo “nazi” renegava a sua ascendência judia: seus adeptos sustentavam que Jesus teria sido filho de um soldado romano que fora enviado à Palestina; logo, um ariano.

Vimos, pois, que o nazismo reuniu num mesmo saco o iluminismo de Voltaire (que afirmou ser o homem religioso por natureza) e o cristianismo do “Grande Inquisidor” (Dostoiévski, Os Irmãos Karamázovi). [18] E, ao realizar tal proeza, desvelou ao mundo algo terrível: que a ciência, convertida num Absoluto (num deus ex machina com o poder, inclusive, de fabricar os “fins últimos”), pode se revelar um pensamento autodestrutivo, um instrumento da loucura, uma força capaz de aniquilar a Razão.


BULCÃO NETO, Manuel Soares. Sombras do Iluminismo. Rio de Janeiro: Ed. 7Letras, 2006, pp. 63-81. — Nova versão.



[1] De acordo com o princípio da exclusão de Pauli, partículas idênticas de spin meio integral (caso dos elétrons, prótons e nêutrons) não podem – nos limites estabelecidos pelo princípio da incerteza – ter a mesma posição e a mesma velocidade.
[2] Harry Braverman; “Trabalho e Capital Monopolista: A Degradação do Trabalho no Século XX”; Ed. Guanabara; 3ª edição; Rio de Janeiro – RJ; p. 140.
[3] John Cornwell; “Os Cientistas de Hitler”; Imago; Rio de Janeiro – RJ; 2003; p. 72.
[4] John Cornwell; op. cit.; p. 73.
[5] “Os monopólios não podem controlar os mercados monopolizados sem que nestes limitem o crescimento da produção e, portanto, a acumulação do capital. Mas, por outro lado, esses mesmos monopólios dispõem de capitais abundantes, graças sobretudo aos sobre-lucros monopolísticos que realizam. A época imperialista do capitalismo caracteriza-se, pois, pelo fenômeno do excedente de capitais, nas mãos dos monopólios dos países imperialistas, que buscam novos campos de investimentos. A exportação dos capitais torna-se assim traço essencial da era imperialista” — E. Mandel; Introdução ao Marxismo; Ed. Movimento; 4ª edição; 1982; Porto Alegre – RS; p. 45.
[6] Hitler, parodiando Malthus e Darwin, escreveu no Mein Kampf que “enquanto os instintos vitais de conservação e de reprodução são ilimitados, o espaço é limitado, e a guerra [a disputa pelo “espaço vital”: lebensraum] se torna inevitável”. — Ver Alcir Lenharo; Nazismo: O Triunfo da Vontade; Ed. Ática; São Paulo – SP; 1986; p. 73.
[7] Blut und Boden era o lema da facção agrarista do Partido Nazista, liderada por Walter Darré.
[8] Este é o título completo da obra principal de Darwin, A Origem das Espécies.  Nota-se aí, na expressão “raças favorecidas na luta pela existência”, uma absorção pelo autor do miasma racista que contaminara a “noosfera” do século XIX.
[9] Charles Darwin; A origem do homem e a seleção sexual; Curitiba: Ed. Hemus, 2002, p. 84.
[10] Darwin; op. cit.; p. 188.
[11] Darwin; idem; p. 162.
[12] Por exemplo, na obra mencionada, Darwin também fala em “absorção” (não em destruição) da tribo mais fraca pela mais forte (pág. 218).  E, no mesmo parágrafo, refere-se à possibilidade, respaldada em fatos, de uma extinção não violenta: “uma tribo mais fraca (…) uma vez iniciada sua involução, a mesma vai lentamente minguando, reduzindo-se, até extinguir-se”.
[13] O neodarwinismo é a síntese teórica entre as ideias de Darwin, a genética mendeliana e a biologia molecular. - Postscriptum: Diga-se, a bem da verdade, que a expressão correta que designa essa síntese é "Teoria sintética da evolução". O termo "neodarwinismo", cunhado por Romanes (1894), é como o evolucionismo de Darwin-Wallace ficou conhecido após sua depuração, em 1883. por August Weismann: sua tese da dualidade germoplasma-somatoplasma excluiu de vez do darwinismo a herança lamarckiana dos caracteres adquiridos, expressa na hipótese das "gêmulas", sugerida pelo prórpio Darwin. (Ver MAYR, Ersnst. Biologia, ciência única. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 134-135.)
[14] Theodosius Grigorievich Dobzhansky; “O Homem em Evolução”; Editora Polígono S/A; São Paulo – SP; 1968; p. 320. Ver também, na mesma obra, os trechos em que o autor comenta sobre heterose, vigor híbrido e polimorfismo equilibrado (pp. 168, 172, 321 e 351).
[15] Pelo seu discurso antiguerra, Ploetz foi indicado, sem êxito, para o prêmio Nobel da Paz. Hitler – que o nomeara, em 1936, para uma cátedra na Universidade de Munique –, encantado pela retórica do clínico-geral, chegou a declarar perante o parlamento alemão (maio de 1935) que “toda guerra vai contra a seleção dos mais capazes”, razão pela qual os nacional-socialistas são “profunda e filosoficamente comprometidos com a paz” (ver J. Cornwell, op. cit., pp. 79/80).
[16] Isaiah Berlin; “Limites da Utopia (Joseph De Maistre e as origens do fascismo)”; Ed. Companhia das Letras; São Paulo – SP; 1991; p. 135.
[17] Don Cupitt; “Depois de Deus: O Futuro da Religião”; Ed. Rocco; Rio de Janeiro; p. 53.
[18] Por isso, Jeffrey Herf o qualificou como um “modernismo reacionário”.


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