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sábado, 3 de setembro de 2011

O ANTIJUDAÍSMO DO JUDEU DE TRIER (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Karl Marx (1818-1883)

“[…] a teoria de Marx de como a história, a classe e a produção funcionam, e se desenvolverão, não é essencialmente diferente da teoria luriânica cabalista da Idade Messiânica, em especial tal como emendada por Natan de Gaza.” (Paul Johnson, História dos Judeus)





Foi de fato Karl Marx, o pai do socialismo científico […], que fez o antissemitismo mudar de aparência, de antiquada para avançada. […] Marx aceitou a afinidade eletiva entre o “espírito do judaísmo” e o do capitalismo; ambos destacavam-se por promover o interesse pessoal, pechinchar e correr atrás do dinheiro. Ambos tinham que ser tirados do caminho para que a convivência humana se fizesse em base mais sadia e segura.

Zygmunt Bauman

Se a situação dos judeus melhorou um pouco na alvorada da Era Contemporânea, logo veio a piorar. Decerto que, como afirmou Marx, “a História não se repete”, a não ser como farsa e – ressalvo – no seu estilo irônico de se manifestar. Realmente, a História é chegada ao humor negro e com frequência perde o sentido só para não deixar escapar a piada. Prova disso é que, entre as causas do agravamento da discriminação dos judeus no decorrer do século XIX destacam-se os pensamentos antijudaicos de um judeu ateu, cosmopolita, monstruosamente culto, apaixonado pela ciência, antirracista e que, ainda naquele século, viria a se consagrar como principal ideólogo do movimento operário revolucionário. O nome completo desse judeu é Karl Heinrich Marx (1818-1883).
Diga-se, antes de tudo, que desde a Segunda Diáspora até o momento atual as comunidades judias de todo o mundo são bastante heterogêneas, e que seus membros nem sempre encaram com tolerância e bom humor suas diferenças internas. Com efeito, nessas comunidades coexistem, atualmente, judeus laicos, isto é, que não professam a fé judaica; judeus ateístas antijudaístas; rabinos não teístas e que não creem que os judeus sejam o povo escolhido – o rabinato da corrente “reconstrucionista”, fundada em 1922 –; judeus de esquerda que propugnam a destruição do Estado “hebreu-apartheid” em prol de um Estado laico na Palestina; e judaístas ultraortodoxos antissionistas – caso dos Neturei Karta: grupo judeu que se opõe ao Estado de Israel por considerar a Diáspora um castigo de D’us e a intenção de fundar este Estado (sem a intervenção direta do Mashiach) como uma heresia, uma afronta à vontade divina (os membros dessa seita chegam a justificar o Holocausto, afirmando que o mesmo foi uma punição divina contra o povo judeu por ter este adotado o sionismo como ideologia).
Ora, a elucubração de Marx acerca do judaísmo é apenas uma ilustração entre outras dessas dissensões intestinas. No caso do ideólogo maior do comunismo, porém, há agravantes. É que esse judeu nascido em Trier, além de reduzir os judeus a um “tipo ideal”, reservou ao judaísmo um lugar central na superestrutura ideológica do capitalismo e na incômoda condição de principal antagonista – no campo das ideias, frise-se – da fase do desenvolvimento histórico que preludia a revolução socialista.
Segundo Marx, a História tem um sentido, pois que se trata de um processo que, regido por leis naturais – a lei da unidade “contraditória” entre as forças produtivas materiais e as relações sociais de produção – e dinamizado pela luta de classes, avança “inelutavelmente” do “reino da necessidade” para o “reino da liberdade”: o comunismo. “É quando então começa a verdadeira História.” — Para Marx, sob o império da necessidade, os homens, sejam eles exploradores ou explorados, são apenas títeres movimentados, através de fios invisíveis, por forças econômicas “coisificadas”, sobre as quais não têm nenhum controle, razão pela qual até então a História, malgrado seja um movimento material orientado por uma seta, vem se desdobrando de forma inintencional, o que a caracteriza como uma pré-história. Quando os títeres, enfim, se reapropropriarem dos seus produtos – materiais e intelectuais – antes “alienados”, os fatos históricos passarão a ser intencionais, ou seja, produtos deliberados e consensuais de todas as vontades individuais. Neste momento, os homens ultrapassarão a linha que separa a pré-história (reles extensão da história natural que, por meio de mecanismos cegos, de física tornou-se química e, depois, biológica) da História propriamente humana.
Marx não só “teria descoberto” a racionalidade histórica e o seu caráter progressista; mas também, supostamente orientado apenas pela razão científica – isto é, não por valores morais ou interesses econômicos – aliou-se ao que ele supunha ser o atual protagonista do “Progresso”, a saber, o proletariado fabril, a classe trabalhadora que irá por fim à última forma antagonística de organização social, o modo de produção burguês moderno, instaurando, assim, o comunismo. — Acreditava ele que, ao introduzir no movimento operário sua “ciência” da História (e, portanto, toda a tecnologia de engenharia social que, a partir desse conhecimento científico, se pode criar), estaria contribuindo para “abreviar […] as dores do parto.”[1]
Sendo um aliado da classe trabalhadora, concebia o trabalho material produtivo como a mais essencial de todas as práxis e esta como o fundamento, o critério da verdade e a finalidade do conhecimento. Por isso, predispunha-se contra a visão judia, tal como exposta no Pentateuco, do trabalho manual; isto é, o “comerás o pão com o suor do teu rosto” como maldição divina: “[…] maldita seja a terra por tua causa, tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (GÊNESIS 3, 17 e 19). Também por esta razão, admoestava os intelectuais que superestimavam a atividade teórica a expensas da atividade prática – como o fez contra Feuerbach, que, “em A Essência do Cristianismo, considera apenas o comportamento teórico como autenticamente humano, enquanto que a práxis só é apreendida e fixada em sua forma fenomênica judaica e suja” (o negrito é meu)[2].
Os judeus, ainda segundo esse judeu de Trier, devido à sua condição de questionadores de Cristo como Messias – i.é, por serem eles a “dúvida incorporada à origem religiosa do cristianismo”, é o que se lê em A Questão Judaica –, eram impedidos de se integrar nas nações cristãs (nos feudos e nas guildas artesãs), pelo que tinham que sobreviver nas fendas do sistema feudal, primeiro como negociantes e mercadores ambulantes e, uma vez locupletados, como usurários, chegando mesmo à condição de banqueiros a serviço da alta nobreza e até da Casa Real (essa relação que veio a se estabelecer entre a fortuna judia e o poder temporal alimentou sobremaneira o antijudaísmo não só da massa dos produtores gentios oprimidos e do clero como, também, dos nobres e reis endividados, desejosos de se livrarem dos seus credores de um jeito ou de outro).
Os empreendimentos mercantis, por se desenvolverem ao largo da produção, isto é, apenas na esfera da circulação dos produtos, eram supostamente considerados pelos próprios judeus como os mais adequados aos valores judaicos, haja vista a concepção pentatêutica do trabalho manual como atividade sórdida, aflitiva, indigna do povo eleito e a ser explorada com fins meramente utilitários.
Além disso, para o mercador, que somente compra para revender com lucro comercial, a utilidade dos produtos dos seus fornecedores camponeses e artesãos se acha subordinada ao valor de troca desses mesmos produtos, de sorte que, se não são lucrativamente vendáveis, então nada valem. Essa atitude, de acordo com o jovem autor do opúsculo A Questão Judaica – que bem poderia ter por título “A Ética Judaica e o Espírito do Capitalismo” –, seria mais rígida no mercador judeu; pois, se o judaísmo “converte até mesmo o vaso sanitário em objeto de lei divina” (sic), sacraliza com muito mais razão o dinheiro, esse equivalente universal de todas as coisas, capaz de tudo comprar, bem como o valor monetário que anima tudo que existe (consoante as palavras desse que foi o mais brilhante hegeliano de esquerda, “na religião hebraica […] os próprios nexos da espécie […] convertem-se em objeto de comércio: a mulher é negociada”).
Ora, a onipotência – da moeda – e a onipresença – do valor monetário – não são outras coisas que atributos de IHWH. Destarte, “o dinheiro é o Deus zeloso de Israel…”, “o Deus dos judeus se secularizou…”, “a letra de câmbio é o Deus real do judeu. Seu Deus é somente a letra de câmbio ilusória”. E, com chave de ouro, arremata: “o judeu se tornará impossível tão logo a sociedade consiga acabar com a essência empírica do judaísmo, com a usura e suas premissas [i.é, o capitalismo e o mercado]. […] A emancipação social do judeu é a emancipação da sociedade do judaísmo.”[3]
Em síntese, conforme o jovem Marx (ainda nos cueiros do idealismo hegeliano), o capitalismo é judaísmo secularizado, vale dizer, o desenvolvimento do capitalismo é, em larga medida, produto dessa religião.  E se o capitalismo industrial surgiu numa nação cristã com um número insignificante de judeus (em 1290, Eduardo I expulsou toda a comunidade judaica da Inglaterra, e a mesma só foi readmitida legalmente em 1698 sob o reinado de Guilherme III), isso se deu porque, tendo “o cristianismo brotado do judaísmo”, e uma vez que “o cristão foi, desde o primeiro instante, o judeu teórico”, logo, ao se tornar prático, o cristão “se faz novamente judeu.”[4] A moral da história é que o movimento operário, em sua luta “progressista” contra o capitalismo, deve necessariamente travar combates contra as religiões, mas, sobretudo, contra o judaísmo – tanto o “sabático” como a sua manifestação atávica: o cristianismo prático, melhor representado pelos puritanos e calvinistas.
Em outra obra, escrita em coautoria com Friedrich Engels, A Sagrada Família (1844), Marx fala de um “judaísmo real, laico […], constantemente engendrado pela vida burguesa atual” e que “encontra seu acabamento perfeito no sistema monetário” (negrito meu). Acrescenta, ainda, que o “judeu real” – principal agente do “judaísmo real, laico” – é o “judeu ativo dos dias de trabalho” e não o “judeu hipócrita do sábado”[5]. Ora, o que pode ser esse “judaísmo real, laico” (i.é, a versão laica da religião nacional dos judeus), a não ser pura e simplesmente semitismo (“semitismo dos judeus”, friso, já que os árabes também são semitas)? E que a luta prático-teórica contra esse semitismo é mais antissemitismo do que propriamente antijudaísmo?
(Observo que, em sua definição do “judeu real”, o judeu secular Marx não considera o grande número de judeus ortodoxos pobres (camponeses e trabalhadores em manufaturas) dos shtetls[6] da Letônia, Polônia, Ucrânia, Bessarábia e Hungria; bem como o fato de que, na França do século XIX, a maioria dos judeus asquenazes [judaístas devotos em sua maior parte] era constituída de artesãos e operários “piolhentos”[7], moradores do bairro proletário parisiense do Marais.)
Demais, na mesma página, Marx escreve que “o judaísmo prático não atingiu a sua perfeição a não ser no mundo cristão perfeito, sendo, em suma, a prática acabada do próprio mundo cristão”. Bem, se o cristianismo prático é, segundo o autor, tão-somente uma forma de “judaísmo real, laico”, dessa asserção se pode inferir que um judeu convertido à religião cristã continua o mesmo judeu com seu judaísmo laico. Somente um passo separa tal inferência da teoria conspiratória antissemítica da “ambiguidade e ubiquidade do judeu ou do semitismo” (a propósito, Marx também afirmou que o mundo burguês atual é “judeu até o fundo do coração” [ibidem]): que o judeu permanece judeu independentemente do credo a que se converteu, pois que se trata de uma raça que contamina tudo com seu geist (espírito) judaico.
Não é, pois, de se admirar que Werner Sombart, um intelectual protonazista anticapitalista, tenha se apropriado do vocabulário teórico de Marx para fundamentar seu antissemitismo.
* * *
Esse antijudaísmo de Marx foi, sem dúvida, desastroso para o movimento operário politicamente organizado. Como se não bastasse a existência, nas hostes do socialismo, desde muito tempo, de um e outro racista por ressentimento – Bakunin, expulso por Marx da Associação Internacional dos Trabalhadores, atribuía a “maldade” do seu desafeto ao sangue judeu – ou por convicção “científica” – caso do Herr Eugen Dühring – ou por qualquer outro motivo irracional – Ernest Granger conduziu a maioria dos seguidores do comunista pré-marxista Auguste Blanqui ao nascente movimento nacional-socialista –, o ranço antijudaico de Marx contribuiu sobremaneira para fomentar ideias protorracistas no seio da Segunda Internacional, organização criada pela sua corrente em 1889. Com efeito, nada menos que August Bebel, membro fundador da II Internacional e dirigente da socialdemocracia alemã, chegou a tecer elogios rasgados aos vitupérios antissemíticos de Dühring. — Com relação ao tratamento a ser dispensado aos judeus, o socialista de esquerda Eugen Dühring emitiu um parecer incontroversamente genocida: “não deveriam ficar inibidos por qualquer escrúpulo, e sim usar os mais modernos métodos de desinfecção.”[8]
As ideias explanadas em A Questão Judaica, na I Tese sobre Feuerbach e em A Sagrada Família foram, também, húmus da mais venenosa erva em várias seções da III Internacional marxista-leninista, mormente no PCUS durante as lutas internas que culminaram no assassinato, pela facção stalinista, de quase toda a velha guarda comunista. Colaborou para dar novo corpo ao fantasma dos pogroms da velha Rússia czarista. De fato, depois que a teoria do “socialismo em um só país” (nacional-socialismo de esquerda?) tornou-se o programa oficial, deu-se início uma campanha contra os “judeus antimujiques”, “objetivamente” estrangeiros por se oporem ao “socialismo nativo e autenticamente russo”. As células dos trabalhadores do Partido foram tomadas por agitadores antissemitas e, no período de uma década e meia, quase todos os bolcheviques de origem judaica foram assassinados, entre eles Trotski, Kamenev, Zinoviev, Radek e Sokolnikov.
Pois, nas palavras de Isaac Deutscher, “embora fossem totalmente ‘assimilados’, russificados e hostis à religião judaica como a qualquer outra e hostis também ao sionismo, ainda assim estavam marcados pela condição de judeu”, dela preservando um aspecto fundamental: a qualidade de “cosmopolitas sem raízes” – qualidade que, naturalmente, os indispunha contra o chauvinismo grão-russo: ideologia muito mais adequada ao projeto de construção do socialismo em um só país, e que, por isso, ocupou o lugar do internacionalismo proletário[9].
Aliás, no ano de 1947, uma campanha “anticosmopolita” (com esse termo mesmo) foi oficializada por Stalin, conduzida com histeria pelo Pravda e direcionada, quase exclusivamente, aos intelectuais e cientistas judeus. Milhares perderam o emprego, sofreram humilhações públicas, foram sumariamente presos, submetidos a torturas e executados.
A mais bizarra campanha antissemítica na URSS stalinista, porém, foi urdida em janeiro de 1953 e ficou conhecida como o “complô dos médicos”. O Pravda e a Agência de Notícias TASS alardearam “provas incontestáveis” de que médicos judeus já haviam assassinado muitos dirigentes soviéticos e que planejavam a morte dos demais, inclusive a de Stalin. E foram além: alegaram que o complô seria parte de uma conspiração judaica internacional contra o socialismo, orquestrada pela “Joint” (American Joint Distribution Committee), mera fachada, segundo o jornal, para uma organização sionista de espionagem. O órgão oficial do PCUS estampava diariamente em sua primeira página notícias como estas: “os judeus são uma quinta coluna secreta, conspirando para a queda da URSS”; “o complô era tão complexo que somente as ‘mentes diabólicas’ dos judeus poderiam tê-lo concebido”… A absurda campanha terminou com a abrupta morte de Stalin, em março de 1953. Até hoje não se tem certeza do que gerou este episódio: teria surgido a partir dos delírios de um ditador paranoico e brutalizado pela solidão do Poder? Há quem sustente, entretanto, com base em provas documentais, relatos de testemunhas e pesquisas realizadas nos arquivos da extinta KGB, que havia mesmo um complô. Na verdade, uma trama secreta armada pelo Politburo contra toda a comunidade judia soviética e que não se deteria com a condenação dos médicos. Aventa-se mesmo que a morte súbita do tirano abortou a “versão stalinista da Solução Final”, uma reedição do Holocausto (Sobre esta última hipótese, ver o livro de Jonathan Brent e Vladimir Naumov)[10].

BULCÃO NETO, Manuel Soares. A eloquência do ódio: reflexões sobre o racismo e outras alofobias. São Paulo: Livropronto. 2009, 124-131 pp.


[1] MARX, Karl. O Capital – volume I, prefácio da primeira edição. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 13.
[2] Teses sobre Feuerbach I, in MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: HUCITEC, 1986, p. 11.
[3]  Excertos tirados de MARX, Karl. A Questão Judaica. São Paulo: Editora Moraes [s.d.], pp. 58-60 e 63.
[4] MARX, Karl.  Idem, p. 62.
[5] MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A Sagrada Família. São Paulo: Editora Moraes, 1987, p. 109.
[6] Shtetl: vilarejo, pequena cidade ou bairro judeu na Europa oriental.
[7] Ver FÉRENZY, Oscar. Os Judeus e Nós Christãos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939, pp. 16-17.
[8] SARTRE JP. Reflexões Sobre o Racismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1954, p. 129, citado por PÓVOA Carlos Alberto. A Propósito do Antissemitismo. Revista Notícias de Israel, junho de 2003.
[9] Ver DEUTSCHER, Isaac. Trotski: O Profeta Desarmado: 1921-1929. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p. 279.
[10] BRENT, Jonathan e NAUMOV, Vladimir. Stalin’s Last Crime – The Plot Against the Jewish Doctors: 1948-1953. HarperCollins Publishers, 2003.


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