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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ANTI-HUMANISMO E SEUS BODES AMOROSOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Karl Marx (1818–1883), Friedrich Engels (1820–1895), and Marx's daughters: Jenny Caroline, (1844–1883), Jenny Laura, (1845–1911), and Jenny Julia Eleanor (1855–1892)

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“O AMOR não é o amor de Feuerbach pela Humanidade, nem o amor de Moleschott pelo Metabolismo, nem sequer o amor ao Proletariado, mas o amor pela bem amada, o amor por ti, permite ao homem tornar-se novamente homem.”

KARL MARX em uma carta para sua esposa JENNY
(Manchester, 1856)

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“Ideias, símbolos, espíritos e deuses dispõem não só de uma realidade subjetiva, mas também de uma certa autonomia objetiva. Produzidos pelos cérebros, tornam-se vivos de um tipo novo, e os cérebros, sendo sistemas fracamente controlados, são como aprendizes de feiticeiros em relação àqueles seres”.

Edgar Morin





O ovo: razão de ser da galinha

Depois que Richard Dawkins esboçou a teoria dos memes – a hipótese de que as idéias são seres autônomos autorreplicadores cujo hábitat é o cérebro humano –, tem gente falando por aí que um erudito não passa de um artifício que uma biblioteca usa para produzir outras bibliotecas. Trata-se de uma versão original daquela frase disparatada de Samuel Butler, “uma galinha é um meio que um ovo usa para produzir outros ovos”, assertiva que tem servido como metáfora para o darwinismo atomista atualmente em voga. Segundo esta escola da teoria sintética da evolução (também conhecida como “ultradarwinismo”), é a preservação dos genes a razão última da nossa existência, isto é, todos nós – animais, plantas, fungos e micróbios – nada mais somos que “veículos-robôs cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas pelo nome de genes”.

Mas essa hipótese científica de que não somos senhores do nosso próprio destino não é assim tão nova. No final do Século XIX, o alemão August Weismann já a teria formulado em outros termos. De acordo com este biólogo, o corpo do indivíduo, por ele denominado “somatoplasma”, é tão-somente o veículo dos seus próprios gametas ou plasma germinativo. Como aquele soldado de Maratona, somos mensageiros programados para sermos mais rápidos que o princípio universal da degradação da energia, dispostos a tudo para proteger e transmitir a informação que trazemos conosco e que, depois de cumprida a missão, nada mais nos resta a não ser ficar à toa e, conforme a canção de Raul Seixas, “com a boca escancarada esperando a morte chegar”.

A produção e o progresso material como um fim e si mesmo

Mesmo antes de Weismann, outro alemão, desta vez um economista e filósofo, dissera algo semelhante. Em sua análise da economia capitalista, Karl Marx demonstrou que o “Homo oeconomicus” não é outra coisa que um instrumento de que uma fábrica se vale para produzir outras fábricas. Com efeito, no capitalismo verifica-se algo muito estranho: o grosso da demanda agregada – sem o qual não haveria, neste mercado centrado no lucro, um equilíbrio oferta-procura de longo prazo – não é constituído pelo conjunto das demandas individuais por bens de consumo, mas pela demanda intercapitalista, ou seja, a demanda dos capitalistas por bens de capital produzidos por outros capitalistas: máquinas-ferramentas e matérias-primas para a fabricação de máquinas-ferramentas.

Uma enorme fábrica de fabricar fábricas de fabricar mais fábricas até a eternidade. É nisso que consiste o sistema capitalista. E as pessoas, os trabalhadores principalmente, o que representamos nisso tudo? Somos as reses de um gado humano não muito diferente do bovino, do caprino, do ovino e do suíno; somos o apêndice orgânico de uma estrutura mecânica. A propósito, há quem sustente que o mal que hoje acomete a economia globalizada é apendicite aguda.

O capitalismo é um animismo

Durante toda a história, os homens têm sido meios a serviço de um fim que os transcende: correia de transmissão da Tradição, vassalos dos ancestrais mortos, escravos de Deus, instrumentos de uma Razão-de-Estado ou ferramentas para a construção de um glorioso projeto coletivo.

Ora, e o que é a ética capitalista, essa herança calvinista, a não ser uma moral da velha cepa (religiosa no sentido estrito do termo) que pressupõe a total submissão do homem a um Absoluto, no caso, devoção absoluta ao totem-dinheiro, sujeição à acumulação pela acumulação de riqueza ad aeternum ou, segundo Geoffrey Kay, rendição à “busca irracional da quantidade pura”?

Pela ótica do capitalismo, todas as coisas têm um valor monetário (o dinheiro é o equivalente universal, algo a qual tudo é redutível) e é esse valor que as consagra, que as sacraliza. Tudo mais é profano.

Está claro que não existe diferença substancial entre o onipresente “valor monetário” e o sobrenatural maná dos melanésios, o prana dos hindus, o chi dos chineses, o axé dos cultos nagôs, o Ele dos antigos hebreus, o manitou dos nativos da América do Norte, o arung-quitta dos aborígines australianos, o Espírito Santo das seitas pentecostais e muitos outros “ânimos”.

O imaterial valor monetário é algo que se transmite ora por meio do ouro, ora através de moeda escritural ou então mediante papel-moeda, o qual pode ser dólar, libra, real, euro, iene… No processo de troca capitalista, o valor monetário global não só se mantém como se reproduz ampliadamente:

Dinheiro ® Mercadoria ® Dinheiro + dinheiro ® Mercadoria + mercadoria’ ® Dinheiro + dinheiro’ + dinheiro’’ ®

Parece até algo vivo, autorreplicante – feito um vírus – e cujo caldo nutritivo é esse mercado universal onde os próprios homens figuram como uma mercadoria entre mercadorias, como um meio entre outros de reprodução da riqueza abstrata. [1]

Aliás, não raro o valor monetário se comporta como uma entidade mística ou mágica que, mediante manipulação alquímica de bruxos especuladores, infla, cresce ou some miraculosamente.

A magia de contágio do dinheiro também se manifesta em sua capacidade de converter contrários uns nos outros, de transformar determinada qualidade humana naquela que lhe é oposta; isto é, subvertendo a lógica, o dinheiro identifica A com não-A. Sobre esse poder mágico, Shakespeare escreveu:

“Que é isso? Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso? (…) Um pouco disso tornaria o preto, branco; o feio, belo; o injusto, justo; o vil, nobre; o velho, novo; o covarde, valente.” (Shakespeare; Timon de Atenas).

Mais espaço entre as grades

Talvez eu esteja exagerando, considerando um “tipo ideal” e não o capitalismo tal como se manifesta concretamente. Mas uma coisa é certa: se não fosse a democracia, o Estado de Direito Democrático que condiciona a busca do lucro e progressivamente estende a todos os benefícios da civilização, a realidade seria esta que acabei de descrever. O que não quer dizer que a democracia um dia irá destruir a jaula. Não. A democracia apenas abre mais espaço entre as grades, o que já é um grande progresso. É, se não se pode escapar do inferno, então que se busque uma sombra, um abrigo para a soalheira, onde o calor infernal é menos causticante.

E não pensem que será o amor à Humanidade – esse ídolo do paganismo cosmopolita – que um dia nos resgatará desse servilismo, que nos fará superar essa alienação. Pois a Humanidade (escrita assim, com “H” maiúsculo) não passa de uma abstração, um meme a mais. E em nome desta abstração, isto é, pelo bem do Homem-genérico, dezenas de milhões de homens concretos, singulares e de carne e osso já foram sacrificados, aviltados, assassinados, sobretudo no decorrer do Século XX.

Bodes expiatórios e bodes amorosos

É regra que as pessoas, para permanecerem urbanas e gentis com os seus vizinhos e em paz consigo mesmas, concentrem todo o ódio que resulta de suas frustrações num bode expiatório: os negros, os judeus, os estrangeiros, os fumantes, os gays ou qualquer outra categoria humana que sirva para simbolizar o “Outro”.  Por outro lado, há muitos indivíduos pérfidos que, para calar a voz da consciência e justificar sua prática contumaz de vilanias, elegem um “bode amoroso” em cujo altar tudo é sacrificável. O bode amoroso (expressão inventada pelo escritor Robert Musil e que consta em su obra Homem sem qualidades) tem que ser algo grande, do tamanho do narcisismo de quem o cultua, para que, diante dele, tudo pareça insignificante e desprezível. Como, por exemplo, a Liberdade, álibi preferido dos mais concupiscentes, entre os quais esses que almejam transar com todo mundo inclusive, e, sobretudo, com a mulher do amigo, apenas por ser a mulher do amigo.  Mas esses são de longe os menos perigosos, pois, se seu comportamento é absolutamente ditado pelo id, o instinto que domina o seu id é a sexualidade, a pulsão da vida (se bem que, entre os primatas, sexo e poder amiúde se combinam). Muito piores são aqueles dominados pela paixão que tudo nega – e que, segundo Mefistófeles, “nega com razão, pois tudo que existe ruma devagar para a destruição, melhor que jamais tivesse existido” –, ou seja, esses que têm o comportamento regido pelo anelo da morte, Tânatos. Destes, os bodes amorosos preferidos são três: a Pátria, Deus (ou sua versão laica, a Razão) e a Humanidade.

Razão para viver ou motivo para morrer?

Sobre a macacada patriótica e seu rugido oligofrênico ein Volk, ein Reich, ein Führer!, nem é preciso comentar. Quanto a Deus, obviamente que não se trata do Deus de Abraão, de Jesus Cristo e Maomé, de Santo Agostino e Spinoza. É ao Deus de Torquemada, do saboiano Joseph De Maistre e dos mujahedins de Osama Bin Laden que agora me reporto. Ou seja, refiro-me ao “Supremo Juiz” que delega a assassinos a Sua Onipotência e Onisciência; reporto-me a essa Infinita “Bondade” que não é razão para viver, mas motivo para matar e morrer — o escopo da ação dos fundamentalistas camicases (do japonês: kami, ‘deus’; kaze, ‘vento’) e de todos aqueles que se aprazem como carcereiros ou carrascos a serviço do “Senhor do Céu e da Terra”.

Humanismo realista versus nominalista[2]

E a hipóstase “Humanidade”? Uma historinha ilustra bem as intenções secretas de um determinado tipo de “humanista”, do que é capaz a firme resolução de fazer a Humanidade ascender ao Reino da Liberdade. E quem nos conta é o historiador marxista Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Extremos. Relata o autor que o líder do Partido Comunista da Itália, Palmiro Togliatti, andava muito preocupado com “a jovial disposição de Mao de aceitar a inevitabilidade de uma guerra nuclear e sua possível utilidade como um meio de provocar a derrota final do capitalismo”. Para dissuadi-lo, foi ter com ele pessoalmente. Lembrou-lhe que um “Armageddon” atômico faria desaparecer muitos países, entre eles a Itália.  Mao Tse-Tung respondeu com as seguintes palavras: “Quem lhe disse que a Itália deve sobreviver? Restarão três milhões de chineses e isso será o bastante para a raça humana continuar” (Era dos Extremos; São Paulo: Cia. das Letras; 2ª edição; p. 227).

O amor de Mao Tse-Tung pela humanidade é muito diferente daquele apregoado por outro marxista: o próprio Karl Marx (que, aliás, no opúsculo Crítica ao Programa de Gotha, escreveu “se isso é marxismo, o certo é que não sou marxista”). O filósofo alemão manifestou o seu humanismo durante um desentendimento entre ele e sua esposa Jenny – por causa da sua total concentração nos trabalhos teóricos, em prejuízo dos deveres de pai e marido – que por pouco não levou o casal à separação. Numa carta chorosa à mulher enviada de Manchester em 1856, Marx afirmou que o móbil de todo o seu esforço não era o amor a um “universal”, mas o amor a algo bem mais concreto e que somente este pode ser considerado genuíno amor ao homem. “O amor” – escreveu Marx – “não é o amor de Feuerbach pela Humanidade, nem o amor de Moleschott pelo Metabolismo, nem sequer o amor ao Proletariado, mas o amor pela bem amada, o amor por ti, permite ao homem tornar-se novamente homem.” Creio que Marx quis dizer que amar a humanidade não é amar uma essência descarnada, ao contrário, trata-se de um amor “carnal”, amor ao “particular”, que é a síntese do singular com o universal. Amor aos homens considerados um a um, e não ao “Homem” maiúsculo, enfim. Aliás, se é por meio dos fenômenos que se chega à essência, então “é por meio do meu amor por cada um de vocês – minha companheira, meus filhos, meus amigos… – que amo toda a humanidade”. [3]

A revolta dos homens contra os replicadores egoístas

Um humanismo coerente tem que levar em conta a revolta do homem contra a ditadura dos genes e dos memes[4] que o próprio Richard Dawkins, o criador da memética, faz questão de salientar: “Só nós, na Terra, temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas.” (O Gene Egoísta; Lisboa: Gradiva; p. 283) Ele mesmo manifesta essa revolta quando afirma que, apesar de defender, como cientista acadêmico, o ultradarwinismo atomista, é ardentemente antidarwinista quando a questão é política ou a condução dos negócios humanos (A devil's chaplain).

Sendo assim, o humanismo autêntico é aquele que valoriza não o Homem genérico, mas os homens considerados um a um. Acresce dizer, no entanto, que, como não sabemos se a revolta humana contra a tirania dos plasma germinativo e dos “memes sociais” da noosfera[5] é em princípio trágica, convém mantermos uma postura crítica e mesmo cética também com relação a esta outra “ideia” de humanismo.

Ceticismo filosófico: as ideias postas no seu devido lugar

A propósito, o ceticismo filosófico contemporâneo de Popper, Feynman e André Comte-Sponville (um ceticismo que não nega a existência da verdade objetiva, mas tão-somente a pretensão de todo conhecimento que julga a si mesmo como indubitável), esse ceticismo constitui a principal arma de combate à ditadura das ideias sobre o cérebro humano. Através do questionamento da certeza absoluta, ele põe as ideias no seu devido lugar, ou seja, numa posição subordinada aos seus criadores: os homens reais, concretos, de carne, osso e nervos.

E se, consoante a memética, os memes, as ideias, os entes noológicos[6] são de fato seres vivos de um tipo novo que se nutrem da atividade eletroquímica do cérebro e se propagam através da linguagem (segundo Pierre Auger, “as ideias reproduzem-se nos meios constituídos pelos cérebros humanos, que são seus ecossistemas nutritivos”), uma posição cética em relação ao conhecimento em geral – cética, porém não niilista, friso – garante que a relação das ideias com os homens seja sempre de simbiose: impede que aquelas, munidas com a toxina da certeza, tornem-se parasitas mortificantes ou mesmo letais, e nós: seus organismos hospedeiros de triste sina.

Democracia: um jogo de soma zero

Concluindo: em nossa busca por uma razão de ser, por um sentido para a vida, com frequência e involuntariamente nos vemos a professar um anti-humanismo que apenas aparentemente não é. Depois de nos convencermos disso, passamos a defender outra ideia, muito provavelmente outro anti-humanismo. Será que vivemos num labirinto fechado, num complexo de becos sem saída? Na dúvida, fico com a democracia, não porque a democracia seja uma saída, mas porque estou convencido de que o jogo democrático é um jogo de soma zero onde os anti-humanismos anulam-se uns aos outros.


Manuel Soares Bulcão Neto
Outubro/2002

Obs.: Este artigo foi publicado no livro As esquisitices do óbvio.



[1] É por esta e por outras que estou convencido que o Capital – dinheiro “vivo” que submete a produção e o consumo à sua função autorreprodutora – é um meme poderoso, ou melhor, uma mutação do meme-deus; que o liberalismo econômico radical não passa de uma teologia; que o “Estado mínimo” propugnado pelos profetas, grão-sacerdotes, padres e beatos da igreja de Milton Friedman & Cia., longe de ser um Estado laico, é na verdade um Estado confessional que visa a impor um credo criptorreligioso fundado numa santíssima trindade: Capital, Eficiência, Progresso.

[2] Realismo: nesta acepção, tese filosófica segundo a qual os universais têm existência própria e independente. Sua antítese é o “nominalismo”, que defende serem os universais, os conceitos gerais, criações do espírito, ou seja, meros nomes que servem para designar conjuntos de entes singulares que apresentam propriedades comuns. Segundo o nominalismo, somente as coisas singulares têm uma existência concreta.
[3] O amor ao homem concreto é também amor “de homem concreto” e não amor angelical, razão pela qual não raro se manifesta de forma ambígua, ambivalente. Marx, como homem concreto que era – uma “quimera” de anjo e demônio como, de resto, somos todos nós – também cometeu vilanias, como o fato de não ter reconhecido o filho que teve com a sua empregada doméstica.
[4] Sobre o meme, por Richard Dawkins: “Acho que um  novo tipo de replicador  recentemente surgiu neste próprio planeta [os memes: ideias, slogans, formas de vestuário…].  Da mesma forma como os genes propagam-se no ‘fundo’ pulando de corpo para corpo através dos espermatozoides e dos óvulos, da mesma maneira os memes propagam-se no ‘fundo’ dos memes pulando de cérebro para cérebro por meio de um processo que pode ser chamado, no sentido amplo, de imitação. […] Os memes deve ser considerados estruturas vivas, não apenas metafórica, mas tecnicamente.” (DARWKIN, Richard. O gene egoísta. Belo Horizonte – Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 2001, p. 214.)
[5] Richard Darwin denominou as “sociedades de memes” de memeplexos. Noosfera é a mais recente camada do planeta Terra, justaposta à biosfera, formada pelos memes: seres vivos que são pura informação. Nessa camada também existem ecossistemas, biomas, sociedades…
[6]Noológico: do grego noûs: pensamento; logos: lei ou razão. Noologismo: sistema criado pelo filósofo alemão Christoph Eucken (1846-1926), que defende a autonomia absoluta da vida espiritual.

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