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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAETANO XIMENES ARAGÃO E O CANTO PELA UNIDADE DO HOMEM (ENSAIO D'O POETA DE MEIA-TIGELA) (*)




(Caetano Ximenes Aragão
em desenho de João Monteiro)

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Para Ângela Aragão, anja-guardiã do espólio do poeta;
para Ralphe Alves Bezerra, amigo schilleriano.


            1. Poesia Ingênua e Sentimental. Segundo o poeta alemão Friedrich Schiller (1759-1805), podemos conceber a poesia como ingênua ou sentimental. (1) Todos sentimos um quê de nostalgia quando em contato com o bucolismo do cantar de um pássaro ou com a visão do verde do campo. Tal nostalgia mais não seria que nossa percepção do quanto distamos, hoje, da natureza, enquanto manifestação espontânea de uma realidade cujas leis são seu próprio ser sem artifícios. A artificialidade, a técnica, à medida que se apresentam como instâncias primordiais para o viver humano contemporâneo, mostram-se como elementos cruciais a fim de que nos percebamos distantes daquele ideal de naturalidade a que já não correspondemos. Talvez por isso voltemos os olhos para a infância e a vejamos denunciadora do que já não somos e, também, do que queremos voltar a ser. O desejo de reingresso na ordem natural e de abandono da nossa atual condição social, antinatural por excelência, — o desejo de retorno ao paraíso perdido de uma infância da humanidade marca o olhar sentimental com que nos dirigimos à natureza e à ingenuidade pré-moderna. Ingênuo é, pois, aquele envolto pela inocência de uma ação direcionada pela espontaneidade de sua natureza, não pela imposição artificial do decoro ou regra do estamento a que pertence; aquele cuja moralidade e honradez dão-se imediatamente, simples resposta aos apelos de seu ser-se, apenas. À medida que não somos ingênuos, mas apreciamos a ingenuidade como estágio da inocência a que aspiramos retornar, nutrimos o sentimento nostálgico de perda, de deslocamento, despertencimento. O ingênuo é o que naturalmente o é, e o sentimental o que deseja sê-lo. Eis por que a antiguidade clássica parece-nos exemplo de integração entre humanidade e natureza, sem que esta apareça então como uma instância a que aquela aspira reunir-se: não se trata na Grécia Antiga — essa infância de nossa cultura ocidental — de se desejar o natural, porém de se ser a natureza. A poesia sentimental, se não é expressão de uma naturalidade sua constitutiva, por outro lado pode configurar-se um anseio primordial de reintegração do humano, busca de reunião de si no seio da natureza de onde se originara. Esse ideal de renaturalização do humano é a um só tempo reinstauração do homem na morada inaugural da natureza (renaturalização), e retomada (ou intenção de —) do que há de mais humano no homem (sua naturalidade): logo, renascimento (renaturalização) do homem natural, íntegro, integral. Eis o ponto de partida para que abordemos a poesia sentimental de Caetano Ximenes Aragão. (2)

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            2. O Canto pela Unidade do Homem. “A poesia possuindo a consciência da perda e do resgate refaz a identidade do ser. Intuindo a vida como um todo e sendo o homem a medida de todas as coisas, o poeta deve possuir todas as medidas para que possa refletir em sua plenitude a vida com todas as cores do arco-íris”. Assim nos fala o poeta no Posfácio a Caetanias. Passaremos a investigar ao longo das obras o sentimento que nos parece essencial à poética de Caetano Ximenes Aragão, o de procura da unidade do homem. Se a poesia pode amplamente ser dita uma demanda de completude, para o vate de Alcântaras tal se dá duplamente. Primeiro porque o cantar maior de seus versos incide sobre a descoberta “de si mesmo/ em comunhão com todos” (poema O amor ignora a ciência, do supracitado Caetanias); segundo, porque essa incidência deu-se também na própria vida do profissional da medicina, plantonista do ex-SAMDU (conforme lembrado por Blanchard Girão numa das orelhas de O Pastoreio da Nuvem e da Morte). Sim, bem antes de assumir-se notoriamente poeta, Caetano Ximenes desde muito exercia seu ofício de médico. Nascido em 1927, e formado na Bahia em 1952, apenas em 1975 — aos trinta e oito anos, portanto —  publicaria seu primeiro livro. Ainda para recordamos Blanchard Girão: “Sofre o jovem médico. E todo esse seu sentimento de amor pela humanidade ele despeja no sonoro desabafo dos seus versos, onde até o amargor ganha doçura pela magia de sua sensibilidade”. E noutro lugar: “A condição de médico mais ainda o aproximaria das dores humanas”. (3) O poeta “completa” o médico, bem como sua poesia, ela mesma, será signo da procura de completude. Uma procura que se estenderá por toda a obra em versos de Caetano Ximenes, e que seguiremos apreciando. (4) Iniciaremos com o já citado O Pastoreio da Nuvem e da Morte, em que a principal aparição daquele sentimento-ideal de naturalização-integração recairá sobre as rememorações da infância, por oposição à decripta desesperança da morte; a seguir, o Romanceiro de Bárbara, no qual a infância retorna, mas como coadjuvante da revolta, Ave da Rebeldia; chegaremos a Sangue de Palavra, livro ainda marcado pela presença do lúdico e do infante, já em seu desabrochar para a sensualidade; de Sangue de Palavra a Caetanias, em que a unidade surge como simbolizada maximamente pela estrutura da obra, e finalmente alcançaremos o póstumo Canto pela Paz, cujo conceito encimado no título sintetiza a esperança de que um dia “o canto desencantado”, o “descante”, seja “canto de paz” (Canto pela Paz, § 21).

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            3. O Pastoreio da Nuvem e da Morte (1975). Em sua obra de estreia Caetano Ximenes Aragão deixa transparecer, como em nenhuma outra, a condição de médico-poeta. A primeira tentação que nos vem, diante do binômio nuvem-morte, é a de associar as imagens sugeridas pelo conceito nuvem ao bardo, enquanto ao esculápio caberia a outra polaridade, a da morte. Talvez incorrêssemos em injustiça, caso o fizéssemos. Ao médico como ao poeta competem a “nuvem” (o sonho, o ideal) e a “morte”, esse “salão de anatomia”. O Poema da Intimidade com a Morte aos Profissionais da Medicina bem ilustra a inter/atividade ximeniana dos dois polos. Assim como é — ou deveria ser — por amor à vida que um médico se faz tal, sendo a morte uma inevitável circunstância do ofício, o vate, à medida que pastoreia noites brancas, torna ao contrário a morte uma constante em seu canto, pois a unidade pretendida pela poética não se pode dar sem o enfrentamento da marca do desengano — sem a denúncia do Carcinoma. E conforme em outro poeta-médico, o paraibano Augusto dos Anjos, também em Caetano Ximenes o retrato do Mal a denunciar acaba por trazer ao domínio da lírica todo um léxico proveniente daquele outro domínio exercido pelo poeta: surgem o “sol asséptico” e o “treponema”, as “mulheres gonocócicas”, as “flores venéreas”, os “olhos enoftálmicos”, “pálpebras barbitúricas”, e ainda “um gesto antálgico”, “um choque insulínico”, uma “morte hipotalâmica”. (5) Expressões de um vocabulário acolhido ou, antes, escolhido, com o proposital fito de maior enunciação da desnaturalização em que incorremos enquanto nos permitimos circundar pela “incomunicável/ solidão”. Engana-se quem imagina que o poeta se deixa contaminar pelo jargão médico e por isso, aqui, como em Augusto dos Anjos, concede habitem seus versos tantos termos técnicos: ora, nenhum outro glossário tão apropriado quanto este, quando a questão é precisamente constituir uma denunciação contra a solidão — a solidão do “poema/ que se ausenta”, “a solidão/ tecnológica”, “a solidão/ do consumo”, “a solidão/ do cristo crucificado”, “a solidão/ dos edifícios/ com muitas janelas/ com muitas solidões/ nas janelas”, “a solidão/ burocrática”, “a solidão/ da palavra”, “a solidão/ do amor ausente”. Como conclui o poeta, esse é o longo e difícil aprendizado da solidão comunicante. E a terminologia científica — a um só tempo faz-se elemento de consolidação da solidão (já que o tecnicismo habitaria, neste caso, a própria poética), e igualmente ponto de inflexão a partir da linguagem e, portanto, autoconsciente expressão da mesma solidão denunciada, agora transformada em comunicação. A solidão possui, assim, duplo vértice: o que restringe, limita, isola, isla o humano do humano; e o que diante do isolamento mesmo, intenta comunicar-se, remoendo a “redond(i)lha inconSolável” do solitário. (6) Um desejo de comunicabilidade cuja impossibilidade presente remete-nos ao passado, à infância como ideal de realização da comunidade — da comum idade, da comum unidade. Com a infância retornamos ao pastoreio da nuvem. Mais uma vez, não é que a infância esteja no livro como contraponto “puro” à morte: a morte mesma habita frequentemente a infância, qual no poema de abertura, através — por exemplo — dos sinos e do sineiro Abraão, com seus repiques de finados (sineiro Abraão que ressurgirá nas páginas de Sangue de Palavra e Caetanias). Mas como diria Schiller, olhamos para a infância, não do alto de nossa superioridade, porém do mal-estar de nossa limitação: adultos, somos muitos; se crianças, somos um. Opõe-se à limitada determinação com que somos, a naturalidade pela qual a criança é uma determinibilidade Ilimitada. Por mais permeada pela dor ou ulceração, pelo Carcinoma, a resposta infantil ao Mal será espontânea e natural, integral. Será exemplar e, enquanto tal, referencial: remetendo-nos à sonhada comunicabilidade, posto que identidade de nós conosco, de nós com o mundo, comundidade. Já o disse melhor outro poeta, grande amigo de Caetano Ximenes Aragão, Francisco Carvalho: “O apelo à infância significa que o poeta não se despojou da antiga pureza, que precisa voltar a ela para reaprender o rosto do menino, para não sufocar no desespero, para não ser esmagado pelas vigas de cimento armado, para se limpar da poluição metafísica, enfim, para se reencontrar a si mesmo” (apresentação a O pastoreio da Nuvem e da Morte). A infância recorrente é o desejo recorrente de reencontro, da unidade do eu consigo (com-si-ego), e com o outro: “tempo virá em que o homem/ ressuscitará de mil faces/ e em cada face perdida/ reencontrarei minha face” (do poema Balada da Face Reencontrada). 

“nos retiramos da infância
como pássaros perdidos.
se tentarmos o retorno
só o poeta sabe o caminho”

(Roteiro da Infância)

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            4. Romanceiro de Bárbara (1980). No Posfácio à obra, o autor diz-nos ter laborado no Romanceiro durante três anos, de julho de 1975 a agosto de 1978. É indubitável que o tenha feito, dada a densidade de pesquisa que subjaz aos poemas. Se o título de seu livro anterior remetia-nos — ainda que implicitamente — a Cecília Meireles e seus pastoreios, agora somos explícita e imediatamente lançados à autora fluminense e ao seu Romanceiro da Inconfidência. (7) Nos dois romanceiros um livro-poema, um poema que ocupa todo o livro, um poema de poemas. Em Cecília, após a Fala Inicial e a descrição do Cenário, um total de oitenta e cinco romances a desenvolverem o retrato minucioso e multifacetado da Conjuração Mineira; em Caetano Ximenes, setenta e sete poemas a comporem o poema-livro, cuja temática analogamente é a tentativa de insurreição cearense nos anos de 1817 e 1824, quando da eclosão do que viria a ser chamado Confederação do Equador. No Ceará, o descontentamento de amplos setores com a política da Coroa Portuguesa conduz à incipiente tentativa de proclamação da República, inspirada em parte pela Guerra de Independência dos Estados Unidos da América, em parte pelo ideário das então ainda recentes Revolução Francesa e Inconfidência Mineira (eclodidas, ambas, em 1789). Não durara mais de uma semana o levante cearense de 1817: precisamente a semana iniciada a três de maio. Estivera a família Alencar diretamente envolvida na intentona, razão pela qual após seu fracasso foram Dona Bárbara e seus filhos José Martiniano (pai do Martiniano autor de Iracema), Tristão Araripe e Carlos José presos e transferidos para Recife, depois a Salvador, onde culminaria o processo da devassa. Se não há dúvidas quanto à participação efetiva de Dona Bárbara nesse primeiro movimento de insubordinação, quanto ao segundo, o de 1824 (quando contava ela já sessenta e quatro anos) é certo seu não-envolvimento direto. Contudo, dado o maior alcance do novo levante (em que Tristão chega mesmo a empossar-se como Presidente da Província do Ceará, contra todas as disposições de Dom Pedro I), não é de se estranhar igualmente a maior represália por parte do Governo Monárquico. Em nosso estado tivemos a morte em combate do próprio Tristão Araripe, bem como a execução dos cinco mártires Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Bolão e Carapinima, além de uma série de assassínios por vindita, qual o que vitimara mais um filho de Dona Bárbara, o padre Carlos José dos Santos. (8) Essa é a súmula dos acontecimentos que constituem nosso nativo épico oferecido como mote à glosa do Romanceiro de Caetano Ximenes. Porém, não obstante a amplitude e diversidade dos fatos a serem transcriados pela poética caetanoximeniana, certo é que em Dona Bárbara há de se concentrar a obra. E já que Bárbara de Alencar não pode ser apontada como presença nos sucessos de 1824, o poeta transfigura a personagem, dela extraindo todo o potencial mítico e supra-histórico. Pairará a imagem da Matriarca para além da limitação temporal, numa transmutação de sua pessoa na própria encarnação da rebeldia e da liberdade que, em si mesmas, não têm tempo: “Bárbara não tinha idade/ cinquenta e sete janeiros/ era a idade do seu sonho”. A Mulher transforma-se em símbolo, em sinal transtemporal de uma poética que, a exemplo de Pessoa e de Mensagem, fundem fato e mito numa única apresentação de realidade. Porque a Bárbara de Caetano Ximenes ultrapassa as dimensões da espaciotemporalidade, pode percorrer todo o poema-livro, “livre do dilema”, personificada ou, melhor, transubstanciada no “sal da terra”, no “primeiro canto”, na “boa-nova”. A transpessoalidade de Bárbara assignala-nos a vigência da segunda arquefigura mais incorrente no livro, a Ave da Madrugada: “a ave da madrugada/ canta de noite e de dia/ é sua maldição cantar/ cantares de rebeldia/ e aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia/ será sempre um encantado/ da ave da madrugada”. Tal como Bárbara de Alencar, a Ave da Madrugada perpassa todos os espaços e tempos, como que a espalhar através de seu canto o frêmito indômito de resistência à opressão, à exprobração do sonho. O canto da Ave da Madrugada é o canto de Bárbara que soma, com o passar dos anos, sempre novos exortados à sua “maldição”: ressurge no Romanceiro a infância a partir da evocação dos recém-encandeados. Desfilam pelo poema os amigos do poeta (alguns homenageados por terem sido cassados/caçados em 1964), todos — numa fulgural transposição de tempos — despertados pelo chamado: “à sombra dos oitões/ em Lavras da Mangabeira/ o menino Moreira Campos/ com as mãos limpas do rio/ meditava longos caminhos/ e o vento/ era o caminho dos mortos// Bárbara era o caminho/ dos vivos/ a pele verde da terra”; “onde viria de ser/ Morada-Nova”, “tecendo as tiras do amor/ foi crescendo este menino/ sofrendo por sofredor/ Blanchard Girão gerador/ do mesmo sonho que um dia/ Bárbara sem medo sonhou”. Em São Bernardo das éguas ruças, o “menino Francisco Carvalho”; em Assaré “o menino Francisco Auto”; em Maranguape, Joaquim Braga Montenegro, “o menino navegante”; “na antiga Praça dos Mártires/ o menino Raimundo Ivan/ pensou nas queixas sumidas/ no ar daquela manhã”. Mas a infância não é aqui a expressão máxima do anseio de unidade que tomamos como emblemático e condutor de nossa inteira apreciação da poética de Caetano Ximenes Aragão: no Romanceiro de Bárbara  é a Ave da Madrugada, Bárbara transfigurada, o princípio de identidade. Frente à maceração dos desejares, frente à perseguição à liberdade, o canto da Ave encerra a presentificação daquele anseio de humanização: percorre várias épocas e lugares e por isso habita todo o livro. Pode parecer que o canto-refrão da Ave contradiga a busca de unidade que viemos querendo demonstrar, pois afirma: “aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia”. Tal inconciliação não seria a difusão, fragmentação do indivíduo? Sim, não o negamos. Contudo, a quem a Ave enfeitiça com seu chamamento? Aos que circunvoltos por realidade dissoluta, em seu encantamento formarão oposição à escuridão de que despertam: “palavras explosivas/ eclodem na carne/ e dói a dor primeira/ do primeiro grito”. O grito de rebeldia da Ave da Madrugada — enquanto encanta e desconcilia, conclama à conciliação o já inconciliado: o que não se concilia nunca mais (never more), bem o faz, se estar conciliado é estar afeito à anulação; o inconciliar da Ave da Madrugada é o novel conclamar à unidade. Em tempo-espaço desfigurado, o que não se concilia é o que supera — ou procura superar — o estado dividido pelo qual se adequa à dilaceração; perceber-se, por conseguinte, dilacerado, é instaurar o sentimento de retorno à identidade perdida, ou jamais havida. Se a Ave é da inconciliação, a onipresença do seu piar ao longo do livro reafirma, ato-contínuo, a unidade desejada. O que o poema final comprova soberbamente: Dos Cantadores une em concílio, sob a anuência de IanSanta Bárbara, vários versejadores populares (Neco Martins, Zé Limeira, Cego Aderaldo, Patativa, Otacílio Batista e outros) a glosar o mote que, dizendo respeito a Bárbara de Alencar, por uma última vez permite desponte a Ave da Madrugada: Ave, Bárbara!

“o dia já trouxe o sol
para nossa cantoria
se a todos não convidei
não foi falta de valia
a ave da madrugada
canta de noite e de dia
aquele que ouvir seu canto
nunca mais se concilia
será sempre um encantado
da ave da rebeldia”

(Dos Cantadores)

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            5. Sangue de Palavra (1981). Com esta terceira obra de Caetano Ximenes temos novamente a infância plenipresente, constante referência de uma dorida lembrança do que se foi. Dividido o livro em nove seções, duas são dedicadas integralmente à nostalgia da meninice: Canto de Maldizer e a que se lhe segue, Elegia para um Menino Morto. (9) Como no Pastoreio, trata-se de uma puerícia que anda às voltas com a morte, mas que nem por isso se faz menos saudosa. A rememoração do ido sempre suplanta o queixume doído da morte sendo: não importa se a morte é; a vida não deixa de ser vida por já ter sido. O ir à infância, o tornar a ir, é também ser, é renovar-se, refazer-se: “nós meninos; não temos idade/ somos todos/ de uma terra nova// somos todos/ de uma terra nova/ adubada de mortos”. Na verdade, o ser da morte é não-ser; a infância, mesmo não-mais-sendo, é, se a ela retornamos, se nela novamente somos. A morte é vida que se vai; a infância, eterno ser, infinitiva. Ser no infinitivo é ser uno, muito além da precariedade do tempo-finito, do tempo-fim, do tempo-morte. A infância é ser. Razão por que o poeta, em sua Elegia composta de seis sonetos,    lamenta a morte do menino que ele mesmo foi (“em solidão azul me consumindo/ foi quando me senti amortalhado/ carregando o cadáver do menino”). Voltar à meninidade é voltar a ser; daí que uma pletora de meninos invada a seção Canto de Maldizer. No primeiro poema da seção, seu homônimo, os versos: “em derredor de mim/ se fez o mundo/ e me tornei menino”; em Os Mágicos: “os meninos/ passeiam pedalando bicicletas/ na vertigem da velocidade/ morrem os homens”; em Os Destituídos: “os meninos/ encarnam o bem e o mal/ são carne do mesmo corpo/ na elevação e na queda”; o Poema para Dois Meninos já os traz no título; em Invenção da Infância: “do amor/ nada ficou// do menino/ e sua infância”; e em Noves Fora Nada, “os meninos que hão de vir/ se sabem maduros/ para o amor e a morte”. A meninitude continua a mostrar-se referencial: reconduzirmo-nos a ela, é voltarmos à idade sem idade. Entretanto, não só de meninos se fez povoar Sangue de Palavra. À puerilidade se acrescenta agora — com uma intensidade que talvez não se repita em nenhuma outra obra ximeniana — a sensualidade, a sexualidade. No Pastoreio, afora a série Maria dos Navegantes, em que a libido é volátil, escorregadia, fugidia, apenas o último poema, Mulher Azul-Celeste, despe-se marcado pela lubricidade, um desejo entre o cubismo das formas e o impressionismo das cores: “teus seios dois cubos de oiro/ relampejam agressivamente/ ponteando o azul”. Em Sangue de Palavra, porém, a seção inaugural Do Gênese já se imbrica, já se entremeia nas sendas do corpo, onde alcança a fusão, a unidade: “pelas verdes vertentes/ do teu corpo amado/ me nasço de dentro de ti/ para o áspero ofício/ de apascentar teu sexo/ e me desnaço/ quando somos um só/ num só momento”. O ardor, a força, o ímpeto, o vigor do amor instaura-se em tropel na seção Os Cavalos; entre estremeções, espasmos, a palavra relincha de prazer em fúria. São “cavalos suando orvalho/ por vir(i)lhas espumantes”; são “coxias coxas vir(ilhas.)/ retábulos rosa rosário/ pênis ponte pentagrama/ libélula bétula de mel”; são “relâmpagos/ nas curvaturas da noite”, são “montanhas de maremoto”. As imagens carnaválicas invadem inclusive poemas de denunciação (como aquele à cidade de Fortaleza): “não te louvo, amo tuas esquinas/ onde o vento modela o sexo/ e a bunda de tuas mulheres”. É toda uma lascívia que se aprofunda no intento de alcançar o bojo do gozo, o prazer último, fundante, o ápice da relação inter-humana, o ser do-outro. A cópula não é posse, é dar-se, é doar-se a outrem. O corpo-outro é fundação e renovação: em Sol de Mel, “teu corpo é fundação/ exatidão de espaço/ pássaro em voo amanhecido”; em A Nova Fala o outro se amplia, vira identidade maior com toda uma raça, com todo o desejo reprimido de um povo: “E o amor inocência original/ fecundará a noturna praia do teu ventre/ e entre nuvens de espermas e vagidos/ se fará teu corpo em fundação// E serás a nova fala do dia/ a luz dos olhos do teu povo/ a voz usurpada/ o novo canto”. Mesmo no apocalíptico Poema da Revelação, encerramento do livro, as imagens langorosas (“nas vaginas em flor/ despertará a primavera”) são convite ao amor como promessa otimista de uma “estrela da manhã” para um “novo homem”. A primavera, a estrela da manhã, o novo canto, a fundação — imagens polimórficas de um só anseio de plenitude, de cosmopolitude, de unidade.  

“da carne e de meu sangue
foi feita a minha amada
e fomos uma única encarnação”

(Do Gênese)
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            6. Caetanias (1985). Em Caetanias o signo originário é por excelência a unidade. Após os versos que servem de pórtico, os únicos não-intitulados, é dito em Orfeu: “por ti Orfeu/ desintegrado átomo em Hiroxima// retomarei a unidade/ de teu corpo e de teu canto// a nostalgia da perda/ o olhar para trás// o retorno inelutável/ ao ser dilacerado/ para recompor/ o homem agonizante”. A ânsia da unidade como sentimento nostálgico de naturalização ressurge como tema. Porém, antecede aos poemas mesmos o subtítulo da obra que, de antemão, já nos anuncia o caráter de vinculação do versejar aparentemente fragmentário do livro: trata-se do subtítulo — Poema. Como no Romanceiro de Bárbara, um poema de poemas; aqui, no entanto, uma distinção a nosso ver essencial no que concerne à unidade pretendida. No Romanceiro, os títulos sobrepostos aos textos (como é, aliás, ordinário fazer-se) separam-nos em individualidades autônomas, embora cada um deva ser lido numa referência aos demais. O Romanceiro vincula um texto aos outros (já que Da Unção ou Os Caminhos do Fim são mais bem compreendidos quando pensados em relação ao conjunto), mas concede igualmente caráter de individualidade aos versos em particular, pois o título que os encima também os isola numa unidade. Assim, sabemos que à página 53 A Herança deve ser visto no conjunto a que pertence, e até por isso ganha reforçado sentido; contudo, por ter título próprio é um todo-abrangente, podendo ser lido independentemente dos que o antecedem ou prosseguem. Em Caetanias os títulos postos ao lado, à direita dos versos, possibilitam uma sua leitura contínua, ininterrupta, o que fortalece seu vínculo como unidade, como um só Poema, fazendo valer o subtítulo da obra. E a numeração à esquerda, típico recurso das heroidas (Seara, de Luciano Maia, é outro bom exemplo), acentua a unidade reiterada. Unidade que, formalmente mais próxima do que nunca daquilo que se propõe como finalidade, não deixa porém de expressar em seu discurso ainda a irrealização, o não-alcance pleno. Enquanto ideal, o sentimento de retorno à natural manifestação do humano tende a querer realizar-se, seja com sua nostalgia de infância, seja com seu brado de revolta, seja com seu desejo de carnalidade; e por querer realizar-se é que é um não-ainda, um apenas tender à completude. O poeta volta-se para a própria poesia, ilustração máxima de seu desejo de ultrapassagem do fragmento. Por isso rende culto ao filho de Apolo e Calíope, esse a quem Jorge de Lima igualmente dedicara uma obra-prima. Sim, se vinculamos o Romanceiro de Bárbara a Cecília Meireles, inevitavelmente Caetanias transporta-nos ao portentoso Invenção de Orfeu. Com imensurável poder inventivo, Jorge de Lima dá vazão ao maior épico em versos da literatura brasileira, nivelando-se em engenho e arte a Camões e Os Lusíadas (com o perdão dos lusófilos). Apenas, a viagem do poeta alagoano é inespacial, ou melhor, é viagem para espaços interiores, de geografias insuspeitas. Decerto que diante das obras de seus predecessores Caetanias é de menor magnitude, o que de modo algum lhe retira a grandeza e importância. Aqui, guardadas as proporções, como em Os Lusíadas e Invenção de Orfeu, trata-se de se realizar estupenda “tr/ave/ssia” em que a poesia é a verdadeira nave. Que ruma à unidade do homem: “só a poesia/ unindo o verso/ ao universo/ refaz a cosmo-agonia/ do homem dilacerado”. Vemos, pois, que o plural do título principal do livro — assumindo na identificação do nome do autor a ordem do múltiplo —, vê esse mesmo múltiplo reduzido à busca da unidade pela poesia que no livro se apresenta, e sintetizada pelo subtítulo Poema. Chama-se a obra Caetanias porque o poeta se estilhaça (Orfeu destroçado pelas Mênades) em versos inúmeros (mais propriamente, em 1837 versos), unificados, no entanto, como fossem (e o são) expressão diversificada de um só poema que, enquanto se faz, faz-se único sob a ordem do múltiplo; ou múltiplo, sob a ordem do único: Caetania(s) — Poema(s). Já vimos que, em relação ao Romanceiro de Bárbara, temos agora um passo a mais em direção à unidade desejada pelo poeta (sobretudo no que concerne à organização e disposição dos versos). Mas não deixa de reutilizar um recurso posto já em andamento: a repetição do poema Do Sonho e da esperança, integralmente, como no Romanceiro a Ave da Madrugada em suas variações. Do Sonho e da esperança: “não percamos nunca/ o módulo de nosso sonho/ embora que todos os sonhadores/ tenham deixado de sonhar// não percamos nunca/ o módulo de nosso sonho/ embora todos que esperam/ tenham cessado de esperar”. Essa espécie de poema-ritornelo que surge pela primeira vez a partir do verso 100 e que retorna com certa regularidade a cada dez páginas; esse estribilho insistente sintetiza uma vez mais a poética caetanoximeniana como sentimental, à medida que se constrói aspirante à perdida naturalidade pela qual o humano é um todo em si e no mundo, e não um em-si mesmado. Deixemos, para finalizarmos nossa apreciação de Caetanias, que o próprio poeta fale, conforme o belíssimo Posfácio: “O homem desagregado, desnascido, teve seu cordão umbilical cortado e não mais se liga às fontes primárias da vida. (...) A vida é basicamente uma unidade que nega e afirma a permanência. A verdade está na gestação do novo que explode o odre. A verdadeira arte é uma síntese dialética do sonho e da realidade, onde os contrários são idênticos”. Onde os contrários são idênticos: onde realidade e sonho não se opõem, onde o sonho é a realidade, onde se põe a unidade.

“meu poema é
a dilaceração
do homem

um mural em desordem

meu verso é minha revolta
a rebeldia de minhas palavras
é a maldição de ser poeta

canto a unidade do homem”

(Pórtico de Caetanias)

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            7. Canto pela Paz (2004). Canto pela Paz foi publicado postumamente, nove anos após a morte do poeta, numa edição sob os cuidados de José Telles e da SOBRAMES-CE (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores — Regional do Ceará). Notamos na obra novamente o cuidado quanto à organicidade dos poemas, o que leva o poeta a conceber um livro cuja temática alinha-se sob uma égide estrutural bem definida. Como no Romanceiro e em Caetanias, um Canto de cantos e contracantos, um todo cuja unidade é mais do que garantida pela vigorância da palavra-seminal “paz”, e ainda pela disposição dos poemas como parágrafos ou seções (§), frações de um só painel, um poemosaico. Retornam os temas nitidamente caetanoximenianos, quais a denúncia — da guerra, da bomba, da cegueira tecnológica, da violência e da injustiça social, responsáveis pela “intimidade dilacerada do ser”; a infância, “lugar de origem”; a presença do feminino, “ave-mulher amada mensageira”; e agora a ênfase na paz como reinvenção do homem, refazimento da vida, “precária síntese”, a paz como a própria “poesia revelada em vida”. É sempre o Caetano Ximenes Aragão de uma poética sentimental como procura desenfreada e incessante da pacificação, da apreensão do humano como reintegrado, renaturalizado, para além da duplicidade do desconhecimento de si por si, e de si por outrem. Para além “da tragédia de sua ambiguidade”, pela qual o homem vive “contrário a si mesmo”. Ou, conforme José Telles, na segunda orelha do livro: “Caetano jamais aceitou a miséria como entidade mórbida autonômica. Nela, sempre houve para o poeta, um processo de retroalimentação, que se abastece na assimetria das relações humanas”. Canto pela Paz: quarenta e três orações, quarenta e três pedidos, quarenta e três gemidos, quarenta e três exortações: PAZ/ PEACE/ PAIX/ MIR. (10)

“combatente pela paz
o poeta sabe
só quando vivermos
o comum a todos

o mundo viverá em paz”

(Canto pela Paz, § 21)

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            8. Encerramento. O Canto pela Unidade do Homem (II). Chegamos ao encerramento de nosso estudo. A partir da reflexão schilleriana acerca do sentimental enquanto aspiração à reintegração do humano na ordem plena da natureza, desenvolvemos a procura da unidade. Em O Pastoreio da Nuvem e da Morte a infância nos aparece como essa instância de plenificação, oposição ao descalabro de uma realidade reificada. Temática indubitavelmente preponderante da lírica ximeniana, possível central-motivo de sua obra, bem poderíamos identificar a infância e a unidade — bem poderíamos intitular este ensaio de Canto pela Infância do Homem. Não o fizemos porque realmente queríamos evidenciar o quanto a própria incisão da puerilidade se associa, na poética de Caetano Ximenes Aragão, a um anseio maior que a tudo açambarca, anseio comum a todo aquele que sente em si a emergência da suplantação do distanciamento e do alheamento de si consigo, de si ante o outro, de si com o mundo. O anseio mítico/místico de que tudo seja Um. Retornar à meninice é, pois, uma das várias manifestações desse desejo maior, quais a contestação, a revolta e a insubordinação do Romanceiro de Bárbara são outra possibilidade-necessidade de retorno à unidade. Como também o é o sexo de Sangue de Palavra, a própria poesia em Caetanias, e a súmula dos anteriores, o projeto de — paz. Com a procura do conceito-chave da unidade e tudo o que sua aquisição implica, perpassamos algumas das diversas temáticas ximenianas, acentuando-as onde acreditávamos que, respectivamente, se sobressaíam: assim que no Pastoreio temos aliada à crítica social veemente a já tão conclamada paixão pela infância; paixão evidenciada em Sangue de Palavra, acrescida agora do erotismo jamais pornográfico, embora despudorado. No Romanceiro a infância, sim, porém como elemento de coesão e ao mesmo tempo difusão no tempo-espaço vário daquela que signaliza a própria denúncia, a Ave da Madrugada; em Caetanias a própria estruturação da obra consolidando a unidade cantada desde a abertura do livro: comparecendo a crítica social, a meninice, o apelo sexual, mas em muito menor plano se comparados à frequência com que o poeta discursa sobre a própria poesia (haja vista o personagem fundante e ressurgente, Orfeu). E finalmente, no opus póstumo retornam todos os temas anteriores e a própria poesia não é senão evocação à unidade agora chamada Paz. A crítica social (com tudo o que implica mortificação), a infância, o erotismo e a poesia mesma constituem um quadrivium nuclear que, se bem esmiuçado, nos conduzirá a uma mais ampla gama de outros tantos subtemas. Procuramos a unidade da obra de Caetano Ximenes Aragão, procuramos a unidade pretensa pela obra de Caetano Ximenes Aragão e, ao fazê-lo, retratamos a multiplicidade temática de seus livros. Tamanha diversidade se acentua se lembrarmos que o recorte aqui feito é apenas um, dentre tantos possíveis. Mas na verdade não desacreditamos de nosso fio-condutor: cremos em sua legitimidade. Sabemos que quando o poeta chama genericamente de “poema” a vários textos de seu Pastoreio, quer reforçar a unidade que os vincula a todos sob um mesmo signo; sabemos que quando um título como Poema da Denunciação à Cidade de Fortaleza desponta na sua terceira obra, o faz como reiteração do Poema da Denunciação já presente no livro de estreia; sabemos que as marias prevalecentes ao longo de sua poesia (a “Maria dos Navegantes” do Pastoreio, as “dialéticas Marias” de Sangue de Palavra, a “Maria clareou” e a “Maria Ave-Eva” de Caetanias) são uma só, a Maria-Todas, a Maria-Mulher, e que sua indefinida nomeação é maneira diversa de apelar ao Mesmo, ao Idêntico, ao Uno. Sabemos que o moto-contínuo da Ave da Madrugada e do Sonho e da Esperança reforça a contextura dos dois livros-poemas Romanceiro e Caetanias. Sabemos que o Orfeu do mesmo Caetanias já se anuncia nos Mortos de Picada do Romanceiro, onde desce aos infernos e tange sua lira. Sabemos dessa imensa destinação da poética de Caetano Ximenes Aragão à unidade, pois é essa a destinação de todo fazer poético, seja ou não cônscio de sua imensa tarefa. Que dizer, então, da diversidade estilística do autor? Da utilização em seus versos de rimas consoantes, toantes-assoantes, dissonantes e/ou destoantes? Da fabricação de metros os mais variados, da disposição estrófica tradicional ou espacialmente concretista? Que dizer dessa composição de inspiração originalmente popular, enraizadamente nordestina, como também erudita e universal? Que é o Romanceiro de Bárbara senão um laboratório poético? Em que por vezes o poema-praxis à la Chamie emerge, seguido logo de um martelar-versejar tipicamente cantador? O poeta dá-nos resposta a essas questões no preciosíssimo Posfácio a Caetanias: “Em poesia não dever haver uma só medida que limita, mas múltiplas medidas que libertam; só uma forma que aliena, mas várias formas que a transformam; só um ritmo monocórdio, que ensurdece, mas a diversidade rítmica, criadora e libertária”. E ainda: “Sonhando a esperança, canto a unidade do homem, ser contraditório que se busca na própria desintegração, reunificando os pedaços de sua finitude, para integrar-se a si mesmo, numa nova abordagem cosmogênica”. A diversidade de forma e temas da poesia de Caetano Ximenes Aragão não nega a busca da unidade a que se dedicara o poeta. Como vimos, antes a confirma. Afirma-a, e essa a imensurável beleza de uma poética sentimental, única. E de um altíssimo Canto pela Unidade do Homem. Canto que aqui cantamos.          

“O Homem é tenebroso e cruel como dizia Bertrand Russel, principalmente pelo seu lado demoníaco, mas nem por isso deixaremos de acreditar no seu lado luminoso. Se todas as coisas evoluem para o seu contrário, como queria Heráclito de Éfeso, é das sombras que vem a luz. É da Noite que vem o Dia. Acredito no Homem, apesar do Homem e que no 3º. Milênio que se aproxima, a ciência esteja a serviço da Vida e não da Morte. AMÉM”.

(Ciência da Vida — Utopia do 3º. Milênio)

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora Aguilar, 1964.
ANJOS, Augusto dos. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2004. (Reimpressão da 1ª edição de 1994)
ARAGÃO, Caetano Ximenes. Caetanias — Poema. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1985.
———— . Canto Intemporal — Àqueles Que se Encantaram Antes do Tempo Chegado. Fortaleza: edição do autor, 1982.
———— . Canto pela Paz. Fortaleza: Gráfica LCR, 2004.
———— . “Ciência da Vida — Utopia do 3° Milênio”, in: Anais da Academia Cearense de Medicina. Volume VII — N° 7, Junho de 1994 a dezembro de 1996. Fortaleza: ACM, 1998.
———— . Ilha dos Cornos: Estudo das Cornopatias. Fortaleza: IOCE/Maltese, 1996.
———— . O Pastoreio da Nuvem e da Morte. Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1975.
———— . Romanceiro de Bárbara. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.
———— . Sangue de Palavra. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1981.
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———— . Para uma Teoria do Verso. Fortaleza: EUFC, 1997.
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————. Tristão Araripe — alma afoita da revolução. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, 1993. (Perfis, 2)
BRASIL, Assis (org.). A Poesia Cearense no Século XX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. São Paulo: Editora Cultrix, 1978.
CARVALHO, Francisco. “Caetano Ximenes Aragão ou a Indignação Que Faz Versos”, in: Exercícios de Literatura. Fortaleza, Edições UFC, 1990.
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FARIAS, Pedro Américo de (org.). NOR destinosColetânea Poética do Nordeste Brasileiro. Lisboa: Editorial Fragmentos, 1994.
LIMA, Jorge de. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
MAIA, Luciano. Seara. Fortaleza: UFC/ Programa Editorial Casa de José de Alencar, 1994.
MEIA-TIGELA, O Poeta de. Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008.
MEIRELES, Cecília. Obra Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1987. (Sexta impressão da 3ª. edição de 1972)
SCHILLER, Friedrich. Poesia ingênua e sentimental; estudo e tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1991. (Biblioteca Pólen)
SIRIARÁ — UMA REVISTA LITERÁRIA. Fortaleza, Ano I — N° 1 — Julho/79.
XAVIER, Airton Fontenele Sampaio. “A Escrita de Caetano Ximenes”, in: LITERAPIA — Revista da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores — SOBRAMES-CE, N° 8, Julho de 2003.


(*) Ensaio publicado como Posfácio a ARAGÃO, Caetano Ximenes de. Romanceiro de Bárbara. Série luz do Ceará. Fortaleza, Secretaria de Cultura do Ceará, 2010. 

(1) Cf. SCHILLER, Friedrich. Poesia ingênua e sentimental; estudo e tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1991. (Biblioteca Pólen)
(2) Parece claro que por sentimental não entenderemos a poesia “derramada”, de estro lírico dominante; mas o estigma característico do que anseia reabrigar-se como um só no seio da natureza, o que assume por meta o retorno à unidade perdida.
(3) GIRÃO, Blanchard. “Análise Crítica” de Caetano Ximenes Aragão, in: D’ALGE, Carlos (org.). Antologia Terra da Luz — Poetas. Fortaleza: Diário do Nordeste, 1998.
(4) Salientamos a “obra em versos” porque neste ensaio não nos debruçaremos sobre A Ilha dos Cornos: Estudo das Cornopatias, livro póstumo, saído em 1996 pela Editora Maltese (com apoio da Imprensa Oficial do Estado do Ceará — IOCE). Pelo que contém de erudito e ao mesmo tempo hilário, eminentemente jocoso; pela diversidade de abordagens com que se implementa e, enfim, por dizer respeito a todos, direta ou indiretamente, mereceria tal volume estudo à parte, um ensaio apenas para si. Também não incluiremos em nosso estudo o discurso Ciência da Vida — Utopia do 3º. Milênio, publicado nos ANAIS da Academia Cearense de Medicina — Volume VII, N° 7, Junho de 1994 a dezembro de 1996, nem a plaqueta Canto Intemporal, composta de quatorze estrofes em oitavas camonianas, e ideada por ocasião da formatura da turma de médicos em 1952 da Faculdade de Medicina da Bahia. Trinta anos depois, em 1982, essa plaqueta seria publicada em pequena edição, com projeto gráfico de Rosemberg Cariry e Tarcísio Garcia.
(5) Como assinala muito bem Airton Fontenele Sampaio Xavier, em “A Escrita Poética de Caetano Ximenes” (Revista Literapia n° 8, julho de 2003), deve ser apenas “acidental” a aproximação entre Augusto dos Anjos e o autor do Pastoreio da Nuvem e da Morte. Na verdade, se pretendêssemos apontar influências do poeta cearense, estas deveriam ir do cantador popular a Maiakovski, da ciranda e do coco ao concretismo mais urbano. A título de ilustração, como não lembrarmos de Carlos Drummond de Andrade e do Poema de Sete Faces e, principalmente, de Convite Triste, em que o mineiro nomeia a si, fazendo-se uma segunda pessoa, evitando a primeira? Recurso também adotado por Caetano Ximenes, seguidamente no conjunto dos quatro primeiros textos do Pastoreio a intitularem-se, cada um, “Poema”: “caetano/ estou à espera/ de que não me convidem/ para nada”. E ainda em O Estrangeiro e Um Poema para Três Personagens. Mas percorrer a trilha das influências possíveis de nosso autor exigiria uma arqueologia em muito superior aos limites do presente estudo.  
(6) Essa dicotomia da solidão comunicante pode, de resto, ser percebida desde a epígrafe da obra: “Não tenho ambições nem desejos./ Ser poeta não é uma ambição minha./ É a minha maneira de estar sozinho” (Fernando Pessoa, poemas de Alberto Caeiro).  
(7) Normalmente, quando a questão é o Romanceiro da Inconfidência, é posta em relevo sua dimensão política, sua crítica ao mercantilismo e à exploração das almas em função do ouro. Mas em se tratando de Cecília Meireles, por que a ida a Minas Gerais e ao século XVIII? Talvez pelo estreito vínculo de Cecília e do Arcadismo, com seu bucolismo, rimances, madrigais e “pastoris”. “Todos querem ser pastores/ quando encontram, de manhã,/ os carneirinhos,/ enroladinhos/ como carretéis de lã” (Ou Isto ou Aquilo, poema Os carneirinhos).
(8) Desde 2007 vêm seguidamente sendo relembrados os trágicos episódios da Confederação do Equador em sua versão cearense através do Cortejo dos Confederados, grande festejo que reproduz no trajeto pelo centro de Fortaleza o itinerário percorrido pelos cinco condenados, antes de sua execução no Campo da Pólvora, atual Passeio Público. A festa dá-se em homenagem ao Dia do Patrimônio Cultural do Ceará, a 30 de julho, com direção geral de Oswald Barroso e apoio da Secretaria de Cultura do Estado. 
(9) “Encontro neste livro um poeta profundamente emocionado. Um poeta desfiando palavras encantadas e redescobrindo velhas mitologias. Um poeta em busca do tempo perdido. Um poeta tentando desesperadamente ressuscitar o menino morto. A infância é uma presença luminosa, uma presença comovida nestes poemas; uma presença, quase diria, avassaladora. Dos 50 poemas do livro, mais de 20 ou se referem especificamente ou aludem de passagem à infância do poeta”. Cf. “Caetano Ximenes Aragão ou a Indignação Que Faz Versos” (p. 43), in: CARVALHO, Francisco. Exercícios de  Literatura. Fortaleza, Edições UFC, 1990.
(10) Além das obras aqui analisadas (e das não-analisadas, mas já citadas), gostaríamos de acompanhar uma vez mais Airton Fontenele (“A Escrita Poética de Caetano Ximenes”, in: Revista Literapia n° 8, julho de 2003) e o excelente apanhado que fez da Fortuna Crítica do poeta: é apresentada de Caetano Ximenes uma “mini bio-bibliografia”, em “Presença do Médico na Literatura Brasileira”, de Geraldo Bezerra (1996 — VXI Congresso da SOBRAMES-CE); em A Poesia Cearense no Século XX, de Assis Brasil (cf. Bibliografia), são reproduzidos o Poema (“João vivia no precisado”) e Dia da Libertação, respectivamente do Pastoreio e do Romanceiro; aparecem estudos sobre o autor em Leitura e Conjuntura, 1995, de Dimas Macedo, e em Exercícios de Literatura de Francisco Carvalho (cf. Bibliografia); também comparece na apreciação de Adriano Espínola a Verdes Versos, obra coletiva; e ainda nas homenagens de Joaquim Eduardo de Alencar, Francisco Carvalho e Blanchard Girão, todas na Revista da Academia Cearense de Medicina (cf. Bibliografia). Acrescentaremos ao levantamento de Airton Fontenele, as obras de Sânzio de Azevedo, Literatura Cearense (cf. Bibliografia), em que o poeta ganha as páginas 561-565, e tem seu livro O Pastoreio da Nuvem e da Morte definido como “dos mais fortes que nos têm surgido ultimamente”; e a obra de Pedro Américo de Farias, NOR destinosColetânea Poética do Nordeste Brasileiro (cf. Bibliografia), em que são reproduzidos dois poemas de Caetano Ximenes, o primeiro dos dois presentes em Assis Brasil, e Um Poema para Três personagens, do Pastoreio (devemos a notícia dessa coletânea a D. Dulce, viúva, e a Ângela Aragão, filha do poeta). Finalmente, recordemos a importante participação de Caetano Ximenes na Revista Literária Siriará, de 1979, em que figura o poema Do Gênese, abertura também de Sangue de Palavra.      

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