segunda-feira, 16 de julho de 2012

PAIS & FILHOS (MANUEL S. BULCÃO NETO)

Liginha, minha filha
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Pais & Filhos


Você culpa seus pais por tudo
Isso é um absurdo.
São crianças como você,
O que você vai ser
Quando você crescer?

Renato Russo


Filhos? Melhor não tê-los!
Mas se não os temos.
Como sabê-los?

Vinícius de Morais




I
Id quo maius
cogitare nequit


Para a Lígia.


Existe em algum recanto
Do mundo das formas puras
O poema de amor perfeito.

São os versos que cantam
Meu bem-querer por ti:

Cantiga mais bela
Que qualquer canção
Concebível pela
Imaginação.

Esse poema existe
— Diz-me o coração —,

Mesmo que impossível
Expô-lo em papel
Com palavras mundanas:

— Por ser uma ode
    De infinitos versos
    Todos eles escritos
    Na língua dos anjos.


II
Vid’estranh’amor


Ao Ulisses


Meu filho,

Quando li
No jornal
A manchete:
— ‘O autismo
É um custo
Do entendimento
Humano’

Ansiei:

— Que a inteligência
Rara
Também seja
Sábia
E deste mundo
Faça
Lugar sem tanta
   
Dor.

Essa esperança
Basta
Para que valha
A pena
A tua estranha
Vida
E meu penoso

Amor.



Manuel S. Bulcão Neto.

domingo, 15 de julho de 2012

ELAS (MANUEL S. BULCÃO NETO)

Venus de Milo, Louvre


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Elas

I
Tempo de amar


Quando ela me olha
Ganho todo o dia;

Quando olha e me vê
Ganho a semana inteira;

Quando então me sorri
Sou só riso por um mês.

Ó Afrodite, me diga:
O que preciso fazer

Para que ela me dê
Um flash de eternidade?



II
Sonho de Romeu


Ah, como ficas linda
Nesse traje de gala,
Amada Julieta...

Mas no sonho de Romeu
Não estás feito crisálida,
E sim como borboleta.

Por isso, trago-te flores:
Jasmim, dálias, violetas…



III
Verso para a mulher possível


Beijo tuas estrias,
Lambo-te as celulites,
Mordo teus culotes
E também os joanetes.

Não me teria apaixonado
Se não tivesses estrabismo leve
E os caninos saltados.

Ah, essas imperfeições,
Que apimentam tua beleza…



IV
Metonímia


Eu, quando só,
Só penso em ti
Não tardo a te
Sentir em mim.

Este tesão
Que teu retrato
Me espicaça
Não é sintoma
De solidão,

Mas metonímia
De uma paixão.



V
Body art


O desejo do Eu
É o desejo do Outro.

Jacques Lacan

Desejo-te.
E sei, mulher vaidosa
— De shopping e convenções —,
Que desejas
Meu desejo.

Escondes
Isso de mim?
Por que então me mostras
Que o escondes?

Sabes bem:
Já penetrei tua alma
Por essas frinchas
Quase sempre abertas
— Teus olhos negros
     E oblíquos.

E dentro
Transformei teu corpo
Num poema hermético
De amor secreto.

Melhor que fosse
Um madrigal
De uma só metáfora
Onomatopaica:

Nosso arfar uníssono
De prazer selvagem.


Manuel S. Bulcão Neto.

terça-feira, 10 de julho de 2012

NIETZSCHIANAS VI - O PODRE E SEUS VERMES (MANUEL S. BULCÃO NETO)

“Por trás dos teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido. Chama-se Eu sou”. (Nietzsche; Zaratustra – Dos que desprezam o corpo)
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VI
O Podre e Seus vermes

Eu Sou o que Sou.

Êxodo  3; 14

Se Sou-o-que-Sou não passa
de um Nada metido a besta

E o Logos (Verbum Dei)
Só verborreica jactância…

Nós, que por sorte nascemos,
Brindemos a Sua Arrogância!


Manuel S. Bulcão Neto

sábado, 7 de julho de 2012

(DES)CONEXÕES: POESIA, ARTE, CIÊNCIA E MATEMÁTICA (ROBERTO TAKATA)

Um crochê hiperbólico de Dainia Taimina.
Foto: Stitchlily



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(Des)conexões: Poesia, arte, ciência e matemática

  Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Luís de Camões
Os Lusíadas, Canto I


O Institute for Figuring, também conhecido como fig. ou pela sigla inglesa IFF, é uma organização sediada em Los Angeles, Ca., EUA, que tem como objetivo divulgar e desenvolver a expressão de conceitos matemáticos e científicos por meio da poesia e de elementos estéticos através de palestras, publicações e exposições.

Conheci por acaso, buscando informações sobre os crochês hiperbólicos de Daina Taimina (fig. 1). Ela desenvolveu-os em 1997 quando dava aula de matemática na Universidade de Cornell a fim de ilustrar de modo concreto as propriedades de um espaço não-euclidiano hiperbólico - de difícil representação tridimensional. (E a obra de Taimina conheci através do livro: Alex no país dos números: uma viagem ao mundo maravilhoso da matemática, de Alex Bellos, 2009, Cia. das Letras, 490.)

Buscava mais informações não apenas por curiosidade pessoal, mas também para ajudar um amigo meu, Manuel Bulcão, que mantém (entre outras atividades) um blogue que versa exatamente sobre a relação entre ciência e arte: A Arte do Conceito.

Arte e ciência foi também tema abordado no encontro promovido pela revista Trip entre o neurocientista Miguel Nicolelis e o coordenador do Projeto Axé, Cesare La Rocca - ambos homenageados pela publicação no Prêmio Transformadores 2011.

Ciência e arte encontram-se também no termo grego τέχνη 'techné': significando tanto arte quanto ciência aplicada. Raiz de técnica e tecnologia.

E, claro, nas ilustrações científicas. Pra quem gosta, vale a pena visitar o blogue Symbiartic de Kalliopi Monoyios.

Sem falar em fotografias, design, engenharia, infografias, paleografia, neurobiologia da arte, ou, mais recentemente, arte genômica*. Impossível esgotar os detalhes de todas as imbricações em uma única postagem - ou mesmo em uma série.

*Upideite (17/set/2011): A lista é quase interminável, mas eu não poderia deixar de mencionar outra área de encontro: dança interpretativa de teses de doutoramento.

Roberto Mitsuo Takata
16/09/2011.

Obs.: Texto extraído do blogue GeneRepórter.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VERSO INÚTIL (MANUEL S. BULCÃO NETO)

"Inútil! A gente somos inútil!... Inú! Inú! Inú!..."

(trecho da canção lírica 'Inútil', da banda Ultraje A Rigor)
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Verso inútil

Ao Raymundo Netto

Verso inútil,
Mas não gratuito,
Desnecessário
Como o lixo;

Bem ao contrário,
Inútil e raro
E precioso
Como o luxo.


Manuel S. Bulcão Neto

domingo, 24 de junho de 2012

NIETZSCHIANAS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


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Cena do filme O sétimo selo
de Ingmar Bergman

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Nietzschianas

Ao Alves de Aquino


I
Filhos do infinito


Espanta-me saber
Que um em infinito
Era minha chance de nascer.

Desse absoluto acaso
O encanto supera a dor
Da necessidade de morrer.

Existo, fato acabado,
E por mais me pese o fado,
Ao nada prefiro o ser.



II
 Fracasso


Fracassar
Não é perder a sorte,
Ver o Sonho destruído;

Fracassar
É, no instante da morte,
Desejar não ter nascido.



III
 Metáfora


Prefiro

A angústia dos homens
À felicidade dos poodles;

As dores do amor
Aos analgésicos do tédio.

E quando a vida deprime
Por não ser boa nem bela…

Ainda resta o Sublime.


IV
Estranho atrator (*)


Legiões de excêntricos
Vagueiam
No limite entre a ordem
E o caos.

Alguns se mantêm
Na fronteira
— Lá ficam fisgando
    Estrelas —

E muitos transpassam
O umbral.
  


V
 Circulus virtuosus deus


Os estoicos vencem a morte
Com a própria morte.

Elias Canetti

Vivi bem,
Ardentemente.
Feliz, fui muito!
Hoje, sou menos.

Por quê? — Cansaço,
No peito um sopro,
Essa tristeza
De “pai de morto”…

Hoje, bem cedo,
Saí da cama.
Em vez de febre,
Sentia força.

Tomei café
Com pão e nata.
Faltei ao médico
E disse: — Basta!

Repetiria, ó!
— Ad aeternum —
Todos os gestos
Que fiz na vida,

Cada momento,
Com regozijo;
Mesmo este último:
Cruento e fatídico.

Fui senhor
Da própria vida,
Agora o sou
Da minha morte.

— Será assim
Que partem os fortes?





Manuel S. Bulcão Neto

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(*) “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós.” (NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 1994, p. 34).
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