sábado, 7 de julho de 2012

(DES)CONEXÕES: POESIA, ARTE, CIÊNCIA E MATEMÁTICA (ROBERTO TAKATA)

Um crochê hiperbólico de Dainia Taimina.
Foto: Stitchlily



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(Des)conexões: Poesia, arte, ciência e matemática

  Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Luís de Camões
Os Lusíadas, Canto I


O Institute for Figuring, também conhecido como fig. ou pela sigla inglesa IFF, é uma organização sediada em Los Angeles, Ca., EUA, que tem como objetivo divulgar e desenvolver a expressão de conceitos matemáticos e científicos por meio da poesia e de elementos estéticos através de palestras, publicações e exposições.

Conheci por acaso, buscando informações sobre os crochês hiperbólicos de Daina Taimina (fig. 1). Ela desenvolveu-os em 1997 quando dava aula de matemática na Universidade de Cornell a fim de ilustrar de modo concreto as propriedades de um espaço não-euclidiano hiperbólico - de difícil representação tridimensional. (E a obra de Taimina conheci através do livro: Alex no país dos números: uma viagem ao mundo maravilhoso da matemática, de Alex Bellos, 2009, Cia. das Letras, 490.)

Buscava mais informações não apenas por curiosidade pessoal, mas também para ajudar um amigo meu, Manuel Bulcão, que mantém (entre outras atividades) um blogue que versa exatamente sobre a relação entre ciência e arte: A Arte do Conceito.

Arte e ciência foi também tema abordado no encontro promovido pela revista Trip entre o neurocientista Miguel Nicolelis e o coordenador do Projeto Axé, Cesare La Rocca - ambos homenageados pela publicação no Prêmio Transformadores 2011.

Ciência e arte encontram-se também no termo grego τέχνη 'techné': significando tanto arte quanto ciência aplicada. Raiz de técnica e tecnologia.

E, claro, nas ilustrações científicas. Pra quem gosta, vale a pena visitar o blogue Symbiartic de Kalliopi Monoyios.

Sem falar em fotografias, design, engenharia, infografias, paleografia, neurobiologia da arte, ou, mais recentemente, arte genômica*. Impossível esgotar os detalhes de todas as imbricações em uma única postagem - ou mesmo em uma série.

*Upideite (17/set/2011): A lista é quase interminável, mas eu não poderia deixar de mencionar outra área de encontro: dança interpretativa de teses de doutoramento.

Roberto Mitsuo Takata
16/09/2011.

Obs.: Texto extraído do blogue GeneRepórter.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VERSO INÚTIL (MANUEL S. BULCÃO NETO)

"Inútil! A gente somos inútil!... Inú! Inú! Inú!..."

(trecho da canção lírica 'Inútil', da banda Ultraje A Rigor)
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Verso inútil

Ao Raymundo Netto

Verso inútil,
Mas não gratuito,
Desnecessário
Como o lixo;

Bem ao contrário,
Inútil e raro
E precioso
Como o luxo.


Manuel S. Bulcão Neto

domingo, 24 de junho de 2012

NIETZSCHIANAS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


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Cena do filme O sétimo selo
de Ingmar Bergman

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Nietzschianas

Ao Alves de Aquino


I
Filhos do infinito


Espanta-me saber
Que um em infinito
Era minha chance de nascer.

Desse absoluto acaso
O encanto supera a dor
Da necessidade de morrer.

Existo, fato acabado,
E por mais me pese o fado,
Ao nada prefiro o ser.



II
 Fracasso


Fracassar
Não é perder a sorte,
Ver o Sonho destruído;

Fracassar
É, no instante da morte,
Desejar não ter nascido.



III
 Metáfora


Prefiro

A angústia dos homens
À felicidade dos poodles;

As dores do amor
Aos analgésicos do tédio.

E quando a vida deprime
Por não ser boa nem bela…

Ainda resta o Sublime.


IV
Estranho atrator (*)


Legiões de excêntricos
Vagueiam
No limite entre a ordem
E o caos.

Alguns se mantêm
Na fronteira
— Lá ficam fisgando
    Estrelas —

E muitos transpassam
O umbral.
  


V
 Circulus virtuosus deus


Os estoicos vencem a morte
Com a própria morte.

Elias Canetti

Vivi bem,
Ardentemente.
Feliz, fui muito!
Hoje, sou menos.

Por quê? — Cansaço,
No peito um sopro,
Essa tristeza
De “pai de morto”…

Hoje, bem cedo,
Saí da cama.
Em vez de febre,
Sentia força.

Tomei café
Com pão e nata.
Faltei ao médico
E disse: — Basta!

Repetiria, ó!
— Ad aeternum —
Todos os gestos
Que fiz na vida,

Cada momento,
Com regozijo;
Mesmo este último:
Cruento e fatídico.

Fui senhor
Da própria vida,
Agora o sou
Da minha morte.

— Será assim
Que partem os fortes?





Manuel S. Bulcão Neto

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(*) “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós.” (NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 1994, p. 34).

sexta-feira, 15 de junho de 2012

POEMA METAFÍSICO DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO

O pensador

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POR QUÊ?
— POEMA METAFÍSICO —

Manuel Soares Bulcão Neto


Penso, por que existo?
Gratuito não é viver?
Se o fim é sumir no infinito,
Então para que nascer?

Sendo o ponto de partida
O mesmo de chegada,
Digam-me pra que é isso:
Uma circular estrada?

Toda esta cacofonia,
Tanto ruído sem sentido…
Não seria o cabal silêncio
Algo mais significativo?

No céu, eões de estrelas
Brilham por que razão
Se tudo será, um dia,
Radiação tênue e fria
Num jazigo de escuridão?

E se a natureza inteira
Descamba para o nadir
Por que ela então se deu
Ao trabalho de existir?

Por que assim é o mundo,
Redundante e complicado?
Em vez de zero rotundo,
Xis menos xis ao quadrado?

A vida é sem Destino.
Mas para que razão de ser
Se beleza, amor e vinho
São motivos pra não morrer?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ATEUS DE ALMA HUMANA: MINHA CORDIAL DISCORDÂNCIA A CARLOS ORSI (ARTIGO DE ROBERTO MITSUO TAKATA)

Enver Hodxa, ditador da Albânia stalinista
em cuja Constituição havia uma cláusula que estabelecia
o ateísmo como "religião" oficial do Estado.

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Roberto Takata

O jornalista Carlos Orsi escreveu em seu blogue um texto em defesa do direitos ateus em debocharem abertamente do sentimento religioso das pessoas: "Cuidado com quem prega o ateísmo de 'alma branca'".
A linha de defesa, pelo que entendi, passa por:
1) Liberdade de expressão;
2) Direito de resposta: "eles (os religiosos) que começaram, professor";
3) Estão apenas dizendo a verdade: "religião *é* ridícula";
4) Estratégia retórica: tem que bater o pau na mesa pra se fazer respeitar;
5) Dizer que não deveriam ridicularizar seria o mesmo que dizer que negros deveriam saber seu lugar, homossexuais devem ser discretos e mulheres devem se vestir como pudicas.
1) Como o próprio Orsi reconhece nos comentários da postagem dele, a liberdade de expressão tem limites: de um lado, a lei, e de outro, há a reprovação dos intelectuais. E, bem, aparentemente parte dos intelectuais acha que essa ridicularização passou mesmo o limite do bom gosto e da civilidade a ponto de fazerem crítica pública a essas ações, inclusive intelectuais dentro da própria comunidade ateísta e ateia. (Quanto ao limite legal estou mais incerto - creio que ninguém ainda tenha sido processado.)

2) Em conjunto com certas interpretações de (1) isso acaba legitimando também o próprio discurso *contra* os ateus (ou contra a ateidade/ateísmo). Por quê? Porque de um lado, se *todo mundo* tem a liberdade de dizer *o que quiser*, esse "todo mundo" inclui os religiosos e esse "o que quiser" inclui descascar os ateus. De outro, é o princípio em que a reciprocidade elimina a ofensa inicial. Os dois se xingaram, estão quites. Ninguém tem que falar nada de ninguém. (É um dispositivo de exclusão de pena no
Código Penal para os casos de injúrias - art. 140:
"§ 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria."
Isto é, ateus ficam sem a carta do "quero respeito", a menos que ambas as partes se sentem para um armistício.
E a prioridade da provocação é invertida quando começa a caçoar de Ganexa - há poucos casos de atritos entre hindus (religiões orientais de modo geral, e as de matrizes nativas e africanas também) e ateus no Brasil.
 3) O conceito de ridicularidade é extremamente subjetivo ou, no máximo, intersubjetivo. Mas mesmo assim há coisas que não precisam ser ditas por serem provocações puras, sem nenhum aspecto pedagógico. Sério, qual o sentido de ridicularizar Ganexa? O mesmo sentido do Rodeio das Gordas, pelo visto. Ninguém há de defender a humilhação de pessoas obesas para que "elas se toquem e comecem a fazer regime, faz até bem pra saúde delas"— oquei, há gente que defende isso, mas acho que concordaremos que é uma tentativa absurda de justificação.
4) De um lado há que se discutir se a hora é agora. E de outro se é verdade que isso é necessário. Orsi também reconhece nos comentários da postagem dele a possibilidade de escalada, o que chama de "corrida armamentista". Se o efeito desejado é de *convencimento*, isso parece um tiro pela culatra.
5) A comparação não procede como argumentei lá na postagem de Orsi:
"A comparação com 'negro saber seu lugar', 'homossexuais não pode[m] andar de mãos dadas na rua', 'mulher não pode usar roupa sensual' não é bom [sic, boa] em relação a 'ateus devem ser respeitosos'. Em primeiro lugar, desrespeito é criticável - mesmo o responsivo. Além disso, desrespeito *não* é uma característica intrinsecamente necessária para o exercício da ateidade ou do ateísmo. Em terceiro lugar - ligando-se com o primeiro -, 'negro saber seu lugar' restringe os direitos dos negros porque todo mundo, menos os negros, podem ir e vir para qualquer lugar, 'homossexual deve ser discreto' restringe o direito dos homossexuais porque todo mundo, menos os homossexuais, podem demonstrar afeto em público; 'mulher deve se vestir puritanamente' restringe os direitos das mulheres porque todo mundo, menos as mulheres, podem se vestir do jeito que quiserem

'Ateus devem se comportar' só é comparável a essas situações se a todo mundo, menos os ateus, fosse dado o direito de ser desrespeitos."
O desrespeito por parte dos ateus em relação aos religiosos deve ser criticado. Também devem ser criticados os desrespeito dos religiosos em relação aos ateus. E também o desrespeito de grupos religiosos em relação a outros grupos religiosos.
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