domingo, 24 de junho de 2012

NIETZSCHIANAS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


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Cena do filme O sétimo selo
de Ingmar Bergman

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Nietzschianas

Ao Alves de Aquino


I
Filhos do infinito


Espanta-me saber
Que um em infinito
Era minha chance de nascer.

Desse absoluto acaso
O encanto supera a dor
Da necessidade de morrer.

Existo, fato acabado,
E por mais me pese o fado,
Ao nada prefiro o ser.



II
 Fracasso


Fracassar
Não é perder a sorte,
Ver o Sonho destruído;

Fracassar
É, no instante da morte,
Desejar não ter nascido.



III
 Metáfora


Prefiro

A angústia dos homens
À felicidade dos poodles;

As dores do amor
Aos analgésicos do tédio.

E quando a vida deprime
Por não ser boa nem bela…

Ainda resta o Sublime.


IV
Estranho atrator (*)


Legiões de excêntricos
Vagueiam
No limite entre a ordem
E o caos.

Alguns se mantêm
Na fronteira
— Lá ficam fisgando
    Estrelas —

E muitos transpassam
O umbral.
  


V
 Circulus virtuosus deus


Os estoicos vencem a morte
Com a própria morte.

Elias Canetti

Vivi bem,
Ardentemente.
Feliz, fui muito!
Hoje, sou menos.

Por quê? — Cansaço,
No peito um sopro,
Essa tristeza
De “pai de morto”…

Hoje, bem cedo,
Saí da cama.
Em vez de febre,
Sentia força.

Tomei café
Com pão e nata.
Faltei ao médico
E disse: — Basta!

Repetiria, ó!
— Ad aeternum —
Todos os gestos
Que fiz na vida,

Cada momento,
Com regozijo;
Mesmo este último:
Cruento e fatídico.

Fui senhor
Da própria vida,
Agora o sou
Da minha morte.

— Será assim
Que partem os fortes?





Manuel S. Bulcão Neto

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(*) “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós.” (NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 1994, p. 34).

sexta-feira, 15 de junho de 2012

POEMA METAFÍSICO DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO

O pensador

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POR QUÊ?
— POEMA METAFÍSICO —

Manuel Soares Bulcão Neto


Penso, por que existo?
Gratuito não é viver?
Se o fim é sumir no infinito,
Então para que nascer?

Sendo o ponto de partida
O mesmo de chegada,
Digam-me pra que é isso:
Uma circular estrada?

Toda esta cacofonia,
Tanto ruído sem sentido…
Não seria o cabal silêncio
Algo mais significativo?

No céu, eões de estrelas
Brilham por que razão
Se tudo será, um dia,
Radiação tênue e fria
Num jazigo de escuridão?

E se a natureza inteira
Descamba para o nadir
Por que ela então se deu
Ao trabalho de existir?

Por que assim é o mundo,
Redundante e complicado?
Em vez de zero rotundo,
Xis menos xis ao quadrado?

A vida é sem Destino.
Mas para que razão de ser
Se beleza, amor e vinho
São motivos pra não morrer?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ATEUS DE ALMA HUMANA: MINHA CORDIAL DISCORDÂNCIA A CARLOS ORSI (ARTIGO DE ROBERTO MITSUO TAKATA)

Enver Hodxa, ditador da Albânia stalinista
em cuja Constituição havia uma cláusula que estabelecia
o ateísmo como "religião" oficial do Estado.

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Roberto Takata

O jornalista Carlos Orsi escreveu em seu blogue um texto em defesa do direitos ateus em debocharem abertamente do sentimento religioso das pessoas: "Cuidado com quem prega o ateísmo de 'alma branca'".
A linha de defesa, pelo que entendi, passa por:
1) Liberdade de expressão;
2) Direito de resposta: "eles (os religiosos) que começaram, professor";
3) Estão apenas dizendo a verdade: "religião *é* ridícula";
4) Estratégia retórica: tem que bater o pau na mesa pra se fazer respeitar;
5) Dizer que não deveriam ridicularizar seria o mesmo que dizer que negros deveriam saber seu lugar, homossexuais devem ser discretos e mulheres devem se vestir como pudicas.
1) Como o próprio Orsi reconhece nos comentários da postagem dele, a liberdade de expressão tem limites: de um lado, a lei, e de outro, há a reprovação dos intelectuais. E, bem, aparentemente parte dos intelectuais acha que essa ridicularização passou mesmo o limite do bom gosto e da civilidade a ponto de fazerem crítica pública a essas ações, inclusive intelectuais dentro da própria comunidade ateísta e ateia. (Quanto ao limite legal estou mais incerto - creio que ninguém ainda tenha sido processado.)

2) Em conjunto com certas interpretações de (1) isso acaba legitimando também o próprio discurso *contra* os ateus (ou contra a ateidade/ateísmo). Por quê? Porque de um lado, se *todo mundo* tem a liberdade de dizer *o que quiser*, esse "todo mundo" inclui os religiosos e esse "o que quiser" inclui descascar os ateus. De outro, é o princípio em que a reciprocidade elimina a ofensa inicial. Os dois se xingaram, estão quites. Ninguém tem que falar nada de ninguém. (É um dispositivo de exclusão de pena no
Código Penal para os casos de injúrias - art. 140:
"§ 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria."
Isto é, ateus ficam sem a carta do "quero respeito", a menos que ambas as partes se sentem para um armistício.
E a prioridade da provocação é invertida quando começa a caçoar de Ganexa - há poucos casos de atritos entre hindus (religiões orientais de modo geral, e as de matrizes nativas e africanas também) e ateus no Brasil.
 3) O conceito de ridicularidade é extremamente subjetivo ou, no máximo, intersubjetivo. Mas mesmo assim há coisas que não precisam ser ditas por serem provocações puras, sem nenhum aspecto pedagógico. Sério, qual o sentido de ridicularizar Ganexa? O mesmo sentido do Rodeio das Gordas, pelo visto. Ninguém há de defender a humilhação de pessoas obesas para que "elas se toquem e comecem a fazer regime, faz até bem pra saúde delas"— oquei, há gente que defende isso, mas acho que concordaremos que é uma tentativa absurda de justificação.
4) De um lado há que se discutir se a hora é agora. E de outro se é verdade que isso é necessário. Orsi também reconhece nos comentários da postagem dele a possibilidade de escalada, o que chama de "corrida armamentista". Se o efeito desejado é de *convencimento*, isso parece um tiro pela culatra.
5) A comparação não procede como argumentei lá na postagem de Orsi:
"A comparação com 'negro saber seu lugar', 'homossexuais não pode[m] andar de mãos dadas na rua', 'mulher não pode usar roupa sensual' não é bom [sic, boa] em relação a 'ateus devem ser respeitosos'. Em primeiro lugar, desrespeito é criticável - mesmo o responsivo. Além disso, desrespeito *não* é uma característica intrinsecamente necessária para o exercício da ateidade ou do ateísmo. Em terceiro lugar - ligando-se com o primeiro -, 'negro saber seu lugar' restringe os direitos dos negros porque todo mundo, menos os negros, podem ir e vir para qualquer lugar, 'homossexual deve ser discreto' restringe o direito dos homossexuais porque todo mundo, menos os homossexuais, podem demonstrar afeto em público; 'mulher deve se vestir puritanamente' restringe os direitos das mulheres porque todo mundo, menos as mulheres, podem se vestir do jeito que quiserem

'Ateus devem se comportar' só é comparável a essas situações se a todo mundo, menos os ateus, fosse dado o direito de ser desrespeitos."
O desrespeito por parte dos ateus em relação aos religiosos deve ser criticado. Também devem ser criticados os desrespeito dos religiosos em relação aos ateus. E também o desrespeito de grupos religiosos em relação a outros grupos religiosos.

domingo, 27 de maio de 2012

UNIVERSOS DE LABORATÓRIO (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Alan Guth, físico teórico do MIT
Autor da teoria do universo inflacionário


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UNIVERSOS DE LABORATÓRIO

“Deus criou o homem à sua imagem,
à imagem de Deus ele o criou,
homem e mulher ele os criou”.

Gênesis 1; 27


No meu breve ensaio “Sobre o critério da verdade”, afirmei que a existência de Deus é uma dessas hipóteses não passíveis de refutação ou comprovação empíricas, o que significa dizer que pode até ser que Deus exista realmente, porém jamais saberemos com certeza.
A hipotética divindade a qual me referi é aquela versão mais elaborada dos teólogos e de alguns filósofos: o Deus definido por Anselmo como “algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida”, o Logos que explica por que existe algo (inclusive a sua própria existência) em vez de nada existir, ou mesmo aquele outro postulado por Hegel: a Ideia, ao mesmo tempo substância e sujeito e que persegue, através dos homens, a consciência plena de si mesma – o Espírito absoluto.
Mas agora vou mais longe: digo que aquela história bíblica de um deus antropomórfico – um deus com forma e paixões humanas criador do Universo – mutatis mutandis não é um mito infundado, mas igualmente uma hipótese, ou seja, uma conjectura aceitável pela ciência até o momento (uma hipótese, se não científica, ao menos cientificamente fundamentada).
Com efeito, a física moderna não descarta a possibilidade de o Universo ter sido criado por uma inteligência de carne e osso que longe está de ser onisciente. O renomado cientista norte-americano Alan Guth, professor de Física do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em seu livro O universo inflacionário (Editora Campus), argumenta exaustivamente, durante todo um capítulo (capítulo 16 – Os Buracos de Verme e a Criação de Universos em Laboratório; pp. 210-22), que não é impossível que, num futuro distante, uma civilização superavançada venha a criar um novo sistema matéria-gravitação – isto é, um “novo” universo – independente do nosso.
Bastaria, para tanto, segundo Guth, apenas 25 gramas de matéria, além de tecnologia para comprimir essa massa até que se atinja a densidade de 1080 gramas por centímetro cúbico. O que se tem, então, é o que Guth denomina de uma bolha de falso vácuo.
Com essa bolha de falso vácuo criada num laboratório podem acontecer duas coisas: a) o seu imediato colapso e surgimento de um “microburaco negro”, o qual se evaporaria em menos de um milionésimo de segundo, ou então; b) o falso vácuo “tunela”, começa a se expandir exponencialmente, originando, desta forma, um outro universo isolado, isto é, separado do nosso (um outro espaço-tempo), e que evoluirá do mesmo modo que o nosso evoluiu.
O grau de probabilidade do colapso é muito superior ao do tunelamento, pois, afinal de contas, tudo que é bom é raro. No entanto, repetindo-se a experiência um número X de vezes, o tunelamento necessariamente ocorre.
Ademais, quanto maior a densidade alcançada, maior é o grau de probabilidade do tunelamento. Não se sabe se é possível densidades de falso vácuo superiores a 10 80 gramas por centímetro cúbico. Mas, segundo Alan Guth, “se existir um estado de falso vácuo (...) de aproximadamente 1093 gramas por centímetro cúbico (...) para essa densidade, a resposta de nosso cálculo de probabilidade seria de aproximadamente um – um novo universo seria criado praticamente a cada tentativa!” (ibidem, p. 222)
Duas observações importantes: a) o surgimento do universo-filho em nada afeta o universo-mãe; b) embora a bolha inicial de falso vácuo tenha sido originada pela compressão de apenas 25 gramas de matéria, após alguns bilionésimos de segundo de expansão exponencial a quantidade de massa no novo universo é tão grande quanto a que existe no “nosso” universo observável. – No livro mencionado, Guth dá uma explicação acessível ao leigo de como isso é possível.
É, pode ser que o universo em que vivemos seja um produto deliberado de criaturas inteligentes e inventivas como nós, seres humanos. Também é possível (porém pouco provável) que a humanidade evolua para uma supercivilização com tecnologia que a permita produzir bolhas de falso vácuo em série e, por conseguinte, universos a granel.
Talvez o universo seja necessariamente o produto de uma inteligência “mundana”, isto é, talvez não exista outro meio de um sistema matéria-gravitação surgir a não ser desta forma, através de uma intervenção consciente, isto é, deliberadamente. Se assim for, então o homem com sua inteligente rara não é, conforme afirmou Sartre, uma “paixão inútil” – se a natureza, que produz seres inteligentes (conscientes), é por sua vez produto desta mesma inteligência, então a vida complexa tem propósito, razão de ser.
É matéria evoluindo para espírito e espírito criando matéria desde o infinito pretérito e até o infinito futuro.
Mas talvez essa cadeia não seja infinita nem linear. Pode ser que a corrente se feche como um círculo. Pensei nesta ainda mais bizarra alternativa após ler uma novela do escritor brasileiro Sérgio Sant’Anna, A Senhorita Simpson, em que o autor fala de uma seita mística que postula a inexistência de Deus, pelo menos por enquanto. Isto é, “Ele (Deus) está sendo gerado, muito aos poucos, por todas as energias atuantes no Universo, inclusive aquelas que emanam de nós.” À pergunta “mas se Deus ainda não existe, quem criou este Universo anterior a Deus?”, seus fieis respondem: – “Ele mesmo … Deus, depois de pronto, terá criado todo o passado que O gerou.” [1]
Imagine-se o improvável: que a humanidade sobreviva a todos os antagonismos que a laceram; que a História, contrariando todas as expectativas, culmine numa superavançada civilização; que nesta civilização de abundância os homens (ou super-homens), livres desse grilhão que é a busca da satisfação das necessidades prático-utilitárias, dediquem o grosso do seu tempo à ciência e a atividades lúdicas criativas; que essas criaturas inteiramente dedicadas ao ócio criativo consigam desenvolver uma engenhoca (algo parecido com um gigantesco acelerador de partículas) capaz de comprimir um punhado de matéria até a densidade de 1093 gramas por centímetro cúbico e que, enfim, ponham-na para funcionar, gerando deste modo uma bolha de falso vácuo que, ao se expandir exponencialmente, dará origem a um novo universo para lá das fronteiras do nosso.
Imagine-se, agora, o esdrúxulo: no momento em que se cria a bolha de falso vácuo, o tempo completa uma curva fechada, de sorte que o universo recém-criado não é novo coisa nenhuma, mas este mesmíssimo universo em que vivemos! — Pode parecer estranho uma situação em que o efeito antecede a causa; mas o enigma se desfaz quando substituímos a ideia do tempo linear pela do tempo circular. Pois, no contexto de um tempo circular, não faz sentido falar em passado, presente e futuro quando se considera o tempo em sua totalidade. Logo, não faz sentido aplicar à relação entre causa e efeito o princípio da anterioridade da causa. Na verdade, quando o tempo é circular, o efeito nada mais é que a causa mais remota daquilo que imediatamente o causou.
Mas, deixando por enquanto a pura especulação de lado, o que se sabe é que vivemos num sistema matéria-gravitação “isolado” que surgiu não se sabe como e que, de acordo com nossas medições mais recentes, vem se expandindo há mais de 13,4 bilhões de anos. Essa imensa bolha espaçotemporal, malgrado evolua no sentido da máxima desordem, compreende alguns subsistema “abertos” em que a seta termodinâmica do tempo aparece invertida (desordem ® ordem). Como, por exemplo, o planeta Terra.
Este pequeno planeta azul onde, há cerca de 4,5 bilhões de anos, surgiu, em alguma poça d’água ou na circunvizinhança de alguma fonte hidrotérmica dos abismos oceânicos, uma macromolécula formada por açúcares, grupos de fosfato e bases nitrogenadas capaz de produzir réplicas de si mesma num ritmo alucinado.
E tão furioso era o ritmo que, em pouco tempo (algumas dezenas de milhões de anos), o material orgânico necessário para a replicação tornou-se escasso. Foi quando então surgiram os primeiros “demônios”, isto é, algumas macromoléculas “vivas” sofreram mutações ocasionais que, para a sua sorte (e o azar das demais), transformaram-nas em organismos especializados em devorar outros organismos vivos. Foi nesta época remotíssima que o protoplasma vivo começou a experimentar algumas sensações de desconforto muito parecidas com as que hoje denominamos de fome, medo e dor.
E como somente os mais “espertos” escapam dos demônios; e como, também, apenas os demônios mais argutos conseguem alcançar suas refeições cada vez mais espertas, a evolução dos seres vivos (ao menos entre os heterótrofos) se deu no sentido de uma complexização crescente do sistema nervoso e, por conseguinte, da inteligência.
Dito em outros termos, a biomassa, na medida em que devorava a si mesma, foi produzindo demônios cada vez mais inteligentes, até que, da sua entranha irrompeu – em apenas uma única linhagem de animais – um demônio bípede dotado de uma inteligência rara, extravagante, muito maior do que a necessária para a sua reprodução — inteligência presciente e consciente.
A consciência, filha da dor, do medo, do engodo tático e do assassínio de centenas de bilhões de seres vivos (ao longo de toda a história da vida), é esse excesso de inteligência que o demônio bípede, sem saber o que fazer com ela, ora a desperdiça na elaboração de delírios genocidas e no cultivo de cogumelos de fogo, ora a utiliza na produção de coisas belas e boas, como, por exemplo, o Moisés de Miquelângelo, as sinfonias de Beethoven, a filosofia de Kant, as instituições democráticas de governo, o sonho de liberdade e de igualdade. — E que, num futuro remoto, talvez venha a criar algo incomensuravelmente grande, ao mesmo tempo terrível e maravilhoso: um universo.
Mas tudo isso não passa de especulações baseadas em hipóteses científicas de fronteira ainda não corroboradas empiricamente — apenas conjecturas de quem, em vez de empregar a pouca inteligência que tem para ganhar dinheiro, fica aí, à toa na madrugada, fumando cigarro e entregue ao livre exercício de encadear ideias.


Manuel Bulcão
Julho/2000

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Postscriptum — Inteligência rara


Em 1980 um grupo de cientistas fundou o Projeto SETI (Seath for extraterrestrial intelligente). Seu objetivo era, mediante radiotelescópios, detectar sinais eletromagnéticos emitidos por civilizações de outras regiões do Cosmo. Partia-se do princípio de que, onde houvesse vida, a alta inteligência necessariamente surgiria, visto que esta confere à espécie que a possui maior adaptabilidade ao meio – “Mais inteligente é melhor”, sentenciou Carl Sagan, líder deste Projeto.
O biólogo Ernst Mayr, valendo-se da própria história da vida na Terra, demonstrou, entretanto, que essa premissa setiana é falsa. Afirmou que, decerto, a seleção natural opera ao mesmo tempo em vários ramos taxonômicos – filos, classes, ordens… – favorecendo o surgimento e desenvolvimento de certos órgãos, como as estruturas fotorreceptoras (os olhos), “adquiridas de modo independente pelo menos quarenta vezes no reino animal”. Não vislumbrava o Cientista, porém, nenhuma pressão seletiva conduzindo à alta inteligência, uma vez que, entre as milhões de linhagens existentes no Planeta, tal qualidade só surgiu em uma delas: a hominídea. Depois de apontar alguns acidentes sem os quais não teria vingado nossa estirpe, Mayr concluiu: “Como é extremamente improvável a aquisição da alta inteligência”, “como era infinitesimal a chance de isso ocorrer!”.
Agora, a pergunta: dado o seu suposto valor adaptativo, o que explica a raridade da alta inteligência? — Como uma das razões, alguns biólogos evolucionistas apontam o seu elevado custo em consumo energético (de fato, nosso cérebro demanda 20% de todas as calorias que o organismo consome). Aliás, em uma pesquisa realizada com moscas-das-frutas, Frederic Mery da Universidade de Friburgo descobriu que, em condições de grande escassez de víveres, as drosófilas com inteligência acima da média vão-se rareando até desaparecerem por completo. Infere-se desta experiência que, se os benefícios da inteligência a partir de certo nível não compensam o preço a ser pago, a seleção natural não irá favorecê-la, muito pelo contrário.
Outro custo da alta inteligência foi recentemente descoberto por James Sikela et al. da Universidade do Colorado. Segundo Sikela, a sequência de cópias do gene DUF1220 que determina o desenvolvimento do cérebro é a mesma que, com arranjo ligeiramente alterado, gera doenças mentais graves, como o autismo e a esquizofrenia. Significa dizer que os indivíduos portadores dessas moléstias são o preço que a espécie humana paga pelo mecanismo gênico que permite a geração da sua inteligência sem igual, capaz de produzir computadores, teorias cosmológicas e… antipsicóticos.
Inteligência é capacidade de processar informações e, de acordo com a teoria da complexidade, tal capacidade é máxima na fronteira entre a ordem e o caos. Isso explica a frágil condição do Gênio, ilustrada pelas loucuras terminais de Gödel e Nietzsche. A propósito, o autor de Zaratustra intuiu bem esse “equilíbrio distante” ao escrever que “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”.
De resto, embora muito valorizada, a inteligência é subutilizada pela maioria das pessoas, por medo do caos ou devido ao custo energético. Aliás, segundo o antropólogo Leslie Aiello, o homem, para pensar, retira energia dos intestinos, que são pequenos em comparação aos dos outros primatas. Por isso que muita gente, obedecendo ao princípio do menor esforço, em vez de realizar escolhas com o cérebro, prefere tomar decisões diretamente com as tripas. Outros, pelas mesmas razões, entregam seu destino ao acaso das cartas, búzios e do I Ching – ou então mantêm a mente operando no modo religioso, que é de baixa energia.
Como diz mesmo a canção? “Si quieres ser feliz como me dices / No analices / Ah, no analices.”

Manuel Soares Bulcão Neto

Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste, em 05/09/2010.



[1] A propósito, há uma versão da experiência da dupla fenda de Young, elaborada pelo físico John Wheeler (Princeton, 1979), cujo resultado sugere a existência de um bizarro fenômeno, a “causação retroativa”. Consiste este fenômeno na possibilidade de um observador atual, através da sua atividade cognitivo-experimental, vir a ser responsável pela geração de eventos situados num passado remoto, de modo que “a mente pode ser responsabilizada pela criação retroativa da realidade – mesmo de uma realidade que já existia antes de haver gente”.  Uma explicação mais detalhada desse experimento – numa forma “digerível” pelo leigo – é apresentada pelo físico teórico Paul Davies em seu livro de divulgação científica Deus e a Nova Física (Lisboa: Edições 70, 2000, pp. 111-129).

sábado, 26 de maio de 2012

PALPITES FUTEBOLÓGICOS (CRÔNICA DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Escudo do Ceará Sporting Club
Clique aqui para ouvir o hino
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Palpites futebológicos
  
Tenho um amigo cujo filho do meio é esquizofrênico. Sempre que lhe pergunto sobre a saúde do rapaz, ele, que é torcedor fanático do Ferroviário Atlético Clube, responde: “Continua como o Ferrim: quando a gente pensa que está melhorando, piora”.
Ocorre que não é apenas o Ferrim que se comporta desse jeito. Na verdade, não é esse time outra coisa que a expressão caricata de todo o futebol da parte de cima do Nordeste (o potiguar, o cearense, o piauiense…), que está mais para o da Nicarágua e Ilhas Fiji do que para o do sul do País. Sim, até na pelada o Brasil é terra de contrastes — e mais uma vez fiquei no lado sofrível.
 Por isso, sendo brasileiro “apesar” de cabeça chata, esforço-me para torcer apenas pela seleção canarinho. O problema é que não consigo. Por mais que tente, termino retornando aos estádios e ao Alvinegro, aos comentários radiofônicos do Alan Neto, nem que seja para, amargurado, torcer contra. (O futebol tem mesmo um elã encantatório, um quê do sexy appeal de mulher bandida do subtipo “cebola” - aquela que a gente come e chora, come e chora, come e chora...).
Na ocasião da Copa da África do Sul (2010), andei especulando sobre as razões da imensa popularidade do futebol (soccer), e tive alguns insights. No caso do Brasil, vislumbro como uma das razões a tradição da capoeira – uma luta com as pernas – que, aliada ao gosto infantil pelos dribles no pega-pega (fez que ia, não foi e acabou “fundo”) e com a tendência à simpatia pelos mais fracos, ensejou as primeiras torcidas. De fato, devia ser hilariante ver negros longilíneos escapando das correntes e do pelourinho na base da esquiva desconcertante e da rasteira, deixando tontos os seus feitores (“diminutos portugueses com expressões assassinas”, conforme definição de Darwin no The Voyage of the Beagle — Perdoem-me, meus irmãos d’além mar, por essa citação).
Além da simplicidade das regras – exceto para a minha mãe, que sempre pergunta “quem é a bola?” (plágio ou intertextualidade, quase a mesma coisa) – e do material necessário para a prática do esporte, outra razão global do sucesso do futebol está no fato de as partidas serem decididas, no mais das vezes, com escores mínimos, de modo que a alegria, em vez de se diluir em cinquenta cestas, como acontece no basquete, ela se concentra em um ou dois gols em média. É mais ou menos o que ocorre numa relação sexual entre apaixonados: muitas carícias preliminares e, de repente, o orgasmo — uma explosão de dopamina, o prazer em clímax. Daí a relação de paixão irracional entre as torcidas organizadas e seus times.
Daí, também, que torcer pela seleção nacional é como fazer amor com a pátria em que nós, os torcedores, somos os passivos da relação e, portanto, sujeitos às ejaculações precoces do parceiro, às suas impotências circunstanciais, aos seus momentos de virilidade exuberante…
Além do mais, o fato de os placares encerrarem-se com poucos gols, isso aumenta significativamente o papel da sorte ou do azar – isto é, do acaso – no resultado final. Por isso que, principalmente para quem torce por clube ruim, isto é, pela zebra, futebol é jogo de azar. Ora, todo mundo sabe que jogo de azar vicia mais que o álcool e talvez tanto quanto a heroína. E, segundo Freud, em jogatina a maioria dos jogadores aposta não para ganhar, mas para perder: inconscientemente, o jogador (no caso, o torcedor) quer expiar um sentimento de culpa abscôndito. A propósito, tenho quase certeza de que aquele meu amigo doente pelo Ferroviário é um desse tipo: um adicto da “zebrinina”, um futebólatra.


Manuel Soares Bulcão Neto,
ainda puto com a derrota do Vozão para o América-MG por 2 a 1, em casa!


Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste, em 08/08/10.

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