terça-feira, 22 de maio de 2012

GUSTAVO BARROSO E A FAZENDA ÁGUA-BOA

usta
Gustavo Barroso (1888 - 1959)

No terceiro volume de suas memórias (Consulado da China), o escritor cearense Gustavo Barroso fala de suas alegres estadas na fazenda Água-Boa, localizada na ribeira do Ceará (Rio Ceará), de propriedade de João Licínio Nunes, seu primo e meu bisavô materno. Hospedava-se no último quarto à esquerda da casa grande – ver primeira foto, abaixo – e, entre uma caçada e um banho de açude, escreveu a novela João Ferreira (1909), publicada em rodapés no Jornal do Ceará e depois refundida, a pedido de Monteiro Lobato, no volume Mula sem cabeça. Traduzida para o inglês por Cunnighame Graham, elogiada pelo “Times”, foi, segundo o autor, “o último livro que Joseph Conrad leu em seu leito de morte, conforme diz na derradeira carta que escreveu e que vem publicada no volume de sua correspondência”. Na Mula sem cabeça, Gustavo Barroso, o “ariano cearense” (alcunha a ele atribuída pelo professor Eduardo Diatahy), descreve a fazenda de Água-Boa, seu aconchego.


A fazenda ainda é propriedade da minha família materna. Frequentei-a muito em minha infância e juventude. Inesquecível o dia em que varei a madrugada em um bote, no meio do açude, ouvindo no toca-fitas canções do “Pessoal do Ceará”, na companhia da minha paixão adolescente… e com minha irmãzinha atrapalhando. (Manuel Bulcão)

Antiga casa grande

A mesma casa






Três fotos do açude

A capela


Eu na Água-Boa (em flagrante delito, isto é, tomando uma cervejinha) com primos e minha mãe Eunice.

Obs.: Essas fotos me foram dadas por minha prima Claudinha.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

ROBERTO MITSUO TAKATA (PALAVRAS DE UM CIBERAMIGO)


Roberto Mitsuo Takata
Organizador do Movimento Cético-Racionalista Brasileiro

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Observações impertinentes
Blogue de Roberto Mitsuo Takata (*)
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Título: Contra o princípio copernicano
Autor: Manuel Soares Bulcão Neto
Editora: Emooby
Páginas: 136 (345 KB)
Preço: €4,10 (download no sítio web da editora), US$ 4,60 (na Amazon)
ISBN: 9789897141379
O ensaísta Manuel Bulcão, de quem falei aqui em outra oportunidade, lança mais um livro.
sábado, 10 de outubro de 2009
Sorteio - As esquisitices do óbvio (Manuel Soares Bulcão Neto)

Manuel Soares Bulcão Neto é uma pessoa de profunda erudição - nunca o encontrei pessoalmente, mas tenho o privilégio de poder trocar com ele ideias pela internet (claro, um escambo em que ele sai extremamente prejudicado) - é a pessoa de mais vasto e sólido conhecimento humanista dentre as que conheço.

Capaz de citar, assim, de boa, Martin Heidegger, Alan Guth, Fiodor Dostoiévsky e Patativa do Assaré em um mesmo parágrafo: se não em uma única frase.

O único pecadilho é ter se esquecido de atribuir a mim a origem de seu "hai kai do bioquímico apaixonado" (que ele reproduz em seu livro As esquisitices do óbvio): "Oh, dopamina/Feniletilamina/Oxitocina" (não, não como a musa inspiradora, mas por ter escrito um texto sobre o tema - lírica, amor e ciências - em cima do qual ele criou essa peça muito superior a minha: sim, sou invejoso, e esta indiscrição é o modo de me vingar por haver ele superado de maneira incomparável minha criação).

Começou a escrever livros há pouco tempo, mas tem já uma bela produção intelectual:

As esquisitices do óbvio (2005) - Apex Editora;
Sombras do iluminismo (2006) - Editora 7Letras;
A eloquência do ódio (2009) - LivroPronto Editora: sua obra mais recente.

Desbocado, provocador e – desgastada o quanto seja, outra palavra não se encaixaria a melhor perfeição – genial. Defensor das ciências e crítico das pseudociências, sem ser cientificista (aliás, o cientificismo é desnudado em praça pública em seu livro Sombras do iluminismo); crítico do fanatismo religioso, sem ser antirreligioso. Formado em Direito, nega ser o que é de fato: filósofo e pensador, preferindo ser identificado como ensaísta.

(*) Roberto Mitsuo Takata é doutor em biociência pela Universidade de São Paulo - USP, com especialização em genética e biologia evolutiva.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

CEARÁ - ARTE & LITERATURA 1; "A PADARIA ESPIRITUAL":VIDA INTELIGENTE NA PROVÍNCIA (RESENHA DO MÉDIA-METRAGEM DE FELIPE BARROSO)

Jornal O pão, editado pela Padaria Espiritual








Por Manuel Soares Bulcão Neto em 09/01/2007 na edição 415 do Observatório da imprensa.


"Uma sociedade cearense de letras cujo aspecto irreverente, revolucionário e iconoclasta só se encontra símile no movimento que sairia, trinta anos depois, da Semana de Arte Moderna".

Pedro Nava; Baú de ossos.

Em Os boas-vidas (I vitelloni, 1953), Federico Fellini retrata, por meio das aventuras e desventuras de uma turma de rapazes de uma pequena cidade italiana, a insatisfação da juventude provinciana com sua respectiva província. — todos ali, com objetivos diversos, anseiam por fugir da vidinha morna, sem oportunidades e perspectivas. Fausto, um arremedo de Dom Juan, após engravidar Sandrinha, e cheio de grandes projetos, prepara as malas pensando em fugir pra Milão; Leopoldo, o intelectual do grupo, sentindo-se isolado e incompreendido, sonha com Roma; Alberto, após tomar todas numa festa, esculacha amigos e inimigos e promete vir para o Brasil, de navio. No fim, entretanto, o único que consegue romper os grilhões – econômicos, sentimentais, pavlovianos… – que o mantêm preso no arraial é Moraldo, certamente o alter ego de Fellini e, se a história encerra mesmo algo da biografia do grande cineasta, o único que terá sucesso na vida. Cena memorável: ao tomar o trem, Moraldo visualiza todos os seus companheiros e familiares dormindo — como se, ao sair daquele lugarejo, ele estivesse acordando.

Depois, porém, de assistir ao média-metragem (documentário; vinte e quatro minutos) de Felipe Barroso A Padaria Espiritual, sobre o movimento cultural que aconteceu na pequena e remota Fortaleza da última década do século XIX (1892-98), constata-se que a vida que se passa na província não se resume a modorra e pasmaceira, mesmo que às vezes mitigada por felliniano lirismo; que, graças à determinação – amiúde reforçada pelo bom humor – de alguns espíritos fortes, intelectuais com firme autoestima, muito do que se produziu e se produz, culturalmente, "em plagas distantes" – alguns diriam, grotões – não consiste em meros ecos tardios da metrópole, em versões, se não caricatas, com forte teor tragicômico.

Irreverência e deboche

O documentário, com depoimentos dos literatos Batista de Lima, Regina Pamplona Fiúza, Sânzio de Azevedo e Gilmar de Carvalho, resgata a memória desse importante movimento da história da literatura brasileira, hoje quase esquecido. Dele surgiram grandes nomes das escolas realista, naturalista e simbolista, como, respectivamente, Antônio Sales (Aves de arribação), Adolfo Caminha (A normalista e Bom crioulo) e Lívio Barreto (Dolentes).

Os amassadores, como eram conhecidos os membros da Sociedade de Rapazes de Letras e Artes Padaria Espiritual – as sessões eram chamadas de "fornadas" e o presidente de "padeiro-mor" – reuniam-se no número 105 da Rua Formosa (atualmente, Barão do Rio Branco) e, eventualmente, no Café Java. Nessa oficina e bar, do mesmo modo informal como, mais de setenta anos depois, seria editado O pasquim no Rio de Janeiro, o grêmio publicava o jornal O pão, que teve trinta e seis edições.

A referência ao Pasquim não se justifica apenas pela informalidade, mas também pelo humor, a irreverência e o deboche, a começar pelos quarenta e oito itens do Programa de Instalação do Grêmio, escrito por Antônio Sales – programa este que, ao ser publicado em um jornal do Rio de Janeiro, conferiu notoriedade ao Movimento. A título de ilustração, o documentário de Felipe Barroso cita alguns itens, como o de número trinta e nove do Estatuto:

"As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes."

A Padaria Espiritual, como muitos reconhecem, foi precursora da Semana da Arte Moderna (1922) não apenas pela irreverência e iconoclastia, mas também, como escreveu o memorialista Pedro Nava (Baú de ossos), por certo aspecto revolucionário de inspiração nacionalista, pela aversão ao excesso de estrangeirismos, exacerbada não pelo ódio à diferença – até porque, de acordo com o Estatuto da agremiação, tirava-se o chapéu para Homero, Goethe, Shakespeare, Dante, Hugo e Camões –, mas, novamente pelo bom humor e, segundo Gilmar de Carvalho, pela convicção de que nossa língua, costumes, fauna e flora poderiam figurar como referencial para a produção cultural brasileira. Esse nacionalismo deliberadamente risível transparece no item vinte e um do mencionado Programa:

"Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à fauna e à flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc."

A província se antecipa ao centro

Claro que o Movimento não podia sobreviver apenas da contribuição financeira de seus membros e da venda do jornal O pão. Logo, os padeiros – ou amassadores – tiveram que apelar aos comerciantes locais, a maioria “pharmacêuticos”, com seus xaropes, elixires e panaceias. Felipe Barroso teve a criativa ideia de convocar o comediante e compositor (não necessariamente nesta ordem) Falcão para interpretar, à sua maneira, esses anúncios publicitários. O resultado, obviamente, é hilariante: Falcão, pelo telefone celular, encomenda nas farmácias alguns preparos “medicinaes” do “pharmacêutico” José Eloy da Costa (devidamente aprovados pela inspectoria de “Hygiene”), entre os quais uma pílula contra vermes. Em outra ocasião, solicita um miraculoso xarope de bromureto de potássio em cascas amargas de laranja e, ainda, uma pílula estomacal capaz de curar dores de estômago, dispepsia, gastrite, falta de apetite, náusea, dores de cabeça, indigestão etc. (principalmente o etcétera).

No média-metragem de Felipe Barroso ainda figuram grandes nomes da literatura e da arte nacional, todos a recitar trovas da seção "O Cancioneiro Popular" do semanário O pão: Ariano Suassuna, Thiago de Mello, Fausto Nilo, Virgílio Maia e os jovens poetas Rodrigo Magalhães e Tércia Montenegro. É de se mencionar, ainda, a bela trilha sonora original montada por Dihelson Mendonça, bem como a leitura de textos do jornal O pão por populares escolhidos ao acaso entre os transeuntes da Praça do Ferreira – alguns, semianalfabetos e nitidamente alcoolizados; outros, porém, demonstrando, "estranhamente", razoável domínio da linguagem e da retórica, o que me lembra certa asserção de Trotsky, escrita algures, sobre a enorme quantidade de talentos que se perdem nas favelas, arrabaldes e grotões por pura falta de oportunidade.

O Movimento Cultural Padaria Espiritual findou em dezembro de 1898, dois anos depois da fundação, em 15 de agosto de 1896, da Academia Cearense de Letras – a primeira do País, sendo a segunda a Academia Brasileira de Letras, criada em 20 de julho de 1897. 

A província, às vezes, antecipa-se ao centro. — Arre, vidinha mais ou menos… Menina, arma a minha rede. Avia criatura!

(*) Clique no título da resenha para assistir ao média-metragem.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E-BOOK DE MANUEL BULCÃO (CONTRA O PRINCÍPIO COPERNICANO)

E-book (formato ePUB) de Manuel Soares Bulcão Neto
Editora Emooby

"Mundo mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração."
(Carlos Drummond de Andrade)

"O universo é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte nenhuma."
(Blaise Pascal)


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O princípio copernicano (*) revelou-se eficaz como antídoto de ideologias peçonhentas. Até o momento em que, incrustada nas ciências, a criptorreligião cientificista (versão moderna do que Nietzsche definiu como a hybris da razão: “incontrolado impulso cognoscitivo” que “barbariza do mesmo modo que o ódio pelo saber”) veio a agir como solvente do seu princípio ativo. E não foi a inocuidade o resultado dessa ação — de tanto servir de álibi de jogatinas políticas (quando a Verdade científica justificava qualquer aposta e em que os homens – matérias-primas de milenarismos laicos – então considerados nada além do que bichos…), depois de certo tempo o que mais surtia era efeito colateral. E também, cada vez com maior frequência, efeitos nocebos: contrários aos dos placebos. Antes panaceia; agora veneno. Ou, no mínimo, remédio com data de validade vencida. Que seja enterrado — porém, como disse Gramsci em relação ao determinismo da ortodoxia marxista, sepultado com todas as pompas que merece. Quanto aos fatos em que se baseia, carecem de nova interpretação:

Se no continuum infinito não existe ponto privilegiado, então, pela mesma razão, quaisquer pontos do espaço-tempo (considerados “um a um”) são seu centro e sua medida.


Editora: Emooby
Idioma: Português
ISBN/Ref: 9789897141379
Formatos: ePUB
 €4.10

(*) “A ciência nos ensina que, quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos importantes somos”. É este o enunciado do princípio copernicano, também conhecido como princípio da mediocridade. Ora, ao reduzir o homem a um ponto matemático, a um fantasmático infinitésimo sem nenhuma consistência lógica, esse princípio alimentou indiferença ontológica (somos insignificantes, efêmeros e gratuitos), bem como o amoralismo das supostas “expressões políticas do conhecimento científico” (darwinismo social nazista, socialismo “científico” stalinista, ultraliberalismo fisiocrático), para os quais os homens reais e concretos não passam de coisas (mercadorias) regidas pelas leis do acaso, ou de autômatos sem alma, cobaias, semifabricações, instrumentos que falam, reses de um novo tipo de gado ou tão somente setenta e dois por cento de água suja, lama. — É preciso que esse princípio seja questionado cientificamente.
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

ONIPRESENÇA (POEMA DE CARLOS VAZCONCELOS)


No princípio era a solidão
A solidão de Deus

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Onipresença

Carlos Vazconcelos


A solidão,
afiada e intermitente,
manipula a multidão,
crava-lhe o dente.

Sutil espada,
atravessa o espaço neutro,
à distância de mil jardas
irrompe o feltro.

E vai trotando
na madrugada erradia,
encontra corpos dançando
na fantasia

E outros corpos
no crepúsculo do dia
quando a bebida nos copos
já principia

E anda ao relento
nas avenidas vazias
e sobe aos apartamentos
cai nas coxias

E canta nomes
de um passado vadio
de tantos passos insones
do já tardio

Está em tudo:
rondando o quarto e o jazigo,
no bolso do sobretudo
do homem rico

E na casaca
suja e rota do mendigo
nos leitos feitos de macas
do velho abrigo

E forja insônias
nas alcovas e salões
mesmo nas bocas risonhas
há solidões

Há no mosteiro
e na cela do cativeiro
nas tábuas do picadeiro
no mundo inteiro



1º lugar no XIV Prêmio Ideal Clube de Literatura (Prêmio Juvenal Galeno) - 2011-2012

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