quinta-feira, 17 de maio de 2012

ROBERTO MITSUO TAKATA (PALAVRAS DE UM CIBERAMIGO)


Roberto Mitsuo Takata
Organizador do Movimento Cético-Racionalista Brasileiro

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Observações impertinentes
Blogue de Roberto Mitsuo Takata (*)
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Título: Contra o princípio copernicano
Autor: Manuel Soares Bulcão Neto
Editora: Emooby
Páginas: 136 (345 KB)
Preço: €4,10 (download no sítio web da editora), US$ 4,60 (na Amazon)
ISBN: 9789897141379
O ensaísta Manuel Bulcão, de quem falei aqui em outra oportunidade, lança mais um livro.
sábado, 10 de outubro de 2009
Sorteio - As esquisitices do óbvio (Manuel Soares Bulcão Neto)

Manuel Soares Bulcão Neto é uma pessoa de profunda erudição - nunca o encontrei pessoalmente, mas tenho o privilégio de poder trocar com ele ideias pela internet (claro, um escambo em que ele sai extremamente prejudicado) - é a pessoa de mais vasto e sólido conhecimento humanista dentre as que conheço.

Capaz de citar, assim, de boa, Martin Heidegger, Alan Guth, Fiodor Dostoiévsky e Patativa do Assaré em um mesmo parágrafo: se não em uma única frase.

O único pecadilho é ter se esquecido de atribuir a mim a origem de seu "hai kai do bioquímico apaixonado" (que ele reproduz em seu livro As esquisitices do óbvio): "Oh, dopamina/Feniletilamina/Oxitocina" (não, não como a musa inspiradora, mas por ter escrito um texto sobre o tema - lírica, amor e ciências - em cima do qual ele criou essa peça muito superior a minha: sim, sou invejoso, e esta indiscrição é o modo de me vingar por haver ele superado de maneira incomparável minha criação).

Começou a escrever livros há pouco tempo, mas tem já uma bela produção intelectual:

As esquisitices do óbvio (2005) - Apex Editora;
Sombras do iluminismo (2006) - Editora 7Letras;
A eloquência do ódio (2009) - LivroPronto Editora: sua obra mais recente.

Desbocado, provocador e – desgastada o quanto seja, outra palavra não se encaixaria a melhor perfeição – genial. Defensor das ciências e crítico das pseudociências, sem ser cientificista (aliás, o cientificismo é desnudado em praça pública em seu livro Sombras do iluminismo); crítico do fanatismo religioso, sem ser antirreligioso. Formado em Direito, nega ser o que é de fato: filósofo e pensador, preferindo ser identificado como ensaísta.

(*) Roberto Mitsuo Takata é doutor em biociência pela Universidade de São Paulo - USP, com especialização em genética e biologia evolutiva.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

CEARÁ - ARTE & LITERATURA 1; "A PADARIA ESPIRITUAL":VIDA INTELIGENTE NA PROVÍNCIA (RESENHA DO MÉDIA-METRAGEM DE FELIPE BARROSO)

Jornal O pão, editado pela Padaria Espiritual








Por Manuel Soares Bulcão Neto em 09/01/2007 na edição 415 do Observatório da imprensa.


"Uma sociedade cearense de letras cujo aspecto irreverente, revolucionário e iconoclasta só se encontra símile no movimento que sairia, trinta anos depois, da Semana de Arte Moderna".

Pedro Nava; Baú de ossos.

Em Os boas-vidas (I vitelloni, 1953), Federico Fellini retrata, por meio das aventuras e desventuras de uma turma de rapazes de uma pequena cidade italiana, a insatisfação da juventude provinciana com sua respectiva província. — todos ali, com objetivos diversos, anseiam por fugir da vidinha morna, sem oportunidades e perspectivas. Fausto, um arremedo de Dom Juan, após engravidar Sandrinha, e cheio de grandes projetos, prepara as malas pensando em fugir pra Milão; Leopoldo, o intelectual do grupo, sentindo-se isolado e incompreendido, sonha com Roma; Alberto, após tomar todas numa festa, esculacha amigos e inimigos e promete vir para o Brasil, de navio. No fim, entretanto, o único que consegue romper os grilhões – econômicos, sentimentais, pavlovianos… – que o mantêm preso no arraial é Moraldo, certamente o alter ego de Fellini e, se a história encerra mesmo algo da biografia do grande cineasta, o único que terá sucesso na vida. Cena memorável: ao tomar o trem, Moraldo visualiza todos os seus companheiros e familiares dormindo — como se, ao sair daquele lugarejo, ele estivesse acordando.

Depois, porém, de assistir ao média-metragem (documentário; vinte e quatro minutos) de Felipe Barroso A Padaria Espiritual, sobre o movimento cultural que aconteceu na pequena e remota Fortaleza da última década do século XIX (1892-98), constata-se que a vida que se passa na província não se resume a modorra e pasmaceira, mesmo que às vezes mitigada por felliniano lirismo; que, graças à determinação – amiúde reforçada pelo bom humor – de alguns espíritos fortes, intelectuais com firme autoestima, muito do que se produziu e se produz, culturalmente, "em plagas distantes" – alguns diriam, grotões – não consiste em meros ecos tardios da metrópole, em versões, se não caricatas, com forte teor tragicômico.

Irreverência e deboche

O documentário, com depoimentos dos literatos Batista de Lima, Regina Pamplona Fiúza, Sânzio de Azevedo e Gilmar de Carvalho, resgata a memória desse importante movimento da história da literatura brasileira, hoje quase esquecido. Dele surgiram grandes nomes das escolas realista, naturalista e simbolista, como, respectivamente, Antônio Sales (Aves de arribação), Adolfo Caminha (A normalista e Bom crioulo) e Lívio Barreto (Dolentes).

Os amassadores, como eram conhecidos os membros da Sociedade de Rapazes de Letras e Artes Padaria Espiritual – as sessões eram chamadas de "fornadas" e o presidente de "padeiro-mor" – reuniam-se no número 105 da Rua Formosa (atualmente, Barão do Rio Branco) e, eventualmente, no Café Java. Nessa oficina e bar, do mesmo modo informal como, mais de setenta anos depois, seria editado O pasquim no Rio de Janeiro, o grêmio publicava o jornal O pão, que teve trinta e seis edições.

A referência ao Pasquim não se justifica apenas pela informalidade, mas também pelo humor, a irreverência e o deboche, a começar pelos quarenta e oito itens do Programa de Instalação do Grêmio, escrito por Antônio Sales – programa este que, ao ser publicado em um jornal do Rio de Janeiro, conferiu notoriedade ao Movimento. A título de ilustração, o documentário de Felipe Barroso cita alguns itens, como o de número trinta e nove do Estatuto:

"As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes."

A Padaria Espiritual, como muitos reconhecem, foi precursora da Semana da Arte Moderna (1922) não apenas pela irreverência e iconoclastia, mas também, como escreveu o memorialista Pedro Nava (Baú de ossos), por certo aspecto revolucionário de inspiração nacionalista, pela aversão ao excesso de estrangeirismos, exacerbada não pelo ódio à diferença – até porque, de acordo com o Estatuto da agremiação, tirava-se o chapéu para Homero, Goethe, Shakespeare, Dante, Hugo e Camões –, mas, novamente pelo bom humor e, segundo Gilmar de Carvalho, pela convicção de que nossa língua, costumes, fauna e flora poderiam figurar como referencial para a produção cultural brasileira. Esse nacionalismo deliberadamente risível transparece no item vinte e um do mencionado Programa:

"Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à fauna e à flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc."

A província se antecipa ao centro

Claro que o Movimento não podia sobreviver apenas da contribuição financeira de seus membros e da venda do jornal O pão. Logo, os padeiros – ou amassadores – tiveram que apelar aos comerciantes locais, a maioria “pharmacêuticos”, com seus xaropes, elixires e panaceias. Felipe Barroso teve a criativa ideia de convocar o comediante e compositor (não necessariamente nesta ordem) Falcão para interpretar, à sua maneira, esses anúncios publicitários. O resultado, obviamente, é hilariante: Falcão, pelo telefone celular, encomenda nas farmácias alguns preparos “medicinaes” do “pharmacêutico” José Eloy da Costa (devidamente aprovados pela inspectoria de “Hygiene”), entre os quais uma pílula contra vermes. Em outra ocasião, solicita um miraculoso xarope de bromureto de potássio em cascas amargas de laranja e, ainda, uma pílula estomacal capaz de curar dores de estômago, dispepsia, gastrite, falta de apetite, náusea, dores de cabeça, indigestão etc. (principalmente o etcétera).

No média-metragem de Felipe Barroso ainda figuram grandes nomes da literatura e da arte nacional, todos a recitar trovas da seção "O Cancioneiro Popular" do semanário O pão: Ariano Suassuna, Thiago de Mello, Fausto Nilo, Virgílio Maia e os jovens poetas Rodrigo Magalhães e Tércia Montenegro. É de se mencionar, ainda, a bela trilha sonora original montada por Dihelson Mendonça, bem como a leitura de textos do jornal O pão por populares escolhidos ao acaso entre os transeuntes da Praça do Ferreira – alguns, semianalfabetos e nitidamente alcoolizados; outros, porém, demonstrando, "estranhamente", razoável domínio da linguagem e da retórica, o que me lembra certa asserção de Trotsky, escrita algures, sobre a enorme quantidade de talentos que se perdem nas favelas, arrabaldes e grotões por pura falta de oportunidade.

O Movimento Cultural Padaria Espiritual findou em dezembro de 1898, dois anos depois da fundação, em 15 de agosto de 1896, da Academia Cearense de Letras – a primeira do País, sendo a segunda a Academia Brasileira de Letras, criada em 20 de julho de 1897. 

A província, às vezes, antecipa-se ao centro. — Arre, vidinha mais ou menos… Menina, arma a minha rede. Avia criatura!

(*) Clique no título da resenha para assistir ao média-metragem.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E-BOOK DE MANUEL BULCÃO (CONTRA O PRINCÍPIO COPERNICANO)

E-book (formato ePUB) de Manuel Soares Bulcão Neto
Editora Emooby

"Mundo mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração."
(Carlos Drummond de Andrade)

"O universo é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte nenhuma."
(Blaise Pascal)


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O princípio copernicano (*) revelou-se eficaz como antídoto de ideologias peçonhentas. Até o momento em que, incrustada nas ciências, a criptorreligião cientificista (versão moderna do que Nietzsche definiu como a hybris da razão: “incontrolado impulso cognoscitivo” que “barbariza do mesmo modo que o ódio pelo saber”) veio a agir como solvente do seu princípio ativo. E não foi a inocuidade o resultado dessa ação — de tanto servir de álibi de jogatinas políticas (quando a Verdade científica justificava qualquer aposta e em que os homens – matérias-primas de milenarismos laicos – então considerados nada além do que bichos…), depois de certo tempo o que mais surtia era efeito colateral. E também, cada vez com maior frequência, efeitos nocebos: contrários aos dos placebos. Antes panaceia; agora veneno. Ou, no mínimo, remédio com data de validade vencida. Que seja enterrado — porém, como disse Gramsci em relação ao determinismo da ortodoxia marxista, sepultado com todas as pompas que merece. Quanto aos fatos em que se baseia, carecem de nova interpretação:

Se no continuum infinito não existe ponto privilegiado, então, pela mesma razão, quaisquer pontos do espaço-tempo (considerados “um a um”) são seu centro e sua medida.


Editora: Emooby
Idioma: Português
ISBN/Ref: 9789897141379
Formatos: ePUB
 €4.10

(*) “A ciência nos ensina que, quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos importantes somos”. É este o enunciado do princípio copernicano, também conhecido como princípio da mediocridade. Ora, ao reduzir o homem a um ponto matemático, a um fantasmático infinitésimo sem nenhuma consistência lógica, esse princípio alimentou indiferença ontológica (somos insignificantes, efêmeros e gratuitos), bem como o amoralismo das supostas “expressões políticas do conhecimento científico” (darwinismo social nazista, socialismo “científico” stalinista, ultraliberalismo fisiocrático), para os quais os homens reais e concretos não passam de coisas (mercadorias) regidas pelas leis do acaso, ou de autômatos sem alma, cobaias, semifabricações, instrumentos que falam, reses de um novo tipo de gado ou tão somente setenta e dois por cento de água suja, lama. — É preciso que esse princípio seja questionado cientificamente.
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

ONIPRESENÇA (POEMA DE CARLOS VAZCONCELOS)


No princípio era a solidão
A solidão de Deus

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Onipresença

Carlos Vazconcelos


A solidão,
afiada e intermitente,
manipula a multidão,
crava-lhe o dente.

Sutil espada,
atravessa o espaço neutro,
à distância de mil jardas
irrompe o feltro.

E vai trotando
na madrugada erradia,
encontra corpos dançando
na fantasia

E outros corpos
no crepúsculo do dia
quando a bebida nos copos
já principia

E anda ao relento
nas avenidas vazias
e sobe aos apartamentos
cai nas coxias

E canta nomes
de um passado vadio
de tantos passos insones
do já tardio

Está em tudo:
rondando o quarto e o jazigo,
no bolso do sobretudo
do homem rico

E na casaca
suja e rota do mendigo
nos leitos feitos de macas
do velho abrigo

E forja insônias
nas alcovas e salões
mesmo nas bocas risonhas
há solidões

Há no mosteiro
e na cela do cativeiro
nas tábuas do picadeiro
no mundo inteiro



1º lugar no XIV Prêmio Ideal Clube de Literatura (Prêmio Juvenal Galeno) - 2011-2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

FENOMENOLOGIA E ETNOMATEMÁTICA: PARA ALÉM DAS GRADES DA GAIOLA (ENTREVISTA COM UBIRATAN D’AMBRÓSIO)



Formas transdisciplinares não redutíveis aos “preceitos das disciplinas tradicionais”, essas duas maneiras de ver o mundo são examinadas por Ubiratan D’Ambrósio. A Merleau-Ponty cabe a aproximação entre fenomenologia e existência, pondera.


Por: Márcia Junges


“Há um diálogo entre a maneira fenomenológica de ver o mundo e a maneira etnomatemática de ver o mundo. Ambas essas maneiras são transdisciplinares, isto é, não estão ‘engaioladas’ nos preceitos das disciplinas tradicionais”. A afirmação é do matemático Ubiratan D’Ambrosio na entrevista, concedida por e-mail, à IHU On-Line. Segundo o pesquisador, Merleau-Ponty, um de seus grandes referenciais intelectuais, “aproxima fenomenologia e existência”. E acentua: “De Merleau-Ponty apreendi principalmente que o real é o complexo de fatos e fenômenos muitos surpreendentes”. D’Ambrosio aponta que um aspecto pouco explorado na matemática é a psicanálise, amplamente estudada por Merleau-Ponty: “Gostaria de estimular filósofos da matemática a darem mais atenção à psicanálise. A matemática é a expressão de uma forma de ver o mundo, de uma visão pessoal e de experiências próprias, e pode não estar subordinada à formalização que é, muitas vezes, equivocadamente identificada com matemática”.

Ubiratan D’Ambrosio é doutor em Matemática pela Universidade de São Paulo – USP e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Foi internacionalmente agraciado com a “Medalha Felix Klein” (Educação Matemática/ICMI/IMU), com a “Medalha Kenneth O. May” (História da Matemática/ICHM/IMU). Foi presidente da Sociedade Brasileira de História da Matemática - SBHMat e do International Study Group on Ethnomathematics - ISGEm além de ser presidente de honra da Sociedade Brasileira de História da Ciência - SBHC. Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Universidade Bandeirante – Uniban e professor credenciado nos programas de pós-graduação em Educação Matemática da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Estadual Paulista/Rio Claro – Unesp e em História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Dentre suas publicações, destacam-se Transdiciplinariedade (São Paulo: Palas Athena, 1997); Etnomatemática. Elo entre as Tradições e a Modernidade (Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001); Uma história concisa da matemática no Brasil (Petrópolis: Vozes, 2008); e Educação para uma Sociedade em Transição (Natal: UFRN, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se deu o contato e a aproximação de seus estudos com a obra de Merleau-Ponty?

Ubiratan D’Ambrosio – Nos meus anos de formação, em matemática, a leitura de Husserl foi muito natural. Daí ler Heidegger e Merleau-Ponty foi consequência e me levou a outros autores na linha da fenomenologia e do existencialismo, em sentido amplo. Naturalmente, essas leituras não tinham um objetivo imediato, mas, juntamente com muitas outras leituras, constituíram o caldo intelectual inconsciente, uma expressão usada, num contexto semelhante, por Pierre Lévy, no qual minhas ideias foram sendo “cozidas”. Destaco ideias sobre necessidades e vontade, sobre viver, observar, sentir, desejar. No meu modelo de conhecimento, que chamo “Da realidade à ação”, cada indivíduo é parte da realidade e é impactado e informado por fatos e fenômenos. Como cada indivíduo processa essa informação, como age e com quais objetivos, qual sua intenção, são as perguntas diretrizes desse modelo. Claramente, esse enfoque tem muito a ver com aquilo que foi acumulado no que eu chamei de caldo intelectual.

IHU On-Line – Qual é a relação da fenomenologia com a etnomatemática?

Ubiratan D’Ambrosio – A etnomatemática depende inicialmente de descrever as coisas para, em seguida, explicar e entender. O descrever é tipicamente fenomenológico. A etnomatemática reconhece que o ser humano procede, na construção de sistemas teóricos, a partir do reconhecimento de fatos e fenômenos à ação com alguma intenção.

IHU On-Line – Em que aspectos há um diálogo transdisciplinar entre esses saberes e o que eles apontam de positivo sobre a intersecção do conhecimento?

Ubiratan D’Ambrosio –
A pergunta revela uma concepção de transdisciplinaridade como uma disciplina ou uma metodologia. A fenomenologia e a etnomatemática são maneiras transdisciplinares, isto é, vão além das disciplinas, além das grades de uma gaiola, de reconhecer, entender e explicar fatos e fenômenos.

IHU On-Line – A transdisciplinaridade entre fenomenologia e etnomatemática representa uma alternativa para as “gaiolas epistemológicas”, às quais o senhor se referiu em entrevista concedida à nossa revista em 2005? Por quê?

Ubiratan D’Ambrosio – Não faz sentido a expressão “transdisciplinaridade entre”. Há um diálogo entre a maneira fenomenológica de ver o mundo e a maneira etnomatemática de ver o mundo. Ambas essas maneiras são transdisciplinares, isto é, não estão “engaioladas” nos preceitos das disciplinas tradicionais.

IHU On-Line – Qual é a importância da compreensão de Merleau-Ponty de que é preciso considerar o organismo como um todo para se descobrir o que se seguirá a um dado conjunto de estímulos?

Ubiratan D’Ambrosio – Compreender Merleau-Ponty é compreender tudo o quero dizer sobre a maneira de ser no mundo. Por isso uma das leituras que recomendo aos meus alunos é Merleau-Ponty. O básico é que ele nos dá a mensagem que no mundo, onde quer que estejamos inseridos, há sempre algo para se ver e se dizer. Melhor que qualquer outro, Merleau-Ponty aproxima fenomenologia e existência.

IHU On-Line – Que outras contribuições a filosofia de Merleau-Ponty oferece para o diálogo com a matemática?

Ubiratan D’Ambrosio – Uma vertente pouco explorada na matemática tem sido a psicanálise, que foi tratada exemplarmente por Merleau-Ponty. Gostaria de estimular filósofos da matemática a darem mais atenção à psicanálise. A matemática é a expressão de uma forma de ver o mundo, de uma visão pessoal e de experiências próprias, e pode não estar subordinada à formalização que é, muitas vezes, equivocadamente identificada com matemática.

IHU On-Line – Como percebe o diálogo entre esses dois saberes nas tradições ocidental e oriental? Quais são os principais pontos de aproximação entre filosofia e matemática?

Ubiratan D’Ambrosio – Acredito que o pensamento é uma somatória de experiências, de busca de satisfação de necessidades, isto é, da satisfação da pulsão de sobrevivência, e de ir além da sobrevivência, transcendendo necessidades e incorporando explicações e desejos. Os saberes nas tradições orientais ou ocidentais, ou setentrionais ou meridionais, ou equatoriais, são resultados da resposta às pulsões de sobrevivência e de transcendência, de necessidades e vontades, e esses saberes e fazeres refletem, numa relação simbiótica, experiências e memórias, que são naturalmente fenomenológicas e existenciais.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Ubiratan D’Ambrosio – Vou comentar justamente sobre a questão anterior. Há duas dicotomias insustentáveis numa questão que deveria ser, fenomenológica e existencialmente, muito abrangentes. De fato, estamos falando de humanidade – toda uma espécie – e de experiências e memórias individuais que, socializadas, constituem saberes e fazeres de grupos, muitas vezes formados por apenas dois indivíduos e outras vezes por populações. Esses saberes e fazeres estão presentes em uma variedade de tradições orientais e ocidentais, mas também setentrionais, meridionais e equatoriais, simplificando para cinco essas classificações. De Merleau-Ponty apreendi principalmente que o real é o complexo de fatos e fenômenos muitos surpreendentes. O indivíduo procura descrevê-los conforme sua percepção e seu imaginário. O homem está nesse real e é nesse real que ele se conhece. Esse real é planetário, como são, consequentemente, os saberes e fazeres distintos. É impreciso, incompleto e pode causar muita confusão reduzir essa complexidade simplesmente falando em tradições oriental e ocidental.

Leia mais...

Confira outra entrevista concedida por Ubiratan D’Ambrosio à IHU On-Line

* A visão engaiolada do mundo. Edição número 153, de 29-08-2005

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