segunda-feira, 9 de abril de 2012

O AMOR E SEU INFERNO (CONTO DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Por dias, chimpanzé mantém no colo seu filhote morto.


  
E agora, José?
Carlos Drummond de Andrade


Do seu apartamento no oitavo andar, em meio aos eflúvios do café, Adonis contemplava as ruas desertas. No vazio da alvorada, em vez do vácuo no peito que tanto o supliciara, o que então projetava era a paz de um coração pleno. Seu pensamento, fluido à mercê de novas emoções, centrou-se, como tragado por um redemunho, numa reflexão sobre as semelhanças entre o ocaso e a aurora: a mesma penumbra, o mesmo horizonte rubro — e de como o claro-escuro triste dos fins de tarde, que há muito em si trazia, agora fulgurava feito lusco-fusco matutino.
“Tão diferentes e tão parecidos o anoitecer e o amanhecer, lá fora e dentro de mim…”.
Dizia a quem lhe desse ouvidos que, até a gravidez da esposa, levara a existência num ritmo sincopado, melancolicamente, à maneira de um blues.
Desde então – jactava-se com sorriso largo –, vivia enlevado por uma serenata diurna. E se punha a cantar: “Soy feliz / Soy un hombre feliz…
Degustou a espera com bonacheirice quase histriônica, tão destoante do que antes fora a ponto de amigos galhofarem da sua “possessão espírita”. Nesse tempo, também perdeu peso, a dermatite nervosa deixou de afligi-lo e passou a beber sem compulsão.
Tanta era sua vitalidade que, numa conversa entre familiares e amigos em uma das salas do hospital-maternidade, seu irmão Demétrio comentou:
“Acho que Miriam está dando à luz Emmanuel e um novo Adonis.”

* * *

Adonis, o redivivo, sorvia o suco de tomate quando ouviu o choro do bebê. Saltou da cadeira, correu até o quarto e desvencilhou o filho dos braços da mãe, que dormia. — Os olhos e a boca semiabertos, a tez sem viço, as pernas e o ventre intumescidos… Se não fossem o ressonar e o movimento cadenciado do busto, o corpo de Miriam seria o de um cadáver.
  Embalou a criança, falando-lhe pequenininho, observando, encantado, a gengiva, a língua trêmula, as mãozinhas cerradas, as bochechas sanguíneas, quando dona Iracilda surgiu. Açodada, tirou Emmanuel do seu colo.
“Desculpe-me, professor, estava no banheiro. Não ando bem.
“Será que ele está com o mesmo problema?” Perguntou, temendo ser o pranto indício de afecção grave.
“Este choro é devido aos gases. Nossa! Veja a barriga dilatada! De tão glutão engole mais ar do que leite. Liguei para a pediatra à noite. Disse-lhe que massagens e tapinhas agora só deixam a criança roxa. Ela receitou remédio de verdade, com efeitos colaterais.”
O diagnóstico da prática de enfermaria o acalmou. Iracilda, entretanto, estava intranquila. Não com a saúde do neném, que nasceu robusto, o olhar prematuramente perscrutador, qualidades que o fizeram mascote do berçário. Sua apreensão era com Miriam. Enquanto preparava a solução de antigases com colostro, observava a jovem mãe, prostrada na cama, sem alegria com a maternidade, sem lastimar seu sofrimento.
Sofrimento sem causas aparentes. Normal, pouco dorido graças às largas ancas, “fácil como parto de índia”, disse o obstetra. Dia seguinte, andava pelos corredores. Tão logo, porém, retornou ao lar… a modorra. “Diz ser dores nas mamas”, matutou Iracilda, “mas isso não explica tanto abatimento.”
“O que ela precisa é de ducha fria”. Para acordá-la, desligou o ar-condicionado, apagou a luz mortiça do abajur, descortinou o blecaute. Com a lufada lençóis revolutearam. O Sol iluminou seu rosto, atravessando-lhe as pálpebras. Agitou-se, abriu os olhos. Sonolenta, perguntou pelo bebê.
“Está comigo”, respondeu Iracilda. “Vou banhá-lo.” E recomendou, em tom imperativo, como se estivesse a cuidar de outra criança: “Levante-se, tome também um banho. Isso lhe fará bem.”
Miriam revolveu-se, pôs-se de bruços.
“Chame o Adonis.”
“Estou aqui!”, gritou o marido do banheiro, de onde surgiu num salto, caricaturando Gene Kelly — chistoso apenas pelo ridículo.
A mulher fez careta. Iracilda, por dó, esboçou um ricto. Sem se dar por rogado, espalmou as mãos e pulou na cama salivando em beijos — o que tornou o esgar de Miriam ainda mais agônico.
A criança, assustada, renovou o choro. Adonis se recompôs. Sentou-se na beira do leito, acariciou a mulher, sussurrou-lhe palavras meigas, suplicou:
“Amor, fale comigo!”
Para se livrar dos apertos e da enjoativa loção pós-barba, Miriam atendeu ao pedido:
“Por que está arrumado?”
“Vou registrar nosso filho.”
“Não é cedo? O cartório só abre às oito.”
“Você sabe que sou ansioso. Lembra-se de quando nos conhecemos, na minha festa de formatura? Fui o primeiro a chegar.”
“Sim, claro”, recordou-se, “e entrou em coma alcoólica antes de começar o baile.”
Riram. Adonis animou-se com o lampejo de bom humor em Miriam.
E percebendo que também ria de si mesmo, riu do próprio riso. Como quem invoca pessoa próxima em viagem, pensou no seu demônio íntimo, em sua voz, audível nas frestas do silêncio, sempre a lhe narrar lembranças mortificantes, o que o deixava em permanente estado de remorso e vergonha. Por onde andaria tal superego sádico? Provavelmente, sufocou até a morte no júbilo dos novos dias. Agora, recordar seu passado era uma experiência estética, o mesmo que abrir um livro — drama, tragédia ou comédia — e se deleitar com os ridículos, infortúnios, fraquezas e vilanias do protagonista.

* * *
Às nove horas, no cartório, depois de entregar os documentos, foi informado de que a certidão ficaria pronta em trinta minutos.
 “Aguarde naquela cadeira.” Disse-lhe a atendente. “Ao lado tem café e bolachas.”
“Vou esperar naquele quiosque.”
Lá chegando pediu jornal e refrigerante. Folheava o caderno de notícias internacionais quando, pela visão periférica, percebeu alguém o observando. Desconcentrado, encarou o sujeito, que sorriu e lhe acenou com uma das mãos – a outra segurava uma bengala –. Retribuiu o sorriso, mas demorou alguns segundos para reconhecer Anacleto, amigo que não via há anos.
Em outra ocasião, teria se limitado a cumprimentá-lo, sorveria rapidamente a tubaína, prometeria ligá-lo em breve para marcar encontro e se despediria alegando qualquer desculpa. Isso porque Anacleto era neurótico crônico, do tipo hipocondríaco e falante — um chato. Conversar com ele era um exercício de paciência: ter que escutar suas lamúrias e queixas, seu discurso monocórdio de autocompaixão. A um protocolar “como vai?”, invariavelmente respondia: “péssimo!” e a arrastada catarse começava.
Naquele dia, porém, a abertura de Adonis para o mundo era tanta que, caso estivesse sozinho num quarto com um aquário, puxaria assunto com os peixes. Sentou-se à mesa do amigo.
“Anacleto, sua aparência está muito boa! Forte, corado…”
“Por forte você quer dizer gordo? Na verdade é retenção de líquidos, efeito colateral do corticoide. Quanto ao ‘corado’, à vermelhidão do rosto, trata-se de reação alérgica a um xarope.”
“Não me diga que está doente de verdade…”
“Sim. Há quatro anos contraí espondilite anquilosante. Agravou-se e me aposentei por invalidez. Parei aqui para tomar meus comprimidos. Estou vindo da hidroginástica.”
“Meus parabéns!”, disse Adonis, escancarando uma gargalhada, “Tanto procurou que terminou encontrando o que queria. Sente-se melhor agora?”
Anacleto riu – riso que era sinal velado de assentimento. (É fato que muitos depressivos desejam, de maneira inconsciente, adoecer fisicamente. Para dar sentido ao sofrimento, esforçam-se em permutar a depressão — tristeza e angústia sem razões aparentes — por uma afecção visível, localizada. Há também, nos anais da psiquiatria, muitos registros de portadores de doenças fatais que, tão logo chegam ao estádio terminal, não manifestam terror, mas alívio e mesmo euforia. Talvez porque, quando a vida decai a ponto de consistir em dor sem esperança, a pulsão de morte sobressai crua e voluptuosamente.)
“E você, passeando em plena quinta-feira, está de férias?”
“Licença-paternidade.”
“Oh, não me diga! A mãe é…”
“Miriam.”
“Menino ou menina?”
“Um garotão! Cinquenta e três centímetros, três quilos e duzentos gramas. Chama-se Emmanuel.”
Anacleto contraiu o rosto e, cabisbaixo, começou a tecer seu rosário de lamentações. Adonis o escutava, divertindo-se mais do que se enfastiando.
“Infelizmente, não posso ter filhos. Sou estéril. Azoospermia não obstrutiva.”
“Fez espermograma?”
“Não foi preciso, pois o problema é visível a olho nu. Observei que meu sêmen não é opalino como o esperma normal, mas transparente como clara de ovo.”
Aproveitando uma pausa no choramingo, Adonis lhe sugeriu fazer análise. Anacleto, surpreso com o conselho, disse:
“Hum… Concordo com algumas ideias de Freud, mas não creio na eficácia da psicanálise como terapia, até porque são muitas as escolas com postulados diferentes e opostos… Dizem até que a psicanálise é a religião e, portanto, a neurose coletiva dos literatos e artistas ateus. Além do mais, não vejo sentido em ficar tagarelando de costas para um sujeito que escuta, rabisca e, como se fosse uma divindade não interventora, nada fala.”
“Ao menos não estaria alugando ombros de amigos, mas os de um profissional, e pagando pelo aluguel”, foi o que Adonis desejou dizer-lhe.
“Sinceramente, não vejo futuro em ficar tateando na escuridão do passado.”
Adonis, sorrindo ironicamente, perguntou-lhe:
“Você tem mais de quarenta anos, continua solteiro, não é arrimo de família, vive com sua mãe que, amparada por um séquito de empregados, não necessita da sua presença contínua, não é mesmo?”
“… S-sim”, respondeu gaguejando.
“Ainda mora naquele velho casarão que foi dos seus avós, com retratos de mortos em quase todos os aposentos?”
“Ainda.”
“Sei que desde criança você coleciona moedas antigas. Como vai o seu álbum numismático?”
“Estava bolorento. Mesmo assim, consegui trocá-lo por um kit de fitas VHS com todos os episódios da série Perdidos no espaço, inclusive o piloto.”
“Aquele seriado trash de ficção científica dos anos sessenta do século passado?”
Trash não, cult.”
“Às vezes um filme é tão ruim que chega a ser cult, como os do Ed Wood.”
“É que, para ser ruim demais, e não apenas modesto ou medíocre, tem que ser muito criativo. Mas, afinal, aonde quer chegar com essa sabatina?”
Adonis curvou-se sobre a mesa, pousou as mãos nas do amigo e, abrandando a voz, falou:
“Tenho algo a lhe dizer, mas temo que se ofenda. Só tomo essa liberdade porque, por muito tempo, levei uma vida semelhante à sua: eu era triste, amargo, de mal com os outros e comigo mesmo.”
 “Não sou tão suscetível como pensa, mande ver!”, disse e se empertigou na cadeira, como que se preparando para receber um soco.
Adonis deteve-se com o chamado do celular. Apalpou os bolsos da camisa e das calças, abriu a pasta dos documentos, procurou por entre as páginas do jornal e quando esquadrinhava o chão, escutou um “alô”. O telefone não era o seu. A falta daquele elo com a família o deixou apreensivo. Tentou recordar-se onde o havia esquecido: “No cartório? No carro? Ah… foi na cozinha. Deixei-o lá carregando a bateria.” A ansiedade o indispôs para a conversa. Percebendo a aproximação de um nimbo, tentou se safar.
“Acho que vai chover grosso. Vamos deixar este bate-papo para outro dia?”
“Até esse dia morro de curiosidade. E é só uma nuvem. No máximo vai chuviscar. Ou você fala agora ou me paga, deixe-me ver…”
“Que tal um Scotch?”
“Não. Dez caixas de valium. Infelizmente, não posso mais beber nada alcoólico. Você não acha que seria ótimo se inventassem uma solução de benzodiazepínico e água para ser tomada em copo, com gelo e limão?”
Adonis riu. O inusitado bom humor de Anacleto espaireceu-o. Então começou a falar:
“O negócio é o seguinte. Você acabou de dizer que não vê futuro em deitar-se num divã e ficar tateando na escuridão do passado. Ocorre, meu amigo, que sua vidinha quarentona é uma extensão da sua infância: continua debaixo da saia da mãe, sob o mesmo teto em que nasceu, chorão como qualquer criança e sempre revendo películas do tempo da sua meninice, o que nada mais é que pulsão de repetição, hábito de bebê. Você vegeta no porão escuro do passado e nele, dos cinco sentidos, só usa o tato e o olfato. Se continuar nesse limbo, em breve não terá outro futuro a não ser o do pretérito.”
Anacleto assustou-se com a aspereza das palavras. Meneou a cabeça e riu. Seu olhar, no entanto, desfocado por repentina introspecção, contradizia a altivez do riso.
“Entendo o seu drama”, continuou Adonis, “pois, até bem pouco, suportei meu passado como um fardo. Não vou lhe recontar minhas desventuras…”
“Sei, sei: pai esquizofrênico, a mãe…”
 “Chega, deixe-me falar!” Interrompeu-o bruscamente. “A ruminação dessas lembranças era a razão da minha infelicidade. Até que Miriam engravidou. Fiquei aflito! O novo vínculo com aquela mulher instável desta vez era indesatável. Porém logo me resignei; a aceitação, mais breve ainda, transformou-se em benquerer. E graças ao amor por meu filho, conciliei-me com meu passado. Percebeu aonde quero chegar?”
“Mais ou menos.”
“Em miúdos: caso minha família fosse mais ajustada, minha história de vida teria sido outra. Muito provavelmente, não teria optado em me formar em Física, de modo que não teria conhecido meu colega Gustavo nem a irmã dele, Miriam. E se não tivesse me casado com Miriam e suportado seu humor borderline, obviamente que meu filho não teria nascido. Ora, como posso execrar tudo de ruim que se passou comigo, meus piores sofrimentos, se também concorreram decididamente para o desabrocho desta flor que é o amor por meu filho? Dia desses, folheando um almanaque, li algo de Somerset Maugham. Mais ou menos isso: a tragédia da vida não é morrer, mas deixar de amar.”
“Isso é clichê!”
“Sim, mas não deixa de ser verdade. E se o amor não implica apenas alegrias, mas também dores, não há dúvidas de que suas dores são preferíveis aos lúbricos passatempos dos entediados.”
“Antiepicuro dixit!”
“Espere, não me oponho ao epicurismo, mas a Aristipo. Seu hedonismo dionisíaco equivale a se banquetear num sonho: apraz-se com o sabor das iguarias, mas como essas são oníricas, insubstanciais, não podem saciar a fome. Acorda-se ainda mais faminto. Essa busca do prazer pelo prazer leva à compulsão, ao exagero, à substituição dos básicos valores pelos primários instintos, talvez até ao crime”.
“Certo. Mas me tire uma dúvida.”
“…”
“Quer dizer então que, por esta nova ótica, o suicídio do seu pai foi um bom acontecimento?”
“Não!”, exclamou Adonis, menos por indignação do que por espanto, “Apenas passei a aceitar algo que antes rechaçava. Aquela morte arestosa, atravessada na garganta, feria-me o tempo todo. Agora ela desceu para o abdômen e está sendo metabolizada.”
 “Faz sentido”, reconheceu Anacleto, “Agora, retomando o fio, o que você sugere para que eu saia do labirinto do passado?”
Adonis pensou um pouco e respondeu:
“Assim como pessoas muito narcisistas, alguns melancólicos e hipocondríacos também só se preocupam consigo mesmos. Vivem como que em estádio larvar, fechados em casulos de dor por eles próprios fabricados: desgosto por sua suposta insignificância, sentimento de culpa persistente, lembranças recorrentes de humilhações sofridas, autodepreciação, autopiedade, obsessão por doenças físicas imaginárias… Isso termina levando a uma relação de dependência com familiares e amigos, que é também de exploração, pois muito se pede e pouco se dá. Por isso que há quem considere esse ensimesmamento como narcisismo com sinal trocado: narcisismo negativo.”
“Sim, mas qual a sua receita para se sair deste casulo narcísico?”
“Você precisa ler A conquista da felicidade, de Bertrand Russell. Nele o autor confessa que foi um adolescente infeliz constantemente à beira do suicídio, o tempo todo meditando sobre suas deficiências. Ele então afirma que só conheceu a felicidade quando, ao focar sua atenção cada vez mais em objetos externos, passou a se preocupar menos com sua própria pessoa. Segundo Russell, a felicidade consiste em estabelecer vínculos criativos com o mundo exterior. Eu a considero um êxtase apolíneo. ‘Êxtase’ por ser ‘movimento para fora’, e ‘apolíneo’ porque se trata de um ‘fora de si’ que não é descontrole nem perdição, mas reencontro através dos outros e das coisas.”
“Há uma frase do Paulo Honório, personagem de Graciliano Ramos, que é mais ou menos a seguinte: ‘Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige’. Tal afirmação ilustra bem a grande dificuldade de encontrar energia para sair do buraco, principalmente depois de os hábitos se cristalizarem com a idade, ou quando o passado é pesado.”
“Por que não retira essa energia do próprio peso do passado?”
“Como?”
“Ora, um bom lutador de judô se vale da força do adversário para levá-lo à lona e derrotá-lo. É, pois, desta forma, à maneira dos judocas, que você pode sair do fosso.”
“Pare de falar por metáforas!”
“Certo, serei direto: já que você não pode ter filhos e criá-los, então se exteriorize criando obras de arte, fazendo do passado que tanto o atormenta a matéria-prima da criação. Em vez de dissipar sua dor em gemidos, transubstancie-a em objetos sublimes. Você é bacharel em Letras, tem grande formação humanista, já leu todos os clássicos. Então, por que não escreve livros? De crítica literária, contos ou romances, não importa o gênero. Para o autor, livros são como filhos e, tais quais os filhos, nem é preciso que sejam perfeitos ou populares para que possamos amá-los.”
“Mas é preciso ter vocação.”
“Você só pode saber se tem talento ou não depois de tentar muito. O grande Machado de Assis tentou, empenhou-se, pôs no papel muita bobagem até que, finalmente, superou-se com Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas. E o primeiro romance do velho Graça, Caetés, não é fraco? A regra, meu amigo, é persistir até o limite do razoável.
Anacleto curvou-se na cadeira numa expressão de desânimo. A mera expectativa do esforço já o deixava alquebrado.
“Outra coisa”, prosseguiu, “não pense em escrever obras revolucionárias, o grande romance do Século XXI, a mãe de todas as novelas ou coisas do tipo, pois tais pretensões só vão bloqueá-lo. O perfeccionismo e a presunção de genialidade são atalhos para o malogro. Por isso, busque apenas ser competente. Também não leve muito a sério o ato de escrever, antes o encare como uma brincadeira e verá a caneta fluir no papel sem dificuldades desnecessárias.”
“Não foi brincando que Joyce construiu Ulysses. Nem Goethe estava de folguedo enquanto escrevia o seu Fausto, obra a qual dedicou três décadas da sua vida. Todo bom escritor leva demasiadamente a sério o seu trabalho.”
“Assim como toda criança leva muito a sério suas brincadeiras. Tire de uma delas o seu joguinho e a verá cair no choro.”
“Impressionante como você tem sempre uma réplica engatilhada na língua. Estou me perguntando por que o amigo fala como se tivesse vasta experiência como autor. Já escreveu algum livro ou está escrevendo?”
“Tenho minhas teses de mestrado e doutorado sobre mecânica dos fluidos. Também publiquei meia dúzia de artigos em revistas científicas.
Anacleto alisou o bigodinho e, com teatralismo sarcástico, disse:
“Pensando bem, o amigo está certo. Sim, por que não? Escreverei livros, criarei obras de arte e serei feliz como Edgar Allan Poe, Virginia Woolf, Van Gogh, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca…”
“Você está se valendo de falácia, pinçando alguns casos singulares e os erigindo a emblemas do universal. Ora, nenhum desses figurões, apesar de geniais, ilustra o ânimo da grande maioria dos escritores e artistas. Sim, concordo que todos os criadores são movidos por um descontentamento basal mais intenso que a média. Mas o que é o amor senão um contentamento descontente, como escreveu Camões? Outra coisa: o fato de ser infeliz não implica que não se possa experimentar estados de felicidade uma vez e outra, seja num instante orgástico ou durante dias, meses e até anos. Eu até aposto que esses atormentados que você citou tiveram seus momentos felizes, e que a maior parte destes coincidiu com o tempo em que se dedicaram ao processo criativo.”
“Você, certamente, já ouviu falar na expressão ‘os tormentos da criação’. Tormentos, friso.”
“Sim. Também é fato que muitas parturientes experimentam orgasmo durante ou logo após a dor do parto. E digo mais: o próprio orgasmo é uma excitação dolorosa que, devido à liberação concomitante de endorfinas, o cérebro interpreta como prazer. Homens que transam muito por obrigação ou ofício sabem disso: depois de exaurida toda a morfina endógena, os orgasmos são sofríveis. No momento da ejaculação, em vez de expressarem gozo, fazem caretas. Leia o conto “O Campeonato”, do Rubem Fonseca.”
Anacleto apanhou a bengala e olhou o relógio.
“Admito que, em eloquência, não estou à sua altura”, disse. “E vou-me embora. Está quase na hora do meu arroz com purê de chuchu e peito de frango grelhado.”
Pagaram a conta e se despediram.
“Considero temerário depositar toda a razão da existência numa única pessoa, seja na mãe, na amante ou no filho”, refletiu Anacleto. “É quase como viver sobre uma corda bamba. Se Deus existe, que Ele proteja essa família.”
Caminhava, auxiliado pela bengala de metal, rumo a um ponto de ônibus quando percebeu que não sofria dor alguma. Sentiu-se, então, ridículo com aquela terceira perna. Compactou-a, colocou-a sob a axila direita e se pôs a caminhar mais depressa do que de costume.

* * *

De volta ao cartório, enquanto assinava o recibo da certidão de nascimento, sentiu cheiro de fósforo aceso — lembrou-se dos gases de Emmanuel.
O miasma e os chamados de celulares exasperaram-no. “Já deveria estar em casa.” Esbaforido, correu para o carro. Ligou o ar-condicionado com os vidros abertos para que a brisa expulsasse logo o bafio tórrido, deu a partida e aguardou alguns minutos até encontrar brecha no tráfego engarrafado.
Buzinaço, pedintes, insultos, um fusca no prego fechando o sinal. Resmungou. Ligou o rádio: jingues e pagodes em prelúdio. Sentiu dor de cabeça.
Avançara três quadras quando ouviu uma sirene. “Viatura policial ou corpo de bombeiros?” — Não discerniu. Os automóveis, atendendo ao sinal, abriam-lhe caminho subindo nas calçadas ou passando para a outra mão da avenida. Depois de alguns minutos, o soar da sereia tornou-se agudo e a luz de alerta o ofuscava pelos espelhos. Olhou para trás e viu um furgão branco que logo o ultrapassou.
Dois quarteirões depois, sem mais calhambeques enguiçados, o tráfego fluiu. Percebia, agora, o som da sirene cada vez mais baixo e grave, distanciando-se. Diminuiu a temperatura do ar-condicionado e colocou um CD. Como sulfato de morfina injetado na veia, uma música bela e melancólica imediatamente o sedou: Pavane pour une infante défunte, de Ravel.
Entregou a direção do veículo ao comando dos centros nervosos subcorticais — e pôs-se a se imaginar em situações futuras: pai e filho na areia da praia, passeando no shopping, assistindo a matinês. Emmanuel montando pôneis em hotéis de campo sob seus cuidados, subindo em árvores sem os seus cuidados, assustando-o com suas travessuras; Adonis ajudando-o em suas tarefas de casa, lendo-lhe numa rede As aventuras de Tibicuera, tentando despertar-lhe a curiosidade científica com experimentos caseiros, preocupando-se com suas noitadas movidas a álcool de adolescente…
Ainda devaneava com sua felicidade futura quando, já próximo de casa, ouviu novamente a sirene, desta vez numa altura crescente. Na rua imediatamente paralela à sua, avistou a ambulância parada, com a sinaleira da esquerda a piscar, na esquina da mesma travessa em que ele dobraria — no mesmo sentido.
“Será que atropelaram mais um motoboy?”
Ao entrar na sua rua, viu uma viatura da polícia parada no meio-fio do edifício em que morava, e uma multidão abrindo caminho para a ambulância. Esta também estacionou em frente à entrada do seu condomínio. Avistou Joaquim, o porteiro, alvoroçado. Este também o percebeu e, dirigindo-se a um policial, apontou-lhe. O policial cochichou com o primeiro paramédico que saltou da unidade móvel de tratamento intensivo, e ambos o encararam. Foi quando seu coração gelou. Saiu do carro.
“O que aconteceu?”
 “Uma mulher pulou lá de cima com um bebê.” — Respondeu alguém.
As pernas de Adonis tremeram.
“Não foi do oitavo andar, foi?”
As pessoas silenciaram. Algumas se afastaram. Uma voz no meio do aglomerado disse:
“Sim, foi do oitavo. A mulher rasgou a tela e se jogou. Morreu. Mas a criança ainda respira.”
O abraço de Iracilda quase o derrubou. — “Professor, bastou eu ir ao banheiro para o demônio fazer sua obra!”
Esquivou-se, abriu caminho aos safanões, correu para o edifício e foi detido pelo policial, o paramédico e o porteiro. Neste momento, suas mãos passaram a tremer como as de um doente de Parkinson. Conduziram-no a um sedã branco, que reconheceu ser o de Demétrio.
“Adonis”, disse o irmão, “vão lhe dar um lenitivo forte. É preciso.”
O paramédico injetou-lhe o entorpecente. Logo, alheou-se da realidade — basbaque, presenciava a algaravia como se esta ocorresse atrás de uma vitrine ou “do lado de fora”. Mesmo nesse estado “crepuscular”, falou com voz pastosa: 
“Se meu filho ainda vive, quero vê-lo.”
Sentiu falta de ar, dor no peito. Desmaiou.

* * *

Acordou na tardinha do dia seguinte em um leito de UTI, no mesmo hospital para aonde Emmanuel foi levado.
Sentia frio, sede e uma angústia claustrofóbica provocada pelo emaranhado de sondas e drenos. Ao seu lado, um aparelho eletrônico com sinais acústicos intermitentes media-lhe a pressão e os batimentos cardíacos. Uma enfermeira, percebendo sua agitação, chamou o médico plantonista, que o informou do seu prontuário: sofrera uma estenocardia, permanecera algum tempo em coma induzido, submeteram-no a um cateterismo e agora uma junta avaliava a necessidade ou não de outra cirurgia.
Essas informações não lhe interessavam.
“Que aconteceu com minha mulher?”
“O senhor já está a par de que ela não resistiu à queda. Quanto ao motivo do ato, se a família não o sabe… Existe a possibilidade de que tudo ocorreu devido a um surto psicótico puerperal, mas este é um diagnóstico a ser estabelecido por exclusão.”
“E meu filho?”
O médico escrutinou ao redor e, afastando-se, pediu que esperasse.
Meia hora depois foi despertado da letargia por uma assistente social. Com ela, dois enfermeiros preparavam o desfibrilador.
“E meu filho?”
A assistente alisou-lhe a testa.
“Você é forte” — sussurrou-lhe — “vai superar.”
“…”
“Seu filho faleceu.”
  
Não chorou, apenas disse:
“Meu filho sequer conheceu o prazer do riso, somente o assombro de nascer e dores, muitas dores… Melhor que não tivesse nascido.”
Depois, fechando os olhos, Adonis anoiteceu.

Manuel Soares Bulcão Neto
2009

(*) Pavane pour un infante défunte, de Maurice Ravel (1875-1937)

Obs.: Trata-se de um conto filosófico à la Edgar Allan Poe. Os personagens são tão cerebrotônicos como o autor. Observo, ainda, que a previsibilidade (a começar pelo título e epígrafe) é intencional, de modo que texto está mais para relato mítico do que para conto realista.

sábado, 31 de março de 2012

DESTINADOS À INCOMPREENSÃO (EDWARD HOPPER)


Pintura de Edward Hopper (1882 - 1967)




Edward Hopper

Não acredito que alguém possa me compreender. Para isso ser possível deveria supor que esse alguém pudesse me conhecer, pensar e sentir como eu. Mas eu sozinho já sou gente demais. Não sou numa única direção, não sou inteiramente livre para isso. Mas, se pelo contrário, sou em multi direções, quem pode estar em todas elas a não ser eu mesmo? O juízo do outro sobre mim estilhaça-me por completo. Seu entendimento não é sobre mim, mas apenas de um fragmento, ou sou por inteiro ou não sou. Se sou apenas o agora, o entendimento do outro está sempre desatualizado. Se não nos mostramos por completo, não em razão das máscaras sociais, mas em função de nossa própria limitação, qualquer juízo será apenas um sintoma. Ainda assim, se sou daqueles que se distanciam irremediavelmente da superfície para o profundo, para o abismo e não encontre dentre os vivos, alguém a quem me sinta próximo, que esperar daqueles que jamais sairam da superfície? Nada além de que estamos destinados a incompreensão.

sexta-feira, 30 de março de 2012

COMO CONVIVER COM O OUTRO? (ENTREVISTA DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO PARA O JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE EM 29 DE SETEMBRO DE 2009)

Manuel Soares Bulcão Neto (1963 - Ó meu Deus!)
Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e veste. Pelo que amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. (Deuteronômio 10; 17-19)

___________________________________________________________

COMO CONVIVER COM O OUTRO?

 

(ENTREVISTA DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO PARA O JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE EM 29 DE SETEMBRO DE 2009)


 


Por Dellano Rios
DN - Os fenômenos históricos que, me parecem, são os motores desta reflexão estão ligados aos regimes totalitários do século XX. O que estas manifestações trouxeram de novo para a história do ódio ao diferente?
Manuel Bulcão - Trouxeram a luta de extermínio decorrente da incompatibilidade entre povos ou grupos sociais que se julgam universalmente “eleitos”: os judeus por IHWH, os germânicos pela seleção natural (considerada reles instrumento dos deuses nórdicos e de outros seres divinais do misticismo oriental), os eslavos pelos pan-eslavistas (que consideravam essa raça como o novo Cristo do “Eschaton”) e a “vanguarda” comunista pelas férreas leis da História.
DN - No caso dos regimes fascistas, costuma-se falar em racionalidade, mas sem que se entre num consenso. Ora são existes que, num extremo racionalista, não são freados por uma moral; ora, são arroubos de irracionalismo. Na sua opinião, de que lado ficaria o regime nazista?
Manuel Bulcão – Alguns pensadores sustentam que os totalitarismos do séc. XX ou são o desdobramento inevitável da razão iluminista, ou, como defende Zygmund Bauman, uma possibilidade que surgiu com a racionalidade moderna (possibilidade esta que não havia antes). Discordo desses pontos de vista. As ciências e sua tecnologia apenas incrementaram, de forma exponencial, tanto as forças produtivas quanto as destrutivas; vale dizer, tornaram-se também instrumentos das inextirpáveis pulsões irracionais humanas. A propósito, para embasar esta suposta relação “necessária” entre racionalismo e totalitarismo, cita-se os campos de extermínio nazistas como “fábricas modernas” ou verdadeiras “indústrias da morte”. Esquece-se, no entanto, que não menos que 40% dos judeus mortos no Holocausto foram assassinados por métodos arcaicos, nada modernos, como fuzilamentos, trabalhos forçados até a morte etc. Além do mais, é importante lembrar que o Partido Nazista praticamente surgiu de uma seita místico-esotérica, a Casa Thule; que seus ideólogos foram fortemente influenciados pelo irracionalismo de Nietzsche (este filósofo, em sua obra Vontade de Potência, declara-se o “antidarwin”) e outros irracionalismos mais primitivos, como a teosofia de H. P. Blavatsky, o armanismo, a teozoologia, a judeofobia cristã etc.
DN - A Ditadura Militar se assemelha a casos como do nazismo?
Manuel Bulcão - Há pontos em comum, como o autoritarismo e o patriotismo. As diferenças, entretanto, superam em muito as semelhanças; pois o nazismo foi, sobretudo, um totalitarismo, um racismo político e uma concepção de mundo. Aliás, como afirmou Lenin, uma ditadura militar ou “pessoal” não é necessariamente a negação cabal da democracia (seja “burguesa” ou “proletária”), consistindo, no mais das vezes, em regimes que se autoproclamam “de exceção” ou, conforme Roberto Campos, “biodegradáveis”: “uma magistratura extraordinária adaptada a épocas e circunstâncias excepcionais” (Norberto Bobbio), e que “pode ser boa ou má” (Maquiavel). Trata-se, pois, de uma forma de governo bem distinta da “tirania”, caso tanto do stalinismo como do hitlerismo. A tirania, segundo os clássicos, é uma forma má de governo por excelência.
DN - Ao se falar em racismo ou alofobias, como você amplia no livro, é comum ver uma das partes ser retratada como vítima. No entanto, lembro do caso judeu/palestino, onde me parece o ódio é canalizado nas duas direções. Este embate de alofobias era mais comum na antiguidade que nos nossos dias?
Manuel Bulcão - O fato de o Homo sapiens sapiens ser a única espécie do gênero Homo, e este o único gênero da família Hominidae, talvez isso indique, como apontou J. Monod, que o struggle for life de Spencer (luta intraespecífica – entre raças e grupos – de vida ou morte) foi um dos principais fatores da seleção da espécie humana.  Sim, provavelmente fomos nós os assassinos dos nossos irmãos sapiens neanderthalensis e dos nossos primos australopithecus. Diga-se, ainda, que, segundo os antropólogos R. Wrangham e D. Peterson (O macho demoníaco, 1998), cerca de trinta por cento dos indivíduos das tribos neolíticas ou de caçadores-coletores que ainda existem (caso dos Ianomâmi) morrem em escaramuças intertribais (esse índice é idêntico ao dos chimpanzés). Demais, não são poucos os povos primitivos que se designam como “homens verdadeiros” ou “gente de verdade” (por exemplo, os Suruí, os Paracanâ, os Crenacarore…), o que significa que o Outro não é considerado como igual ou pertencente à mesma espécie. Tudo isso são indícios de que os choques de alofobias eram muito mais comuns no passado. Não obstante, os choques que se verificam hoje são muito mais mortíferos e impressionáveis. Mortíferos porque, em vez de arco e flecha, os conflitantes atualmente se enfrentam com fuzis, metralhadoras, mísseis etc. E impressionáveis porque, graças ao surgimento das religiões universalistas (que proclamam a igualdade de todos perante Deus) e do iluminismo, valores tais como igualdade, liberdade e fraternidade tornaram-se componentes do bom senso de toda a humanidade. Por isso que, em relação ao litígio entre judeus e palestinos, não há apenas torcedores raivosos, mas também uma vasta gama de indivíduos e grupos sociais (cristãos, judeus, muçulmanos, ateus…) que se propõem o papel de árbitro e que, em solidariedade a essas duas etnias, anelam não a paz do vencedor ou do cemitério, mas a paz do consenso.
DN - Quais os riscos da posição antirrascista, de afirmação desse ou daquele grupo específico, tornar-se, ela também, uma postura racista?
Manuel Bulcão - Existe um antirracismo “universalista” que, em vez de celebrar a diversidade humana (nosso politipismo e polimorfismo) e a igualdade na diferença, pretende superar todos os tipos numa síntese racial superior.  Os “antirracistas” da Ação Integralista Brasileira (Plínio Salgado, Gustavo Barroso entre outros) elegeram o caboclo como “a síntese de todas as raças e representante da união cristã dos povos”. Ora, esse antirracismo não passa de um racismo invertido, ou melhor, do racismo do mestiço. Nos EUA, há os ideólogos do melting-pot, que almejam fundir no caldeirão da mestiçagem as raças que existem nesse país, de modo a criar “o novo homem americano” (isto é, uma nova raça). Trata-se de outro racismo travestido do seu contrário. Obviamente que há, também, o risco de minorias – ou mesmo maiorias – “de cor” oprimidas pelo racismo dos brancos virem a reagir irracionalmente e, assim, criar o seu próprio racismo, fundado no ressentimento.
DN - Me parece que, por vezes, é difícil para muita gente associar reflexões sobre manifestações extremas do ódio (caso dos já citados regimes totalitários) com práticas cotidianas, onde o Outro é menos discernível. Penso numa mobilidade dessa alteridade, como no caso dos fumantes. Leis de restrição ao fumo, como em São Paulo que aboliu mesmo a existência de fumódromos, são manifestações alofóbicas?
Manuel Bulcão – Penso que sim.  Infelizmente, a “instituição” do bode expiatório ainda é necessária para muita gente (fato que muitos políticos manipulam), e me parece que os fumantes, atualmente, estão sendo investidos desta função, principalmente por aqueles que sofrem de uma doença grave e mentalmente degenerativa: a mórbida obsessão por saúde e corpo perfeitos (esses narcisistas não hostilizam apenas os fumantes, mas também os gordos, ambos tratados como desviados morais).
________________
Entrevista publicada no dia do lançamento do livro A eloquência do ódio: reflexões sobre o racismo e outras alofobias (BULCÃO NETO, Manuel Soares. São Paulo: Editora LivroPronto, 2009, 276 pp.).


segunda-feira, 26 de março de 2012

DUAS CRÔNICAS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

"Vós, os segregados, um dia sereis um povo."
(Nietzsche; Zaratustra)
________________________________________________________________

Tolerância não, respeito sim*

Sempre que, em discussões acaloradas sobre questões não só importantes como altamente controversas – os direitos dos homossexuais ou a existência de deuses, por exemplo – alguém, para contemporizar, apela para a tolerância, imediatamente ligo o meu desconfiômetro. Pois, afinal, o que quer dizer “tolerar”? Segundo o Dicionário Houaiss, “tolerar” significa suportar com indulgência. Vale dizer que o tolerado é para o tolerante um “inferior” cujos erros devemos relevar, perdoar, deixar por menos. Neste sentido, o apelo à tolerância não combina muito bem com um diálogo entre iguais, entre duas opiniões em que a dúvida (e o benefício da dúvida) recai sobre ambas. Em vez da palavra tolerância, o termo melhor seria deferência na sua acepção de respeito à alteridade, o que, observe-se, não é incompatível com certa dose de diabrura retórica, ironia e argumentação agressiva — agressividade viril, não destrutiva, frise-se (afinal, somos cérebros apaixonados e não frígidos computadores).
A propósito, conheço uma católica fervorosa muito “tolerante” que se jacta por ter alguns amigos gays. Esses seus amigos, ela os aceita – e até os elogia – por não alardearem a sua condição, fazendo exigências absurdas – como o casamento entre homossexuais –, participando de paradas de orgulho gay etc. Ou seja, para a tolerante, o bom gay é aquele que se resigna a uma vida fechada em gueto, não expõe a sua “monstruosidade” e que está sempre a se esconder, como as baratas nos esgotos.
A palavra ateísmo sempre foi um estigma. Ser ateu, “até aí tudo bem”, é “tolerável”, mas quando o ateu sai do seu clubezinho fechado – isso quando pertence a algum, pois a maioria é constituída de ermitões – e tenta transformar sua concepção de mundo num apostolado (como de resto é prática de todas as religiões universais), isto é, quando passa de ateu para a condição de ateísta... horror! Pior ainda quando se vale da ciência para lançar petardos no calcanhar-de-aquiles das mitologias religiosas – é quando, então, ele próprio é tachado de intolerante em nada diferente do stalinista defensor de um Estado policial-militar ateísta.

Impressão negativa

Sou um agnóstico, defensor do Estado laico, do pluralismo e do direito de todo credo lato sensu – católico “apostólico”, todas as variantes do pentecostalismo, hare krishna e ateísmo – de exercerem atividade missionária, com a condição, obviamente, de que o façam por meio do argumento, da tentativa de persuasão, da palavra – parla –, respeitando as regras do jogo democrático e sem propugnar a exclusão do outro. Aliás, “como seria um mundo sem religião?” Seria um mundo sem Dawkins, dado que este, polemista como é, certamente morreria de tédio.
Ressalte-se que, nessas condições democráticas de confronto de ideias, o ateísta científico – porém não o ateísta irracionalista nietzschiano – sai em vantagem; pois, como salientou brilhantemente o físico teórico Lee Smolin (entrevista à Folha de S. Paulo em 05 de novembro de 2006), a comunidade científica é um modelo para a sociedade democrática, uma vez que, na primeira, exige-se que se proceda “de boa-fé, dentro de regras e com respeito aos que discordam de você”.
O físico brasileiro Marcelo Gleiser, do qual sou um tiete, em seu artigo “Ateísmo radical” (Folha de S. Paulo, 26 de novembro de 2006) tece críticas até que pertinentes ao ateísmo do biólogo britânico Richard Dawkins. Porém, quem ler a matéria pode ficar com uma impressão negativa do escritor – “virulento”, “cientificista” etc. – que não corresponde em absoluto à realidade. Apesar de rufião – além de suas diatribes até contra os religiosos mais moderados, brigou feio com o agnóstico Stephen Gould e da sua cuspideira não escapou sequer o papa do ceticismo científico, Karl Popper –, Dawkins jamais entronizou a “verdade” científica, identificando-a com o Bem; não confundia juízos de fato com juízos de valor (principal característica das ideologias cientificistas responsáveis pelo grosso da infelicidade humana durante o Século XX) nem compactuou com o determinismo genético.

Questionamento permanente

Se ele escreveu o best-seller O gene egoísta, por outro lado defendeu – e enalteceu – o fato de que “só nós [seres humanos], na Terra, temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas” (O gene egoísta; Lisboa: Gradiva, 1999, p. 283). Contra o determinismo naturalista que reduz a cultura a um epifenômeno, sustentou que “a determinação genética não é férrea, mas estatística” (idem), pelo que se pode afirmar que “os genes não somos nós” (O capelão do Diabo; São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 187) e que somos senhores da nossa biologia, não o contrário. Estabelecendo entre si e o famigerado social darwinismo – tanto o de mercado como o de Estado – anos-luz de distância, o autor afirma, em O capelão do Diabo:

“Como cientista acadêmico, sou um darwinista apaixonado, e acredito que a seleção natural é, se não a única força por trás da evolução, certamente a única força capaz de produzir a ilusão de propósito que emociona os que contemplam a natureza. Mas ao mesmo tempo em que defendo o darwinismo como cientista, sou ardentemente antidarwinista quando se trata de política ou da condução dos negócios humanos”. (Tradução de José Colucci Jr.)

Em sua teoria dos memes, isto é, dos entes ideais que se comportam com relativa autonomia, fazendo do nosso cérebro seu ecossistema nutritivo e que se valem da linguagem para se autorreplicarem; nesta sua hipótese acha-se embutida uma crítica às ideias parasitas, vale dizer, às crenças irracionais que “munidas com a toxina da certeza, tornam-se parasitas mortificantes ou mesmo letais, e nós [seres humanos], seus organismos hospedeiros de triste sina” (BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio; Fortaleza: APEX, 2005, p. 79). Contra esses espiroquetas noológicos – entre os quais figuram muitas divindades carniceiras –, Dawkins receita o permanente questionamento científico. Amém.
Em suma, o ateísmo radical de Richard Dawkins é apenas um aspecto secundário de um humanismo intransigente.

Improvável como a xícara

Richard Dawkins é um grande cientista, um excelente escritor e um filósofo… mediano. O Exemplo citado por Marcelo Gleiser ilustra bem a sua deficiência na área do pensamento mais abstrato. Marcelo Cavallari, por sua vez, em seu brilhante artigo “O provincianismo neoateu” (revista Época, nº 443, 13 de novembro de 2006, p. 97), desqualificando-o ainda mais como filósofo, lembra que ele cita uma “piada” de Bertrand Russell – como se fosse argumento sério – segundo a qual a existência de Deus é tão impossível de provar pela ciência quanto a hipótese de que há uma xícara em órbita do Sol, entre a Terra e Marte. Segundo M. Cavallari, o que Dawkins não percebe – e o que faz da asserção de B. Russell uma anedota – é que a questão da existência de Deus – isto é, de uma Causa Final, de uma razão-de-ser do Universo e de um propósito ético movendo o mundo –, algo que o método científico-experimental realmente não pode corroborar nem refutar jamais, é uma questão importante, atormentadora, que preocupa todos os homens, alguns mais que outros, ao passo que a possibilidade de que exista uma xícara em órbita no Sistema Solar não passa de uma curiosidade, um assunto para diletantes numa mesa de bar depois da quinta dose de uísque.
Se Dawkins, realmente, não tem lá argumentos muito consistentes contra aquelas concepções mais elaboradas de Deus – o Deus “razão de ser” de Leibniz, o id quo maius cogitare nequit de Boécio e Anselmo, diga-se, no entanto, em defesa de Dawkins, que a existência de deuses zoomórficos, quiméricos, antropomórficos e seus séquitos de espíritos e demônios (súcubos, íncubos…), se de fato é uma possibilidade, trata-se, no entanto, de uma possibilidade tão ridiculamente improvável como a xícara de Russell.

Pior sem eles

Ademais, é precisamente essa espécie de deuses passionais a que exige sacrifícios de sangue e que inspira muito mais terror do que amor ou encantamento. A crença nessas divindades é uma geratriz de angústia, torna a realidade muito mais cruel do que realmente é – e, por imobilizar as pessoas através do medo, há séculos tem servido como instrumento de dominação. Pois bem, ao reduzir esse panteão a uma congérie de tigres de papel, Dawkins e outros neoateus nos estão prestando um favor imenso.
Na terra arrasada que sucedeu ao falhanço das velhas cosmovisões cientificistas, isto é, das ideologias que reivindicavam para si o estatuto de “expressão política do conhecimento científico” – o darwinismo social “nazi”, o socialismo “científico” e o liberalismo econômico “fisiocrático” – medra a reação anti-iluminista, o fundamentalismo religioso de todas as extrações (cristão, islâmico, judaico...). Paulatinamente, no entanto, na literatura e no mass media começam a surgir outras vozes, enunciadoras de um laicismo total e de um ateísmo radical — radical porque, infelizmente, o tempo é de violência: Salman Rushdie, José Saramago, Michel Houellebecq, Michel Onfray, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett, entre outros.
Quanto a mim, um agnóstico, só espero que os neoateístas tenham aprendido com a história. De qualquer modo, ruim com eles, pior sem eles, é o que penso. — Bem-vindos à arena do Século XXI!

Manuel Soares Bulcão Neto


* Artigo publicado no site do Observatório da Imprensa, em 05 de dezembro de 2006, com quinze comentários.


Despotismo da maioria


Estudos comprovam que muitos pedófilos foram, eles próprios, vítimas de abuso sexual na infância; que filhos de pais cruéis tendem, quando adultos, a se tornar tiranos domésticos; que jovens constantemente brutalizados por outros – em geral um grupo – não raro respondem de forma irracional, aviltando-se a si mesmos (perda de autoestima, depressão, suicídio…) ou violentando os ainda mais fracos. E assim, por contágio – de modo sub-reptício, pelo viés do inconsciente – o mal se propaga.
Sim, alguns reagem à agressividade sádica com agressividade viril (atitude tão bem retratada no filme sueco Evil, raízes do mal). Não poucos desenvolvem empatia por indivíduos e minorias hostilizados e, por conseguinte, aversão à violência que tem por alvo qualquer um que venha a fugir dos padrões, os que não se enquadram na homogeneidade normal, aqueles que não sacrificam sua autonomia pelos pequenos e obsoletos valores das tribos. Estes, que trazem no sangue benignos anticorpos, também são minoritários, nadam contra a maré e lutam contra os que tentam segregá-los. Seu número, no entanto, cresce dia a dia, de modo cada vez mais perceptível.
Infelizmente, às vezes, como naquele dia de cão em que se deu o massacre de Realengo (7 de abril de 2011, Escola Municipal Tasso da Silveira, Rio de Janeiro), o mal se mostra radicalmente, matando crianças sem antes congelar-lhes – requinte! – o coração com a adrenalina do pavor. Surgem, nesses momentos, fendas na rotina pelas quais vislumbramos o absurdo, o não-sentido. Psicólogos, neuropsiquiatras, sociólogos, literatos e religiosos são convocados pela mídia para explicar os motivos do assassinato em massa, fazer-nos entender atos tão extremos. Sociopata, psicótico, necrófilo exibicionista, apenas um débil mental macaqueando jihadistas… Afinal, de quem se trata? Alguém, paralisado de espanto, lembra uma sentença de Loren Eiseley: “Não confiaremos em ninguém. O homem é a maldade. O homem é um animal. Veio das trevas dos bosques e das cavernas.” — Mas que animal selvagem age assim? Não seria um animal doente?
O assassino Wellington Menezes de Oliveira (24 anos de idade) era produto e escória de muitos fatores entrelaçados (genes, ambientes…), inclusive de si próprio, isto é, da sua liberdade de escolha que, mesmo exígua, conferia-lhe responsabilidade moral por seus atos (presumindo-se que não sofria de doença mental grave, caso em que seria juridicamente incapaz).
Do vídeo que ele deixou, pinço, no entanto, o trecho em que, evocando certa irmandade imaginária, Wellington fala que “nossa” luta não se deve exclusivamente ao bullying. Ora, isso é o mesmo que dizer que sua primeira experiência com o rolo compressor da opinião pública – a violência física e psicológica que sofrera na escola, reiteradamente, por algum traço destoante dos gostos e preconceitos da maioria dos colegas – foi o dínamo “quase exclusivo” da sua ação.
Na fase da infância que, segundo Freud, equivale ao período de latência, a escola passa para o primeiro plano na socialização do indivíduo. A criança, muito gregária, identifica-se mais com o grupo como um todo do que com seus membros considerados um a um. Por esta razão, e também pelo fato de o seu sistema nervoso central ainda estar amadurecendo, o bullying pode gerar efeitos desastrosos e irreversíveis, principalmente se a vítima tiver predisposição genética para enfermidades neuropsíquicas.
Wellington matou indiscriminadamente porque seu ódio não era pelas pessoas isoladas, mas pelo grupo. Curiosamente, disse que agiria em nome da “irmandade” à qual, em seu delírio, pertencia.
Há os que se tornam melhores após grande sofrimento emocional; outros, porém, subsistem como escombros e desejam transformar o mundo em algo semelhante a eles. Stendhal, em seu romance O vermelho e o negro, escreveu que “são dos momentos de grande humilhação que surgem os Robespierre.” Eduquemos, pois, nossas crianças contra o espírito de malta e sua insídia: a vendeta dos arruinados pode voltar-se contra qualquer um — ou todos nós.

Manuel Soares Bulcão Neto, ensaísta.

Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 24/04/2011.

domingo, 22 de janeiro de 2012

CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS DO CETICISMO FILOSÓFICOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Michel de Montaigne
(1533 - 1592)

_________________________


Consequências Práticas do Ceticismo Filosófico

(Texto antigo)


Manuel Soares Bulcão Neto (*)


O que o ceticismo moderno não é

O ceticismo filosófico moderno não é um dogmatismo negativo, como o foi o “ceticismo acadêmico” [1] de Arcesilau e Carnéades por ter sustentado que a verdade é incognoscível (essa afirmação é verdadeira? Se é, então como a conhecemos?). Também não se trata de niilismo: atitude de desespero expressada numa “descrença generalizada”. Ora, (des)crença é crença às avessas. No caso do niilismo, crença na verdade de que todas as crenças são falsas, o que é um nonsense.

O ceticismo filosófico moderno, que surgiu e se desenvolveu pari passu com as ciências empíricas[2], também não se confunde com a corrente do pensamento conhecida como “relativismo”. Este – o relativismo, mormente sua versão mais radical, o “pós-modernismo” – nega a existência de uma verdade objetiva e da universalidade de qualquer valor (o que o torna não o fundamento ideológico da tolerância, mas a justificação da permissividade e de qualquer conduta “aquém” do bem e do mal). De modo diverso, o ceticismo moderno, “paracientífico”, apenas nega a “certeza absoluta”, a pretensão de que se pode atingir um conhecimento abrangente “indubitável”.

Vale dizer: tirante as verdades tautológicas (caso da verdade matemática), o cogito cartesiano e algumas correspondenciazinhas biunívocas banais entre ideia e realidade (p.ex., “o cientista Richard Dawkins tem uma cabeça”), o fato é que, a princípio, “tudo é incerto” (Montaigne), e que, “se tudo é incerto, também não é certo que tudo é incerto” (Pascal). Em síntese, o ceticismo hodierno parte do princípio autorreferente de que “tudo é duvidoso, inclusive esta afirmação” (André Comte-Sponville).

Esse novo ceticismo, portanto, é coerente, uma vez que inclui a si mesmo em seu próprio questionamento — consistência esta que o obriga a conferir à posição contrária (isto é, aos dogmatismos) o benefício da dúvida.

Crer é sustentar a verdade de um enunciado não-evidente, mas admitindo, ao mesmo tempo – caso o crente seja “honesto” –, a possibilidade de estar enganado. Pois, afinal, o que não é evidente não é certo, mas duvidoso;[3] logo, algo de que não se sabe, mas em que se crê ou (des)crê. O mesmo não se pode dizer de algumas verdades matemáticas simples, que não são objetos de crença, artigos de fé, mas puro saber. Com efeito, não faz sentido dizer “creio que 2 + 2 = 4”; ora, nisso eu não “creio”: disso eu “sei”.

O ceticismo moderno, portanto, não nega a crença e a fé, antes as pressupõe.

Mas há um porém: o ceticismo (do grego: skepsis) é questionamento, e o questionamento, por sua vez, é uma avaliação das ideias e dos dados empíricos levada a cabo pelo pensamento. Ora, o pensamento – e aqui me refiro ao pensamento dito “conceitual” – tem as suas leis, de modo que, ao contrário das crenças religiosas, as crenças dos céticos não são arbitrárias, baseadas unicamente na fé, mas fundamentadas naquilo que os possibilita questionar: as regras do cogito, isto é, as categorias e os princípios da lógica e da matemática. Essas categorias e princípios são intersubjetivos, comuns a todos os sujeitos pensantes. Pois, se não fosse assim, não haveria possibilidade de diálogo, de entendimento e de consenso entre os homens.

Isso não significa que as leis que regem o pensamento coerente (as leis da inferência, objeto da Lógica) sejam indubitáveis. Decerto que não o são e que nem mesmo a matemática está acima de qualquer suspeita, uma vez que de seus axiomas pode-se chegar não apenas a verdades, mas também a paradoxos. Questionar a racionalidade do pensamento é preciso, e foi por ter sido questionada que ela (a racionalidade, a razão) se desenvolveu, superou muitos dos seus paradoxos, tornou-se mais metódica, o que conferiu ao pensamento maior grau de autonomia em relação às demais faculdades psíquicas: o sentimento e a vontade.

Ora, o que se disse acima sobre o ceticismo do nosso tempo coincide, em larga medida, com as considerações de Alfred North Whitehead (matemático e filósofo) acerca do que ele denomina “Razão especulativa”, que criou a “Razão metódica”, mas que, no entanto, a questiona constantemente.

“A Razão especulativa é, em sua essência, alheia aos métodos. Sua função é desvendar as razões gerais, que se situam acima das razões restritas, compreender todos os métodos como coordenados numa natureza de coisas que só é compreensível transcendendo-se a todos os métodos. Esse ideal infinito nunca será atingido pela limitada inteligência humana. Entretanto, o que distingue o homem dos animais, e alguns homens de outros, é a presença, em sua natureza, ainda que de uma forma hesitante e vaga, de um elemento perturbador, que é a busca do inatingível. Esse elemento é aquele toque de infinito que impulsionou os povos para a frente, muitas vezes ao encontro de sua própria destruição. É um tropismo pelo facho de luz que acena ao longe — pelo sol que viaja em direção à finalidade última das coisas, e pelo sol que ressurge sempre de sua origem. A Razão especulativa se volta para leste e para oeste, para o começo e para o fim, como que espreitando para além das fronteiras do mundo”.[4]

Mesmo sendo a racionalidade do pensamento questionável em alguma medida, de outra coisa não dispomos para produzir conhecimentos acerca da natureza e de nós mesmos. Aliás, como declarou Freud, “Existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos” (S. Freud; “Além do Princípio do Prazer”, 1920).

Ademais, como esse conhecimento é a nossa principal arma de sobrevivência, e por ter-se demonstrado um instrumento tão eficaz de controle sobre as forças naturais, então o melhor é nos apoiarmos firmemente no pensamento lógico e no método científico, admitindo, porém, que seus postulados e axiomas também encerram uma margem de incerteza (uma margem pequena, diga-se de passagem).

Consequências práticas do ceticismo filosófico

Não é fácil conviver com a dúvida. Se tenho dúvidas, sou obrigado a escolher, a exercitar a minha liberdade, a me responsabilizar pela escolha feita e pelos meus atos, a admitir que “posso estar errado”. A dúvida é a sombra da liberdade e tem por corolário a angústia e a responsabilidade moral.

Penso que a certeza, “a crença na precisão absoluta da minha crença”, é o mais velho antídoto contra a ansiedade que sempre acompanha o ato da escolha. Pois, se não tenho dúvidas acerca do caminho a trilhar, não estou escolhendo, não estou a agir livremente, mas tão-somente obedecendo a um imperativo, que pode ser a palavra de Deus, o Destino ou mesmo a Razão. A certeza absoluta tranquiliza a consciência, nos faz agir sem remorsos e sem ela os genocidas em nome de Deus ou da Razão não dormiriam em paz.

É porque temem a liberdade, é por não quererem assumir responsabilidade moral que os homens costumam se deixar levar por certezas. Se um dia descobrem que o que motivou a sua ação era um erro, amaldiçoam Deus, o Destino ou a Razão, lamentam o fato de terem sido “enganados” (colocam-se sempre numa situação passiva) e, tranquilos, permanecem com suas outras certezas.

Ao contrário do que muitos pensam, o cético não é um frívolo diletante que tem por hobby questionar tudo e que faz da filosofia uma disputa entre egos, um joguinho de salão. Ao contrário, há mesmo um propósito moral no ceticismo filosófico. Pois, ao fazer da incerteza um dos princípios do pensamento humano, o que o filósofo cético também pretende é destruir esse escudo da covardia, essa negação da liberdade, essa arma da intolerância, isso que é a categoria central de todos os sistemas filosóficos fechados imunes à discussão e ao questionamento e que apenas servem de ideologia para os inimigos da sociedade aberta: o mito da certeza absoluta.

Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”, tivemos sucesso em nossa empreitada. Sim, ao menos nofront filosófico, destruímos o encouraçado do dogmatismo. Deste só restam destroços e alguns náufragos que, para não se afogarem, fazem das tautologias — como, por exemplo, “o existente existe” — e do cogito cartesiano sua tábua de salvação.

Claro, existem muitos “não-céticos” que estão absolutamente certos das virtudes da sociedade aberta. Estes costumam criticar o cético pelo fato de ele não saber com certeza se assassinar uma criança indefesa é moralmente justificável ou não, ou porque “diz não saber com certeza que uma ditadura sanguinolenta é defensável ou não” Não percebem esses “dogmáticos de boa vontade” que o que ameaça a sociedade aberta não é a incerteza quanto à verdade dos seus princípios, mas a certeza compartilhada por muitos, inclusive por supostos paladinos da democracia (Nixon, Kissinger, Sharon, Bush…) de que assassinar crianças é muitas vezes moralmente justificável: essa mesma certeza ou convicção inabalável tão característica dos que se arvoram os guardiões da Razão, do Pensamento Correto ou da Verdade e que, por isso, não estão muito dispostos a perder tempo com discussão, com a busca do consenso mediante o diálogo e outras “masturbações” democráticas, motivo pelo qual chegam mesmo a defender ditaduras sanguinolentas sempre que lhes convém. Como, por exemplo, o “racionalista” e “libertário” de direita Milton Friedman, que certa vez teceu elogios rasgados a Pinochet e justificou sua tirania.

É investindo contra o mito da certeza absoluta ou reduzindo-a ao ponto de jamais se transformar em instrumento de dominação política que se garante “quase certamente” a sociedade aberta.

Ao admitir que nem eu nem você detemos o monopólio do conhecimento certo e indubitável, não estou senão aceitando como razoável a atitude de considerar seus contra-argumentos e, por extensão, de reputar como legítimas todas as opiniões diferentes. Essa incerteza, que está na margem tanto da minha quanto da sua crença, é o que torna nossos pontos de vista iguais, malgrado as dessemelhanças. Também é a incerteza a justificação racional da minha e da sua liberdade de questionar, concordar, discordar. Ora, a aceitação do outro (do diferente, da opinião das minorias), a igualdade entre os interlocutores e a liberdadede questionar são tanto os princípios da razão quanto da democracia.
E nem é preciso ter certeza da verdade desses preceitos para defendê-los firmemente, pois o que os sustenta e o que lhes dá firmeza não é outra coisa que a incerteza intrínseca do conhecimento: o princípio fundamental de que tudo é incerto, inclusive esta afirmação.

Manuel Bulcão
Fevereiro/2002


[1] Chamado “acadêmico” porque surgiu na Academia de Platão no século III a.C.
[2] O seguinte texto do físico Richard P. Feynman, extraído o livro “O Significado de Tudo” (Portugal, Editora Gradiva), ilustra bem a simbiose entre o ceticismo filosófico moderno e as ciências empíricas: “Se não fôssemos capazes ou não desejássemos olhar em novas direções, se não tivéssemos dúvidas e não soubéssemos reconhecer a nossa ignorância, nunca chegaríamos a ter idéias novas. Não haveria nada para verificar, pois já conheceríamos a verdade. Aquilo a que hoje chamamos conhecimento científico é, pois, um corpo de afirmações com diversos graus de certeza. Algumas são muito incertas, outras são quase certas, mas nenhuma é absolutamente certa. Os cientistas estão habituados a isso. Sabemos que é consistente conseguir viver sem saber toda a verdade. Algumas pessoas perguntam: «Como é que conseguem viver sem saber?» Não percebo o que querem dizer com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que quero saber é como é possível saber”.
[3] André Comte-Sponville, filósofo cético-racionalista francês, defende que nem as evidências “ululantes” são inquestionáveis, uma vez que consistem em estados d’alma, e os estados d’alma são “alteráveis” por modificações neuroquímicas, deliberadas ou não.
[4] WHITEHEAD, A. N. A Função da Razão. Brasília: Editora UNB, 1988; p.31.


[i] Este ensaio foi extraído do livro “As esquisitices do óbvio”, de Manuel Soares Bulcão Neto (Fortaleza: APEX, 2005, 292 páginas).
12 Comentários

Luis Filipe
Por que a filosofia tradicional e as novas abordagens ditas “pós-modernas” sempre aparecem, em textos ditos filosóficos, em lados opostos?

Edmilso Ramalho
Me fez lembrar de Sócrates. Uma pergunta deve sempre ser respondida com outra pergunta. Sabedoria é a certeza da dúvida.

gabriel sDm
Magnífico. Meu pensamento em texto, achei hoje aqui. A dúvida e a incerteza é uma dádiva, a base da minha liberdade. (E nem por um momento tenho certeza irrefutável disso.)

JC
Gostei do texto… apesar de que, na prática, o que encontrei em geral foram artigos do ceticismo negador. Basicamente, continua-se com uma falácia qualquer.
Ceticismo é ceticismo e ponto final! Ceticismo não é ciência… É apenas mais uma Religião de seguidores fervorosos em suas crenças! Crenças de negar qualquer experiência pessoal! Negar sentimentos! Negar o coração! Negar a necessidade da busca pessoal!

Ceticismo é NEGAÇÃO sim! Eu também sou cético em relação a algumas coisas, mas só pude comprová-las através de uma experimentação pessoal. Um grande amigo meu dizia… Não acredite em NADA… que você NÃO tenha experimentado! Amigos céticos, experimentem Deus, antes de dizer que ele não existe! Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química! Experimentem tudo o que for possível experimentar, e depois façam seus relatos de forma muito honesta… Aí sim saberemos qual é o verdadeiro ceticismo que tenha algum valor científico!

ty
O cara aí de cima não entendeu o texto do Manuel :(

JC
“Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”,…….destruímos o encouraçado do dogmatismo…”

O Ceticismo também é um Dogma. Também é limitador, é fechado.
Não admite experiência pessoal, não admite o incognoscível… Não admite uma série de coisas que as pessoas em geral admitem, mesmo não aceitando… e também não é muito capaz de comprovar nada… O que mais encontrei neste site foram caçadores de fraudes… Isso é importante claro… Mas não tenho encontrado nenhuma base cética muito concreta neste site…

Dizer que não existe ou não funciona até eu digo… Quando são fraudes genuínas, qualquer um pode mostrar o inverossímil, os peritos e investigadores são especialistas neste assunto… Mas… e quando o assunto questionado não é uma fraude??? Qual é o método usado para buscar a Verdade???

sdm
Mas é aí q tá!: buscar a verdade, muitas vezes, é cair num grande mau entendido. O lance é sempre duvidar, ñ sempre negar ou concordar, e sim, perceber q tudo é motivo de questionar e de concientizar, q nós humanos ñ somos detentores de verdade alguma, E ESSE É NOSSO MAIOR LEGADO, NOSSA “DÁDIVA”.(E nem por um momento ter certeza irrefutável disso.)

Cap. Winters
“Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química!”
Mas isso quer dizer o que? Se o amor for apenas uma reação química, isso tira a beleza dele? O arco iris é apenas uma ilusão de ótica, mas podemos admira-lo pelo que ele realmente é, ou podemos fantasiar sobre ele, fica a critério, prefiro o mais lógico.

Theodoro
Vou dar bola para toda subjetividade dos relatos de milhares de crentes,de crenças diferentesem lugares indistintos.
Depois vou experimentar cada uma das 1025478 possibilidades de crença. Só para depois me dar conta que perdi um tempo danado com lixo.
Não consigo entender crente acéfalo que mal sabe escrever e entraemsite cético para falar tanta asneira e proselitismo.

Wilson Ramiro

Jamais encontrei um cético verdadeiro, os que diziam ser em um primeiro momento negavamem em seguida para manterem-se “coerentes”, e para ser coerente é necessário acreditar, então não podem ser coerentes.

Toda nossa vida é repleta de decisões, das mais simples a algumas complexas, ler este texto já é uma decisão que voce , seja lá quem seja tomou. Decidir é além de eleger uma opção, é também destruir, eliminar e taxar como falsas(menos verdadeiras) outras opções. Você pode decidir se alimentar e ser contra morrer de fome, ou não, pode decidir respirar ou pode enfiar um saco plástico na cabeça e morrer por asfixia.

A vida real precisa de decisões que promova a melhor opção (VERDADE) no momento.
Filosofia titubeante, que não acredita que a verdade possa existir de forma concreta serve apenas para joguinhos de salão, ou discussões inuteis de internet.(também não estou fazendo nada agora, e isto é uma verdade).

Wilson Ramiro
De Novo
Não quero ser grosseiro ou mau educado. (minha verdade agora) Cético não deve ouvir comentários de crentes.(afirmação) Eu sei o que “ceticismo moderno” não é. (verdade)

Usando o racionalismo no ceticismo moderno consigo de forma mais eficaz ter certeza de que não tenho certeza, e isto me garante que estou com certeza no melhor caminho!

(*) Sou.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...