sexta-feira, 30 de março de 2012

COMO CONVIVER COM O OUTRO? (ENTREVISTA DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO PARA O JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE EM 29 DE SETEMBRO DE 2009)

Manuel Soares Bulcão Neto (1963 - Ó meu Deus!)
Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e veste. Pelo que amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. (Deuteronômio 10; 17-19)

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COMO CONVIVER COM O OUTRO?

 

(ENTREVISTA DE MANUEL SOARES BULCÃO NETO PARA O JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE EM 29 DE SETEMBRO DE 2009)


 


Por Dellano Rios
DN - Os fenômenos históricos que, me parecem, são os motores desta reflexão estão ligados aos regimes totalitários do século XX. O que estas manifestações trouxeram de novo para a história do ódio ao diferente?
Manuel Bulcão - Trouxeram a luta de extermínio decorrente da incompatibilidade entre povos ou grupos sociais que se julgam universalmente “eleitos”: os judeus por IHWH, os germânicos pela seleção natural (considerada reles instrumento dos deuses nórdicos e de outros seres divinais do misticismo oriental), os eslavos pelos pan-eslavistas (que consideravam essa raça como o novo Cristo do “Eschaton”) e a “vanguarda” comunista pelas férreas leis da História.
DN - No caso dos regimes fascistas, costuma-se falar em racionalidade, mas sem que se entre num consenso. Ora são existes que, num extremo racionalista, não são freados por uma moral; ora, são arroubos de irracionalismo. Na sua opinião, de que lado ficaria o regime nazista?
Manuel Bulcão – Alguns pensadores sustentam que os totalitarismos do séc. XX ou são o desdobramento inevitável da razão iluminista, ou, como defende Zygmund Bauman, uma possibilidade que surgiu com a racionalidade moderna (possibilidade esta que não havia antes). Discordo desses pontos de vista. As ciências e sua tecnologia apenas incrementaram, de forma exponencial, tanto as forças produtivas quanto as destrutivas; vale dizer, tornaram-se também instrumentos das inextirpáveis pulsões irracionais humanas. A propósito, para embasar esta suposta relação “necessária” entre racionalismo e totalitarismo, cita-se os campos de extermínio nazistas como “fábricas modernas” ou verdadeiras “indústrias da morte”. Esquece-se, no entanto, que não menos que 40% dos judeus mortos no Holocausto foram assassinados por métodos arcaicos, nada modernos, como fuzilamentos, trabalhos forçados até a morte etc. Além do mais, é importante lembrar que o Partido Nazista praticamente surgiu de uma seita místico-esotérica, a Casa Thule; que seus ideólogos foram fortemente influenciados pelo irracionalismo de Nietzsche (este filósofo, em sua obra Vontade de Potência, declara-se o “antidarwin”) e outros irracionalismos mais primitivos, como a teosofia de H. P. Blavatsky, o armanismo, a teozoologia, a judeofobia cristã etc.
DN - A Ditadura Militar se assemelha a casos como do nazismo?
Manuel Bulcão - Há pontos em comum, como o autoritarismo e o patriotismo. As diferenças, entretanto, superam em muito as semelhanças; pois o nazismo foi, sobretudo, um totalitarismo, um racismo político e uma concepção de mundo. Aliás, como afirmou Lenin, uma ditadura militar ou “pessoal” não é necessariamente a negação cabal da democracia (seja “burguesa” ou “proletária”), consistindo, no mais das vezes, em regimes que se autoproclamam “de exceção” ou, conforme Roberto Campos, “biodegradáveis”: “uma magistratura extraordinária adaptada a épocas e circunstâncias excepcionais” (Norberto Bobbio), e que “pode ser boa ou má” (Maquiavel). Trata-se, pois, de uma forma de governo bem distinta da “tirania”, caso tanto do stalinismo como do hitlerismo. A tirania, segundo os clássicos, é uma forma má de governo por excelência.
DN - Ao se falar em racismo ou alofobias, como você amplia no livro, é comum ver uma das partes ser retratada como vítima. No entanto, lembro do caso judeu/palestino, onde me parece o ódio é canalizado nas duas direções. Este embate de alofobias era mais comum na antiguidade que nos nossos dias?
Manuel Bulcão - O fato de o Homo sapiens sapiens ser a única espécie do gênero Homo, e este o único gênero da família Hominidae, talvez isso indique, como apontou J. Monod, que o struggle for life de Spencer (luta intraespecífica – entre raças e grupos – de vida ou morte) foi um dos principais fatores da seleção da espécie humana.  Sim, provavelmente fomos nós os assassinos dos nossos irmãos sapiens neanderthalensis e dos nossos primos australopithecus. Diga-se, ainda, que, segundo os antropólogos R. Wrangham e D. Peterson (O macho demoníaco, 1998), cerca de trinta por cento dos indivíduos das tribos neolíticas ou de caçadores-coletores que ainda existem (caso dos Ianomâmi) morrem em escaramuças intertribais (esse índice é idêntico ao dos chimpanzés). Demais, não são poucos os povos primitivos que se designam como “homens verdadeiros” ou “gente de verdade” (por exemplo, os Suruí, os Paracanâ, os Crenacarore…), o que significa que o Outro não é considerado como igual ou pertencente à mesma espécie. Tudo isso são indícios de que os choques de alofobias eram muito mais comuns no passado. Não obstante, os choques que se verificam hoje são muito mais mortíferos e impressionáveis. Mortíferos porque, em vez de arco e flecha, os conflitantes atualmente se enfrentam com fuzis, metralhadoras, mísseis etc. E impressionáveis porque, graças ao surgimento das religiões universalistas (que proclamam a igualdade de todos perante Deus) e do iluminismo, valores tais como igualdade, liberdade e fraternidade tornaram-se componentes do bom senso de toda a humanidade. Por isso que, em relação ao litígio entre judeus e palestinos, não há apenas torcedores raivosos, mas também uma vasta gama de indivíduos e grupos sociais (cristãos, judeus, muçulmanos, ateus…) que se propõem o papel de árbitro e que, em solidariedade a essas duas etnias, anelam não a paz do vencedor ou do cemitério, mas a paz do consenso.
DN - Quais os riscos da posição antirrascista, de afirmação desse ou daquele grupo específico, tornar-se, ela também, uma postura racista?
Manuel Bulcão - Existe um antirracismo “universalista” que, em vez de celebrar a diversidade humana (nosso politipismo e polimorfismo) e a igualdade na diferença, pretende superar todos os tipos numa síntese racial superior.  Os “antirracistas” da Ação Integralista Brasileira (Plínio Salgado, Gustavo Barroso entre outros) elegeram o caboclo como “a síntese de todas as raças e representante da união cristã dos povos”. Ora, esse antirracismo não passa de um racismo invertido, ou melhor, do racismo do mestiço. Nos EUA, há os ideólogos do melting-pot, que almejam fundir no caldeirão da mestiçagem as raças que existem nesse país, de modo a criar “o novo homem americano” (isto é, uma nova raça). Trata-se de outro racismo travestido do seu contrário. Obviamente que há, também, o risco de minorias – ou mesmo maiorias – “de cor” oprimidas pelo racismo dos brancos virem a reagir irracionalmente e, assim, criar o seu próprio racismo, fundado no ressentimento.
DN - Me parece que, por vezes, é difícil para muita gente associar reflexões sobre manifestações extremas do ódio (caso dos já citados regimes totalitários) com práticas cotidianas, onde o Outro é menos discernível. Penso numa mobilidade dessa alteridade, como no caso dos fumantes. Leis de restrição ao fumo, como em São Paulo que aboliu mesmo a existência de fumódromos, são manifestações alofóbicas?
Manuel Bulcão – Penso que sim.  Infelizmente, a “instituição” do bode expiatório ainda é necessária para muita gente (fato que muitos políticos manipulam), e me parece que os fumantes, atualmente, estão sendo investidos desta função, principalmente por aqueles que sofrem de uma doença grave e mentalmente degenerativa: a mórbida obsessão por saúde e corpo perfeitos (esses narcisistas não hostilizam apenas os fumantes, mas também os gordos, ambos tratados como desviados morais).
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Entrevista publicada no dia do lançamento do livro A eloquência do ódio: reflexões sobre o racismo e outras alofobias (BULCÃO NETO, Manuel Soares. São Paulo: Editora LivroPronto, 2009, 276 pp.).


segunda-feira, 26 de março de 2012

DUAS CRÔNICAS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

"Vós, os segregados, um dia sereis um povo."
(Nietzsche; Zaratustra)
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Tolerância não, respeito sim*

Sempre que, em discussões acaloradas sobre questões não só importantes como altamente controversas – os direitos dos homossexuais ou a existência de deuses, por exemplo – alguém, para contemporizar, apela para a tolerância, imediatamente ligo o meu desconfiômetro. Pois, afinal, o que quer dizer “tolerar”? Segundo o Dicionário Houaiss, “tolerar” significa suportar com indulgência. Vale dizer que o tolerado é para o tolerante um “inferior” cujos erros devemos relevar, perdoar, deixar por menos. Neste sentido, o apelo à tolerância não combina muito bem com um diálogo entre iguais, entre duas opiniões em que a dúvida (e o benefício da dúvida) recai sobre ambas. Em vez da palavra tolerância, o termo melhor seria deferência na sua acepção de respeito à alteridade, o que, observe-se, não é incompatível com certa dose de diabrura retórica, ironia e argumentação agressiva — agressividade viril, não destrutiva, frise-se (afinal, somos cérebros apaixonados e não frígidos computadores).
A propósito, conheço uma católica fervorosa muito “tolerante” que se jacta por ter alguns amigos gays. Esses seus amigos, ela os aceita – e até os elogia – por não alardearem a sua condição, fazendo exigências absurdas – como o casamento entre homossexuais –, participando de paradas de orgulho gay etc. Ou seja, para a tolerante, o bom gay é aquele que se resigna a uma vida fechada em gueto, não expõe a sua “monstruosidade” e que está sempre a se esconder, como as baratas nos esgotos.
A palavra ateísmo sempre foi um estigma. Ser ateu, “até aí tudo bem”, é “tolerável”, mas quando o ateu sai do seu clubezinho fechado – isso quando pertence a algum, pois a maioria é constituída de ermitões – e tenta transformar sua concepção de mundo num apostolado (como de resto é prática de todas as religiões universais), isto é, quando passa de ateu para a condição de ateísta... horror! Pior ainda quando se vale da ciência para lançar petardos no calcanhar-de-aquiles das mitologias religiosas – é quando, então, ele próprio é tachado de intolerante em nada diferente do stalinista defensor de um Estado policial-militar ateísta.

Impressão negativa

Sou um agnóstico, defensor do Estado laico, do pluralismo e do direito de todo credo lato sensu – católico “apostólico”, todas as variantes do pentecostalismo, hare krishna e ateísmo – de exercerem atividade missionária, com a condição, obviamente, de que o façam por meio do argumento, da tentativa de persuasão, da palavra – parla –, respeitando as regras do jogo democrático e sem propugnar a exclusão do outro. Aliás, “como seria um mundo sem religião?” Seria um mundo sem Dawkins, dado que este, polemista como é, certamente morreria de tédio.
Ressalte-se que, nessas condições democráticas de confronto de ideias, o ateísta científico – porém não o ateísta irracionalista nietzschiano – sai em vantagem; pois, como salientou brilhantemente o físico teórico Lee Smolin (entrevista à Folha de S. Paulo em 05 de novembro de 2006), a comunidade científica é um modelo para a sociedade democrática, uma vez que, na primeira, exige-se que se proceda “de boa-fé, dentro de regras e com respeito aos que discordam de você”.
O físico brasileiro Marcelo Gleiser, do qual sou um tiete, em seu artigo “Ateísmo radical” (Folha de S. Paulo, 26 de novembro de 2006) tece críticas até que pertinentes ao ateísmo do biólogo britânico Richard Dawkins. Porém, quem ler a matéria pode ficar com uma impressão negativa do escritor – “virulento”, “cientificista” etc. – que não corresponde em absoluto à realidade. Apesar de rufião – além de suas diatribes até contra os religiosos mais moderados, brigou feio com o agnóstico Stephen Gould e da sua cuspideira não escapou sequer o papa do ceticismo científico, Karl Popper –, Dawkins jamais entronizou a “verdade” científica, identificando-a com o Bem; não confundia juízos de fato com juízos de valor (principal característica das ideologias cientificistas responsáveis pelo grosso da infelicidade humana durante o Século XX) nem compactuou com o determinismo genético.

Questionamento permanente

Se ele escreveu o best-seller O gene egoísta, por outro lado defendeu – e enalteceu – o fato de que “só nós [seres humanos], na Terra, temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas” (O gene egoísta; Lisboa: Gradiva, 1999, p. 283). Contra o determinismo naturalista que reduz a cultura a um epifenômeno, sustentou que “a determinação genética não é férrea, mas estatística” (idem), pelo que se pode afirmar que “os genes não somos nós” (O capelão do Diabo; São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 187) e que somos senhores da nossa biologia, não o contrário. Estabelecendo entre si e o famigerado social darwinismo – tanto o de mercado como o de Estado – anos-luz de distância, o autor afirma, em O capelão do Diabo:

“Como cientista acadêmico, sou um darwinista apaixonado, e acredito que a seleção natural é, se não a única força por trás da evolução, certamente a única força capaz de produzir a ilusão de propósito que emociona os que contemplam a natureza. Mas ao mesmo tempo em que defendo o darwinismo como cientista, sou ardentemente antidarwinista quando se trata de política ou da condução dos negócios humanos”. (Tradução de José Colucci Jr.)

Em sua teoria dos memes, isto é, dos entes ideais que se comportam com relativa autonomia, fazendo do nosso cérebro seu ecossistema nutritivo e que se valem da linguagem para se autorreplicarem; nesta sua hipótese acha-se embutida uma crítica às ideias parasitas, vale dizer, às crenças irracionais que “munidas com a toxina da certeza, tornam-se parasitas mortificantes ou mesmo letais, e nós [seres humanos], seus organismos hospedeiros de triste sina” (BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio; Fortaleza: APEX, 2005, p. 79). Contra esses espiroquetas noológicos – entre os quais figuram muitas divindades carniceiras –, Dawkins receita o permanente questionamento científico. Amém.
Em suma, o ateísmo radical de Richard Dawkins é apenas um aspecto secundário de um humanismo intransigente.

Improvável como a xícara

Richard Dawkins é um grande cientista, um excelente escritor e um filósofo… mediano. O Exemplo citado por Marcelo Gleiser ilustra bem a sua deficiência na área do pensamento mais abstrato. Marcelo Cavallari, por sua vez, em seu brilhante artigo “O provincianismo neoateu” (revista Época, nº 443, 13 de novembro de 2006, p. 97), desqualificando-o ainda mais como filósofo, lembra que ele cita uma “piada” de Bertrand Russell – como se fosse argumento sério – segundo a qual a existência de Deus é tão impossível de provar pela ciência quanto a hipótese de que há uma xícara em órbita do Sol, entre a Terra e Marte. Segundo M. Cavallari, o que Dawkins não percebe – e o que faz da asserção de B. Russell uma anedota – é que a questão da existência de Deus – isto é, de uma Causa Final, de uma razão-de-ser do Universo e de um propósito ético movendo o mundo –, algo que o método científico-experimental realmente não pode corroborar nem refutar jamais, é uma questão importante, atormentadora, que preocupa todos os homens, alguns mais que outros, ao passo que a possibilidade de que exista uma xícara em órbita no Sistema Solar não passa de uma curiosidade, um assunto para diletantes numa mesa de bar depois da quinta dose de uísque.
Se Dawkins, realmente, não tem lá argumentos muito consistentes contra aquelas concepções mais elaboradas de Deus – o Deus “razão de ser” de Leibniz, o id quo maius cogitare nequit de Boécio e Anselmo, diga-se, no entanto, em defesa de Dawkins, que a existência de deuses zoomórficos, quiméricos, antropomórficos e seus séquitos de espíritos e demônios (súcubos, íncubos…), se de fato é uma possibilidade, trata-se, no entanto, de uma possibilidade tão ridiculamente improvável como a xícara de Russell.

Pior sem eles

Ademais, é precisamente essa espécie de deuses passionais a que exige sacrifícios de sangue e que inspira muito mais terror do que amor ou encantamento. A crença nessas divindades é uma geratriz de angústia, torna a realidade muito mais cruel do que realmente é – e, por imobilizar as pessoas através do medo, há séculos tem servido como instrumento de dominação. Pois bem, ao reduzir esse panteão a uma congérie de tigres de papel, Dawkins e outros neoateus nos estão prestando um favor imenso.
Na terra arrasada que sucedeu ao falhanço das velhas cosmovisões cientificistas, isto é, das ideologias que reivindicavam para si o estatuto de “expressão política do conhecimento científico” – o darwinismo social “nazi”, o socialismo “científico” e o liberalismo econômico “fisiocrático” – medra a reação anti-iluminista, o fundamentalismo religioso de todas as extrações (cristão, islâmico, judaico...). Paulatinamente, no entanto, na literatura e no mass media começam a surgir outras vozes, enunciadoras de um laicismo total e de um ateísmo radical — radical porque, infelizmente, o tempo é de violência: Salman Rushdie, José Saramago, Michel Houellebecq, Michel Onfray, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett, entre outros.
Quanto a mim, um agnóstico, só espero que os neoateístas tenham aprendido com a história. De qualquer modo, ruim com eles, pior sem eles, é o que penso. — Bem-vindos à arena do Século XXI!

Manuel Soares Bulcão Neto


* Artigo publicado no site do Observatório da Imprensa, em 05 de dezembro de 2006, com quinze comentários.


Despotismo da maioria


Estudos comprovam que muitos pedófilos foram, eles próprios, vítimas de abuso sexual na infância; que filhos de pais cruéis tendem, quando adultos, a se tornar tiranos domésticos; que jovens constantemente brutalizados por outros – em geral um grupo – não raro respondem de forma irracional, aviltando-se a si mesmos (perda de autoestima, depressão, suicídio…) ou violentando os ainda mais fracos. E assim, por contágio – de modo sub-reptício, pelo viés do inconsciente – o mal se propaga.
Sim, alguns reagem à agressividade sádica com agressividade viril (atitude tão bem retratada no filme sueco Evil, raízes do mal). Não poucos desenvolvem empatia por indivíduos e minorias hostilizados e, por conseguinte, aversão à violência que tem por alvo qualquer um que venha a fugir dos padrões, os que não se enquadram na homogeneidade normal, aqueles que não sacrificam sua autonomia pelos pequenos e obsoletos valores das tribos. Estes, que trazem no sangue benignos anticorpos, também são minoritários, nadam contra a maré e lutam contra os que tentam segregá-los. Seu número, no entanto, cresce dia a dia, de modo cada vez mais perceptível.
Infelizmente, às vezes, como naquele dia de cão em que se deu o massacre de Realengo (7 de abril de 2011, Escola Municipal Tasso da Silveira, Rio de Janeiro), o mal se mostra radicalmente, matando crianças sem antes congelar-lhes – requinte! – o coração com a adrenalina do pavor. Surgem, nesses momentos, fendas na rotina pelas quais vislumbramos o absurdo, o não-sentido. Psicólogos, neuropsiquiatras, sociólogos, literatos e religiosos são convocados pela mídia para explicar os motivos do assassinato em massa, fazer-nos entender atos tão extremos. Sociopata, psicótico, necrófilo exibicionista, apenas um débil mental macaqueando jihadistas… Afinal, de quem se trata? Alguém, paralisado de espanto, lembra uma sentença de Loren Eiseley: “Não confiaremos em ninguém. O homem é a maldade. O homem é um animal. Veio das trevas dos bosques e das cavernas.” — Mas que animal selvagem age assim? Não seria um animal doente?
O assassino Wellington Menezes de Oliveira (24 anos de idade) era produto e escória de muitos fatores entrelaçados (genes, ambientes…), inclusive de si próprio, isto é, da sua liberdade de escolha que, mesmo exígua, conferia-lhe responsabilidade moral por seus atos (presumindo-se que não sofria de doença mental grave, caso em que seria juridicamente incapaz).
Do vídeo que ele deixou, pinço, no entanto, o trecho em que, evocando certa irmandade imaginária, Wellington fala que “nossa” luta não se deve exclusivamente ao bullying. Ora, isso é o mesmo que dizer que sua primeira experiência com o rolo compressor da opinião pública – a violência física e psicológica que sofrera na escola, reiteradamente, por algum traço destoante dos gostos e preconceitos da maioria dos colegas – foi o dínamo “quase exclusivo” da sua ação.
Na fase da infância que, segundo Freud, equivale ao período de latência, a escola passa para o primeiro plano na socialização do indivíduo. A criança, muito gregária, identifica-se mais com o grupo como um todo do que com seus membros considerados um a um. Por esta razão, e também pelo fato de o seu sistema nervoso central ainda estar amadurecendo, o bullying pode gerar efeitos desastrosos e irreversíveis, principalmente se a vítima tiver predisposição genética para enfermidades neuropsíquicas.
Wellington matou indiscriminadamente porque seu ódio não era pelas pessoas isoladas, mas pelo grupo. Curiosamente, disse que agiria em nome da “irmandade” à qual, em seu delírio, pertencia.
Há os que se tornam melhores após grande sofrimento emocional; outros, porém, subsistem como escombros e desejam transformar o mundo em algo semelhante a eles. Stendhal, em seu romance O vermelho e o negro, escreveu que “são dos momentos de grande humilhação que surgem os Robespierre.” Eduquemos, pois, nossas crianças contra o espírito de malta e sua insídia: a vendeta dos arruinados pode voltar-se contra qualquer um — ou todos nós.

Manuel Soares Bulcão Neto, ensaísta.

Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 24/04/2011.

domingo, 22 de janeiro de 2012

CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS DO CETICISMO FILOSÓFICOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Michel de Montaigne
(1533 - 1592)

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Consequências Práticas do Ceticismo Filosófico

(Texto antigo)


Manuel Soares Bulcão Neto (*)


O que o ceticismo moderno não é

O ceticismo filosófico moderno não é um dogmatismo negativo, como o foi o “ceticismo acadêmico” [1] de Arcesilau e Carnéades por ter sustentado que a verdade é incognoscível (essa afirmação é verdadeira? Se é, então como a conhecemos?). Também não se trata de niilismo: atitude de desespero expressada numa “descrença generalizada”. Ora, (des)crença é crença às avessas. No caso do niilismo, crença na verdade de que todas as crenças são falsas, o que é um nonsense.

O ceticismo filosófico moderno, que surgiu e se desenvolveu pari passu com as ciências empíricas[2], também não se confunde com a corrente do pensamento conhecida como “relativismo”. Este – o relativismo, mormente sua versão mais radical, o “pós-modernismo” – nega a existência de uma verdade objetiva e da universalidade de qualquer valor (o que o torna não o fundamento ideológico da tolerância, mas a justificação da permissividade e de qualquer conduta “aquém” do bem e do mal). De modo diverso, o ceticismo moderno, “paracientífico”, apenas nega a “certeza absoluta”, a pretensão de que se pode atingir um conhecimento abrangente “indubitável”.

Vale dizer: tirante as verdades tautológicas (caso da verdade matemática), o cogito cartesiano e algumas correspondenciazinhas biunívocas banais entre ideia e realidade (p.ex., “o cientista Richard Dawkins tem uma cabeça”), o fato é que, a princípio, “tudo é incerto” (Montaigne), e que, “se tudo é incerto, também não é certo que tudo é incerto” (Pascal). Em síntese, o ceticismo hodierno parte do princípio autorreferente de que “tudo é duvidoso, inclusive esta afirmação” (André Comte-Sponville).

Esse novo ceticismo, portanto, é coerente, uma vez que inclui a si mesmo em seu próprio questionamento — consistência esta que o obriga a conferir à posição contrária (isto é, aos dogmatismos) o benefício da dúvida.

Crer é sustentar a verdade de um enunciado não-evidente, mas admitindo, ao mesmo tempo – caso o crente seja “honesto” –, a possibilidade de estar enganado. Pois, afinal, o que não é evidente não é certo, mas duvidoso;[3] logo, algo de que não se sabe, mas em que se crê ou (des)crê. O mesmo não se pode dizer de algumas verdades matemáticas simples, que não são objetos de crença, artigos de fé, mas puro saber. Com efeito, não faz sentido dizer “creio que 2 + 2 = 4”; ora, nisso eu não “creio”: disso eu “sei”.

O ceticismo moderno, portanto, não nega a crença e a fé, antes as pressupõe.

Mas há um porém: o ceticismo (do grego: skepsis) é questionamento, e o questionamento, por sua vez, é uma avaliação das ideias e dos dados empíricos levada a cabo pelo pensamento. Ora, o pensamento – e aqui me refiro ao pensamento dito “conceitual” – tem as suas leis, de modo que, ao contrário das crenças religiosas, as crenças dos céticos não são arbitrárias, baseadas unicamente na fé, mas fundamentadas naquilo que os possibilita questionar: as regras do cogito, isto é, as categorias e os princípios da lógica e da matemática. Essas categorias e princípios são intersubjetivos, comuns a todos os sujeitos pensantes. Pois, se não fosse assim, não haveria possibilidade de diálogo, de entendimento e de consenso entre os homens.

Isso não significa que as leis que regem o pensamento coerente (as leis da inferência, objeto da Lógica) sejam indubitáveis. Decerto que não o são e que nem mesmo a matemática está acima de qualquer suspeita, uma vez que de seus axiomas pode-se chegar não apenas a verdades, mas também a paradoxos. Questionar a racionalidade do pensamento é preciso, e foi por ter sido questionada que ela (a racionalidade, a razão) se desenvolveu, superou muitos dos seus paradoxos, tornou-se mais metódica, o que conferiu ao pensamento maior grau de autonomia em relação às demais faculdades psíquicas: o sentimento e a vontade.

Ora, o que se disse acima sobre o ceticismo do nosso tempo coincide, em larga medida, com as considerações de Alfred North Whitehead (matemático e filósofo) acerca do que ele denomina “Razão especulativa”, que criou a “Razão metódica”, mas que, no entanto, a questiona constantemente.

“A Razão especulativa é, em sua essência, alheia aos métodos. Sua função é desvendar as razões gerais, que se situam acima das razões restritas, compreender todos os métodos como coordenados numa natureza de coisas que só é compreensível transcendendo-se a todos os métodos. Esse ideal infinito nunca será atingido pela limitada inteligência humana. Entretanto, o que distingue o homem dos animais, e alguns homens de outros, é a presença, em sua natureza, ainda que de uma forma hesitante e vaga, de um elemento perturbador, que é a busca do inatingível. Esse elemento é aquele toque de infinito que impulsionou os povos para a frente, muitas vezes ao encontro de sua própria destruição. É um tropismo pelo facho de luz que acena ao longe — pelo sol que viaja em direção à finalidade última das coisas, e pelo sol que ressurge sempre de sua origem. A Razão especulativa se volta para leste e para oeste, para o começo e para o fim, como que espreitando para além das fronteiras do mundo”.[4]

Mesmo sendo a racionalidade do pensamento questionável em alguma medida, de outra coisa não dispomos para produzir conhecimentos acerca da natureza e de nós mesmos. Aliás, como declarou Freud, “Existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos” (S. Freud; “Além do Princípio do Prazer”, 1920).

Ademais, como esse conhecimento é a nossa principal arma de sobrevivência, e por ter-se demonstrado um instrumento tão eficaz de controle sobre as forças naturais, então o melhor é nos apoiarmos firmemente no pensamento lógico e no método científico, admitindo, porém, que seus postulados e axiomas também encerram uma margem de incerteza (uma margem pequena, diga-se de passagem).

Consequências práticas do ceticismo filosófico

Não é fácil conviver com a dúvida. Se tenho dúvidas, sou obrigado a escolher, a exercitar a minha liberdade, a me responsabilizar pela escolha feita e pelos meus atos, a admitir que “posso estar errado”. A dúvida é a sombra da liberdade e tem por corolário a angústia e a responsabilidade moral.

Penso que a certeza, “a crença na precisão absoluta da minha crença”, é o mais velho antídoto contra a ansiedade que sempre acompanha o ato da escolha. Pois, se não tenho dúvidas acerca do caminho a trilhar, não estou escolhendo, não estou a agir livremente, mas tão-somente obedecendo a um imperativo, que pode ser a palavra de Deus, o Destino ou mesmo a Razão. A certeza absoluta tranquiliza a consciência, nos faz agir sem remorsos e sem ela os genocidas em nome de Deus ou da Razão não dormiriam em paz.

É porque temem a liberdade, é por não quererem assumir responsabilidade moral que os homens costumam se deixar levar por certezas. Se um dia descobrem que o que motivou a sua ação era um erro, amaldiçoam Deus, o Destino ou a Razão, lamentam o fato de terem sido “enganados” (colocam-se sempre numa situação passiva) e, tranquilos, permanecem com suas outras certezas.

Ao contrário do que muitos pensam, o cético não é um frívolo diletante que tem por hobby questionar tudo e que faz da filosofia uma disputa entre egos, um joguinho de salão. Ao contrário, há mesmo um propósito moral no ceticismo filosófico. Pois, ao fazer da incerteza um dos princípios do pensamento humano, o que o filósofo cético também pretende é destruir esse escudo da covardia, essa negação da liberdade, essa arma da intolerância, isso que é a categoria central de todos os sistemas filosóficos fechados imunes à discussão e ao questionamento e que apenas servem de ideologia para os inimigos da sociedade aberta: o mito da certeza absoluta.

Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”, tivemos sucesso em nossa empreitada. Sim, ao menos nofront filosófico, destruímos o encouraçado do dogmatismo. Deste só restam destroços e alguns náufragos que, para não se afogarem, fazem das tautologias — como, por exemplo, “o existente existe” — e do cogito cartesiano sua tábua de salvação.

Claro, existem muitos “não-céticos” que estão absolutamente certos das virtudes da sociedade aberta. Estes costumam criticar o cético pelo fato de ele não saber com certeza se assassinar uma criança indefesa é moralmente justificável ou não, ou porque “diz não saber com certeza que uma ditadura sanguinolenta é defensável ou não” Não percebem esses “dogmáticos de boa vontade” que o que ameaça a sociedade aberta não é a incerteza quanto à verdade dos seus princípios, mas a certeza compartilhada por muitos, inclusive por supostos paladinos da democracia (Nixon, Kissinger, Sharon, Bush…) de que assassinar crianças é muitas vezes moralmente justificável: essa mesma certeza ou convicção inabalável tão característica dos que se arvoram os guardiões da Razão, do Pensamento Correto ou da Verdade e que, por isso, não estão muito dispostos a perder tempo com discussão, com a busca do consenso mediante o diálogo e outras “masturbações” democráticas, motivo pelo qual chegam mesmo a defender ditaduras sanguinolentas sempre que lhes convém. Como, por exemplo, o “racionalista” e “libertário” de direita Milton Friedman, que certa vez teceu elogios rasgados a Pinochet e justificou sua tirania.

É investindo contra o mito da certeza absoluta ou reduzindo-a ao ponto de jamais se transformar em instrumento de dominação política que se garante “quase certamente” a sociedade aberta.

Ao admitir que nem eu nem você detemos o monopólio do conhecimento certo e indubitável, não estou senão aceitando como razoável a atitude de considerar seus contra-argumentos e, por extensão, de reputar como legítimas todas as opiniões diferentes. Essa incerteza, que está na margem tanto da minha quanto da sua crença, é o que torna nossos pontos de vista iguais, malgrado as dessemelhanças. Também é a incerteza a justificação racional da minha e da sua liberdade de questionar, concordar, discordar. Ora, a aceitação do outro (do diferente, da opinião das minorias), a igualdade entre os interlocutores e a liberdadede questionar são tanto os princípios da razão quanto da democracia.
E nem é preciso ter certeza da verdade desses preceitos para defendê-los firmemente, pois o que os sustenta e o que lhes dá firmeza não é outra coisa que a incerteza intrínseca do conhecimento: o princípio fundamental de que tudo é incerto, inclusive esta afirmação.

Manuel Bulcão
Fevereiro/2002


[1] Chamado “acadêmico” porque surgiu na Academia de Platão no século III a.C.
[2] O seguinte texto do físico Richard P. Feynman, extraído o livro “O Significado de Tudo” (Portugal, Editora Gradiva), ilustra bem a simbiose entre o ceticismo filosófico moderno e as ciências empíricas: “Se não fôssemos capazes ou não desejássemos olhar em novas direções, se não tivéssemos dúvidas e não soubéssemos reconhecer a nossa ignorância, nunca chegaríamos a ter idéias novas. Não haveria nada para verificar, pois já conheceríamos a verdade. Aquilo a que hoje chamamos conhecimento científico é, pois, um corpo de afirmações com diversos graus de certeza. Algumas são muito incertas, outras são quase certas, mas nenhuma é absolutamente certa. Os cientistas estão habituados a isso. Sabemos que é consistente conseguir viver sem saber toda a verdade. Algumas pessoas perguntam: «Como é que conseguem viver sem saber?» Não percebo o que querem dizer com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que quero saber é como é possível saber”.
[3] André Comte-Sponville, filósofo cético-racionalista francês, defende que nem as evidências “ululantes” são inquestionáveis, uma vez que consistem em estados d’alma, e os estados d’alma são “alteráveis” por modificações neuroquímicas, deliberadas ou não.
[4] WHITEHEAD, A. N. A Função da Razão. Brasília: Editora UNB, 1988; p.31.


[i] Este ensaio foi extraído do livro “As esquisitices do óbvio”, de Manuel Soares Bulcão Neto (Fortaleza: APEX, 2005, 292 páginas).
12 Comentários

Luis Filipe
Por que a filosofia tradicional e as novas abordagens ditas “pós-modernas” sempre aparecem, em textos ditos filosóficos, em lados opostos?

Edmilso Ramalho
Me fez lembrar de Sócrates. Uma pergunta deve sempre ser respondida com outra pergunta. Sabedoria é a certeza da dúvida.

gabriel sDm
Magnífico. Meu pensamento em texto, achei hoje aqui. A dúvida e a incerteza é uma dádiva, a base da minha liberdade. (E nem por um momento tenho certeza irrefutável disso.)

JC
Gostei do texto… apesar de que, na prática, o que encontrei em geral foram artigos do ceticismo negador. Basicamente, continua-se com uma falácia qualquer.
Ceticismo é ceticismo e ponto final! Ceticismo não é ciência… É apenas mais uma Religião de seguidores fervorosos em suas crenças! Crenças de negar qualquer experiência pessoal! Negar sentimentos! Negar o coração! Negar a necessidade da busca pessoal!

Ceticismo é NEGAÇÃO sim! Eu também sou cético em relação a algumas coisas, mas só pude comprová-las através de uma experimentação pessoal. Um grande amigo meu dizia… Não acredite em NADA… que você NÃO tenha experimentado! Amigos céticos, experimentem Deus, antes de dizer que ele não existe! Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química! Experimentem tudo o que for possível experimentar, e depois façam seus relatos de forma muito honesta… Aí sim saberemos qual é o verdadeiro ceticismo que tenha algum valor científico!

ty
O cara aí de cima não entendeu o texto do Manuel :(

JC
“Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”,…….destruímos o encouraçado do dogmatismo…”

O Ceticismo também é um Dogma. Também é limitador, é fechado.
Não admite experiência pessoal, não admite o incognoscível… Não admite uma série de coisas que as pessoas em geral admitem, mesmo não aceitando… e também não é muito capaz de comprovar nada… O que mais encontrei neste site foram caçadores de fraudes… Isso é importante claro… Mas não tenho encontrado nenhuma base cética muito concreta neste site…

Dizer que não existe ou não funciona até eu digo… Quando são fraudes genuínas, qualquer um pode mostrar o inverossímil, os peritos e investigadores são especialistas neste assunto… Mas… e quando o assunto questionado não é uma fraude??? Qual é o método usado para buscar a Verdade???

sdm
Mas é aí q tá!: buscar a verdade, muitas vezes, é cair num grande mau entendido. O lance é sempre duvidar, ñ sempre negar ou concordar, e sim, perceber q tudo é motivo de questionar e de concientizar, q nós humanos ñ somos detentores de verdade alguma, E ESSE É NOSSO MAIOR LEGADO, NOSSA “DÁDIVA”.(E nem por um momento ter certeza irrefutável disso.)

Cap. Winters
“Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química!”
Mas isso quer dizer o que? Se o amor for apenas uma reação química, isso tira a beleza dele? O arco iris é apenas uma ilusão de ótica, mas podemos admira-lo pelo que ele realmente é, ou podemos fantasiar sobre ele, fica a critério, prefiro o mais lógico.

Theodoro
Vou dar bola para toda subjetividade dos relatos de milhares de crentes,de crenças diferentesem lugares indistintos.
Depois vou experimentar cada uma das 1025478 possibilidades de crença. Só para depois me dar conta que perdi um tempo danado com lixo.
Não consigo entender crente acéfalo que mal sabe escrever e entraemsite cético para falar tanta asneira e proselitismo.

Wilson Ramiro

Jamais encontrei um cético verdadeiro, os que diziam ser em um primeiro momento negavamem em seguida para manterem-se “coerentes”, e para ser coerente é necessário acreditar, então não podem ser coerentes.

Toda nossa vida é repleta de decisões, das mais simples a algumas complexas, ler este texto já é uma decisão que voce , seja lá quem seja tomou. Decidir é além de eleger uma opção, é também destruir, eliminar e taxar como falsas(menos verdadeiras) outras opções. Você pode decidir se alimentar e ser contra morrer de fome, ou não, pode decidir respirar ou pode enfiar um saco plástico na cabeça e morrer por asfixia.

A vida real precisa de decisões que promova a melhor opção (VERDADE) no momento.
Filosofia titubeante, que não acredita que a verdade possa existir de forma concreta serve apenas para joguinhos de salão, ou discussões inuteis de internet.(também não estou fazendo nada agora, e isto é uma verdade).

Wilson Ramiro
De Novo
Não quero ser grosseiro ou mau educado. (minha verdade agora) Cético não deve ouvir comentários de crentes.(afirmação) Eu sei o que “ceticismo moderno” não é. (verdade)

Usando o racionalismo no ceticismo moderno consigo de forma mais eficaz ter certeza de que não tenho certeza, e isto me garante que estou com certeza no melhor caminho!

(*) Sou.

domingo, 15 de janeiro de 2012

QUANDO O AMOR É DE GRAÇA IX: FECHE OS OLHOS E PULE! (CRÔNICA DE RAYMUNDO NETTO PARA O JORNAL “O POVO”)

Aqui jaz "uma"alvorada, bela e efêmera.


Raymundo Netto


Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir prá não chorar”*

Então, pus o Cartola na cabeça e toquei a mesma estrada daqueles que não voltaram para contar história. E, um dia, acreditei, por perceber-me tão soltamente de um jeito: “Nada mais tenho a perder!” Coisa de assusto e libertação. Passei a pegar ônibus mais lento, do motorista duvidar se há-inda passageiro; de não olhar relógio; de não saber como nem quando voltar; de não me perguntarem se vou ou se volto e de não me esperarem para nada e por nada esperar.

“Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver...”

Da amiga saltou o pensamento: “Raymundo, você é a única pessoa que conheço a dizer não ter nada com tanta alegria...” Verdade. Geralmente, as pessoas se pabulam de seus “teres”, desperdiçam as poucas horas de convivência falando de um seu apartamento, celular novo, aparelho de som, investimentos ou do brilho do plástico a cobrir os bancos cheirosos do automóvel financiado em prestações a perder de vista. Pois sim, nada tenho a não ser o que sou e, acreditem, acho até muita coisa. Por outro lado, tenho tudo que um verdadeiro rico tem: sei gastar e gasto sem ter pena, adoro presentear, tenho gosto, não olho extrato, não sei quanto ganho, nem o que devo... Enfim, só me falta dinheiro. No mais, asseguro: tenho tudo que um rico precisa.

Dentre as minhas neuroses, uma atrapalha: a de achar a vida pequena, curta demais. Daí, construí minha vida desconstruindo-a numa verdadeira colcha de retalhos, pedaço daqui, pedaço dali, vida múltipla, experiência vária, mundo diverso. Abandonava, tempos em tempos, a ora vida num canto e apropriava-me de pulso da outra. Um EU a saltar no escuro na espera do baque final de nunca chegar, duvidando e acreditando em tudo, de rir para a vida, de sofrer tanto e tanto e mesmo assim não parar, simplesmente, porque o tempo nunca me confiou de seu perdão.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar depois que me encontrar...”

O certo é que muito aprendo todos os dias andando por outras calçadas, colhendo palavras alheias, encantado por olhos a contar de sentimentos singelos, doando meus braços a cuidar da dor emprestada, ouvindo o que o vento traz na voz de folhas das poucas e roucas árvores benfiqueanas, apostando em encontros inesperados, curando da respiração o que a saudade insiste em revelar. Coloco a mochila velha nas costas, aparo com as pálpebras o sopro da tarde no rosto. Penso se vale a pena o único pensamento num futuro, este, em recesso, apenas presente no sorriso de duas crianças de queridos abraços umbilicais. Hoje, mesmo quando a tristeza chega pelo descuido de uma veneziana no peito, a guardo num porta-níquel junto com uma fita amarela, o passaporte em branco e uma lágrima que já não chorei. Hoje, quero mais é sentir o calor do instante e caminhar à sombra do verso que nunca escrevi.

(*) “Preciso me Encontrar”, de Cartola (para ouvir a música, clique no linque):
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Raymundo Netto, cronista do jornal O Povo, é autor do romance Um conto no passado: cadeiras na calçada. Seu livro de contos, Os Acangapebas, encontra-se no prelo.
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