| Michel de Montaigne (1533 - 1592) _________________________
Consequências Práticas do
Ceticismo Filosófico
(Texto antigo)
Manuel Soares Bulcão Neto (*)
O que o ceticismo moderno não é
O
ceticismo filosófico moderno não é um dogmatismo negativo, como o foi o
“ceticismo acadêmico” [1] de
Arcesilau e Carnéades por ter sustentado que a verdade é incognoscível (essa
afirmação é verdadeira? Se é, então como a conhecemos?). Também não se trata de
niilismo: atitude de desespero expressada numa “descrença generalizada”. Ora,
(des)crença é crença às avessas. No caso do niilismo, crença na verdade de que todas as crenças são falsas, o que é um nonsense.
O
ceticismo filosófico moderno, que surgiu e se desenvolveu pari passu com
as ciências empíricas[2], também não se confunde com a
corrente do pensamento conhecida como “relativismo”. Este – o relativismo,
mormente sua versão mais radical, o “pós-modernismo” – nega a existência de uma
verdade objetiva e da universalidade de qualquer valor (o que o torna não o
fundamento ideológico da tolerância, mas a justificação da permissividade e de
qualquer conduta “aquém” do bem e do mal). De modo diverso, o ceticismo
moderno, “paracientífico”, apenas nega a “certeza absoluta”, a pretensão de que
se pode atingir um conhecimento abrangente “indubitável”.
Vale
dizer: tirante as verdades tautológicas (caso da verdade matemática), o cogito
cartesiano e algumas correspondenciazinhas biunívocas banais entre ideia e
realidade (p.ex., “o cientista Richard Dawkins tem uma cabeça”), o fato é que,
a princípio, “tudo é incerto” (Montaigne), e que, “se tudo é incerto, também
não é certo que tudo é incerto” (Pascal). Em síntese, o ceticismo hodierno parte
do princípio autorreferente de que “tudo é duvidoso, inclusive esta afirmação”
(André Comte-Sponville).
Esse novo
ceticismo, portanto, é coerente, uma vez que inclui a si mesmo em seu próprio
questionamento — consistência esta que o obriga a conferir à posição contrária
(isto é, aos dogmatismos) o benefício da dúvida.
Crer é
sustentar a verdade de um enunciado não-evidente, mas admitindo, ao mesmo tempo
– caso o crente seja “honesto” –, a possibilidade de estar enganado. Pois,
afinal, o que não é evidente não é certo, mas duvidoso;[3] logo, algo de que não se sabe,
mas em que se crê ou (des)crê. O mesmo não se pode dizer de algumas verdades
matemáticas simples, que não são objetos de crença, artigos de fé, mas puro
saber. Com efeito, não faz sentido dizer “creio que 2 + 2 = 4”; ora, nisso eu
não “creio”: disso eu “sei”.
O
ceticismo moderno, portanto, não nega a crença e a fé, antes as pressupõe.
Mas há um
porém: o ceticismo (do grego: skepsis) é questionamento, e o
questionamento, por sua vez, é uma avaliação das ideias e dos dados empíricos
levada a cabo pelo pensamento. Ora, o pensamento – e aqui me refiro ao
pensamento dito “conceitual” – tem as suas leis, de modo que, ao contrário das
crenças religiosas, as crenças dos céticos não são arbitrárias, baseadas
unicamente na fé, mas fundamentadas naquilo que os possibilita
questionar: as regras do cogito, isto é, as categorias e os
princípios da lógica e da matemática. Essas categorias e princípios são
intersubjetivos, comuns a todos os sujeitos pensantes. Pois, se não fosse
assim, não haveria possibilidade de diálogo, de entendimento e de consenso
entre os homens.
Isso não
significa que as leis que regem o pensamento coerente (as leis da inferência,
objeto da Lógica) sejam indubitáveis. Decerto que não o são e que nem mesmo a
matemática está acima de qualquer suspeita, uma vez que de seus axiomas pode-se
chegar não apenas a verdades, mas também a paradoxos. Questionar a
racionalidade do pensamento é preciso, e foi por ter sido questionada que ela
(a racionalidade, a razão) se desenvolveu, superou muitos dos seus paradoxos,
tornou-se mais metódica, o que conferiu ao pensamento maior grau de autonomia
em relação às demais faculdades psíquicas: o sentimento e a vontade.
Ora, o que
se disse acima sobre o ceticismo do nosso tempo coincide, em larga medida, com
as considerações de Alfred North Whitehead (matemático e filósofo) acerca do
que ele denomina “Razão especulativa”, que criou a “Razão metódica”, mas que,
no entanto, a questiona constantemente.
“A Razão
especulativa é, em sua essência, alheia aos métodos. Sua função é desvendar as
razões gerais, que se situam acima das razões restritas, compreender todos os
métodos como coordenados numa natureza de coisas que só é compreensível
transcendendo-se a todos os métodos. Esse ideal infinito nunca será atingido
pela limitada inteligência humana. Entretanto, o que distingue o homem dos
animais, e alguns homens de outros, é a presença, em sua natureza, ainda que de
uma forma hesitante e vaga, de um elemento perturbador, que é a busca do
inatingível. Esse elemento é aquele toque de infinito que impulsionou os povos
para a frente, muitas vezes ao encontro de sua própria destruição. É um
tropismo pelo facho de luz que acena ao longe — pelo sol que viaja em direção à
finalidade última das coisas, e pelo sol que ressurge sempre de sua origem. A
Razão especulativa se volta para leste e para oeste, para o começo e para o
fim, como que espreitando para além das fronteiras do mundo”.[4]
Mesmo
sendo a racionalidade do pensamento questionável em alguma medida, de outra
coisa não dispomos para produzir conhecimentos acerca da natureza e de nós
mesmos. Aliás, como declarou Freud, “Existem muitas questões a que a ciência
atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única
estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos”
(S. Freud; “Além do Princípio do Prazer”, 1920).
Ademais,
como esse conhecimento é a nossa principal arma de sobrevivência, e por ter-se
demonstrado um instrumento tão eficaz de controle sobre as forças naturais,
então o melhor é nos apoiarmos firmemente no pensamento lógico e no método
científico, admitindo, porém, que seus postulados e axiomas também encerram uma
margem de incerteza (uma margem pequena, diga-se de passagem).
Consequências práticas do ceticismo filosófico
Não é
fácil conviver com a dúvida. Se tenho dúvidas, sou obrigado a escolher, a
exercitar a minha liberdade, a me responsabilizar pela escolha feita e pelos
meus atos, a admitir que “posso estar errado”. A dúvida é a sombra da liberdade
e tem por corolário a angústia e a responsabilidade moral.
Penso que
a certeza, “a crença na precisão absoluta da minha crença”, é o mais velho
antídoto contra a ansiedade que sempre acompanha o ato da escolha. Pois, se não
tenho dúvidas acerca do caminho a trilhar, não estou escolhendo, não estou a
agir livremente, mas tão-somente obedecendo a um imperativo, que pode ser a
palavra de Deus, o Destino ou mesmo a Razão. A certeza absoluta tranquiliza a
consciência, nos faz agir sem remorsos e sem ela os genocidas em nome de Deus
ou da Razão não dormiriam em paz.
É porque
temem a liberdade, é por não quererem assumir responsabilidade moral que os
homens costumam se deixar levar por certezas. Se um dia descobrem que o que
motivou a sua ação era um erro, amaldiçoam Deus, o Destino ou a Razão, lamentam
o fato de terem sido “enganados” (colocam-se sempre numa situação passiva) e,
tranquilos, permanecem com suas outras certezas.
Ao
contrário do que muitos pensam, o cético não é um frívolo diletante que tem por hobby questionar
tudo e que faz da filosofia uma disputa entre egos, um joguinho de salão. Ao
contrário, há mesmo um propósito moral no ceticismo filosófico. Pois, ao fazer
da incerteza um dos princípios do pensamento humano, o que o filósofo cético
também pretende é destruir esse escudo da covardia, essa negação da liberdade,
essa arma da intolerância, isso que é a categoria central de todos os sistemas
filosóficos fechados imunes à discussão e ao questionamento e que apenas servem
de ideologia para os inimigos da sociedade aberta: o mito da certeza absoluta.
Penso que
nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”, tivemos sucesso em nossa empreitada.
Sim, ao menos nofront filosófico, destruímos o encouraçado do
dogmatismo. Deste só restam destroços e alguns náufragos que, para não se
afogarem, fazem das tautologias — como, por exemplo, “o existente existe” — e
do cogito cartesiano sua tábua de salvação.
Claro,
existem muitos “não-céticos” que estão absolutamente certos das virtudes da
sociedade aberta. Estes costumam criticar o cético pelo fato de ele não saber
com certeza se assassinar uma criança indefesa é moralmente justificável ou
não, ou porque “diz não saber com certeza que uma ditadura sanguinolenta é
defensável ou não” Não percebem esses “dogmáticos de boa vontade” que o que
ameaça a sociedade aberta não é a incerteza quanto à verdade dos seus
princípios, mas a certeza compartilhada por muitos, inclusive por supostos
paladinos da democracia (Nixon, Kissinger, Sharon, Bush…) de que assassinar
crianças é muitas vezes moralmente justificável: essa mesma certeza ou
convicção inabalável tão característica dos que se arvoram os guardiões da
Razão, do Pensamento Correto ou da Verdade e que, por isso, não estão muito
dispostos a perder tempo com discussão, com a busca do consenso mediante o
diálogo e outras “masturbações” democráticas, motivo pelo qual chegam mesmo a
defender ditaduras sanguinolentas sempre que lhes convém. Como, por exemplo, o
“racionalista” e “libertário” de direita Milton Friedman, que certa vez teceu
elogios rasgados a Pinochet e justificou sua tirania.
É
investindo contra o mito da certeza absoluta ou reduzindo-a ao ponto de jamais
se transformar em instrumento de dominação política que se garante “quase
certamente” a sociedade aberta.
Ao admitir
que nem eu nem você detemos o monopólio do conhecimento certo e indubitável,
não estou senão aceitando como razoável a atitude de considerar seus
contra-argumentos e, por extensão, de reputar como legítimas todas as opiniões diferentes.
Essa incerteza, que está na margem tanto da minha quanto da sua crença, é o que
torna nossos pontos de vista iguais, malgrado as dessemelhanças.
Também é a incerteza a justificação racional da minha e da sua liberdade de
questionar, concordar, discordar. Ora, a aceitação do outro (do
diferente, da opinião das minorias), a igualdade entre
os interlocutores e a liberdadede questionar são tanto os
princípios da razão quanto da democracia.
E nem é
preciso ter certeza da verdade desses preceitos para defendê-los firmemente,
pois o que os sustenta e o que lhes dá firmeza não é outra coisa que a
incerteza intrínseca do conhecimento: o princípio fundamental de que tudo é incerto, inclusive esta afirmação.
Manuel
Bulcão
Fevereiro/2002
[2] O seguinte texto do físico
Richard P. Feynman, extraído o livro “O Significado de Tudo” (Portugal, Editora
Gradiva), ilustra bem a simbiose entre o ceticismo filosófico moderno e as
ciências empíricas: “Se não fôssemos capazes ou não desejássemos olhar em novas
direções, se não tivéssemos dúvidas e não soubéssemos reconhecer a nossa
ignorância, nunca chegaríamos a ter idéias novas. Não haveria nada para
verificar, pois já conheceríamos a verdade. Aquilo a que hoje chamamos
conhecimento científico é, pois, um corpo de afirmações com diversos graus de
certeza. Algumas são muito incertas, outras são quase certas, mas
nenhuma é absolutamente certa. Os cientistas estão habituados a isso.
Sabemos que é consistente conseguir viver sem saber toda a verdade. Algumas
pessoas perguntam: «Como é que conseguem viver sem saber?» Não
percebo o que querem dizer com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que
quero saber é como é possível saber”.
[3] André Comte-Sponville,
filósofo cético-racionalista francês, defende que nem as evidências “ululantes”
são inquestionáveis, uma vez que consistem em estados d’alma, e os estados
d’alma são “alteráveis” por modificações neuroquímicas, deliberadas ou não.
[i] Este ensaio foi extraído do livro “As
esquisitices do óbvio”, de Manuel Soares Bulcão Neto (Fortaleza: APEX, 2005,
292 páginas).
12
Comentários
Luis
Filipe
Por que a
filosofia tradicional e as novas abordagens ditas “pós-modernas” sempre aparecem,
em textos ditos filosóficos, em lados opostos?
Edmilso
Ramalho
Me fez
lembrar de Sócrates. Uma pergunta deve sempre ser respondida com outra
pergunta. Sabedoria é a certeza da dúvida.
gabriel
sDm
Magnífico.
Meu pensamento em texto, achei hoje aqui. A dúvida e a incerteza é uma dádiva,
a base da minha liberdade. (E nem por um momento tenho certeza irrefutável
disso.)
JC
Gostei do
texto… apesar de que, na prática, o que encontrei em geral foram artigos do
ceticismo negador. Basicamente, continua-se com uma falácia qualquer.
Ceticismo é ceticismo e ponto final! Ceticismo não é ciência… É apenas mais uma Religião de seguidores fervorosos em suas crenças! Crenças de negar qualquer experiência pessoal! Negar sentimentos! Negar o coração! Negar a necessidade da busca pessoal! Ceticismo é NEGAÇÃO sim! Eu também sou cético em relação a algumas coisas, mas só pude comprová-las através de uma experimentação pessoal. Um grande amigo meu dizia… Não acredite em NADA… que você NÃO tenha experimentado! Amigos céticos, experimentem Deus, antes de dizer que ele não existe! Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química! Experimentem tudo o que for possível experimentar, e depois façam seus relatos de forma muito honesta… Aí sim saberemos qual é o verdadeiro ceticismo que tenha algum valor científico!
ty
O cara aí
de cima não entendeu o texto do Manuel :(
JC
“Penso que
nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”,…….destruímos o encouraçado do
dogmatismo…”
O
Ceticismo também é um Dogma. Também é limitador, é fechado.
Não admite experiência pessoal, não admite o incognoscível… Não admite uma série de coisas que as pessoas em geral admitem, mesmo não aceitando… e também não é muito capaz de comprovar nada… O que mais encontrei neste site foram caçadores de fraudes… Isso é importante claro… Mas não tenho encontrado nenhuma base cética muito concreta neste site… Dizer que não existe ou não funciona até eu digo… Quando são fraudes genuínas, qualquer um pode mostrar o inverossímil, os peritos e investigadores são especialistas neste assunto… Mas… e quando o assunto questionado não é uma fraude??? Qual é o método usado para buscar a Verdade???
sdm
Mas é aí q
tá!: buscar a verdade, muitas vezes, é cair num grande mau entendido. O lance é
sempre duvidar, ñ sempre negar ou concordar, e sim, perceber q tudo é motivo de
questionar e de concientizar, q nós humanos ñ somos detentores de verdade
alguma, E ESSE É NOSSO MAIOR LEGADO, NOSSA “DÁDIVA”.(E nem por um momento ter
certeza irrefutável disso.)
Cap.
Winters
“Experimentem
o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química!”
Mas isso
quer dizer o que? Se o amor for apenas uma reação química, isso tira a beleza
dele? O arco iris é apenas uma ilusão de ótica, mas podemos admira-lo pelo que
ele realmente é, ou podemos fantasiar sobre ele, fica a critério, prefiro o
mais lógico.
Theodoro
Vou dar
bola para toda subjetividade dos relatos de milhares de crentes,de crenças
diferentesem lugares indistintos.
Depois vou
experimentar cada uma das 1025478 possibilidades de crença. Só para depois me
dar conta que perdi um tempo danado com lixo.
Não
consigo entender crente acéfalo que mal sabe escrever e entraemsite cético para
falar tanta asneira e proselitismo.
Wilson
Ramiro
Jamais
encontrei um cético verdadeiro, os que diziam ser em um primeiro momento
negavamem em seguida para manterem-se “coerentes”, e para ser coerente é necessário
acreditar, então não podem ser coerentes.
Toda nossa vida é repleta de decisões, das mais simples a algumas complexas, ler este texto já é uma decisão que voce , seja lá quem seja tomou. Decidir é além de eleger uma opção, é também destruir, eliminar e taxar como falsas(menos verdadeiras) outras opções. Você pode decidir se alimentar e ser contra morrer de fome, ou não, pode decidir respirar ou pode enfiar um saco plástico na cabeça e morrer por asfixia. A vida real precisa de decisões que promova a melhor opção (VERDADE) no momento. Filosofia titubeante, que não acredita que a verdade possa existir de forma concreta serve apenas para joguinhos de salão, ou discussões inuteis de internet.(também não estou fazendo nada agora, e isto é uma verdade).
Wilson
Ramiro
De Novo
Não quero
ser grosseiro ou mau educado. (minha verdade agora) Cético não deve ouvir comentários
de crentes.(afirmação) Eu sei o que “ceticismo moderno” não é. (verdade)
Usando o
racionalismo no ceticismo moderno consigo de forma mais eficaz ter certeza de que
não tenho certeza, e isto me garante que estou com certeza no melhor caminho!
(*) Sou.
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domingo, 22 de janeiro de 2012
CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS DO CETICISMO FILOSÓFICOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)
domingo, 15 de janeiro de 2012
QUANDO O AMOR É DE GRAÇA IX: FECHE OS OLHOS E PULE! (CRÔNICA DE RAYMUNDO NETTO PARA O JORNAL “O POVO”)
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| Aqui jaz "uma"alvorada, bela e efêmera. |
Raymundo
Netto
“Deixe-me
ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir prá não chorar”*
Então, pus o Cartola
na cabeça e toquei a mesma estrada daqueles que não voltaram para contar
história. E, um dia, acreditei, por perceber-me tão soltamente de um jeito:
“Nada mais tenho a perder!” Coisa de assusto e libertação. Passei a pegar
ônibus mais lento, do motorista duvidar se há-inda passageiro; de não olhar
relógio; de não saber como nem quando voltar; de não me perguntarem se vou ou
se volto e de não me esperarem para nada e por nada esperar.
“Quero assistir ao
sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero
nascer, quero viver...”
Da amiga saltou o
pensamento: “Raymundo, você é a única pessoa que conheço a dizer não ter nada
com tanta alegria...” Verdade. Geralmente, as pessoas se pabulam de seus
“teres”, desperdiçam as poucas horas de convivência falando de um seu
apartamento, celular novo, aparelho de som, investimentos ou do brilho do
plástico a cobrir os bancos cheirosos do automóvel financiado em prestações a
perder de vista. Pois sim, nada tenho a não ser o que sou e, acreditem, acho
até muita coisa. Por outro lado, tenho tudo que um verdadeiro rico tem: sei
gastar e gasto sem ter pena, adoro presentear, tenho gosto, não olho extrato,
não sei quanto ganho, nem o que devo... Enfim, só me falta dinheiro. No mais,
asseguro: tenho tudo que um rico precisa.
Dentre as minhas
neuroses, uma atrapalha: a de achar a vida pequena, curta demais. Daí, construí
minha vida desconstruindo-a numa verdadeira colcha de retalhos, pedaço daqui,
pedaço dali, vida múltipla, experiência vária, mundo diverso. Abandonava,
tempos em tempos, a ora vida num canto e apropriava-me de pulso da outra. Um EU
a saltar no escuro na espera do baque final de nunca chegar, duvidando e
acreditando em tudo, de rir para a vida, de sofrer tanto e tanto e mesmo assim
não parar, simplesmente, porque o tempo nunca me confiou de seu perdão.
“Se alguém por mim
perguntar, diga que eu só vou voltar depois que me encontrar...”
O certo é que muito
aprendo todos os dias andando por outras calçadas, colhendo palavras alheias,
encantado por olhos a contar de sentimentos singelos, doando meus braços a
cuidar da dor emprestada, ouvindo o que o vento traz na voz de folhas das
poucas e roucas árvores benfiqueanas, apostando em encontros inesperados,
curando da respiração o que a saudade insiste em revelar. Coloco a mochila
velha nas costas, aparo com as pálpebras o sopro da tarde no rosto. Penso se
vale a pena o único pensamento num futuro, este, em recesso, apenas presente no
sorriso de duas crianças de queridos abraços umbilicais. Hoje, mesmo quando a
tristeza chega pelo descuido de uma veneziana no peito, a guardo num
porta-níquel junto com uma fita amarela, o passaporte em branco e uma lágrima
que já não chorei. Hoje, quero mais é sentir o calor do instante e caminhar à
sombra do verso que nunca escrevi.
(*) “Preciso me
Encontrar”, de Cartola (para ouvir a música, clique no linque):
.
Raymundo Netto,
cronista do jornal O Povo, é autor do
romance Um conto no passado: cadeiras na
calçada. Seu livro de contos, Os
Acangapebas, encontra-se no prelo.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
SINTOMA E SINTHOMA: DUAS VERTENTES NA ARTE DE JAMES JOYCE (MARIA DO SOCORRO MONTEZUMA BULCÃO)
![]() |
| Jacques Lacan (1901-1981) |
“O psiquismo humano é equipado de
uma álgebra semântica (expressão cunhada
pelo antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss). Alguns indivíduos, porém,
ao longo do seu desenvolvimento neuropsicológico, deparam-se com obstáculos que
impossibilitam, de maneira absoluta, a formação de determinado significante
(conforme Lacan, o nome-do-pai),
fundamental na estrutura da referida álgebra e cuja falta é a porta aberta da psicose. Ocorre que o Eu consciente/pré-consciente, diante desse “furo”, não queda
impotente, ao contrário: mediante o processo criativo – que não é senão
atividade produtora de objetos “significativos” – busca algo que funcione como substituto desse significante
“foracluído” (isto é, “não incluso” – sequer na condição de recalcado ou
reprimido – no aparelho neuropsíquico). — Entendo que o sinthome seria esse substituto.” (Manuel Soares Bulcão Neto)
Sintoma
e sinthoma: duas vertentes na arte de James Joyce
Maria
do Socorro Montezuma Bulcão (*)
RESUMO:
Um recorte do Seminário 23, destacando duas vertentes da escrita de James
Joyce, exemplo tomado por Lacan para
buscar responder, no ano daquele seminário, à questão relativa ao efeito da
arte sobre o sintoma. No caso de Joyce, sua escrita/artifício constituiu-se num
sinthoma na medida em que, fazendo suplência à falta de inscrição do
Nome-do-Pai, lhe garantiu manter juntos os registros do real, simbólico e
imaginário do seu nó, com aparência de enodamento borromeu.
Palavras–chave:
Pai, Nome-do-Pai, sintoma, sinthoma, escrita/escritura, suplência, nó borromeu.
“Velho
pai,velhoartífice,valha-meagora e sempre.”1
Ao
iniciar a primeira aula d’O Seminário 23
– O sinthoma, Lacan menciona que,
segundo afirmação de Philippe Sollers, Joyce teria escrito em inglês, “de tal
maneira que a língua inglesa não existe mais”.2 E prossegue dizendo que, embora
não sendo fácil escrever em inglês, mas devido à pouca consistência dessa
língua, Joyce, pela sucessão de obras que escreveu, acrescentara à língua
inglesa algo que o fazia afirmar que precisava escrever – l’élangues. Note-se aí a aglutinação de palavras:
L’(ELAN)GUES =
LE + ELAN + LANGUES.
Vale
aqui destacar inicialmente algumas definições do termo elã em nosso idioma:
movimento súbito, espontâneo; sentimento ardente, entusiasmo criador, arrojo,
ímpeto, rasgo, inspiração3.
Partindo
de tais conceitos, pode-se pensar que diante dessa aglutinação de palavras
– L’(ELAN)GUES – a afirmação de Lacan é no sentido de que Joyce tinha o ímpeto
de escrever e o fazia por necessidade.
É
ainda Lacan que afirma:
“Suponho que, assim,
ele procura designar alguma coisa como essa elação que, dizem-nos, está no
princípio de não sei qual sinthoma que, em psiquiatria, chamamos mania”.4
Seria
isso dizer que o sinthoma de Joyce era determinado por uma necessidade maníaca?
E o que existia de natureza tão determinante por trás desse elã, a desencadear
uma escrita cujo caráter era o de império, de mister? A relação
sintoma/sinthoma parece indicar algum esclarecimento sobre essas questões.
Lacan
afirma que o sintoma e o sinthoma são “duas vertentes que se ofereciam à arte
de James Joyce”5. Mais adiante vai dizer que (...) o pai é um sintoma, ou um
santo varón (saint-homme)6. O pai, este santo varão que ao desempenhar
eficazmente a função paterna, faz surgir daí o sujeito do desejo. Eis a
vertente sintomática que se oferece à obra de James Joyce: o pai, e no caso
dele, melhor seria dizer a falta da inscrição do Nome do Pai. A falência
paterna apresentava-se para Joyce como determinante da sua necessidade de
escrever. Tal necessidade era decorrente de um império ainda maior: o da
inscrição do Nome do Pai. Sobre o sintoma de Joyce afirma Lacan: “Ulisses
testemunha que Joyce permanece enraizado em seu pai, ainda que o renegando. É
efetivamente isso que é seu sintoma.”7
Sabe-se
que em O retrato do artista quando jovem,
Simon Dedalus, pai de Stephen Dedalus, era um sujeito ordinário e decadente, um
pai falido. O personagem Simon Dedalus é, na verdade, inspirado em John Joyce,
pai de James Joyce.
É
esse pai falido na sua função de inscrição do Nome do Pai, que vai determinar,
em James Joyce, a necessidade de inventar algo capaz de fazer suplência à
citada falta, sendo essa criação a sua escrita. Não se trata, entretanto, de
uma escrita qualquer, mas de uma escrita inventiva que progressivamente vai se
afastando da língua comum rumo à outra direção, via pela qual Joyce transita em
direção ao real, na tentativa sempre frustrada de tocar o impossível. Tal forma
de escrita é, portanto, a via eleita por Joyce “por onde tomar a verdade do
sujeito”8, do seu sujeito. Essa escolha faz Lacan reconhecer em Joyce um
herético, mas herético “de uma boa maneira”9 , na medida em que essa escolha,
segundo Lacan, “uma vez feita não impede ninguém de submetê-la à
confirmação”... A boa maneira ... que por ter reconhecido a natureza do sinthoma,
não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu
real, até se fartar.”10
Essa
escrita incomum e inventiva tem, no dizer de Jacques Aubert, “o selo da
Necessidade”... e segundo ele “é uma escritura que ‘se pretende’ deciframento,
que, em outros termos, está à procura ela mesma de uma escritura desaparecida,
uma escritura que visa devolver (a) palavra e (a) vida a uma escritura
fantasmática, mas bem real.11 É nesse sentido que a escrita/escritura de James
Joyce se constitui num sinthoma, a outra vertente da arte de Joyce citada por
Lacan e que tem o condão de fazer suplência a uma falha no nó borromeu,
suplência à falta de inscrição do Nome do Pai e que permite manter unidos os
três registros pelos quais passam toda a experiência de um sujeito: Real, Simbólico e Imaginário.
A
invenção de James Joyce serve de ilustração à pergunta anunciada por Jacques
Lacan no primeiro capítulo do Seminário 23, sua interrogação para aquele ano
sobre a arte: “Em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta
de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim
posso dizer, o que se impõe do sintoma? A saber, a verdade?”12
Não
há dúvida de que para Joyce a escrita, como sinthoma, foi o artifício que o
retirou da condição de pobre-diabo para, na medida de sua singularidade, elevá-lo
à de herói – em Stephen Hero – e de O artista – no Retrato do artista quando jovem. É nesse sentido que, se referindo a Joyce, Lacan
afirma que “foi a sua arte que supriu a sua firmeza fálica” e que (...) “é
nisso que sua arte é o verdadeiro fiador do seu falo.”13
E
de que modo identificar a singularidade dessa escrita? O que lhe dá esse caráter de originalidade, de invenção, de artifício,
enfim, de sinthoma capaz de suster o nó do sujeito Joyce, impedindo o seu
desatamento?
Existe
na escrita de Joyce um processo que tende à desarticulação da língua (inglesa)
que, como afirma Lacan, não começa em Finnegans
wake, e que já estava presente em Ulisses14.
Na proporção em que esse processo de desarticulação da língua inglesa transita
na contramão da significação, ou seja, indo do sentido em direção ao não
sentido, é que se vislumbra a tentativa de Joyce de tocar o real. Vale lembrar
que, segundo Lacan, Joyce, por sua escrita, atingiu o melhor que uma análise
poderia alcançar em seu término.15
Se
a análise é a resposta a um enigma16,
Joyce perseguiu a resposta quanto ao enigma do seu sujeito através da escrita,
via por onde teceu suturas e emendas17,
tal como se faz em análise. Esse artifício é o que comprova a afirmação de
Lacan de que “A arte pode atingir inclusive o sintoma”.18
É
também nesse sentido que a escrita de Joyce se constituiu como um sinthoma,
isto que Lacan veio a definir como “o que permite ao nó de três não só se
manter nó de três, como se conservar em uma posição tal que ele tenha o aspecto
de constituir nó de três.”19
Lacan
afirmou ainda: “Joyce não sabia que ele fazia o sinthoma, quero dizer, que o
simulava. Isso era inconsciente para ele. Por isso, ele é um puro artífice, um
homem de savoir-faire, o que é igualmente chamado de um artista.”20
Partindo-se
dessas referências acerca do que vem a ser o sinthoma, particularmente no caso
de Joyce, é inevitável suscitar a curiosa, polêmica e sedutora questão
levantada por Lacan acerca da suposta loucura de James Joyce, mas sempre valendo
lembrar que foi o próprio Lacan que ao argüir tal hipótese, teve o cuidado de
afirmar que não o analisou. 21
A
afirmação de que Joyce não fazia sinthoma, e sim o simulava, leva ao entendimento de que o nó de Joyce não era
borromeu, e que tinha apenas aparência dessa espécie de nó, o que justifica a
hipótese sustentada por Lacan quanto à loucura de Joyce.
Louco
ou não louco: eis a questão.
Saber
se James Joyce era ou não louco é uma pergunta que sempre fará questão e não
constitui o cerne deste trabalho. Aqui a intenção foi destacar d’O seminário 23 – “O Sinthoma” –, a via
eleita por um determinado sujeito – James Joyce – que, sendo louco ou não,
lançou mão da escrita de uma forma singular e revolucionária para o seu tempo,
e mesmo para o nosso, reescreveu a sua história e alcançou o seu desejo de se
dar um nome que não lhe fora garantido pelo pai.
Se,
conforme ensinamento de Lacan, “o pai é esse quarto elemento sem o qual nada é
possível no nó do simbólico, do imaginário e do real”22; se o pai, para James Joyce,
não lhe garantiu a inscrição do Nome-do-Pai e, consequentemente, um enodamento
genuinamente borromeu; por outro lado, o sinthoma construído por Joyce manteve
junto os registros do simbólico, imaginário e real do seu nó, fazendo suplência
a essa falha e dando ao seu nó a aparência de nó borromeu.
Finalmente,
não se pode olvidar que Lacan também deu ao pai outro nome: sinthoma, quando
afirmou:
“O pai é esse quarto
elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real.
Mas há um outro modo de chamá-lo. É nisso o que diz respeito ao Nome-do-Pai, no
grau em que Joyce testemunha isso, eu o revisto hoje com o que é conveniente
chamar de sinthoma.” 23
Assim,
para James Joyce, onde não foi o Nome-do-Pai, foi o sinthoma:
sinthoma
em Nome-do-Pai.
Notas e Referências Bibliográficas
1
JOYCE, James – Um retrato do artista
quando jovem – p. 266. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de
Janeiro: Editora Objetiva. 1996).
2
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma
– p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
3
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,
p. 1106. Ed. 2004. Rio de Janeiro: Editora Objetiva.
4
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma
– p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Editor.
5
Idem. P. 16.
6
LACAN, Jacques – El Sinthoma – Seminário
XXIII, p. 08. www.psicoanalisis.org.br
7
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma
– p. 68. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução -Sérgio
Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
8
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma
– p. 16. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
9
Idem.
10
Ibdem.
11
AUBERT, Jacques – Prólogo a Um retrato do
artista quando jovem – Tradução de Analucia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra Freudiana, ano XII,
nº 13, 1993, p. 43.
12
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma
– p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
13
Idem, p. 16.
14
“Muito antes, especialmente em Ulisses, ele tem uma forma de picar as frases
que já vai nesse sentido. É verdadeiramente um processo exercido no sentido de
dar à língua em que ele escreve outro uso, em todo caso, um uso bem distante do
comum. Isso faz parte de seu savoir-faire.” LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 72. Texto
estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
15
LACAN, Jacques – Outros Escritos.
Lituraterra; p. 15. Ed. 2003. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
16
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma
– p. 70. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
17
“É de suturas e emendas que se trata na análise” – Idem, p. 78.
18
Idem, p. 41.
19
Idem, p. 91.
20
Idem. P. 114.
21
O que há de terrível , com efeito, é que
fico reduzido a lê-lo, posto que é certo que não o analisei. LACAN, Jacques
– Seminário 23 – O sinthoma – p. 77.
Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição
2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
22
LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma
– p. 163. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia.
Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Anexos — “Joyce, o sintoma”,
Conferência de 16 de junho de 1975, no anfiteatro da Sorbonne, na abertura do V
Simpósio Internacional James Joyce.
23
Idem.
Bibliografia
LACAN,
Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma –
Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução – Sérgio Laia. Edição
2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2007.
LACAN,
Jacques – El Sinthoma – Seminário XXIII.
www.psicoanalisis.org.br
JOYCE,
James – Um retrato do artista quando
jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora
Objetiva. 1996.
AUBERT,
Jacques – Prólogo a Um retrato do artista
quando jovem – Tradução Ana Lúcia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra
Freudiana, ano XII, nº 13, 1993, p. 43.
LACAN,
Jacques – in Outros Escritos. Lituraterra.
Ed. 2003. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor.
Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa. Ed. 2004. Editora Objetiva.
(*) Juíza estadual, membro da
Escola Letra Freudiana.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A SOLIDÃO NA OBRA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)
James Joyce (1882 - 1941)
A solidão na obra
Manuel Soares Bulcão Neto
De fato, entre os artistas e escritores há forte tendência,
intencional ou não, no sentido da margem, para a proscrição social. Primeiro,
porque o processo criativo somente se desenvolve quando o criador encontra-se
em estado de solidão, tanto no momento da concepção mental da obra (o “projeto”
demanda forte introspecção, um diálogo concentrado “entre si consigo mesmo”)
como na fase “prática”, de formalização “material”. — “O ato do poema é um ato
íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas.” — Escreveu João Cabral de
Melo Neto.
(Na verdade, o estádio subjetivo e o objetivo se
interpenetram, justapõem-se no tempo “com atrito”; o projeto, malgrado sua
inércia, modifica-se ao longo de toda a práxis, o que faz do criador um
solitário ininterruptamente atormentado.)
Em segundo lugar, porque o “estar só” do criador implica
riscos psicológicos, talvez mesmo um “custo”, que Thomas Mann identificou e
comentou em sua novela A morte em Veneza.
Transcrevo o trecho abaixo:
“As observações e os acontecimentos do solitário calado são
ao mesmo tempo mais difusos e mais penetrantes que os do sociável (…)
Imaginações e percepções que poderiam facilmente ser postas de lado com um
olhar, um sorriso, uma troca de opiniões, ocupam-no sobremaneira, aprofundam-se
no silêncio, tornam-se importantes, acontecimento, aventura, sentimento. (…) A solidão acarreta o original, o ousado, o
estranhamente belo, o poema. Mas a solidão também acarreta o errado, o
desproporcional, o absurdo e o proibido.” (O itálico é meu.)
Realmente, muitos excêntricos por caráter, de forma
consciente ou não, valem-se da arte ou literatura como tentativa de comunicação
— esforço que, no limite mínimo (porém supremo), consiste em exteriorizar seu
hermetismo subjetivo em objetos herméticos que, na verdade, são “recriações”
radicais da semântica e da linguagem (mecanismo psíquico que Jacques Lacan
designou com o termo “sinthome”, ilustrando-o com algumas obras de James Joyce,
Finnegans wake e outras. — Aliás,
Lacan confessou algures que, para não enlouquecer de vez com tantas discussões
acirradas “entre si consigo mesmo”, criou o seu próprio “sinthome”: o
inconsciente “Real”. Sucesso! Conseguiu reunir uma plêiade de místicos laicos
afeitos aos mais exóticos esoterismos).
Não são poucos, entretanto, os casos de artistas/escritores
antes sociáveis, mentalmente equilibrados que, devido ao hábito de viverem na
“solidão do criador” (e pelas razões apontadas por Thomas Mann, mais potentes
após um divórcio), terminam se transformando em “esquisitos assustadores” —
amiúde ao ponto de, por onde passam, os cães latirem e os bebês chorarem.
(Claro, estou caricaturando).
Obviamente, pelo fato de existirem flutuações estatísticas “contingentes”,
ocorre de também haver um e outro artista/escritor normais (por rigorosa
sacação, calculo em dois por cento). Mesmo esses, porém, são de uma normalidade
tão certinha, exacerbada e redonda que chega a ser teratológica. — Se tomam um
cafezinho às sete da noite, passam a madrugada acordados; para comer uma maçã,
antes a lavam, tiram-lhe a casca e a dividem em fatias absolutamente
simétricas… — Em suma, ninguém escapa.
Outra força centrífuga, talvez a mais poderosa, a qual o
artista encontra-se submetido consiste no fato de ser a arte a parte da Cultura
menos reiterativa e, portanto, a mais dinâmica — pois que se trata “fundamentalmente” (mesmo a mais realista e
figurativa) de criação.
Ora, por sua essência criadora – desligada de qualquer senso
prático-utilitário – a atividade artística exige dos seus agentes uma postura
mais crítica, inconformista, descontente e “corajosa” que a normal, coragem
inclusive para aceitar seu custo, muitas vezes alto: o choque frontal contra
opiniões públicas ao mesmo tempo graníticas e paroquiais, assentadas em valores
miúdos, forças dissuasivas – mediante ameaças de ostracismo – de etiquetas
morais.
Sem dúvida, uma força intensa e constante que acentua os
aspectos negativos da solidão do artista. Se não mata o talento logo no berço
ou o sufoca em claustros, aos poucos o destrói – mormente o dos mais gregários
– por meios vicários, explorando-lhe a vaidade, jogando com seus conflitos —
até, enfim, transformá-lo em mais um trágico ghost writer do impessoal pronome “Se”: “pensa-se como ‘se’ pensa;
julga-se como ‘se’ julga; gosta-se do que ‘se’ gosta; cria-se como ‘se’ cria;
escreve-se como ‘se’ deve escrever…”.
Tantos talentos dissolvidos na impessoalidade da massa evocam,
por contraste, a trajetória singular de um dos maiores escritores do século XX,
Marcel Proust. Morto aos cinquenta e um anos de idade, por três décadas levou
a vida como frívolo homem de salão — um esnobe adotado pelas múmias
aristocráticas do Caubourg Sair.t-Germain.
Requintado na futilidade, sempre ocupado em cumprir à risca todos os ritos de
etiqueta, tratava sua erudição como um precioso “enfeite”. Vale lembrar que,
ainda em sua fase de intensa vida social (bem no centro da cloaca do Grand Monde e em plena Belle Époque – isso é que é glamour!), Proust publicou um livro, Os prazeres e os dias, obra que, malgrado
o valor literário, só foi considerada por seus “pares” – palermas engalanados
em sua maioria – em virtude do prefácio de Anatole France — o que o autor
obteve não por reconhecimento autêntico, mas por vias mundanas e através de
terceiros: a atenção de Anatole a um apelo de Madame de Caillavet.
Havia, porém, em Proust, dois traços que o faziam destoar
daqueles bípedes implumes que compunham seu seleto círculo: uma sincera
generosidade com as pessoas simples, presente em seu cuidado de evitar qualquer
ato capaz de deixar um garçom com a sensação de ter sido humilhado, ou dar
impressão de desprezo a uma camareira ou chofer. Quanto ao segundo traço,
trata-se da qualidade de enfermiço – era asmático desde a puberdade.
Pois, na iminência dos quarenta, a moléstia agravou-se
sobremaneira, tornando-se incapacitante. Foi quando, intuindo a proximidade da
morte, Proust tomou-se de fastio por aquele ambiente de parolagens e parvoíces e
seus viventes meio que fantasmagóricos. Decidiu, então, dedicar o tempo
restante, integralmente, à sua autêntica vocação: a Literatura. Para tanto,
abandonou os salões, isolou-se em sua casa do boulevard Haussmann e, mesmo sofrendo de crises asmáticas intensas e sob
febre quase constante, construiu sua monumental Em busca do tempo perdido — obra em que, seguindo as orientações de
Flaubert, tratou os aristocratas parisienses com a mesma objetividade com que
um paleontólogo estuda a estrutura fossilizada de répteis mesozóicos.
Foi no isolamento voluntário e na doença – infenso a deferências
narcísicas – que Proust encontrou-se, fez-se como homem. E – fato curioso! – ao
contrário de Fausto e Adrian Leverkühn, para realizar suas potencialidades
teve, antes, que passar a perna em seus Mefistófeles empoados.
01/2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
CONTRA O SENSO COMUM (TÉRCIA MONTENEGRO)
Iguais (“polos” magnéticos), opostos (Sul e
Norte) e resistentes a qualquer força que separa e destrói: divida o ímã em mil
partes e, em cada uma delas, o diferente
permanece, reproduz-se.
* * *
“Poxa, tantas colônias de bactérias, tantos cupinzeiros
e essas monadazinhas indiferenciadas encarnam logo em pessoas… Minha opinião,
provavelmente equivocada, é que o
diferente inspira hostilidade pelo fato de ser… igual. Ninguém – penso eu – sente ódio apetitivo por (vontade de odiar) animais de outras espécies. O mais lamentável é que a figura do
bode expiatório parece ser útil (ao menos em situações de anomia social) para
firmar laços grupais: ‘nós’ nos unimos para nos proteger d'Ele, caçoar d’Ele,
desumanizar esse ‘Outro’ que nos angustia pondo em xeque nossas certezas, ameaçando
nossa segurança vegetativa, que nos desperta desejos indesejáveis e que, por ser estranhamente igual, evoca-nos o estrangeiro, o rival, o temível, o misterioso e o
demoníaco que existe em mim, em você, nos nossos próximos queridos. Aliás,
relendo este comentário, dei-me conta que desumanizei esses supostamente
diferentes de mim, ao chamá-los de alminhas
de micróbio ou de cupins. Ah, como
sou um verme! Tenho que me vigiar mais… ” (Manuel Bulcão - Mensagem
publicada no blogue de Webston Moura O Araibu )
________________________________________________________________
Contra
o senso comum
Tércia
Montenegro
As férias chegaram! Como sempre,
antecipadamente separei a pilha de livros que mais cobiço para esse momento.
Desta vez, no topo está Nabokov, com O
olho, numa edição recém-lançada. Meses atrás eu tinha me deliciado com A verdadeira vida de Sebastian Knight, e
agora quero repetir o escritor. Nabokov, aliás, além de ficcionista foi
professor, e o livro Aulas de literatura é
uma obra compilada por anotações que ele preparou para seus alunos. Nunca
esquecerei as ótimas reflexões que daí tirei – principalmente porque elas não
traziam o velho ranço orientacional. Ao contrário, o autor russo sabia que, em
matéria de arte, o recomendável ou o óbvio nunca é o mais interessante. O tal
senso comum, que aprova uma tendência em determinado local, muitas vezes revela
uma esterilidade, um conformismo que rejeita desafios. Assim acontece com toda
visão estreita, que tende a negar o diferente – conforme diz Nabokov: “A cor do
credo, da gravata, dos olhos, dos pensamentos, dos costumes ou da língua de
cada um tropeçará irremediavelmente em algum lugar do espaço ou do tempo com a
objeção fatal de uma multidão que detesta essa tonalidade particular”.
Quem estará com a razão, na batalha
das opiniões críticas e dos juízos estéticos? Novamente Nabokov não é doutrinário,
não toma partido nem busca verdades inabaláveis. Ele escolhe a celebração do
assombro, de um “estado mental infantil e especulativo, tão diverso do senso
comum e da lógica”. Este é o caminho para o aprendizado, a verdadeira aula que
acontece o tempo inteiro, quando deixamos desmoronar o muro dos conceitos
pré-fabricados.
Porém, não pense o leitor que as
reflexões descambam para a anarquia, o vale-tudo em que simples inquietos se
confundem com artistas reais. Nabokov distingue impulso e maturação – e explica
isso com uma lição que nasce na própria essência eslava: “A língua russa define
dois tipos de inspiração: vostorg e vdokhnovenie, que podem ser
parafraseados como ‘arrebatamento’ e ‘recuperação’. A diferença entre um e
outro é sobretudo de intensidade; o primeiro é breve e apaixonado, o segundo
frio e sustentado. Quando as coisas estão maduras e o escritor começa a
escrever seu livro, confiará no segundo e sereno tipo de inspiração – vdokhnovenie – companheiro fiel, que
ajuda a recuperar e a reconstruir o mundo.”
É esse universo – ao mesmo tempo
livre e equilibrado – que o artista consegue manipular. Ele se distancia
daquelas vozes que repetem suas fórmulas e proíbem divergências ou novidades.
Tércia Montenegro
(escritora, fotógrafa e professora da UFC)
Crônica publicada no
jornal “O Povo” em 21/12/2011
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