domingo, 22 de janeiro de 2012

CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS DO CETICISMO FILOSÓFICOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Michel de Montaigne
(1533 - 1592)

_________________________


Consequências Práticas do Ceticismo Filosófico

(Texto antigo)


Manuel Soares Bulcão Neto (*)


O que o ceticismo moderno não é

O ceticismo filosófico moderno não é um dogmatismo negativo, como o foi o “ceticismo acadêmico” [1] de Arcesilau e Carnéades por ter sustentado que a verdade é incognoscível (essa afirmação é verdadeira? Se é, então como a conhecemos?). Também não se trata de niilismo: atitude de desespero expressada numa “descrença generalizada”. Ora, (des)crença é crença às avessas. No caso do niilismo, crença na verdade de que todas as crenças são falsas, o que é um nonsense.

O ceticismo filosófico moderno, que surgiu e se desenvolveu pari passu com as ciências empíricas[2], também não se confunde com a corrente do pensamento conhecida como “relativismo”. Este – o relativismo, mormente sua versão mais radical, o “pós-modernismo” – nega a existência de uma verdade objetiva e da universalidade de qualquer valor (o que o torna não o fundamento ideológico da tolerância, mas a justificação da permissividade e de qualquer conduta “aquém” do bem e do mal). De modo diverso, o ceticismo moderno, “paracientífico”, apenas nega a “certeza absoluta”, a pretensão de que se pode atingir um conhecimento abrangente “indubitável”.

Vale dizer: tirante as verdades tautológicas (caso da verdade matemática), o cogito cartesiano e algumas correspondenciazinhas biunívocas banais entre ideia e realidade (p.ex., “o cientista Richard Dawkins tem uma cabeça”), o fato é que, a princípio, “tudo é incerto” (Montaigne), e que, “se tudo é incerto, também não é certo que tudo é incerto” (Pascal). Em síntese, o ceticismo hodierno parte do princípio autorreferente de que “tudo é duvidoso, inclusive esta afirmação” (André Comte-Sponville).

Esse novo ceticismo, portanto, é coerente, uma vez que inclui a si mesmo em seu próprio questionamento — consistência esta que o obriga a conferir à posição contrária (isto é, aos dogmatismos) o benefício da dúvida.

Crer é sustentar a verdade de um enunciado não-evidente, mas admitindo, ao mesmo tempo – caso o crente seja “honesto” –, a possibilidade de estar enganado. Pois, afinal, o que não é evidente não é certo, mas duvidoso;[3] logo, algo de que não se sabe, mas em que se crê ou (des)crê. O mesmo não se pode dizer de algumas verdades matemáticas simples, que não são objetos de crença, artigos de fé, mas puro saber. Com efeito, não faz sentido dizer “creio que 2 + 2 = 4”; ora, nisso eu não “creio”: disso eu “sei”.

O ceticismo moderno, portanto, não nega a crença e a fé, antes as pressupõe.

Mas há um porém: o ceticismo (do grego: skepsis) é questionamento, e o questionamento, por sua vez, é uma avaliação das ideias e dos dados empíricos levada a cabo pelo pensamento. Ora, o pensamento – e aqui me refiro ao pensamento dito “conceitual” – tem as suas leis, de modo que, ao contrário das crenças religiosas, as crenças dos céticos não são arbitrárias, baseadas unicamente na fé, mas fundamentadas naquilo que os possibilita questionar: as regras do cogito, isto é, as categorias e os princípios da lógica e da matemática. Essas categorias e princípios são intersubjetivos, comuns a todos os sujeitos pensantes. Pois, se não fosse assim, não haveria possibilidade de diálogo, de entendimento e de consenso entre os homens.

Isso não significa que as leis que regem o pensamento coerente (as leis da inferência, objeto da Lógica) sejam indubitáveis. Decerto que não o são e que nem mesmo a matemática está acima de qualquer suspeita, uma vez que de seus axiomas pode-se chegar não apenas a verdades, mas também a paradoxos. Questionar a racionalidade do pensamento é preciso, e foi por ter sido questionada que ela (a racionalidade, a razão) se desenvolveu, superou muitos dos seus paradoxos, tornou-se mais metódica, o que conferiu ao pensamento maior grau de autonomia em relação às demais faculdades psíquicas: o sentimento e a vontade.

Ora, o que se disse acima sobre o ceticismo do nosso tempo coincide, em larga medida, com as considerações de Alfred North Whitehead (matemático e filósofo) acerca do que ele denomina “Razão especulativa”, que criou a “Razão metódica”, mas que, no entanto, a questiona constantemente.

“A Razão especulativa é, em sua essência, alheia aos métodos. Sua função é desvendar as razões gerais, que se situam acima das razões restritas, compreender todos os métodos como coordenados numa natureza de coisas que só é compreensível transcendendo-se a todos os métodos. Esse ideal infinito nunca será atingido pela limitada inteligência humana. Entretanto, o que distingue o homem dos animais, e alguns homens de outros, é a presença, em sua natureza, ainda que de uma forma hesitante e vaga, de um elemento perturbador, que é a busca do inatingível. Esse elemento é aquele toque de infinito que impulsionou os povos para a frente, muitas vezes ao encontro de sua própria destruição. É um tropismo pelo facho de luz que acena ao longe — pelo sol que viaja em direção à finalidade última das coisas, e pelo sol que ressurge sempre de sua origem. A Razão especulativa se volta para leste e para oeste, para o começo e para o fim, como que espreitando para além das fronteiras do mundo”.[4]

Mesmo sendo a racionalidade do pensamento questionável em alguma medida, de outra coisa não dispomos para produzir conhecimentos acerca da natureza e de nós mesmos. Aliás, como declarou Freud, “Existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos” (S. Freud; “Além do Princípio do Prazer”, 1920).

Ademais, como esse conhecimento é a nossa principal arma de sobrevivência, e por ter-se demonstrado um instrumento tão eficaz de controle sobre as forças naturais, então o melhor é nos apoiarmos firmemente no pensamento lógico e no método científico, admitindo, porém, que seus postulados e axiomas também encerram uma margem de incerteza (uma margem pequena, diga-se de passagem).

Consequências práticas do ceticismo filosófico

Não é fácil conviver com a dúvida. Se tenho dúvidas, sou obrigado a escolher, a exercitar a minha liberdade, a me responsabilizar pela escolha feita e pelos meus atos, a admitir que “posso estar errado”. A dúvida é a sombra da liberdade e tem por corolário a angústia e a responsabilidade moral.

Penso que a certeza, “a crença na precisão absoluta da minha crença”, é o mais velho antídoto contra a ansiedade que sempre acompanha o ato da escolha. Pois, se não tenho dúvidas acerca do caminho a trilhar, não estou escolhendo, não estou a agir livremente, mas tão-somente obedecendo a um imperativo, que pode ser a palavra de Deus, o Destino ou mesmo a Razão. A certeza absoluta tranquiliza a consciência, nos faz agir sem remorsos e sem ela os genocidas em nome de Deus ou da Razão não dormiriam em paz.

É porque temem a liberdade, é por não quererem assumir responsabilidade moral que os homens costumam se deixar levar por certezas. Se um dia descobrem que o que motivou a sua ação era um erro, amaldiçoam Deus, o Destino ou a Razão, lamentam o fato de terem sido “enganados” (colocam-se sempre numa situação passiva) e, tranquilos, permanecem com suas outras certezas.

Ao contrário do que muitos pensam, o cético não é um frívolo diletante que tem por hobby questionar tudo e que faz da filosofia uma disputa entre egos, um joguinho de salão. Ao contrário, há mesmo um propósito moral no ceticismo filosófico. Pois, ao fazer da incerteza um dos princípios do pensamento humano, o que o filósofo cético também pretende é destruir esse escudo da covardia, essa negação da liberdade, essa arma da intolerância, isso que é a categoria central de todos os sistemas filosóficos fechados imunes à discussão e ao questionamento e que apenas servem de ideologia para os inimigos da sociedade aberta: o mito da certeza absoluta.

Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”, tivemos sucesso em nossa empreitada. Sim, ao menos nofront filosófico, destruímos o encouraçado do dogmatismo. Deste só restam destroços e alguns náufragos que, para não se afogarem, fazem das tautologias — como, por exemplo, “o existente existe” — e do cogito cartesiano sua tábua de salvação.

Claro, existem muitos “não-céticos” que estão absolutamente certos das virtudes da sociedade aberta. Estes costumam criticar o cético pelo fato de ele não saber com certeza se assassinar uma criança indefesa é moralmente justificável ou não, ou porque “diz não saber com certeza que uma ditadura sanguinolenta é defensável ou não” Não percebem esses “dogmáticos de boa vontade” que o que ameaça a sociedade aberta não é a incerteza quanto à verdade dos seus princípios, mas a certeza compartilhada por muitos, inclusive por supostos paladinos da democracia (Nixon, Kissinger, Sharon, Bush…) de que assassinar crianças é muitas vezes moralmente justificável: essa mesma certeza ou convicção inabalável tão característica dos que se arvoram os guardiões da Razão, do Pensamento Correto ou da Verdade e que, por isso, não estão muito dispostos a perder tempo com discussão, com a busca do consenso mediante o diálogo e outras “masturbações” democráticas, motivo pelo qual chegam mesmo a defender ditaduras sanguinolentas sempre que lhes convém. Como, por exemplo, o “racionalista” e “libertário” de direita Milton Friedman, que certa vez teceu elogios rasgados a Pinochet e justificou sua tirania.

É investindo contra o mito da certeza absoluta ou reduzindo-a ao ponto de jamais se transformar em instrumento de dominação política que se garante “quase certamente” a sociedade aberta.

Ao admitir que nem eu nem você detemos o monopólio do conhecimento certo e indubitável, não estou senão aceitando como razoável a atitude de considerar seus contra-argumentos e, por extensão, de reputar como legítimas todas as opiniões diferentes. Essa incerteza, que está na margem tanto da minha quanto da sua crença, é o que torna nossos pontos de vista iguais, malgrado as dessemelhanças. Também é a incerteza a justificação racional da minha e da sua liberdade de questionar, concordar, discordar. Ora, a aceitação do outro (do diferente, da opinião das minorias), a igualdade entre os interlocutores e a liberdadede questionar são tanto os princípios da razão quanto da democracia.
E nem é preciso ter certeza da verdade desses preceitos para defendê-los firmemente, pois o que os sustenta e o que lhes dá firmeza não é outra coisa que a incerteza intrínseca do conhecimento: o princípio fundamental de que tudo é incerto, inclusive esta afirmação.

Manuel Bulcão
Fevereiro/2002


[1] Chamado “acadêmico” porque surgiu na Academia de Platão no século III a.C.
[2] O seguinte texto do físico Richard P. Feynman, extraído o livro “O Significado de Tudo” (Portugal, Editora Gradiva), ilustra bem a simbiose entre o ceticismo filosófico moderno e as ciências empíricas: “Se não fôssemos capazes ou não desejássemos olhar em novas direções, se não tivéssemos dúvidas e não soubéssemos reconhecer a nossa ignorância, nunca chegaríamos a ter idéias novas. Não haveria nada para verificar, pois já conheceríamos a verdade. Aquilo a que hoje chamamos conhecimento científico é, pois, um corpo de afirmações com diversos graus de certeza. Algumas são muito incertas, outras são quase certas, mas nenhuma é absolutamente certa. Os cientistas estão habituados a isso. Sabemos que é consistente conseguir viver sem saber toda a verdade. Algumas pessoas perguntam: «Como é que conseguem viver sem saber?» Não percebo o que querem dizer com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que quero saber é como é possível saber”.
[3] André Comte-Sponville, filósofo cético-racionalista francês, defende que nem as evidências “ululantes” são inquestionáveis, uma vez que consistem em estados d’alma, e os estados d’alma são “alteráveis” por modificações neuroquímicas, deliberadas ou não.
[4] WHITEHEAD, A. N. A Função da Razão. Brasília: Editora UNB, 1988; p.31.


[i] Este ensaio foi extraído do livro “As esquisitices do óbvio”, de Manuel Soares Bulcão Neto (Fortaleza: APEX, 2005, 292 páginas).
12 Comentários

Luis Filipe
Por que a filosofia tradicional e as novas abordagens ditas “pós-modernas” sempre aparecem, em textos ditos filosóficos, em lados opostos?

Edmilso Ramalho
Me fez lembrar de Sócrates. Uma pergunta deve sempre ser respondida com outra pergunta. Sabedoria é a certeza da dúvida.

gabriel sDm
Magnífico. Meu pensamento em texto, achei hoje aqui. A dúvida e a incerteza é uma dádiva, a base da minha liberdade. (E nem por um momento tenho certeza irrefutável disso.)

JC
Gostei do texto… apesar de que, na prática, o que encontrei em geral foram artigos do ceticismo negador. Basicamente, continua-se com uma falácia qualquer.
Ceticismo é ceticismo e ponto final! Ceticismo não é ciência… É apenas mais uma Religião de seguidores fervorosos em suas crenças! Crenças de negar qualquer experiência pessoal! Negar sentimentos! Negar o coração! Negar a necessidade da busca pessoal!

Ceticismo é NEGAÇÃO sim! Eu também sou cético em relação a algumas coisas, mas só pude comprová-las através de uma experimentação pessoal. Um grande amigo meu dizia… Não acredite em NADA… que você NÃO tenha experimentado! Amigos céticos, experimentem Deus, antes de dizer que ele não existe! Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química! Experimentem tudo o que for possível experimentar, e depois façam seus relatos de forma muito honesta… Aí sim saberemos qual é o verdadeiro ceticismo que tenha algum valor científico!

ty
O cara aí de cima não entendeu o texto do Manuel :(

JC
“Penso que nós, céticos, ou melhor, “ceticistas”,…….destruímos o encouraçado do dogmatismo…”

O Ceticismo também é um Dogma. Também é limitador, é fechado.
Não admite experiência pessoal, não admite o incognoscível… Não admite uma série de coisas que as pessoas em geral admitem, mesmo não aceitando… e também não é muito capaz de comprovar nada… O que mais encontrei neste site foram caçadores de fraudes… Isso é importante claro… Mas não tenho encontrado nenhuma base cética muito concreta neste site…

Dizer que não existe ou não funciona até eu digo… Quando são fraudes genuínas, qualquer um pode mostrar o inverossímil, os peritos e investigadores são especialistas neste assunto… Mas… e quando o assunto questionado não é uma fraude??? Qual é o método usado para buscar a Verdade???

sdm
Mas é aí q tá!: buscar a verdade, muitas vezes, é cair num grande mau entendido. O lance é sempre duvidar, ñ sempre negar ou concordar, e sim, perceber q tudo é motivo de questionar e de concientizar, q nós humanos ñ somos detentores de verdade alguma, E ESSE É NOSSO MAIOR LEGADO, NOSSA “DÁDIVA”.(E nem por um momento ter certeza irrefutável disso.)

Cap. Winters
“Experimentem o Amor, antes de dizer que ele é uma mera manifestação química!”
Mas isso quer dizer o que? Se o amor for apenas uma reação química, isso tira a beleza dele? O arco iris é apenas uma ilusão de ótica, mas podemos admira-lo pelo que ele realmente é, ou podemos fantasiar sobre ele, fica a critério, prefiro o mais lógico.

Theodoro
Vou dar bola para toda subjetividade dos relatos de milhares de crentes,de crenças diferentesem lugares indistintos.
Depois vou experimentar cada uma das 1025478 possibilidades de crença. Só para depois me dar conta que perdi um tempo danado com lixo.
Não consigo entender crente acéfalo que mal sabe escrever e entraemsite cético para falar tanta asneira e proselitismo.

Wilson Ramiro

Jamais encontrei um cético verdadeiro, os que diziam ser em um primeiro momento negavamem em seguida para manterem-se “coerentes”, e para ser coerente é necessário acreditar, então não podem ser coerentes.

Toda nossa vida é repleta de decisões, das mais simples a algumas complexas, ler este texto já é uma decisão que voce , seja lá quem seja tomou. Decidir é além de eleger uma opção, é também destruir, eliminar e taxar como falsas(menos verdadeiras) outras opções. Você pode decidir se alimentar e ser contra morrer de fome, ou não, pode decidir respirar ou pode enfiar um saco plástico na cabeça e morrer por asfixia.

A vida real precisa de decisões que promova a melhor opção (VERDADE) no momento.
Filosofia titubeante, que não acredita que a verdade possa existir de forma concreta serve apenas para joguinhos de salão, ou discussões inuteis de internet.(também não estou fazendo nada agora, e isto é uma verdade).

Wilson Ramiro
De Novo
Não quero ser grosseiro ou mau educado. (minha verdade agora) Cético não deve ouvir comentários de crentes.(afirmação) Eu sei o que “ceticismo moderno” não é. (verdade)

Usando o racionalismo no ceticismo moderno consigo de forma mais eficaz ter certeza de que não tenho certeza, e isto me garante que estou com certeza no melhor caminho!

(*) Sou.

domingo, 15 de janeiro de 2012

QUANDO O AMOR É DE GRAÇA IX: FECHE OS OLHOS E PULE! (CRÔNICA DE RAYMUNDO NETTO PARA O JORNAL “O POVO”)

Aqui jaz "uma"alvorada, bela e efêmera.


Raymundo Netto


Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir prá não chorar”*

Então, pus o Cartola na cabeça e toquei a mesma estrada daqueles que não voltaram para contar história. E, um dia, acreditei, por perceber-me tão soltamente de um jeito: “Nada mais tenho a perder!” Coisa de assusto e libertação. Passei a pegar ônibus mais lento, do motorista duvidar se há-inda passageiro; de não olhar relógio; de não saber como nem quando voltar; de não me perguntarem se vou ou se volto e de não me esperarem para nada e por nada esperar.

“Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver...”

Da amiga saltou o pensamento: “Raymundo, você é a única pessoa que conheço a dizer não ter nada com tanta alegria...” Verdade. Geralmente, as pessoas se pabulam de seus “teres”, desperdiçam as poucas horas de convivência falando de um seu apartamento, celular novo, aparelho de som, investimentos ou do brilho do plástico a cobrir os bancos cheirosos do automóvel financiado em prestações a perder de vista. Pois sim, nada tenho a não ser o que sou e, acreditem, acho até muita coisa. Por outro lado, tenho tudo que um verdadeiro rico tem: sei gastar e gasto sem ter pena, adoro presentear, tenho gosto, não olho extrato, não sei quanto ganho, nem o que devo... Enfim, só me falta dinheiro. No mais, asseguro: tenho tudo que um rico precisa.

Dentre as minhas neuroses, uma atrapalha: a de achar a vida pequena, curta demais. Daí, construí minha vida desconstruindo-a numa verdadeira colcha de retalhos, pedaço daqui, pedaço dali, vida múltipla, experiência vária, mundo diverso. Abandonava, tempos em tempos, a ora vida num canto e apropriava-me de pulso da outra. Um EU a saltar no escuro na espera do baque final de nunca chegar, duvidando e acreditando em tudo, de rir para a vida, de sofrer tanto e tanto e mesmo assim não parar, simplesmente, porque o tempo nunca me confiou de seu perdão.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar depois que me encontrar...”

O certo é que muito aprendo todos os dias andando por outras calçadas, colhendo palavras alheias, encantado por olhos a contar de sentimentos singelos, doando meus braços a cuidar da dor emprestada, ouvindo o que o vento traz na voz de folhas das poucas e roucas árvores benfiqueanas, apostando em encontros inesperados, curando da respiração o que a saudade insiste em revelar. Coloco a mochila velha nas costas, aparo com as pálpebras o sopro da tarde no rosto. Penso se vale a pena o único pensamento num futuro, este, em recesso, apenas presente no sorriso de duas crianças de queridos abraços umbilicais. Hoje, mesmo quando a tristeza chega pelo descuido de uma veneziana no peito, a guardo num porta-níquel junto com uma fita amarela, o passaporte em branco e uma lágrima que já não chorei. Hoje, quero mais é sentir o calor do instante e caminhar à sombra do verso que nunca escrevi.

(*) “Preciso me Encontrar”, de Cartola (para ouvir a música, clique no linque):
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Raymundo Netto, cronista do jornal O Povo, é autor do romance Um conto no passado: cadeiras na calçada. Seu livro de contos, Os Acangapebas, encontra-se no prelo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

SINTOMA E SINTHOMA: DUAS VERTENTES NA ARTE DE JAMES JOYCE (MARIA DO SOCORRO MONTEZUMA BULCÃO)

Jacques Lacan (1901-1981)



“O psiquismo humano é equipado de uma álgebra semântica (expressão cunhada pelo antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss). Alguns indivíduos, porém, ao longo do seu desenvolvimento neuropsicológico, deparam-se com obstáculos que impossibilitam, de maneira absoluta, a formação de determinado significante (conforme Lacan, o nome-do-pai), fundamental na estrutura da referida álgebra e cuja falta é a porta aberta da psicose. Ocorre que o Eu consciente/pré-consciente, diante desse “furo”, não queda impotente, ao contrário: mediante o processo criativo – que não é senão atividade produtora de objetos “significativos” – busca algo que funcione como substituto desse significante “foracluído” (isto é, “não incluso” – sequer na condição de recalcado ou reprimido – no aparelho neuropsíquico). — Entendo que o sinthome seria esse substituto.” (Manuel Soares Bulcão Neto)

Sintoma e sinthoma: duas vertentes na arte de James Joyce


Maria do Socorro Montezuma Bulcão (*)


RESUMO: Um recorte do Seminário 23, destacando duas vertentes da escrita de James Joyce,  exemplo tomado por Lacan para buscar responder, no ano daquele seminário, à questão relativa ao efeito da arte sobre o sintoma. No caso de Joyce, sua escrita/artifício constituiu-se num sinthoma na medida em que, fazendo suplência à falta de inscrição do Nome-do-Pai, lhe garantiu manter juntos os registros do real, simbólico e imaginário do seu nó, com aparência de enodamento borromeu.

Palavras–chave: Pai, Nome-do-Pai, sintoma, sinthoma, escrita/escritura, suplência, nó borromeu.

“Velho pai,velhoartífice,valha-meagora e sempre.”1


Ao iniciar a primeira aula d’O Seminário 23 – O sinthoma, Lacan menciona que, segundo afirmação de Philippe Sollers, Joyce teria escrito em inglês, “de tal maneira que a língua inglesa não existe mais”.2 E prossegue dizendo que, embora não sendo fácil escrever em inglês, mas devido à pouca consistência dessa língua, Joyce, pela sucessão de obras que escreveu, acrescentara à língua inglesa algo que o fazia afirmar que precisava escrever – l’élangues. Note-se aí a aglutinação de palavras:

L’(ELAN)GUES = LE + ELAN + LANGUES.

Vale aqui destacar inicialmente algumas definições do termo elã em nosso idioma: movimento súbito, espontâneo; sentimento ardente, entusiasmo criador, arrojo, ímpeto, rasgo, inspiração3.

Partindo de tais conceitos, pode-se pensar que diante dessa aglutinação de palavras – L’(ELAN)GUES – a afirmação de Lacan é no sentido de que Joyce tinha o ímpeto de escrever e o fazia por necessidade.

É ainda Lacan que afirma:

“Suponho que, assim, ele procura designar alguma coisa como essa elação que, dizem-nos, está no princípio de não sei qual sinthoma que, em psiquiatria, chamamos mania”.4

Seria isso dizer que o sinthoma de Joyce era determinado por uma necessidade maníaca? E o que existia de natureza tão determinante por trás desse elã, a desencadear uma escrita cujo caráter era o de império, de mister? A relação sintoma/sinthoma parece indicar algum esclarecimento sobre essas questões.

Lacan afirma que o sintoma e o sinthoma são “duas vertentes que se ofereciam à arte de James Joyce”5. Mais adiante vai dizer que (...) o pai é um sintoma, ou um santo varón (saint-homme)6. O pai, este santo varão que ao desempenhar eficazmente a função paterna, faz surgir daí o sujeito do desejo. Eis a vertente sintomática que se oferece à obra de James Joyce: o pai, e no caso dele, melhor seria dizer a falta da inscrição do Nome do Pai. A falência paterna apresentava-se para Joyce como determinante da sua necessidade de escrever. Tal necessidade era decorrente de um império ainda maior: o da inscrição do Nome do Pai. Sobre o sintoma de Joyce afirma Lacan: “Ulisses testemunha que Joyce permanece enraizado em seu pai, ainda que o renegando. É efetivamente isso que é seu sintoma.”7

Sabe-se que em O retrato do artista quando jovem, Simon Dedalus, pai de Stephen Dedalus, era um sujeito ordinário e decadente, um pai falido. O personagem Simon Dedalus é, na verdade, inspirado em John Joyce, pai de James Joyce.

É esse pai falido na sua função de inscrição do Nome do Pai, que vai determinar, em James Joyce, a necessidade de inventar algo capaz de fazer suplência à citada falta, sendo essa criação a sua escrita. Não se trata, entretanto, de uma escrita qualquer, mas de uma escrita inventiva que progressivamente vai se afastando da língua comum rumo à outra direção, via pela qual Joyce transita em direção ao real, na tentativa sempre frustrada de tocar o impossível. Tal forma de escrita é, portanto, a via eleita por Joyce “por onde tomar a verdade do sujeito”8, do seu sujeito. Essa escolha faz Lacan reconhecer em Joyce um herético, mas herético “de uma boa maneira”9 , na medida em que essa escolha, segundo Lacan, “uma vez feita não impede ninguém de submetê-la à confirmação”... A boa maneira ... que por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu real, até se fartar.”10

Essa escrita incomum e inventiva tem, no dizer de Jacques Aubert, “o selo da Necessidade”... e segundo ele “é uma escritura que ‘se pretende’ deciframento, que, em outros termos, está à procura ela mesma de uma escritura desaparecida, uma escritura que visa devolver (a) palavra e (a) vida a uma escritura fantasmática, mas bem real.11 É nesse sentido que a escrita/escritura de James Joyce se constitui num sinthoma, a outra vertente da arte de Joyce citada por Lacan e que tem o condão de fazer suplência a uma falha no nó borromeu, suplência à falta de inscrição do Nome do Pai e que permite manter unidos os três registros pelos quais passam toda a experiência de um sujeito: Real, Simbólico e Imaginário.

A invenção de James Joyce serve de ilustração à pergunta anunciada por Jacques Lacan no primeiro capítulo do Seminário 23, sua interrogação para aquele ano sobre a arte: “Em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim posso dizer, o que se impõe do sintoma? A saber, a verdade?”12

Não há dúvida de que para Joyce a escrita, como sinthoma, foi o artifício que o retirou da condição de pobre-diabo para, na medida de sua singularidade, elevá-lo à de herói – em Stephen Hero – e de O artista – no Retrato do artista quando jovem. É nesse  sentido que, se referindo a Joyce, Lacan afirma que “foi a sua arte que supriu a sua firmeza fálica” e que (...) “é nisso que sua arte é o verdadeiro fiador do seu falo.”13

E de que modo identificar a singularidade dessa escrita? O que lhe dá esse  caráter de originalidade, de invenção, de artifício, enfim, de sinthoma capaz de suster o nó do sujeito Joyce, impedindo o seu desatamento?

Existe na escrita de Joyce um processo que tende à desarticulação da língua (inglesa) que, como afirma Lacan, não começa em Finnegans wake, e que já estava presente em Ulisses14. Na proporção em que esse processo de desarticulação da língua inglesa transita na contramão da significação, ou seja, indo do sentido em direção ao não sentido, é que se vislumbra a tentativa de Joyce de tocar o real. Vale lembrar que, segundo Lacan, Joyce, por sua escrita, atingiu o melhor que uma análise poderia alcançar em seu término.15

Se a análise é a resposta a um enigma16, Joyce perseguiu a resposta quanto ao enigma do seu sujeito através da escrita, via por onde teceu suturas e emendas17, tal como se faz em análise. Esse artifício é o que comprova a afirmação de Lacan de que “A arte pode atingir inclusive o sintoma”.18

É também nesse sentido que a escrita de Joyce se constituiu como um sinthoma, isto que Lacan veio a definir como “o que permite ao nó de três não só se manter nó de três, como se conservar em uma posição tal que ele tenha o aspecto de constituir nó de três.”19

Lacan afirmou ainda: “Joyce não sabia que ele fazia o sinthoma, quero dizer, que o simulava. Isso era inconsciente para ele. Por isso, ele é um puro artífice, um homem de savoir-faire, o que é igualmente chamado de um artista.”20

Partindo-se dessas referências acerca do que vem a ser o sinthoma, particularmente no caso de Joyce, é inevitável suscitar a curiosa, polêmica e sedutora questão levantada por Lacan acerca da suposta loucura de James Joyce, mas sempre valendo lembrar que foi o próprio Lacan que ao argüir tal hipótese, teve o cuidado de afirmar que não o analisou. 21

A afirmação de que Joyce não fazia sinthoma, e sim o simulava, leva ao  entendimento de que o nó de Joyce não era borromeu, e que tinha apenas aparência dessa espécie de nó, o que justifica a hipótese sustentada por Lacan quanto à loucura de Joyce.

Louco ou não louco: eis a questão.

Saber se James Joyce era ou não louco é uma pergunta que sempre fará questão e não constitui o cerne deste trabalho. Aqui a intenção foi destacar d’O seminário 23 – “O Sinthoma” –, a via eleita por um determinado sujeito – James Joyce – que, sendo louco ou não, lançou mão da escrita de uma forma singular e revolucionária para o seu tempo, e mesmo para o nosso, reescreveu a sua história e alcançou o seu desejo de se dar um nome que não lhe fora garantido pelo pai.

Se, conforme ensinamento de Lacan, “o pai é esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real”22; se o pai, para James Joyce, não lhe garantiu a inscrição do Nome-do-Pai e, consequentemente, um enodamento genuinamente borromeu; por outro lado, o sinthoma construído por Joyce manteve junto os registros do simbólico, imaginário e real do seu nó, fazendo suplência a essa falha e dando ao seu nó a aparência de nó borromeu.

Finalmente, não se pode olvidar que Lacan também deu ao pai outro nome: sinthoma, quando afirmou:

“O pai é esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real. Mas há um outro modo de chamá-lo. É nisso o que diz respeito ao Nome-do-Pai, no grau em que Joyce testemunha isso, eu o revisto hoje com o que é conveniente chamar de sinthoma.” 23

Assim, para James Joyce, onde não foi o Nome-do-Pai, foi o sinthoma:
sinthoma em Nome-do-Pai.

Notas e Referências Bibliográficas

1 JOYCE, James – Um retrato do artista quando jovem – p. 266. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 1996).



2 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
3 Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, p. 1106. Ed. 2004. Rio de Janeiro: Editora Objetiva.
4 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Editor.
5 Idem. P. 16.
6 LACAN, Jacques – El Sinthoma – Seminário XXIII, p. 08. www.psicoanalisis.org.br
7 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 68. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução -Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
8 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 16. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
9 Idem.
10 Ibdem.
11 AUBERT, Jacques – Prólogo a Um retrato do artista quando jovem – Tradução de Analucia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra Freudiana, ano XII, nº 13, 1993, p. 43.
12 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – p. 12. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
13 Idem, p. 16.
14 “Muito antes, especialmente em Ulisses, ele tem uma forma de picar as frases que já vai nesse sentido. É verdadeiramente um processo exercido no sentido de dar à língua em que ele escreve outro uso, em todo caso, um uso bem distante do comum. Isso faz parte de seu savoir-faire.” LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 72. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
15 LACAN, Jacques – Outros Escritos. Lituraterra; p. 15. Ed. 2003. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
16 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – p. 70. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
17 “É de suturas e emendas que se trata na análise” – Idem, p. 78.
18 Idem, p. 41.
19 Idem, p. 91.
20 Idem. P. 114.
21 O que há de terrível , com efeito, é que fico reduzido a lê-lo, posto que é certo que não o analisei. LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 77. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
22 LACAN, Jacques – Seminário 23 – O sinthoma – p. 163. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Anexos — “Joyce, o sintoma”, Conferência de 16 de junho de 1975, no anfiteatro da Sorbonne, na abertura do V Simpósio Internacional James Joyce.
23 Idem.

Bibliografia

LACAN, Jacques – Seminário 23 – O Sinthoma – Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução – Sérgio Laia. Edição 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2007.
LACAN, Jacques – El Sinthoma – Seminário XXIII. www.psicoanalisis.org.br
JOYCE, James – Um retrato do artista quando jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 1996.
AUBERT, Jacques – Prólogo a Um retrato do artista quando jovem – Tradução Ana Lúcia Teixeira Ribeiro, in Revista da Letra Freudiana, ano XII, nº 13, 1993, p. 43.
LACAN, Jacques – in Outros Escritos. Lituraterra. Ed. 2003. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Ed. 2004. Editora Objetiva.


(*) Juíza estadual, membro da Escola Letra Freudiana.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A SOLIDÃO NA OBRA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


James Joyce (1882 - 1941)


A solidão na obra



Manuel Soares Bulcão Neto




De fato, entre os artistas e escritores há forte tendência, intencional ou não, no sentido da margem, para a proscrição social. Primeiro, porque o processo criativo somente se desenvolve quando o criador encontra-se em estado de solidão, tanto no momento da concepção mental da obra (o “projeto” demanda forte introspecção, um diálogo concentrado “entre si consigo mesmo”) como na fase “prática”, de formalização “material”. — “O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas.” — Escreveu João Cabral de Melo Neto.
(Na verdade, o estádio subjetivo e o objetivo se interpenetram, justapõem-se no tempo “com atrito”; o projeto, malgrado sua inércia, modifica-se ao longo de toda a práxis, o que faz do criador um solitário ininterruptamente atormentado.)
Em segundo lugar, porque o “estar só” do criador implica riscos psicológicos, talvez mesmo um “custo”, que Thomas Mann identificou e comentou em sua novela A morte em Veneza. Transcrevo o trecho abaixo:
“As observações e os acontecimentos do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusos e mais penetrantes que os do sociável (…) Imaginações e percepções que poderiam facilmente ser postas de lado com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões, ocupam-no sobremaneira, aprofundam-se no silêncio, tornam-se importantes, acontecimento, aventura, sentimento. (…) A solidão acarreta o original, o ousado, o estranhamente belo, o poema. Mas a solidão também acarreta o errado, o desproporcional, o absurdo e o proibido.” (O itálico é meu.)
Realmente, muitos excêntricos por caráter, de forma consciente ou não, valem-se da arte ou literatura como tentativa de comunicação — esforço que, no limite mínimo (porém supremo), consiste em exteriorizar seu hermetismo subjetivo em objetos herméticos que, na verdade, são “recriações” radicais da semântica e da linguagem (mecanismo psíquico que Jacques Lacan designou com o termo “sinthome”, ilustrando-o com algumas obras de James Joyce, Finnegans wake e outras. — Aliás, Lacan confessou algures que, para não enlouquecer de vez com tantas discussões acirradas “entre si consigo mesmo”, criou o seu próprio “sinthome”: o inconsciente “Real”. Sucesso! Conseguiu reunir uma plêiade de místicos laicos afeitos aos mais exóticos esoterismos).
Não são poucos, entretanto, os casos de artistas/escritores antes sociáveis, mentalmente equilibrados que, devido ao hábito de viverem na “solidão do criador” (e pelas razões apontadas por Thomas Mann, mais potentes após um divórcio), terminam se transformando em “esquisitos assustadores” — amiúde ao ponto de, por onde passam, os cães latirem e os bebês chorarem. (Claro, estou caricaturando).
Obviamente, pelo fato de existirem flutuações estatísticas “contingentes”, ocorre de também haver um e outro artista/escritor normais (por rigorosa sacação, calculo em dois por cento). Mesmo esses, porém, são de uma normalidade tão certinha, exacerbada e redonda que chega a ser teratológica. — Se tomam um cafezinho às sete da noite, passam a madrugada acordados; para comer uma maçã, antes a lavam, tiram-lhe a casca e a dividem em fatias absolutamente simétricas… — Em suma, ninguém escapa.
Outra força centrífuga, talvez a mais poderosa, a qual o artista encontra-se submetido consiste no fato de ser a arte a parte da Cultura menos reiterativa e, portanto, a mais dinâmica — pois que se trata “fundamentalmente” (mesmo a mais realista e figurativa) de criação.
Ora, por sua essência criadora – desligada de qualquer senso prático-utilitário – a atividade artística exige dos seus agentes uma postura mais crítica, inconformista, descontente e “corajosa” que a normal, coragem inclusive para aceitar seu custo, muitas vezes alto: o choque frontal contra opiniões públicas ao mesmo tempo graníticas e paroquiais, assentadas em valores miúdos, forças dissuasivas – mediante ameaças de ostracismo – de etiquetas morais.
Sem dúvida, uma força intensa e constante que acentua os aspectos negativos da solidão do artista. Se não mata o talento logo no berço ou o sufoca em claustros, aos poucos o destrói – mormente o dos mais gregários – por meios vicários, explorando-lhe a vaidade, jogando com seus conflitos — até, enfim, transformá-lo em mais um trágico ghost writer do impessoal pronome “Se”: “pensa-se como ‘se’ pensa; julga-se como ‘se’ julga; gosta-se do que ‘se’ gosta; cria-se como ‘se’ cria; escreve-se como ‘se’ deve escrever…”.
Tantos talentos dissolvidos na impessoalidade da massa evocam, por contraste, a trajetória singular de um dos maiores escritores do século XX, Marcel Proust. Morto aos cinquenta e um anos de idade, por três décadas levou a vida como frívolo homem de salão — um esnobe adotado pelas múmias aristocráticas do Caubourg Sair.t-Germain. Requintado na futilidade, sempre ocupado em cumprir à risca todos os ritos de etiqueta, tratava sua erudição como um precioso “enfeite”. Vale lembrar que, ainda em sua fase de intensa vida social (bem no centro da cloaca do Grand Monde e em plena Belle Époque – isso é que é glamour!), Proust publicou um livro, Os prazeres e os dias, obra que, malgrado o valor literário, só foi considerada por seus “pares” – palermas engalanados em sua maioria – em virtude do prefácio de Anatole France — o que o autor obteve não por reconhecimento autêntico, mas por vias mundanas e através de terceiros: a atenção de Anatole a um apelo de Madame de Caillavet.
Havia, porém, em Proust, dois traços que o faziam destoar daqueles bípedes implumes que compunham seu seleto círculo: uma sincera generosidade com as pessoas simples, presente em seu cuidado de evitar qualquer ato capaz de deixar um garçom com a sensação de ter sido humilhado, ou dar impressão de desprezo a uma camareira ou chofer. Quanto ao segundo traço, trata-se da qualidade de enfermiço – era asmático desde a puberdade.
Pois, na iminência dos quarenta, a moléstia agravou-se sobremaneira, tornando-se incapacitante. Foi quando, intuindo a proximidade da morte, Proust tomou-se de fastio por aquele ambiente de parolagens e parvoíces e seus viventes meio que fantasmagóricos. Decidiu, então, dedicar o tempo restante, integralmente, à sua autêntica vocação: a Literatura. Para tanto, abandonou os salões, isolou-se em sua casa do boulevard Haussmann e, mesmo sofrendo de crises asmáticas intensas e sob febre quase constante, construiu sua monumental Em busca do tempo perdido — obra em que, seguindo as orientações de Flaubert, tratou os aristocratas parisienses com a mesma objetividade com que um paleontólogo estuda a estrutura fossilizada de répteis mesozóicos.
Foi no isolamento voluntário e na doença – infenso a deferências narcísicas – que Proust encontrou-se, fez-se como homem. E – fato curioso! – ao contrário de Fausto e Adrian Leverkühn, para realizar suas potencialidades teve, antes, que passar a perna em seus Mefistófeles empoados.


01/2012



sábado, 31 de dezembro de 2011

CONTRA O SENSO COMUM (TÉRCIA MONTENEGRO)


Iguais (“polos” magnéticos), opostos (Sul e Norte) e resistentes a qualquer força que separa e destrói: divida o ímã em mil partes e, em cada uma delas, o diferente permanece, reproduz-se.

* * *

“Poxa, tantas colônias de bactérias, tantos cupinzeiros e essas monadazinhas indiferenciadas encarnam logo em pessoas… Minha opinião, provavelmente equivocada, é que o diferente inspira hostilidade pelo fato de ser… igual. Ninguém – penso eu – sente ódio apetitivo por (vontade de odiar) animais de outras espécies. O mais lamentável é que a figura do bode expiatório parece ser útil (ao menos em situações de anomia social) para firmar laços grupais: ‘nós’ nos unimos para nos proteger d'Ele, caçoar d’Ele, desumanizar esse ‘Outro’ que nos angustia pondo em xeque nossas certezas, ameaçando nossa segurança vegetativa, que nos desperta desejos indesejáveis e que, por ser estranhamente igual, evoca-nos o estrangeiro, o rival, o temível, o misterioso e o demoníaco que existe em mim, em você, nos nossos próximos queridos. Aliás, relendo este comentário, dei-me conta que desumanizei esses supostamente diferentes de mim, ao chamá-los de alminhas de micróbio ou de cupins. Ah, como sou um verme! Tenho que me vigiar mais… ” (Manuel Bulcão - Mensagem publicada no blogue de Webston Moura Araibu )

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Contra o senso comum

Tércia Montenegro

           
As férias chegaram! Como sempre, antecipadamente separei a pilha de livros que mais cobiço para esse momento. Desta vez, no topo está Nabokov, com O olho, numa edição recém-lançada. Meses atrás eu tinha me deliciado com A verdadeira vida de Sebastian Knight, e agora quero repetir o escritor. Nabokov, aliás, além de ficcionista foi professor, e o livro Aulas de literatura é uma obra compilada por anotações que ele preparou para seus alunos. Nunca esquecerei as ótimas reflexões que daí tirei – principalmente porque elas não traziam o velho ranço orientacional. Ao contrário, o autor russo sabia que, em matéria de arte, o recomendável ou o óbvio nunca é o mais interessante. O tal senso comum, que aprova uma tendência em determinado local, muitas vezes revela uma esterilidade, um conformismo que rejeita desafios. Assim acontece com toda visão estreita, que tende a negar o diferente – conforme diz Nabokov: “A cor do credo, da gravata, dos olhos, dos pensamentos, dos costumes ou da língua de cada um tropeçará irremediavelmente em algum lugar do espaço ou do tempo com a objeção fatal de uma multidão que detesta essa tonalidade particular”.
            Quem estará com a razão, na batalha das opiniões críticas e dos juízos estéticos? Novamente Nabokov não é doutrinário, não toma partido nem busca verdades inabaláveis. Ele escolhe a celebração do assombro, de um “estado mental infantil e especulativo, tão diverso do senso comum e da lógica”. Este é o caminho para o aprendizado, a verdadeira aula que acontece o tempo inteiro, quando deixamos desmoronar o muro dos conceitos pré-fabricados.
            Porém, não pense o leitor que as reflexões descambam para a anarquia, o vale-tudo em que simples inquietos se confundem com artistas reais. Nabokov distingue impulso e maturação – e explica isso com uma lição que nasce na própria essência eslava: “A língua russa define dois tipos de inspiração: vostorg e vdokhnovenie, que podem ser parafraseados como ‘arrebatamento’ e ‘recuperação’. A diferença entre um e outro é sobretudo de intensidade; o primeiro é breve e apaixonado, o segundo frio e sustentado. Quando as coisas estão maduras e o escritor começa a escrever seu livro, confiará no segundo e sereno tipo de inspiração – vdokhnovenie – companheiro fiel, que ajuda a recuperar e a reconstruir o mundo.”
            É esse universo – ao mesmo tempo livre e equilibrado – que o artista consegue manipular. Ele se distancia daquelas vozes que repetem suas fórmulas e proíbem divergências ou novidades.

Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)
Crônica publicada no jornal “O Povo” em 21/12/2011

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