quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CRÍTICA DO MATERIALISMO HISTÓRICO 3 - TROTSKI: O PROFETA, O CIENTISTA E O HOMEM

Leon Trotski (1879 - 1940)

"Leon Trotski, que não era apenas um ideólogo socialista, mas, também, um verdadeiro cientista social, pelo que sei foi o único marxista militante da primeira metade do século XX que admitiu a possibilidade 'histórico-materialista' de um 'inevitável' coletivismo burocrático e totalitário como modo de produção sucessor do capitalismo. Segundo o Cientista, corroboraria essa conjetura 'materialista histórica' (e, ato contínuo, refutaria a hipótese do comunismo) se, no decorrer e logo depois da Segunda Guerra Mundial, o proletariado demonstrasse incapacidade congênita de tomar e manter o poder. Neste caso, os socialistas, de acordo com Trotski, não deveriam abrir mão da luta, suicidar-se, fechar-se na vida privada ou então, resignando-se ao determinismo do materialismo histórico, ingressar na nova classe dominante. Ao contrário, os socialistas teriam o dever moral de continuar lutando em prol dos interesses dos 'novos escravos', tendo por guia da ação um programa mínimo." (Manuel Bulcão)

* * *

Manuel Soares Bulcão Neto



Muitos expoentes do neoliberalismo, ou do assim chamado “capitalismo libertário”, em sua peleja contra o coletivismo e a favor do “Indivíduo” (escrito assim, com inicial maiúscula, da mesma forma como se escreve Deus e Estado), põem no mesmo balaio o comunismo de Marx-Engels, o fascismo e o nazismo. “É tudo socialismo!” – exclamam eles, olvidando o fato de que o próprio pensamento liberal não é monopólio de uma direita apologista do capitalismo, haja vista a existência de um liberal-socialismo de esquerda, teorizado por L. T. Hobhouse, Francesco Merlino, Guido Calogero, Norberto Bobbio e outros – “E todo socialismo” – asseveram aqueles senhores, por ignorância ou má-fé – “tem por anelo diluir o indivíduo no coletivo, eliminar a autonomia individual, transformar os homens em células simples, em hemácias”.
É bem verdade que se pode atribuir esse objetivo ao nazifascismo. Mussolini, num discurso proferido em 28 de outubro de 1925, vociferou a seguinte frase do filósofo totalitarista Giovanni Gentile: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”; isto é, aos indivíduos se deve subtrair o máximo de autonomia possível (o Estado totalitário ideal é aquele sistema em que “o que não é proibido, é obrigatório”). Hitler, além de concordar com essa premissa, também tinha a rusticidade e a simplicidade como ideal: no Mein Kampf, escreveu que o homem ariano superior deve ser saudável de corpo e apenas “medianamente educado”.
Quanto a Marx e Engels, não defenderam esses pensadores, em nenhum trecho de suas obras, nada que se assemelhe a um “socialismo de formiga”; muito pelo contrário: conforme a epígrafe deste capítulo ("a história social dos homens nada mais é que a história do seu desenvolvimeto individual" - Karl Marx em carta a P. V. Annemkov, 1846), Marx concebia o desenvolvimento histórico – que compreende, obviamente, o período de socialização das forças produtivas e das relações de produção – como um processo, não de absorção do indivíduo pelo todo (de negação da autonomia individual), mas de individualização do homem, isto é, como um “progresso” em cuja esteira, formas cada vez mais ricas de individualidade são geradas.
No Manifesto do partido comunista (1848), o ideal iluminista do indivíduo, como um fim em si mesmo, transparece na asserção segundo a qual a futura sociedade sem classes será uma “associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a garantia do livre desenvolvimento de todos”. Já no ensaio A Ideologia alemã (1846), Marx e Engels descrevem o indivíduo da sociedade comunista como um “homem integral”, não fragmentado pela divisão do trabalho que, segundo o seu desejo, “hoje faz tal coisa, no dia seguinte outra: caça pela manhã, pesca à tarde, cria animais ao anoitecer, critica após o jantar…”; em suma, um indivíduo complexo, multifacetado, livre, nada semelhante ao nazifascista ideal-típico, este sim, um análogo de inseto social.
Além disso, tanto o marxismo (e aqui me refiro ao “marxismo de Marx e Engels”) como o liberalismo – irmãos xifópagos do Iluminismo que, entretanto, não se toleram – não veem o Estado com bons olhos. Se o liberalismo econômico ortodoxo defende o “Estado mínimo”, o marxismo-engelsianismo vai mais longe, propugnando, assim como o faz o anarquismo – inclusive o moderno anarcocapitalismo –, o fim do Estado: a eliminação da sua função política (a administração dos homens) e a absorção pela sociedade civil das suas funções técnico-administrativas, de regulação social. (A propósito, o pensador liberal Karl Popper, levando em conta todas as considerações antes referidas, afirmou, em sua obra prima A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, que “a fé de Marx [...] era fundamentalmente uma fé na sociedade aberta” [1].)
Marx, todavia, em seu opúsculo Crítica ao Programa de Gotha (1875), defendeu que “entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista [sem Estado] está o período de transição política em que o Estado não poderia ser outra coisa senão a ditadura revolucionária do proletariado.”
Essa ideia, interpretada à luz da asserção, também de Marx, segundo a qual “o desenvolvimento superior do indivíduo só é atingido por um processo histórico, ao longo do qual indivíduos são sacrificados” (Teorias da mais-valia, parte II, cap. IX)[2], ensejou uma “concepção jacobina da ditadura do proletariado, a bolchevique”, oposta à “concepção comunal ou anarquista” da mesma, postulada pelo próprio Marx no ensaio A guerra civil em França (1871) e, no século XX, por Rosa Luxemburgo (1871-1919). A interpretação jacobina, ao ser posta em prática, não vacilou em transformar os indivíduos em “meios intercambiáveis a serviço de um projeto revolucionário”; em substituir a exploração do proletariado pelos capitalistas por uma forma inusitada de exploração: a exploração das gerações presentes pelas gerações futuras, isto é, pelas gerações dos homens integrais que advirão com a sociedade comunista (gerações essas representadas e tuteladas, no presente, pela vanguarda revolucionária).
Tal sociedade de transição não poderia ser, senão, totalitária, pois faz dos indivíduos instrumentos para a consecução dos interesses de um Todo – o Todo, nesse caso, é a totalidade do processo histórico, supostamente presidido por leis “férreas” e que têm por fim imanente o comunismo –. A defesa mais transparente, feita sem ambiguidades, desse “totalitarismo-meio” foi apresentada por ninguém menos que Leon Trotski (1879-1940), o teórico do século XX da “revolução permanente”: uma revolução que – como se pode deduzir do adjetivo – tende a atravessar várias gerações, dado que, após eclodir em determinado país, ultrapassa suas fronteiras, desenvolve-se no campo internacional e só termina com a conquista do Mundo.
Trotski, durante o período revolucionário que ficou conhecido como “Comunismo de Guerra” (1918-1921), defendeu a substituição da democracia dos sovietes pela ditadura do Partido Bolchevique, a militarização do trabalho e a estatização dos sindicatos. Tudo isso, no entanto, não como operações táticas a serem mantidas enquanto perdurasse a guerra civil, porém como medidas estratégicas. É o que deixa claro o trecho apresentado a seguir, de um de seus discursos:
Antes de desaparecer [o Estado], a coerção estatal atingirá, durante o período de transição, o seu mais alto grau de intensidade na organização do trabalho […]  Uma luta planificada, sistemática, constante e resoluta deve ser travada contra a deserção do trabalho, em particular publicando listas negras dos desertores do trabalho, formando batalhões penais compostos desses desertores e, finalmente, encerrando-os em campos de concentração[3].
Uma concepção de construção do Estado operário e do processo de assimilação deste Estado pela sociedade civil análoga a dos bolcheviques russos foi defendida pelo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937). Em seus Cadernos do Cárcere, propôs esse filósofo a tese do Estado Integral, ou seja, que na fase imperialista do capitalismo o Estado burguês passou a incluir, além da sociedade política (o exército, a polícia, o aparato burocrático-administrativo e o parlamento), a totalidade dos “aparelhos privados de hegemonia da sociedade civil”.
Essa nova realidade, segundo Gramsci, exige que o partido comunista reveja a sua estratégia revolucionária, substituindo o modelo insurrecional – o qual consiste numa “guerra de movimento” a culminar numa “tomada de assalto” relâmpago do Poder – por uma prolongada “guerra de posição”, isto é, pela paulatina conquista dos “aparelhos de Estado” disseminados por toda a formação social: uma trincheira após outra, uma casamata depois de outra, em seguida os quartéis, um a um, até a destituição do Estado-Maior da burguesia.
Em síntese, a revolução socialista, não mais como “ato” punctual, mas como “processo” a se estender por décadas e décadas, consumindo as energias de várias gerações de trabalhadores e classes aliadas; exigindo, para seu sucesso, disciplina e centralização jamais vistas antes, a submissão completa de todas as forças revolucionárias a um comando único, monolítico: o partido comunista, alcunhado por Gramsci de o Príncipe moderno (em referência ao Príncipe de Nicolau Maquiavel). Nas palavras do próprio Filósofo:
A guerra de posição requer enormes sacrifícios às massas imensas da população. Assim, uma concentração inaudita da hegemonia é necessária e, por consequência, uma forma de governo mais “intervencionista”, que vai tomar a ofensiva mais diretamente contra os oposicionistas e organizar permanentemente a “impossibilidade” de uma desagregação interna – com controle de todo tipo, políticos, administrativos e outros… (QC II, citado por Perry Anderson em seu ensaio As antinomias de Antonio Gramsci, de novembro de 1976, publicado originalmente na New Left Review nº 100).
* * *
Não posso deixar de tratar, neste capítulo, mesmo que somente em grandes linhas, da autocracia stalinista. O totalitarismo criado por Stalin (1879-1953) e sua corriola não se tratava mais de totalitarismo-meio, como o que expus, mas de um totalitarismo-fim “primo” do nazifascista. Destaco que a causa imediata dessa transformação foi a fragorosa derrota da revolução socialista proletária internacional: insucesso, em última análise, decorrente, como aventou Trotski num momento de lucidez e como prova da sua coragem e honestidade intelectual (ver seu opúsculo A Terceira Internacional depois de Lenin, 1939), da “incapacidade congênita do proletariado de se converter em classe dirigente”. Frente a esse falhanço – concluiu o grande revolucionário – “resta somente reconhecer que o programa socialista, baseado nas contradições internas da sociedade capitalista, acabou sendo uma utopia”.
Como não restou da guerra civil nenhuma oposição significativa capaz de varrer os cacos do delírio bolchevique, Stalin cuidou de recompô-los, dando, porém, nova feição ao retalho. Na terra arrasada em que se transformou o País, o plenipotenciário Secretário-Geral do PCUS desinibiu-se: mostrando sua cara de chauvinista grão-russo, esforçou-se para que a teoria revolucionária marxista se transubstanciasse na ideologia de um “socialismo nacional russo” (Arthur Rosenberg, História do bolchevismo, 1932). Feito isso, passou então a se dedicar, assessorado por um séquito composto por tecnocratas pragmáticos e cínicos – e uns poucos velhos bolcheviques reduzidos a zumbis –, ao propósito de modernizar o Império, a “grande mãe mísera e opulenta” (conforme um verso de um poeta da época), de um jeito ou de outro, por meios bárbaros ou não.
Para suprimir o resto das resistências ao seu intento, o tirano pôs em prática um rol de medidas, a saber: a) assassinou o grosso da velha guarda do Partido Bolchevique, quase todos os marxistas-leninistas capazes de pensar por conta própria e ainda aferrados aos ideais da Revolução (com a justificativa descarada de que estaria a eliminar desvios esquerdistas, direitistas e até – acredite! – os de um “centro paralelo”); b) disseminou na população, através dos meios de comunicação sob seu controle, a ideia de que o internacionalismo socialista consistia numa variedade do cosmopolitismo judaico “antimujique”, e o fez, sobretudo, com o propósito de atiçar o antijudaísmo cristalizado do campesinato cristão, na época a classe mais explorada e, consequentemente, a mais necessitada de um bode expiatório para catexizar a agressividade recalcada decorrente de suas frustrações; c)   reduziu o Cominter (Terceira Internacional Comunista) a um instrumento de barganha do Império soviético em suas negociações com as outras potências mundiais; d) transformou os partidos comunistas das outras nações em subsidiárias das embaixadas russas; e) defendeu, parodiando o general prussiano Carl Von Clausewitz, que a política interna é a guerra travada pela polícia. — O feito mais monstruoso do ditador e seus sequazes, porém, foi ter estabelecido a primazia da Política não só sobre a economia, como também sobre a literatura, as artes, a produção científica e quase todas as manifestações da vida privada dos indivíduos.
Por fim, notável foi a maneira como Stalin lidou com a controversa questão da relação entre o socialismo “científico” e a moral e com o principal dilema que ela suscita: “O que garante que, na esteira do movimento irresistível da História – supostamente regido por cegas leis objetivas – esteja se realizando ‘necessariamente’ um progresso ‘moral’ no sentido da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça? Sendo o materialismo histórico uma ciência ocupada com a realidade dos fatos; e se, por força dos fatos, houvermos um dia de concluir que o processo histórico, ao contrário do que antes se imaginava, segue inelutavelmente rumo a uma sociedade fortemente hierarquizada, totalitária, baseada numa nova forma de trabalho escravo, sólida o suficiente para durar milênios? O que fazer, então, se for este o caso?”
Se Marx escamoteou essa questão e se alguns marxistas, aflitos com essa aporia, complementaram seu marxismo com o kantismo[4], Stalin simplesmente eliminou o problema ao considerar “subjetivo como arbitrário e objetivo como científico” [5] e em eleger a objetividade científica como parâmetro universal de conduta. (Considerando, ainda, uma interpretação particular da sentença hegeliana “tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional”.)
Com efeito, no ensaio Problemas econômicos do socialismo na Rússia (1952), seu culto ao objetivismo árido revela-se nas entrelinhas, porém de forma reverberante. Sua ideia é de que o dever de submissão aos ditames da racionalidade histórica não é um imperativo ético, mas uma necessidade econômica e, em última instância, biológica. Opor-se a essa racionalidade natural, ou melhor, “opor-se à Racionalidade”, não é só cortejar a loucura – a negação extrema da objetividade e da razão – como também ir ao encontro da morte; ou, para usar uma expressão darwiniana, condenar-se a ser contrasselecionado. — Digo, de passagem, que essa relação com a “razão” é semelhante à relação de certos povos neolíticos com seus terríveis deuses: apenas para não serem mortos e supliciados por tais divindades, ou por puro masoquismo sublimado, os indivíduos se prostram em seus templos, oferecem-lhes seus mais valiosos bens e, até, como quase fez Abraão, sacrificam um filho.
Para Stalin, o que determina a “superioridade” do socialismo relativamente ao capitalismo nada tem a ver com a Ética (o progresso histórico é alheio à moral), mas com o fato de as relações de produção socialistas serem mais “adequadas” ao grau de desenvolvimento então alcançado pelas forças produtivas e, em consequência, por serem tais relações as únicas capazes de dar seguimento ao desenvolvimento dessas forças. Vê-se, aí, a razão da idolatria “marxista-leninista” do Progresso – substantivo abstrato que, por sinal, também é objeto de culto do cientificismo livre-cambista.
As ciências, inclusive o materialismo histórico, tratam do que “é” (lembro-lhes que as leis “natural-antropológicas” da História “são”); e, para um cientificista hard como Stalin – que não considera qualquer mediação entre juízos de valor e juízos de fato, deduzindo aqueles diretamente destes –, o que “é” “deve ser” e é “bom” que seja.
“Ora” – raciocina o Papa da Igreja Universal da Ciência Marxista-Leninista –, “a violência ‘é’ um meio natural de desenvolvimento, seja biológico (segundo Spencer, na “guerra” pela existência sobrevivem os “fortes”), social (de acordo com essa variante anti-humanista do socialismo “científico”, o motor “automático” da História deflagra “lutas” de classes “violentas” cujo desfecho “sempre” é o aparecimento de formações sociais “superiores”) ou econômico (o porrete do capataz no lombo dos escravos do Gulag faz com que eles produzam mais; ameaçar de prisão o operário faltoso dissuade-o do absenteísmo). Por isso, sendo um meio bom para se atingir o bem biossociológico e econômico, a violência deve ser empregada, é justo lançar mão dela reiteradamente, desde que de forma racional.”
A razão cientificista de Stalin e quejandos, razão monolítica que não admite contestação, é um sucedâneo do Deus único dos monoteísmos, mais precisamente do crudelíssimo Iaweh do Velho Testamento, que se valia da violência extrema para impor o seu desígnio, sendo este desígnio o bem Dele próprio e o dos verdugos ao seu serviço.  
A respeito, ainda, do pensamento de Stalin acerca da relação entre devir histórico e o que Lukács denominou de “a moral dos fins últimos”, o filósofo italiano Lucio Colletti (ex-comunista, atualmente um liberal de esquerda) escreveu:
[conforme a vulgata stalinista do materialismo histórico], a transformação da sociedade, a passagem de um tipo de sociedade a outro, não tem o dever de realizar finalidades humanas. Tem como única finalidade restabelecer o pleno funcionamento da lei causal da “correspondência”. O socialismo [na acepção de Stalin, escandalosamente manifestada nos crimes bárbaros que ele e sua camarilha cometeram] não tem nada a ver com a liberdade. Uma vez restabelecida aquela “correspondência”, ele suporta sem a menor dificuldade inclusive os campos de concentração. — [os adendos entre colchetes e os negritos são meus][6].


[1] POPPER, Karl. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos. Tomo 2, Belo Horizonte: Itatiaia, 1998, p. 206.
[2] Essa teodiceia ou teologia “sacrifical” laicizada também é uma característica do historicismo liberista. Realmente, se, como afirmou o filósofo hegeliano (e importante ideólogo do movimento “neocon” norte-americano) Francis Fukuyama, a História encontra o seu sentido na consolidação do sistema de livre-mercado, Friedrich Hayek, por sua vez, escreveu que “as normas capazes de estabelecer uma ordem extensa [i.é, o capitalismo liberista] hão de se chocar sempre frontalmente com os primitivos instintos que mantêm unidos os pequenos grupos. […] a ordem extensa nunca teria chegado a surgir se não tivesse sido ignorada a recomendação de que todo semelhante deve ser tratado com o mesmo espírito de solidariedade que se dedica a quem habita o entorno mais próximo.” (HAYEK, F. La Fatal Arrogancia: los errores del socialismo. Madrid: Unión Editorial, 1990, pp. 43-44.) Como um véu transparente cobrindo um rosto medonho, esta sentença de Hayek revela uma tentativa de justificação histórica de todos os efeitos colaterais antissociais do processo de generalização das relações mercantis, inclusive dos horrores do colonialismo. (A propósito, ver o interessante ensaio de Jung Mo Sung, Sacrifícios e certezas num mundo de incertezas: neoliberalismo e milenarismo, constante na coletânea organizada por Ênio José da Costa Brito e Waldecy Tenório: Milenarismo e Messianismo Ontem e Hoje. São Paulo: Edições Loyola, 2001, pp. 37-64.)
[3] Citado por BETTELHEIM, Charles, em A luta de classes na União Soviética. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 351.
[4] Leon Trotski, que não era apenas um ideólogo socialista, mas, também, um verdadeiro cientista social, pelo que sei foi o único marxista militante da primeira metade do século XX que admitiu a possibilidade “histórico-materialista” de um “inevitável” coletivismo burocrático e totalitário como modo de produção sucessor do capitalismo. Segundo o Cientista, corroboraria essa conjetura “materialista histórica” (e, ato contínuo, refutaria a hipótese do comunismo) se, no decorrer e logo depois da Segunda Guerra Mundial, o proletariado demonstrasse incapacidade congênita de tomar e manter o poder. Neste caso, os socialistas, de acordo com Trotski, não deveriam abrir mão da luta, suicidar-se, fechar-se na vida privada ou então, resignando-se ao determinismo do materialismo histórico, ingressar na nova classe dominante. Ao contrário, os socialistas teriam o dever moral de continuar lutando em prol dos interesses dos “novos escravos”, tendo por guia da ação um programa mínimo.  Atualmente, sete décadas depois de Trotski ter formulado esta questão (em A Terceira Internacional Depois de Lenin – 1939), estão sendo “falseadas” tanto a previsão comunista como a funesta hipótese do coletivismo burocrático como formação sócio-econômica viável. Decerto, o que parece estar se fortalecendo, em larga medida devido às atividades políticas e sindicais das classes trabalhadoras, é a possibilidade de um capitalismo social cada vez mais democrático – com alguns passageiros “renascimentos saítas” do capitalismo selvagem – e com tendência para culminar num socialismo liberal não-marxista (i.é, não do tipo esboçado, em grandes linhas, no opúsculo Crítica ao Programa de Gotha e no livro de Lenin O Estado e a Revolução). (Essa possibilidade, no entanto, pelo menos em parte da África e do Oriente, concorre com outra: a de um totalitarismo teocrático de existência longa.)
[5] KONDER, Leandro. Op. cit., p 72.
[6] COLLETTI, Lucio. Ultrapassando o marxismo e as ideologias. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1983, p. 37.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

OSSOS E HÁBITOS DO OFÍCIO, BRINCADEIRAS TESTOSTERÔNICAS & BOEMIA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Luís XIV da França: o Rei Sol.
"Nada mais risível que um narcisista paparicado que se leva muito a sério." (Manuel Bulcão)

Ossos e hábitos do ofício, brincadeiras testosterônicas & boemia

I – Happy hour de bancários

“Não leve problemas do trabalho para casa”, determina o bom senso. Mas… E quanto a nós, escritores, que trabalhamos em casa, sob – como se costuma dizer – os “tormentos da criação”? E sem ganhar dinheiro?! Por isso que minha mulher (inteligente e pragmática como todas as advogadas) pediu o divórcio. Decisão sensata.
Quanto aos “hábitos” do ofício, ora, passamos a maior parte do nosso tempo de vigília trabalhando. Tão condicionados ficamos que impossível não levá-los para onde quer que vamos.
A propósito, lembro-me da época em que fui bancário (escriturário do extinto BEC). Nas sextas-feiras à noite relaxávamos eu e outros – todos estes estudantes ou formados em Contabilidade – pelos bares da Avenida Tristão Gonçalves. Pois, bêbados ou não, em qualquer conversa manifestavam sua “visão contábil do mundo”. Exemplo: à luz de um globo colorido e giratório, contei a um deles que, logo após o big bang, igual era a quantidade de matéria e de antimatéria – sim, meu papo sempre foi teórico, abstrato e chatíssimo –; que houve um processo de aniquilamento mútuo, restando, como refugo, um oceano de fótons e ínfima quantidade de matéria: esta de que nós somos feitos. Meu insólito ouvinte, com ar de espanto, exclamou: “Então quer dizer que somos parte do patrimônio líquido do universo!”.
Noutra dessas “noites no século”, o mais feio e desengonçado deles – do tipo que, por mais caríssimas que sejam as roupas de griffe que vista, em vez de elegante fica só “enfeitado” – afirmou, jactando-se, estar namorando uma mulher casada. O único que acreditou passou-lhe um sermão: “Essa senhora” – nestes termos falou – “é um crédito indevidamente lançado no livro-caixa da sua vida. Estorne-a!”
Havia, ainda, o poeta da turma (*). Romântico – sim, empacou no romantismo –, costumava afetar profunda introspecção e melancolia (ou, como ele preferia chamar, tedium vitae), principalmente na frente de mulheres, entre as quais escolhia, para namorar, a mais “bandida”: só para ser corno (outra vez, sempre) o mais rápido possível, curtir aos prantos a dor de cotovelo e ter inspiração para escrever poemas — versos que recitava para outra musa “com cara de safada” num eterno retorno de dar piedade. Por sinal, ele lembrava muito aquele poema Elegia desesperada, em que Vinicius de Moraes roga a Deus que tenha piedade das meninas feiosas que, na adolescência, adquirem buço, dos que andam de ônibus, dos que empobreceram, dos práticos de farmácia que queriam mesmo ser médicos, dos ficcionistas frustrados que, para compensar, tornam-se ensaístas (poxa, o Vinicius foi muito cruel!) e, também, “muita (sic) piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta…”.
Pois, também bacharel em Contabilidade, às vezes, prospectando minudências de sublimes mistérios – como o único centavo que faltou para fechar o balancete – nas profundezas abissais do seu espírito, levantava-se da mesa, saía do bar e, na calçada (um cigarro no canto da boca, parecendo o Bogart) contemplava o firmamento infinito — contemplação à maneira contábil; isto é, ficava a “contar” as estrelas e com o cuidado de não deixar passar nenhuma célula falsa: “Uma, duas, três, quatro… não, aquilo é um avião… quatro, cinco, seis, sete…”.
Seu insight poético mais hilário e criativo, porém, foi na vez em que, agraciado não com um chifrezinho qualquer, mas com uma galharda do já extinto alce canadense (a maior entre todas as registradas nos anais tanto da zoologia como da paleontologia e também seria, caso existisse, da teratoexoesqueletologia), abraçou-me aos soluços e desabafou: “Bulcão, minha autoestima nunca esteve com o passivo tão a descoberto!”. “Ó que bela metáfora!”, foi o que me saiu da boca. Ele, mesmo chorando, abriu leve sorriso. “Obrigado…”, balbuciou, comovido com o elogio.
E por falar em poetas, estes, tanto os profissionais (isto é, os raríssimos que vivem do seu ofício literário) como os permanentemente desempregados (em cada esquina existem pelo menos doze) mantêm o cérebro operando, o tempo todo, no modo mágico-poético. Em tudo vêem metáforas e metonímias — e se rimarem, melhor. Um mundo, portanto, literalmente onírico e de tal modo fantástico que, estando o poeta em saias justas ou situações-limites, de seus atos e palavras podem surgir imagens as mais inusitadas e de uma criatividade que somente os deuses, “quando ainda crianças”, são capazes de manifestar. Conheço um caso bem ilustrativo. Não sei se devo contá-lo… Vou!
Meu saudoso amigo Francisco Moreira Júnior (“Bigo”, entre os mais íntimos), poeta (um dos mais criativos que já conheci), nos episódios maníacos do seu transtorno bipolar, perdia o controle sobre as pulsões eróticas do id. Em consequência disso, flagrei-o, num recanto escuro do campus do Benfica, dando o maior amasso na garota com quem eu estava “ficando” (aviso que, na época, eu ainda era solteiro!). Pareciam dois animais!… Bem, na verdade não — pelo menos não conheço nenhum animal que saiba fazer aquilo. A menina, morta de vergonha, limpou as mãos na calcinha e as levou ao rosto. Quanto ao Moreira, antes de meter o pé na carreira, disse-me a seguinte pérola: — “Bulcão, pelo amor de Deus entenda tudo isso no sentido figurado!”

NOTA
(*) Para evitar mal entendidos, ressalvo que o referido personagem não é um poeta que, por acaso, é bancário (lembro que James Joyce foi bancário), mas o ideal-típico “poeta do pedaço”. Aquele cria por necessidade interna; este é motivado tão somente pelo glamour do ofício. Não lê nada. E sempre que se depara com uma moça solitária, ato contínuo leva a mão ao coldre e tira a caneta e uma caderneta. E haja a rimar, forçando a barra, "arrebol" com "asseptol", "colombina" com "aspirina", "aurora boreal" com "flora intestinal". Costuma levar muita surra dos namorados das assediadas.
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II – Um novo homem
(Crônica de uma desvirginada com um toque lírico, outro cômico e uma pitada de Bukowski)

O amor não é o amor de Feuerbach pela humanidade, nem o amor de Moleschott pelo metabolismo, nem sequer o amor ao proletariado, mas o amor pela bem amada. O amor por ti permite ao homem tornar-se novamente homem.
Karl Marx, carta a sua esposa Jenny (1856)

Conheci Nina quando era estudante de Biologia da Universidade Federal e um revolucionário comunista.  Na época — logo depois da dissolução da URSS —, ganhava a vida como professor de cursos noturnos para vestibulandos, e tirava das horas de descanso o tempo sem o qual não caberiam, no dia a dia, todas as atividades que exercia: as militâncias sindical e estudantil, os estudos universitários, a leitura dos clássicos do marxismo e a faina do magistério. Dormindo mal, alimentando-me pessimamente, era magérrimo e anêmico (por troça, diziam que minha cor era branco-agonia). Mas eu gostava daquela aparência de vampiro. Via naquela compleição de quem sofre de porfiria terminal o atestado da renúncia aos mesquinhos prazeres do individualismo burguês e da absoluta entrega aos interesses históricos do proletariado.
Pois, certa madrugada, quando, no meu quarto-e-sala, corrigia testes de alunos, ouvi gritos na rua, logo abafados pelo ladrar dos cães das redondezas. Não dei atenção. Um bêbado, certamente – pensei –, ou um viciado atrás de boca de fumo que acabara de ser assaltado. Mas a voz grave perseverou até se sobrepor à algazarra canina. Percebi, então, que era por mim que chamava: “Alex! Ô Alexandre!”. Fui à janela e divisei pelas persianas um casal. O homem acenou. Era Gervásio, membro do Comitê Central do Coletivo Rodolfo Coutinho – Secção Brasileira do CPQI, a organização trotskista a qual eu pertencia. Quanto à mulher… não era Natacha, sua companheira.
Naquele pardieiro não havia interfone nem sistema de controle remoto, e o horário do porteiro terminava às dez da noite. Peguei o chaveiro e desci, às apalpadelas, seis vãos escuros de escada, chutando gatos e tropeçando em embriagados comatosos. Abri o portão do átrio e abracei meu camarada. Seguiram-se as apresentações:
“Alex, esta é Nina Mainardi. Nina, este é Alexandre Matos.”
“Muito prazer.” Disse, estendendo o braço para a moça. Ela segurou minha mão e puxou-me para junto de si, envolvendo-me, beijando-me as fácies hipocráticas. Graças à minha ultrassensibilidade sinestésica de virgem tardio, senti, no contato do seu corpo com o meu, todas as propriedades dos seus mamilos: eram pequenos, mais para cor-de-rosa do que para marrom e estavam enrugados, provavelmente devido à friagem. E cheiravam a azul de metileno (sinestesia é isso: anormalidade neurológica em que sensações diversas evocam-se arbitrariamente, com no poema Vogais de Rimbaud).
“Ah, então você é o Alex!”, exclamou Nina, “a maior autoridade em Hegel do Ceará…”
“Não! De todo o norte-nordeste brasileiro!”, Retificou Gervásio, que costumava superestimar os amigos, elevando-nos a latitudes polares.
“Pobre cantão este cujo maior conhecedor de Hegel é um rapazola que só fala português e a língua do ‘P’, quando todo mundo sabe que só é possível filosofar em alemão.” — Era esta a frase inteligente que eu ia dizer, com aquela inflexão que acusa falsa modéstia e, ao mesmo tempo, sub-repticiamente, uma real modéstia (tinha lido em algum lugar que a ambiguidade é sedutora). Mas, em vez disso, o que saiu em meio ao ricto e à cuspideira foram tão-somente interjeições cretino-microencefálicas, alguma coisa como “Ah! Como? Que é isso! Guê… ri ri ri!”.
Isso sempre acontecia. Toda vez que uma mulher não muito feia olhava para mim — e não, como normalmente, “através” de mim —, sorrindo e me afagando com palavras doces, todo o sangue das minhas pernas e genitália fluía para o rosto, acometia-me uma sudorese e nada que prestasse saía da minha boca.
Por algum tempo, sob o olhar de Nina, permaneci catatônico, enxugando as mãos na camisa, até que uma turba ruidosa dobrou a esquina. Os cachorros voltaram a latir.
“Alexandre”, interveio Gervásio, “nos convide para entrar antes que esses lúmpens resolvam nos recepcionar à maneira deles!”
* * *
Duas semanas atrás fora com Gervásio ao aeroporto. Conversamos sobre política e bebemos café até o seu avião decolar rumo à Buenos Aires, onde se realizaria o II Congresso do CPQI (Comitê Pró-Quarta Internacional). Gervásio levava apenas bagagem de mão. Agora, de volta, sem ter passado antes por sua casa, irrompe em meu quarto-e-sala à uma da madrugada, com um belo espécime do sexo feminino e uma mala abarrotada, além da sua mochila cáqui. Ao vê-lo colocar a bagagem junto da minha cama, veio-me à mente uma suposição pavorosa: “será que ele está de caso com essa moça e, decidido a se separar de Natacha, veio-me pedir abrigo?” — A situação era complicadíssima, pois o apartamento consistia numa quitinete dividida ao meio por um biombo de madeira compensada; espaço insuficiente, portanto, para três pessoas, e muito mais para alojar ao mesmo tempo um casal em lua-de-mel e um donzel onanista. Além do mais, eu era obsessivo-compulsivo, um sujeito cheio de cacoetes e manias inconfessáveis que, por isso, zelava muito pela privacidade. Eram tantos os meus bloqueios!… Por exemplo: não conseguia urinar em banheiro público, e quando, sentado numa privada, alguém mexia no trinco da porta, todos os meus esfíncteres se contraiam por não menos de uma hora — eu era o rei da prisão de ventre.
O problema maior era que, se fosse este o caso, não havia como recusar, pois incrível era a minha dificuldade de dizer não, quase nunca dizia não. “Oh Deus!” — Pensei, começando a entrar em pânico. — “Como sobreviverei nessa condição?”. Sentindo as forças faltarem e o ar se rarefazer, procurei a poltrona, mas Nina já estava lá, esplendidamente acomodada. Ouvi Gervásio me dizer alguma coisa. Nada entendi. Ele continuou falando cada vez mais alto. Mesmo assim, embora identificasse uma e outra palavra, não conseguia apreender o sentido das frases. Então ele me segurou firme pelos ombros, sacudiu-me e gritou:
“Alex! Que foi que houve? Não está passando bem?”
“Quê? Oh, não foi nada”, respondi, reanimado pelos solavancos. “Apenas uma vertigem. Ontem trabalhei muito, não tive tempo sequer para comer.”
“De qualquer modo, a Natacha está vindo me pegar de carro. Caso não melhore, a gente o leva ao pronto-socorro.”
“Ah, vocês não vão ficar para dormir? Que pena… Não, insisto que pernoitem!” Disse, sentindo-me completamente recomposto.
“Eu vou pra casa, mas a Nina fica.” Falou enquanto tirava da mochila duas garrafas de vinho argentino. “Mas antes vamos degustar um Cabernet Sauvignon com pedigree, muito diferente desses vinagres que se costuma beber por aqui.”
Enquanto pegava no armário copos e o saca-rolha, Gervásio colocou no toca-fitas meu cassete de cabeceira: uma coletânea de músicas de compositores engajados. Do meio da chiadeira a voz de Mercedes Sosa prorrompeu: Despues de vivir un siglo / Es como descifrar signos / Sin ser sabio competente / Volver a ser de repente…
Nina entrou no banheiro com toalha, sabonete, xampu, creme rinse, um pote de hidratante e roupas limpas.  Iria demorar ali pelo menos uma hora. Na ausência dela, Gervásio me puxou até a janela e, em voz baixa, disse-me:
“Alex, o negócio é o seguinte: a camarada Nina é uma profissional da Organização e um dos nossos quadros mais promissores. É formada em Sociologia pela PUC de São Paulo. Por decisão do comitê central, vai ficar aqui por algum tempo ministrando cursos de formação política para militantes e simpatizantes. Eu iria hospedá-la em minha casa, mas dona Leda, quando a consultei por telefone lá da Argentina, fez o maior escarcéu. Disse: ‘Ou eu ou essa macaca’. Como você sabe, minha mãe está cada vez mais ranzinza. Aproveita-se da condição de proprietária do imóvel para me humilhar. Então pensei que você poderia quebrar esse galho. Afinal, temos aqui dois compartimentos, além do banheiro. Você pode ficar em um e ela no outro; ou talvez” — cochichou-me com sorriso sátiro — “podem até compartilhar a mesma cama. Hein, hein?”
Então devaneei, imaginando aquela mulher cor de neve, com seus cabelos lisos e negros à la chanel emoldurando o rosto dolicocéfalo e o longo pescoço, andando pelo apartamento só de calcinha ou apenas de blusão, com olhar progesterônico – essa metáfora é de um grande poeta da terra – de “me pine” – já essa é minha –, pronunciando meu nome com sua voz rouca e aveludada (é clichê, mas é lindo!), preparando meu café da manhã e – the best of the best! – achando charmosíssimas todas as minhas excentricidades. Sem pensar outra vez, assenti entusiasticamente:
“Tudo bem, não há nenhum problema. Você sabe que o meu quarto-e-sala é um aparelho da Organização acessível a todos os militantes, a qualquer hora e… friso: pelo tempo que quiserem!”
Eufórico, quase hipomaníaco, abri uma das garrafas. Enchi dois copos e ergui o meu, propondo um brinde: “Às resoluções do II Congresso!”. Gervásio balançou negativamente a cabeça.
“Onde já se viu”, reclamou, “beber Cabernet Sauvignon em copo de geleia descartável! Você não tem taças apropriadas?”
“Rapaz, seja comunista e deixe de frescura!”
Mesmo contrariado segurou o copo, girou-o na palma da mão e, com pose de enólogo, analisou detidamente a cor da bebida, sua consistência e a aderência do líquido no vidro; aspirou o buquê, sorveu um pouco o conteúdo, bochechou-o, degustou-o revirando e arregalando os olhos (se estivesse usando pincenê, este teria caído) e finalmente engoliu. Depois começou a dissertar sobre uvas viníferas. 
Fiquei perplexo com o seu suposto saber enológico, adquirido em tão pouco tempo. Ele, que até duas semanas só bebia vodca com refrigerante de laranja ou caipirinha, agora explanava sobre vinhos com a desenvoltura de um francês de Bordeaux. Da sua boca saíam expressões tais como “teor de tanino”, “bouquet do tinto”, “aroma do branco”, “sabor frutado” entre outras. Falou das combinações ideais entre pratos e vinhos (infelizmente, não tínhamos queijo Cheddar ou Camembert para acompanhar o Cabernet — na minha geladeira, além de garrafas com água e cubos de gelo só havia meia dúzia de ovos, e para este alimento, como fiquei sabendo, o vinho apropriado é o Sauvignon Blanc).
Quando então comentava sobre o alto grau de toxidade dos vinhos tintos de mesa vendidos em garrafões (puro suco de anilina alcoolizado, segundo ele), Nina saiu do banheiro e toda a quitinete foi tomada pela fragrância do jasmim com azul de metileno. Ainda enxugando os cabelos, vestindo uma camiseta sem mangas e um short folgado que deixava metade das coxas descobertas, sentou-se na cadeira da escrivaninha e, nos vendo beber, fingiu-se de zangada.
“Ah, não esperaram por mim!”
Enchi outro copo e quando lhe fui entregar dei com o pé numa pilha de livros, derramando metade do vinho.
“Valha minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, isso é um pecado!”, gritou o ateu Gervásio, sorrindo e nos olhando. Eu e Nina, descontraídos e para agradar o rapaz, caímos na gargalhada.
* * *
A parolagem seguia animada: conversávamos sobre vinhos, os dois bêbados capotados na escadaria do prédio, os rufiões que quase nos abordaram, as músicas que estávamos a ouvir… Nenhuma palavra, porém, ainda fora dita sobre o II Congresso do CPQI. Mas quando, no toca-fitas, Jorge Mautner com seu violino começou a tocar o hino da Internacional Comunista, Nina e Gervásio se calaram e toda a alegria arrefeceu-se. Trocaram olhares escrutinadores até Nina romper o silêncio:
“Não vamos informá-lo do que aconteceu no Congresso?”
“Prefiro deixar isso para mais tarde”, bocejou Gervásio, “estou muito cansado. E a Natacha que não chega!…”
“Mas me adiantem alguma coisa!”, Insisti.
“Quer mesmo saber a verdade?”, perguntou Gervásio. “Pois a verdade é que o CPQI não tem futuro, vai morrer prematuramente por má-formação congênita. Houve dissensões de todos os tipos: sobre conjunturas nacionais, o caráter das insurreições no leste europeu e mesmo questionamentos de alguns pontos do Programa de Transição. No fim, uma única resolução foi tirada: a realização de outro congresso com data e local a serem marcados, onde se resolverão as questões pendentes, isto é, todas. Mas ninguém saiu de lá acreditando que tal congresso se realizará. Aliás, este fiasco é o motivo da presença de Nina aqui. Faremos vários cursos de formação política tendo em vista fortalecer os laços ideológicos entre os militantes e impedir qualquer inserção em nossas fileiras dos neolambertistas e do trânsfuga paulista cujo nome me recuso a pronunciar.”
E continuou falando febrilmente, o discurso cada vez mais carregado de “trotsquês”, até que um automóvel buzinou. Era Natacha. Desci com Gervásio para abrir o portão. Depois de alguns beijos, abraços e recomendações, despedimo-nos.
Quando voltei, Nina, debruçada na janela, ainda bebia. Perguntei-lhe se não estava com sono. Ela respondeu que não, nem um pouco, pois havia dormido no avião durante toda a viagem.
“E você?”, quis ela saber. “Já são quatro da manhã e hoje é quinta. Não terá que trabalhar mais tarde?
“Oh não! Estou de folga.” Na verdade, eu estava abarrotado tarefas.
Ela encheu mais dois copos com aquele Cabernet travoso e foi até a estante.
“Então vamos ver o que você tem aqui.” Disse, manuseando meus poucos long-plays.
* * *
(Entre os comunistas, os trotskistas são os mais cerebrais. Quando, numa festinha de aniversário – e depois de se embriagarem com ponche – um deles conta uma piada, aqueles que, por meio da leitura de alguns filósofos tardios da Escola de Praga, assimilaram algo do método de Husserl, recolhem-se para proceder a uma epochê, isto é, uma redução fenomenológica em que se põe entre parênteses o politicamente correto para, deste modo, extrair o eidos hilário. Tem-se que esperar uma semana pelo riso deles. Ou então por um relatório crítico enumerando as capitulações pequeno-burguesas, o que quase sempre enseja rachas. Como esta história nada tem de realismo mágico, ao contrário, aconteceu realmente da maneira mais lógico-conceitual possível, sinto-me obrigado a reproduzir uma altercação teórica insólita entre mim e Nina. Para facilitar a compreensão de quem nunca foi trotskista ou não manteve contatos imediatos de segundo ou terceiro grau com o trotskismo, acrescentei algumas notas de rodapé. Desculpem-me.)
“Ah, Bob Dylan! Eu gosto, mas este não é o Dylan em sua melhor fase”, disse Nina.
Apesar da objeção, pôs Nashville Skyline, o disco country de Dylan, na vitrola.
Tentei me inocentar alegando que ganhara aquele disco na última festa de fim de ano, no sorteio do amigo secreto.
“E o que deu em troca?”
“Um estojo de sabonetes Palmolive.”
“É… Acho que você não perdeu muito.”
Como toda criatura humana, gosto de música, porém não sou do tipo aficionado. Numa granulação grosseira do ponto de vista informático, até consigo, nesta esfera da arte, discernir o bom do ruim. Naquela época, no entanto, eu achava que, de posse de uma boa biblioteca, podia viver no silêncio absoluto pelo resto da vida.
  Quanto àquele disco, eu o ouvira meia dúzia de vezes, e algumas faixas me agradaram. Além do mais, fiquei confuso com o comportamento de Nina, de repulsa e receptividade ao mesmo tempo. Então lhe perguntei sobre o critério que ela se valia para distinguir o bom do mau Dylan.
“O melhor Dylan”, respondeu ela, “é o compositor de folck music, o que gravou The Freewheelin e compôs as músicas Blawin’In The Wind e Master of War.  Depois, descambou para o escapismo pequeno-burguês cult, blues-rock, para o brega country, atingindo o fundo do poço quando virou autor de gospel.
“Mas você não acha o country de Dylan tão bom como o seu folck, do ponto de vista estritamente musical?”, indaguei.
“Pode até ser, mas isso apenas prova que a beleza não basta em uma obra de arte. Em Auschwitz, a orquestra dos judeus cativos tocava Schumann tanto para alegrar os carrascos como para anestesiar os condenados. E aí?”
“E aí é que isso atesta que nazistas e judeus eram humanos e não indivíduos de espécies diferentes, lobos e ovelhas, ou melhor, super-homens e subumanos: razão suficiente para refutar o racismo. Além disso, se levarmos o seu argumento às últimas consequências, então temos que renegar toda e qualquer música puramente instrumental e só considerar como autênticas apenas composições vocais com conteúdo literário. Ridículo, não é? Mas saiba que essa proposta foi defendida por alguns estetas stalinistas. Aliás, você já assistiu ao filme nacionalista grão-russo Alexander Nevsky, dirigido por Eisenstein sob pressão e orientação de Stalin? Pois bem, toda a sua trilha sonora é uma cantata (1). Sinceramente” — arrematei, com a certeza de que a aniquilaria — “suas alegações estão fora de sintonia com o que Trotski defendeu em sua obra Literatura e revolução. Cheira-me a Proletkult, realismo socialista, Zdhanov…”
“A-ha, então tudo que o papai Trotski escreveu no seu livro sobre arte o filhinho diz amém. Você não acha que está precisando de uma psicoterapia?”
“Olha só quem fala”, rebati, “a líder revolucionária que jamais arreda um milímetro do Programa de Transição! (2) Está claro que quem anda atrás de um substituto do pai é você; eu preciso é de uma mãe!” — Esta última frase saiu de súbito, irrefletidamente: um ruído estocástico provocado pelo calor da discussão. Por conta disso, tive que suportar uma risada debochada.
* * *
Em minha conversa com Nina, sentia-me não só muito loquaz como bastante agressivo (agressividade viril, não raivosa). Seria apenas efeito do vinho? Não. Antes, às onze da noite, havia tomado dois comprimidos de anfetamina para poder varar a madrugada corrigindo provas. A combinação com o álcool e com o extra de testosterona no sangue (consequência do domínio daquela mulher sobre todos os meus sentidos) fez a lombra. Como estava me sentindo muito bem e querendo ficar melhor, resolvi tomar outra pílula.
“O que você está pegando na gaveta?”, perguntou Nina.
“Bolinhas.”
“Ah, eu também quero.”
* * *
Quando tocava Peggy day, Nina me puxou para dançar. (Foi quando me dei conta de que, para aquela mulher fálica, discussões ásperas a dois são carícias preliminares.) Terminou a música, começou One more night e continuamos dançando. Nina, olhando-me ternamente, disse que eu me parecia com o Fábio Júnior. Achei engraçado (“Ah! Como? Que é isso! Guê… ri ri ri!”), pois a maioria dos que me conheciam — principalmente as crianças — considerava-me a cara do Salsicha do cartum Scooby-Doo.
De repente, em meus braços, Nina deu um grito. “O que houve?”. Sentei na cama e “ela se acomodou no meu colo”. Disse-me que foi apenas uma distensão muscular e me pediu para lhe fazer uma massagem. Massageando-a e olhando o sulco de suas nádegas sob a malha translúcida, inacreditavelmente tive uma ereção. Ao sentir o volume, Nina tirou a camiseta e se deitou. Seus mamilos, do jeito que eu os imaginara — pequenos e rosados —, pareciam me fitar. Então lhe arranquei o short com os dentes e, antes de me precipitar em seu busto, beijei-lhe a boca.
Mais carente de ternura do que de sexo, desejei que aquele beijo durasse a eternidade.
Não há dia em que eu não contemple a tatuagem de um êxtase: no momento do orgasmo, Nina, eu e a alvorada éramos uma coisa só.
* * *
Onze horas da manhã desci para comprar pão, margarina, queijo, leite, mortadela, aspirinas e um garrafão de vinho tinto de mesa. O céu estava límpido, o dia estava lindo, eu não era mais virgem e lá em casa uma mulher nua me esperava. Sentindo-me estranho, com o corpo todo dolorido, porém extraordinariamente feliz, de bem com a vida — sentimento perigoso para um revolucionário —, comecei a cantarolar uma balada de John Lennon e Yoko Ono:
Oh! My love
For the first time in my life
My eyes are wide open… (3)

NOTAS
(1) Cantata: gênero de música vocal-instrumental de origem religiosa.
(2) O Programa de transição foi elaborado por Leon Trotski, revolucionário russo dissidente, para servir de guia de ação da nova internacional comunista, a quarta, fundada em 1938. Depois do seu assassinato em 1940, lutas intestinas reduziram a QI a uma miríade de correntes mutuamente hostis. Uma confissão do autor: embora pós-trotskista, não sou “parricida”: mantenho fortes laços afetivos com o Velho (afinal, não se pode discordar do pai?); tanto que, em uma das paredes do meu quarto, há gravura do seu rosto junto com as de Marx, Engels, Kropotkin, Ho Chi Minh e Gretchen.
(3) “Oh, meu amor / Pela primeira vez na vida / Meus olhos estão abertos…”.

Manuel Soares Bulcão Neto
2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

FACIES HIPPOCRATICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


O texto abaixo é seção de um dos ensaios do meu livro Contra o princípio copernicano. Nesse ensaio, em que trato do questionamento do Ser na ficção literária, após dissertar sobre os mais excêntricos personagens da literatura russa intoxicados pelo Absoluto e outras questões metafísicas – a maioria por (pré-) maluquice, feiúra celibatária, falta do que fazer ou tudo isso junto –, seguem-se as linhas aqui transcritas.
O livro está escrito, passando por revisões. É dedicado ao poeta Carlos Nóbrega e ao meu pai (minha última tentativa de superar o complexo de Édipo e deixar de ser tão infantil). Infelizmente, estou muito doente: liseira crônica fatal; logo, sem condições para financiar a publicação. Mesmo assim, com a maior cara, ou melhor, “fácies hipocrática” de pau, ando atrás de editoras, enchendo-lhes o saco. Não é possível que, entre essas “personalidades” jurídicas (personalidades!) não exista alguma com alma caridosa que facilite as coisas o máximo possível — até o limite entre a ordem e o caos. (Manuel Bulcão)


Facies hippocratica


Manuel Soares Bulcão Neto
(Trecho do livro Contra o princípio copernicano)


A personalidade fictícia da literatura russa que considero a mais perturbadora, porém, não está entre os marginais: os obcecados por grandes questões metafísicas (Chátov, Kirílov, Ivan Karamázov…) cujos impactos no pensamento pouco ecoam no coração comum; os intelectuais de alma pequena resignados ao tédio (Bazárov, Raskólhnikov…)[i] ou que nele alicerçam distopias genocidas (Chigáliev, Piotr Stiepânovitch…); os párias da aristocracia (Nikolai Stavróguin); os dissolutos, picarescos, humilhados e ofendidos.
Estranhamente, o personagem mais profundo – creio – não é nenhum excêntrico cuja idiossincrasia – assim pensa muita gente asséptica – constitui ameaça ao bem-estar social: o “irresponsável”, o “antissocial”, o “louco” por opção estética que as pessoas normais – pais provedores, pessoas produtivas sem as quais a sociedade não se manteria – olham de esguelha, na melhor das hipóteses com a curiosidade de quem se depara com algo exótico; na maioria das vezes, entretanto, com desconfiança e ar de reprovação. — “Se morrer não fará falta, nem me causará compaixão”, afirmam mesmo alguns — falta de empatia pelo “diferente” que evoca o alemão “normal” do III Reich, nazista de carteirinha.
Esse alter ego que se confunde com nossa própria sombra, reproduzido nas letras geniais de Leon Tolstói, é o homem normal “que venceu na vida” e em sua curta sobrevida de doente terminal. Trata-se do Conselheiro da Corte de Apelação Ivan Ilitch.
Desenvolto ou reprimido, Ivan Ilitch está em cada um de nós. Homem mediano com o saudável desejo de reconhecimento social, retroalimentando-se com testosterona a cada sucesso, sempre querendo mais. “Como inseto atraído pela luz” – assim o descreve Tolstói – “sente-se arrastado para o convívio dos que têm status mais elevado, assimilando-lhes as maneiras e a concepção de mundo.” É competitivo, porém não selvagem (i.e., segue regras); competitividade que, mesmo urbana, implica alguma ambivalência emocional em relação aos outros. Casou-se com Praskóvia porque, assim procedendo, “faria jus às pessoas que formavam a alta sociedade”. E não era tão feia.
Esforçava-se – atitude natural – para “manter a aparência exigida pela opinião pública.” Era gentil, correto e mesmo amigável com os que dependiam dele, porém de maneira tal – mantendo sutis entrelinhas – para lhes fazer sentir que poderia esmagá-los. (A consciência desse poder “temperado” era o maior atrativo das suas funções em cargos públicos que lhe conferiam autoridade.)
Aprazia-se quando ultrapassava colegas na hierarquia, evitava parentes pobres, afastava-se dos amigos que não o acompanhavam na escalada social. — E todos “os normais” agiam uns com os outros mais ou menos do mesmo modo.
A única relação desinteressada entre ele e seus colegas – a que lhe dava “verdadeira alegria” – era a do carteado: partidas de whist a quatro.
Até que Ilitch adoeceu. “Gosto estranho na boca, mal-estar no lado esquerdo do ventre.” Os médicos não se entendiam quanto ao diagnóstico. Passaram-se meses e só piorava. Tornou-se lamuriento, irritadiço, ao ponto de a esposa e a filha o isolarem “num quartinho contíguo ao gabinete”. Amigos deixaram de visitá-lo: seus sofrimentos incomodavam como a visão de um cão sarnento. E – c’est la vie… – tinham mais o que fazer. A mulher culpava-o pela doença: “não toma os remédios corretamente!”, “faz cena para me atormentar!” — Secretamente, começaram a desejar sua morte. Melhor para todo mundo. No tribunal, especulavam sobre as alterações que acarretaria a vacância do seu cargo. Praskóvia já calculava a pensão.
Enquanto isso, Ivan Ilitch, abandonado no quarto, foi-se afeiçoando de Guerássim, seu criado. Percebendo a humanidade daquela pessoa humilde, deu-se conta também da sua. [ii] Sentiu nojo das pessoas de sua classe. “Terão que passar pelo mesmo que eu. Mas agora se rejubilam, os estúpidos, os animais!” E regozijava-se com essa certeza.
Sempre pensara na morte como algo impessoal: “morre-se”. Então, de chofre – num insight – conjugou pela primeira vez o verbo na primeira pessoa do singular. Horror! “Gritou sem cessar três dias seguidos.” Com exceção do criado, aos outros não era tanto a dor e desespero de Ivan – do esposo, do pai, do amigo… – que incomodava. Era o barulho.
Em certo momento do seu extremo sofrimento, Ivan Ilitch pensou “que sua vida não foi o que deveria ter sido”. Era, no entanto, demasiado vivaz. Melhor a vida errada que nada. “… Não, não! Tudo é preferível à morte!” — E se assim pensou, então escapou do fracasso absoluto:

Fracassar
É desejar não ter nascido
No instante da morte. [iii]

“Acabou-se a morte! — disse Ivan Ilitch de si para si. — Ela não existe mais.” — E morreu.
No funeral, seus colegas (achando tudo muito maçante) dirigiam-se à Praskóvia “com lábios premidos, sérios e olhar risonho.” Com piscadelas e sussurros, decidiam sobre o lugar onde jogariam whist naquela noite.
Diante do caixão, porém, sentiam-se perturbados: “O rosto do morto tornara-se mais belo e, sobretudo, significativo. Além disso, exprimia uma censura e uma advertência dirigida aos vivos.” [iv]






[i] Raskólhnikov, protagonista do romance Crime e castigo de Dostoiévski, pertence àquela intelligentsia lúmpen que extrai a autoestima do conhecimento acadêmico científico que possui, o que faz dele membro de minoria seleta. No pano de fundo newtoniano (físico-clássico) da sua visão de mundo, nada existe além de relações de forças (por conseguinte, na sociedade, tão-somente relações de poder). Entediava-se com a doxa das pessoas comuns. Até que, vendo-se em situação de pobreza, e se considerando, graças à ciência, um vivente acima do bem e do mal, assassinou duas pobres mulheres para se apossar de suas economias. (afinal, o que são duas carolas e suas anáguas diante do infinito do espaço e do tempo?). De uma coisa, porém, Raskólhnikov não se deu conta: além do neocórtex prenhe de ideias abstratas, também possuía um “primitivo” hipotálamo mamífero. E deu no que deu: numa história de tirar o fôlego.
[ii] Ivan Ilitch ao menos teve a sorte de ter como último companheiro um homem como Guerássim. A esmagadora maioria de enfermos em sua condição, ao contrário, vive seus últimos dias sob a tirania de pobres-diabos ressentidos e sádicos.
[iii] Poema Fracasso (Manuel Soares Bulcão Neto).
[iv] TOLSTÓI, Leon. A morte de Ivan Ilitch / Senhores e servos. Tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 20.
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