quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ANTI-HUMANISMO E SEUS BODES AMOROSOS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Karl Marx (1818–1883), Friedrich Engels (1820–1895), and Marx's daughters: Jenny Caroline, (1844–1883), Jenny Laura, (1845–1911), and Jenny Julia Eleanor (1855–1892)

* * *


“O AMOR não é o amor de Feuerbach pela Humanidade, nem o amor de Moleschott pelo Metabolismo, nem sequer o amor ao Proletariado, mas o amor pela bem amada, o amor por ti, permite ao homem tornar-se novamente homem.”

KARL MARX em uma carta para sua esposa JENNY
(Manchester, 1856)

______________________________________________________

“Ideias, símbolos, espíritos e deuses dispõem não só de uma realidade subjetiva, mas também de uma certa autonomia objetiva. Produzidos pelos cérebros, tornam-se vivos de um tipo novo, e os cérebros, sendo sistemas fracamente controlados, são como aprendizes de feiticeiros em relação àqueles seres”.

Edgar Morin





O ovo: razão de ser da galinha

Depois que Richard Dawkins esboçou a teoria dos memes – a hipótese de que as idéias são seres autônomos autorreplicadores cujo hábitat é o cérebro humano –, tem gente falando por aí que um erudito não passa de um artifício que uma biblioteca usa para produzir outras bibliotecas. Trata-se de uma versão original daquela frase disparatada de Samuel Butler, “uma galinha é um meio que um ovo usa para produzir outros ovos”, assertiva que tem servido como metáfora para o darwinismo atomista atualmente em voga. Segundo esta escola da teoria sintética da evolução (também conhecida como “ultradarwinismo”), é a preservação dos genes a razão última da nossa existência, isto é, todos nós – animais, plantas, fungos e micróbios – nada mais somos que “veículos-robôs cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas pelo nome de genes”.

Mas essa hipótese científica de que não somos senhores do nosso próprio destino não é assim tão nova. No final do Século XIX, o alemão August Weismann já a teria formulado em outros termos. De acordo com este biólogo, o corpo do indivíduo, por ele denominado “somatoplasma”, é tão-somente o veículo dos seus próprios gametas ou plasma germinativo. Como aquele soldado de Maratona, somos mensageiros programados para sermos mais rápidos que o princípio universal da degradação da energia, dispostos a tudo para proteger e transmitir a informação que trazemos conosco e que, depois de cumprida a missão, nada mais nos resta a não ser ficar à toa e, conforme a canção de Raul Seixas, “com a boca escancarada esperando a morte chegar”.

A produção e o progresso material como um fim e si mesmo

Mesmo antes de Weismann, outro alemão, desta vez um economista e filósofo, dissera algo semelhante. Em sua análise da economia capitalista, Karl Marx demonstrou que o “Homo oeconomicus” não é outra coisa que um instrumento de que uma fábrica se vale para produzir outras fábricas. Com efeito, no capitalismo verifica-se algo muito estranho: o grosso da demanda agregada – sem o qual não haveria, neste mercado centrado no lucro, um equilíbrio oferta-procura de longo prazo – não é constituído pelo conjunto das demandas individuais por bens de consumo, mas pela demanda intercapitalista, ou seja, a demanda dos capitalistas por bens de capital produzidos por outros capitalistas: máquinas-ferramentas e matérias-primas para a fabricação de máquinas-ferramentas.

Uma enorme fábrica de fabricar fábricas de fabricar mais fábricas até a eternidade. É nisso que consiste o sistema capitalista. E as pessoas, os trabalhadores principalmente, o que representamos nisso tudo? Somos as reses de um gado humano não muito diferente do bovino, do caprino, do ovino e do suíno; somos o apêndice orgânico de uma estrutura mecânica. A propósito, há quem sustente que o mal que hoje acomete a economia globalizada é apendicite aguda.

O capitalismo é um animismo

Durante toda a história, os homens têm sido meios a serviço de um fim que os transcende: correia de transmissão da Tradição, vassalos dos ancestrais mortos, escravos de Deus, instrumentos de uma Razão-de-Estado ou ferramentas para a construção de um glorioso projeto coletivo.

Ora, e o que é a ética capitalista, essa herança calvinista, a não ser uma moral da velha cepa (religiosa no sentido estrito do termo) que pressupõe a total submissão do homem a um Absoluto, no caso, devoção absoluta ao totem-dinheiro, sujeição à acumulação pela acumulação de riqueza ad aeternum ou, segundo Geoffrey Kay, rendição à “busca irracional da quantidade pura”?

Pela ótica do capitalismo, todas as coisas têm um valor monetário (o dinheiro é o equivalente universal, algo a qual tudo é redutível) e é esse valor que as consagra, que as sacraliza. Tudo mais é profano.

Está claro que não existe diferença substancial entre o onipresente “valor monetário” e o sobrenatural maná dos melanésios, o prana dos hindus, o chi dos chineses, o axé dos cultos nagôs, o Ele dos antigos hebreus, o manitou dos nativos da América do Norte, o arung-quitta dos aborígines australianos, o Espírito Santo das seitas pentecostais e muitos outros “ânimos”.

O imaterial valor monetário é algo que se transmite ora por meio do ouro, ora através de moeda escritural ou então mediante papel-moeda, o qual pode ser dólar, libra, real, euro, iene… No processo de troca capitalista, o valor monetário global não só se mantém como se reproduz ampliadamente:

Dinheiro ® Mercadoria ® Dinheiro + dinheiro ® Mercadoria + mercadoria’ ® Dinheiro + dinheiro’ + dinheiro’’ ®

Parece até algo vivo, autorreplicante – feito um vírus – e cujo caldo nutritivo é esse mercado universal onde os próprios homens figuram como uma mercadoria entre mercadorias, como um meio entre outros de reprodução da riqueza abstrata. [1]

Aliás, não raro o valor monetário se comporta como uma entidade mística ou mágica que, mediante manipulação alquímica de bruxos especuladores, infla, cresce ou some miraculosamente.

A magia de contágio do dinheiro também se manifesta em sua capacidade de converter contrários uns nos outros, de transformar determinada qualidade humana naquela que lhe é oposta; isto é, subvertendo a lógica, o dinheiro identifica A com não-A. Sobre esse poder mágico, Shakespeare escreveu:

“Que é isso? Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso? (…) Um pouco disso tornaria o preto, branco; o feio, belo; o injusto, justo; o vil, nobre; o velho, novo; o covarde, valente.” (Shakespeare; Timon de Atenas).

Mais espaço entre as grades

Talvez eu esteja exagerando, considerando um “tipo ideal” e não o capitalismo tal como se manifesta concretamente. Mas uma coisa é certa: se não fosse a democracia, o Estado de Direito Democrático que condiciona a busca do lucro e progressivamente estende a todos os benefícios da civilização, a realidade seria esta que acabei de descrever. O que não quer dizer que a democracia um dia irá destruir a jaula. Não. A democracia apenas abre mais espaço entre as grades, o que já é um grande progresso. É, se não se pode escapar do inferno, então que se busque uma sombra, um abrigo para a soalheira, onde o calor infernal é menos causticante.

E não pensem que será o amor à Humanidade – esse ídolo do paganismo cosmopolita – que um dia nos resgatará desse servilismo, que nos fará superar essa alienação. Pois a Humanidade (escrita assim, com “H” maiúsculo) não passa de uma abstração, um meme a mais. E em nome desta abstração, isto é, pelo bem do Homem-genérico, dezenas de milhões de homens concretos, singulares e de carne e osso já foram sacrificados, aviltados, assassinados, sobretudo no decorrer do Século XX.

Bodes expiatórios e bodes amorosos

É regra que as pessoas, para permanecerem urbanas e gentis com os seus vizinhos e em paz consigo mesmas, concentrem todo o ódio que resulta de suas frustrações num bode expiatório: os negros, os judeus, os estrangeiros, os fumantes, os gays ou qualquer outra categoria humana que sirva para simbolizar o “Outro”.  Por outro lado, há muitos indivíduos pérfidos que, para calar a voz da consciência e justificar sua prática contumaz de vilanias, elegem um “bode amoroso” em cujo altar tudo é sacrificável. O bode amoroso (expressão inventada pelo escritor Robert Musil e que consta em su obra Homem sem qualidades) tem que ser algo grande, do tamanho do narcisismo de quem o cultua, para que, diante dele, tudo pareça insignificante e desprezível. Como, por exemplo, a Liberdade, álibi preferido dos mais concupiscentes, entre os quais esses que almejam transar com todo mundo inclusive, e, sobretudo, com a mulher do amigo, apenas por ser a mulher do amigo.  Mas esses são de longe os menos perigosos, pois, se seu comportamento é absolutamente ditado pelo id, o instinto que domina o seu id é a sexualidade, a pulsão da vida (se bem que, entre os primatas, sexo e poder amiúde se combinam). Muito piores são aqueles dominados pela paixão que tudo nega – e que, segundo Mefistófeles, “nega com razão, pois tudo que existe ruma devagar para a destruição, melhor que jamais tivesse existido” –, ou seja, esses que têm o comportamento regido pelo anelo da morte, Tânatos. Destes, os bodes amorosos preferidos são três: a Pátria, Deus (ou sua versão laica, a Razão) e a Humanidade.

Razão para viver ou motivo para morrer?

Sobre a macacada patriótica e seu rugido oligofrênico ein Volk, ein Reich, ein Führer!, nem é preciso comentar. Quanto a Deus, obviamente que não se trata do Deus de Abraão, de Jesus Cristo e Maomé, de Santo Agostino e Spinoza. É ao Deus de Torquemada, do saboiano Joseph De Maistre e dos mujahedins de Osama Bin Laden que agora me reporto. Ou seja, refiro-me ao “Supremo Juiz” que delega a assassinos a Sua Onipotência e Onisciência; reporto-me a essa Infinita “Bondade” que não é razão para viver, mas motivo para matar e morrer — o escopo da ação dos fundamentalistas camicases (do japonês: kami, ‘deus’; kaze, ‘vento’) e de todos aqueles que se aprazem como carcereiros ou carrascos a serviço do “Senhor do Céu e da Terra”.

Humanismo realista versus nominalista[2]

E a hipóstase “Humanidade”? Uma historinha ilustra bem as intenções secretas de um determinado tipo de “humanista”, do que é capaz a firme resolução de fazer a Humanidade ascender ao Reino da Liberdade. E quem nos conta é o historiador marxista Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Extremos. Relata o autor que o líder do Partido Comunista da Itália, Palmiro Togliatti, andava muito preocupado com “a jovial disposição de Mao de aceitar a inevitabilidade de uma guerra nuclear e sua possível utilidade como um meio de provocar a derrota final do capitalismo”. Para dissuadi-lo, foi ter com ele pessoalmente. Lembrou-lhe que um “Armageddon” atômico faria desaparecer muitos países, entre eles a Itália.  Mao Tse-Tung respondeu com as seguintes palavras: “Quem lhe disse que a Itália deve sobreviver? Restarão três milhões de chineses e isso será o bastante para a raça humana continuar” (Era dos Extremos; São Paulo: Cia. das Letras; 2ª edição; p. 227).

O amor de Mao Tse-Tung pela humanidade é muito diferente daquele apregoado por outro marxista: o próprio Karl Marx (que, aliás, no opúsculo Crítica ao Programa de Gotha, escreveu “se isso é marxismo, o certo é que não sou marxista”). O filósofo alemão manifestou o seu humanismo durante um desentendimento entre ele e sua esposa Jenny – por causa da sua total concentração nos trabalhos teóricos, em prejuízo dos deveres de pai e marido – que por pouco não levou o casal à separação. Numa carta chorosa à mulher enviada de Manchester em 1856, Marx afirmou que o móbil de todo o seu esforço não era o amor a um “universal”, mas o amor a algo bem mais concreto e que somente este pode ser considerado genuíno amor ao homem. “O amor” – escreveu Marx – “não é o amor de Feuerbach pela Humanidade, nem o amor de Moleschott pelo Metabolismo, nem sequer o amor ao Proletariado, mas o amor pela bem amada, o amor por ti, permite ao homem tornar-se novamente homem.” Creio que Marx quis dizer que amar a humanidade não é amar uma essência descarnada, ao contrário, trata-se de um amor “carnal”, amor ao “particular”, que é a síntese do singular com o universal. Amor aos homens considerados um a um, e não ao “Homem” maiúsculo, enfim. Aliás, se é por meio dos fenômenos que se chega à essência, então “é por meio do meu amor por cada um de vocês – minha companheira, meus filhos, meus amigos… – que amo toda a humanidade”. [3]

A revolta dos homens contra os replicadores egoístas

Um humanismo coerente tem que levar em conta a revolta do homem contra a ditadura dos genes e dos memes[4] que o próprio Richard Dawkins, o criador da memética, faz questão de salientar: “Só nós, na Terra, temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas.” (O Gene Egoísta; Lisboa: Gradiva; p. 283) Ele mesmo manifesta essa revolta quando afirma que, apesar de defender, como cientista acadêmico, o ultradarwinismo atomista, é ardentemente antidarwinista quando a questão é política ou a condução dos negócios humanos (A devil's chaplain).

Sendo assim, o humanismo autêntico é aquele que valoriza não o Homem genérico, mas os homens considerados um a um. Acresce dizer, no entanto, que, como não sabemos se a revolta humana contra a tirania dos plasma germinativo e dos “memes sociais” da noosfera[5] é em princípio trágica, convém mantermos uma postura crítica e mesmo cética também com relação a esta outra “ideia” de humanismo.

Ceticismo filosófico: as ideias postas no seu devido lugar

A propósito, o ceticismo filosófico contemporâneo de Popper, Feynman e André Comte-Sponville (um ceticismo que não nega a existência da verdade objetiva, mas tão-somente a pretensão de todo conhecimento que julga a si mesmo como indubitável), esse ceticismo constitui a principal arma de combate à ditadura das ideias sobre o cérebro humano. Através do questionamento da certeza absoluta, ele põe as ideias no seu devido lugar, ou seja, numa posição subordinada aos seus criadores: os homens reais, concretos, de carne, osso e nervos.

E se, consoante a memética, os memes, as ideias, os entes noológicos[6] são de fato seres vivos de um tipo novo que se nutrem da atividade eletroquímica do cérebro e se propagam através da linguagem (segundo Pierre Auger, “as ideias reproduzem-se nos meios constituídos pelos cérebros humanos, que são seus ecossistemas nutritivos”), uma posição cética em relação ao conhecimento em geral – cética, porém não niilista, friso – garante que a relação das ideias com os homens seja sempre de simbiose: impede que aquelas, munidas com a toxina da certeza, tornem-se parasitas mortificantes ou mesmo letais, e nós: seus organismos hospedeiros de triste sina.

Democracia: um jogo de soma zero

Concluindo: em nossa busca por uma razão de ser, por um sentido para a vida, com frequência e involuntariamente nos vemos a professar um anti-humanismo que apenas aparentemente não é. Depois de nos convencermos disso, passamos a defender outra ideia, muito provavelmente outro anti-humanismo. Será que vivemos num labirinto fechado, num complexo de becos sem saída? Na dúvida, fico com a democracia, não porque a democracia seja uma saída, mas porque estou convencido de que o jogo democrático é um jogo de soma zero onde os anti-humanismos anulam-se uns aos outros.


Manuel Soares Bulcão Neto
Outubro/2002

Obs.: Este artigo foi publicado no livro As esquisitices do óbvio.



[1] É por esta e por outras que estou convencido que o Capital – dinheiro “vivo” que submete a produção e o consumo à sua função autorreprodutora – é um meme poderoso, ou melhor, uma mutação do meme-deus; que o liberalismo econômico radical não passa de uma teologia; que o “Estado mínimo” propugnado pelos profetas, grão-sacerdotes, padres e beatos da igreja de Milton Friedman & Cia., longe de ser um Estado laico, é na verdade um Estado confessional que visa a impor um credo criptorreligioso fundado numa santíssima trindade: Capital, Eficiência, Progresso.

[2] Realismo: nesta acepção, tese filosófica segundo a qual os universais têm existência própria e independente. Sua antítese é o “nominalismo”, que defende serem os universais, os conceitos gerais, criações do espírito, ou seja, meros nomes que servem para designar conjuntos de entes singulares que apresentam propriedades comuns. Segundo o nominalismo, somente as coisas singulares têm uma existência concreta.
[3] O amor ao homem concreto é também amor “de homem concreto” e não amor angelical, razão pela qual não raro se manifesta de forma ambígua, ambivalente. Marx, como homem concreto que era – uma “quimera” de anjo e demônio como, de resto, somos todos nós – também cometeu vilanias, como o fato de não ter reconhecido o filho que teve com a sua empregada doméstica.
[4] Sobre o meme, por Richard Dawkins: “Acho que um  novo tipo de replicador  recentemente surgiu neste próprio planeta [os memes: ideias, slogans, formas de vestuário…].  Da mesma forma como os genes propagam-se no ‘fundo’ pulando de corpo para corpo através dos espermatozoides e dos óvulos, da mesma maneira os memes propagam-se no ‘fundo’ dos memes pulando de cérebro para cérebro por meio de um processo que pode ser chamado, no sentido amplo, de imitação. […] Os memes deve ser considerados estruturas vivas, não apenas metafórica, mas tecnicamente.” (DARWKIN, Richard. O gene egoísta. Belo Horizonte – Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 2001, p. 214.)
[5] Richard Darwin denominou as “sociedades de memes” de memeplexos. Noosfera é a mais recente camada do planeta Terra, justaposta à biosfera, formada pelos memes: seres vivos que são pura informação. Nessa camada também existem ecossistemas, biomas, sociedades…
[6]Noológico: do grego noûs: pensamento; logos: lei ou razão. Noologismo: sistema criado pelo filósofo alemão Christoph Eucken (1846-1926), que defende a autonomia absoluta da vida espiritual.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ATUALIDADE DE UM CLÁSSICO (CARLOS VAZCONCELOS)


"Não basta negar para escapar ao academicismo. Quando se faz da negação uma finalidade em si e do anticonformismo uma meta absoluta, pode ocorrer - talvez esteja ocorrendo hoje com certas correntes artísticas - o que alguém chamou de conformismo do anticonformismo, isto é, uma nova e sutil forma de academicismo."

Adolfo Sánchez Vázquez

_________________________________________________


Carlos Vazconcelos


Um clássico sempre nos surpreende. Se não revela as grandes verdades que almejamos, enleva-nos com pequenos achados. Na busca de abrir caminho através da densa barreira dos Livros Que Não Li ou dos Livros Que, Se Eu Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria de Boa Vontade (como sugere Italo Calvino), abri esta semana as páginas de A Arte Poética de Horácio. Na realidade, uma epístola escrita aos Pisões com o intuito de prestar aconselhamentos quanto ao ato criador. Com o tempo consolidou-se, do mesmo modo que a outra Arte Poética, a de Aristóteles, como interessante manual de estética aplicada à literatura e, particularmente, ao teatro.
A Poética de Horácio é o manifesto máximo do classicismo contra qualquer tipo de vanguarda, pois para ele liberdade é exceção, não a regra. Numa época em que se busca um vanguardismo a qualquer custo, um desejo convulsivo de inovar a arte e seus mecanismos, mesmo que o conteúdo soe inválido e a poética estéril, Horácio, como um bom clássico, é atualíssimo quando adverte: “Vós, que escreveis, tornai a matéria igual às vossas forças e pesai longamente o que vossos ombros se recusam a carregar”; ou quando indaga: “Começou-se a moldar uma ânfora, por que ao girar da roda saiu um pote?”
Muitos artistas hoje não compreenderam as lições de seus mestres. Buscam a ruptura, mas não percebem que em arte toda transgressão deve ser passageira, isto é, durar enquanto transgressão. Quebrar paradigmas às vezes é essencial, mas o ato de ruptura não pode, por si só, virar estética. Quando isso acontece, os transgressores provam do próprio feitiço. Concordo com o escritor e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, quando afirma que “a melhor homenagem que podemos fazer aos mestres contestadores de ontem, é contestá-los hoje.” Não foi à toa que Marcel Duchamp (charlatão e gozador, para uns; rei da vanguarda artística, para outros) afirmou: “Joguei o urinol na cara deles como um desafio e agora eles o admiram como um objeto de arte.” Não se deve empurrar gato por lebre. O ato de ruptura não se dilui em estética, apenas a provoca. A Poética de Horácio amolda-se perfeitamente à sexta definição de Calvino: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”
Com base no dualismo de Platão (esteticismo/eticismo), Horácio pregava que a arte tinha duas finalidades: agradar e educar. “Não basta que os poemas sejam belos, é preciso que sejam doces”, afirma ele. Para o esteticismo a função da arte é ser arte; para o eticismo a função da arte é ser útil. Nesse ponto, dissocia-se do pensamento de Aristóteles. O autor da outra Poética valoriza a arte como imitação e aceita que o feio na natureza pode agradar na arte, como por exemplo um cadáver bem pintado. Na poética de Horácio, há um permanente paralelo entre a pintura e a literatura, e ele inclusive admite que pintores e poetas têm o poder de ousar, mas a razão deve dominar a fantasia e o sentimento. O artista que pretende variar com prodígios um tema uno, termina por pintar delfins nas selvas e javalis nas ondas. Um poema concebido sem critérios estéticos, onde apenas o engenho participe e não a arte, pode assemelhar-se ao quadro de um pintor que quisesse ligar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo, resultando no ridículo quadro da mulher-cavalo-ave-peixe, o que nos faz deduzir que o Surrealismo seria a estética inversamente proporcional ao classicismo de Horácio. Mais ainda: Seria sua inimiga mortal. Não que condenasse o fantástico, onde se misturam coisas falsas e coisas verdadeiras, mas a falta de coerência.
Dispensados certos radicalismos e outros aspectos que nos soam hoje como anacrônicos, há muita atualidade nas propostas do autor grego. Ele aconselha que toda obra literária seja submetida aos ouvidos de um crítico severo e depois permaneça guardada até o nono ano, e justifica: “O que não tenhas editado, te será permitido destruir. As palavras soltas não podem tornar.” Critica os poetas romanos que abandonaram as pegadas dos gregos, principalmente de Homero, criador da fórmula perfeita dos hexâmetros com que escreveu a Odisseia, e dá mais esta lição atualíssima e permanente: “Nem o Lácio seria mais potente pelo valor e pelas armas gloriosas do que por sua língua, se o trabalho lento da lima não aborrecesse a todos os nossos poetas. Vós, ó sangue de Pompílio (1), repreendei o poema que muitos dias e muitas correções não desbastaram e não burilaram por dez vezes com a unha aparada.”
 No que diz respeito ao teatro, sua pretensão de “pureza” é ainda maior, pois condena o gênero que descamba em outro, como a epopeia retorcida em comédia por falta de perícia dos atores ou do autor do texto. Não lhe agradam esses dois gêneros. Prefere o drama satírico, espécie de moderador entre o riso e o siso. Consagrado como poeta do amor e da paz, rejeitava o espírito guerreiro do romano, condenando por consequência cenas violentas no teatro, boas para serem contadas, jamais para serem representadas, como por exemplo Medeia matando os filhos. Em outras palavras, o classicismo nada sabe do naturalismo. É tal o radicalismo de Homero que ele considerava impraticável jovens representarem papéis de velhos ou vice-versa. Podemos então concluir que a Poética de Horácio amolda-se também ao preceito número 14, de Calvino: “É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.”
Por fim, comungo ainda com Calvino para enfatizar a importância de se ler propriamente as obras: “A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário” e a Todorov: “Na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos. O Ensino Médio, que não se dirige aos especialistas em literatura, mas a todos, não pode ter o mesmo alvo; o que se destina a todos é a literatura, não os estudos literários; é preciso então ensinar aquela e não estes últimos.”
Afinal, Horácio é clássico por que é atual ou é atual por que é clássico? Ora, a questão é tão imperativa quanto ler esta resenha e não ler o livro do qual ela trata. Portanto, quem deseja compreender A Poética de Horácio, deve ir imediatamente à livraria ou a biblioteca, e não se contentar com apreciações como esta.
[1][1] Os Pisões, a quem a carta de Horácio se destina, pretendiam-se descendentes de Numa Pompílio, segundo rei de Roma.

Bibliografia
CALVINO, Italo. Se um viajante numa manhã de inverno. Tradução: Nilson Moulin. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003.
__________. Por que ler os clássicos. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Cia. Das Letras, 2007
SANT’ANNA. Affonso Romano. Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2003.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. 2. ed. Tradução de Caio Meira. Rio de Janeiro: Difel, 2009
TRINGALE, Dante. A arte poética de Horácio. São Paulo: Musa Editora, 1993.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

CRÍTICA DO MATERIALISMO HISTÓRICO I – BURGUESIA DE JALECO E INTELLIGENTSIA PERIFÉRICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Ossada das vítimas do Khmer Vermelho (Partido Comunista do Kampuchea Democrático). No período em que esteve no poder (1975-1979) e sob a liderança de Pol Pot (1928-1998) essa organização pseudomarxista (na verdade, anarcocomunista) assassinou 1,7 milhões de pessoas: cerca de vinte por cento da população do Camboja. Pol Pot (Saloth Sar), de origem abastada, estudou engenharia eletrônica em Paris. Tiete do anarquista russo Kropotkin (infeliz Kropotkin... outra vítima do Khmer vermelho), fez do Estado totalitário do Kampuchea Democrático o único Estado clandestino da História até o momento. —  A nação sem um centro urbano administrativo (toda a população de Phnom Penh - então [e atual] Capital cambojana - e demais cidades foi transferida compulsoriamente – sob violência indescritível – para o campo). Suprimiram a moeda e qualquer intercâmbio, mesmo o escambo, passou a ser reprimido. A maioria dos intelectuais (considerada uma massa de dissidentes potenciais) foi fuzilada (bastava ter diploma de técnico em datilografia e pronto: mais um cadáver de "intelectual perigosíssimo!"). Estabeleceram uma tirania da juventude imberbe sobre as gerações mais velhas – conforme defendera Nikitichi Tkachev e outros anarquistas russos (narodiniks) ensandecidos –. O conjunto do aparato burocrático e agentes políticos vivendo em acampamentos provisórios, escondidos sob a folhagem densa da selva, deslocando-se regularmente como que envergonhados do seu próprio poder político… Tudo, enfim, a simular grotescamente uma sociedade anarcocomunista formada de produtores absolutamente iguais (sem Shakespeares, Dantes, Einsteins…) — um “paraíso” chigalieviano sem moeda, sem antagonismo campo/cidade, sem contradição entre trabalhos intelectual e manual, “virtualmente” sem Estado. A propósito, Pol Pot tinha aversão ao culto à personalidade, inclusive a dele; e – dizem – era meigo, gentil. Talvez até tivesse um bom caráter. Ah, o que ideias “parasitas” e esse senso de certeza absoluta são capazes de fazer com as pessoas! (Manuel Bulcão)
__________________________________________________


BURGUESES E TECNOCRATAS — Segundo H. Braverman, contrariamente à Revolução Industrial do século XVIII, que se deu em virtude de uma invenção particular – a máquina a vapor –, a atual revolução científico-tecnológica não está associada a uma inovação específica ou a uma série de avanços, como a eletricidade, o aço, o motor de explosão… Na verdade, o que define esta nova revolução é a transformação do conhecimento científico numa mercadoria capitalista, a conversão de “toda a ciência” e sua engenharia num fator de produção (ao lado do trabalho, da terra, da capacidade empresarial e do dinheiro); ou, nas palavras do autor de Labor and Monopoly Capital (1974), “a inovação chave [da revolução técnico-científica] não deve ser encontrada na Química, na Eletrônica, na maquinaria automática, na Aeronáutica, na Física Nuclear ou em qualquer dos produtos dessas tecnologias científicas, mas antes na transformação da própria ciência em capital”. [i]

Na época do mercantilismo, o Estado absolutista incorporou ao sistema feudal os mais destacados membros da burguesia comercial, convertendo essa “nata”, mediante concessão de terras, cargos administrativos e títulos nobiliárquicos, numa “nobreza togada” (noblesse de robe). De modo semelhante, com a integração da ciência ao projeto do capital a partir da segunda metade do século XIX, uma fração da intelectualidade déclassé – isto é, da camada social que, segundo o sociólogo alemão Karl Mannheim, constitui uma “inteligência livremente flutuante” – passou a compartilhar com os capitalistas as mais finas iguarias da Civilização. Como coadjuvantes desse empreendimento irracional que é a busca insaciável da quantidade pura ou da riqueza abstrata (dinheiro ao qual se acresce mais dinheiro até o infinito), muitos intelectuais responsáveis pela produção do conhecimento científico vieram a formar um novo estrato da classe dominante: a “burguesia de jaleco”.

Com o advento do capitalismo das grandes corporações, o crescimento econômico passou a ser impensável sem um paralelo desenvolvimento científico e vice-versa. Significa dizer que a ciência, agora convertida num setor da produção, proporciona à indústria capitalista, além de ativos fixos com grau de produtividade em ascensão contínua (máquinas operatrizes cada vez mais automatizadas), uma miríade de novos produtos de consumo final, como automóveis, eletrodomésticos, metralhadoras, aparelhos de telefonia celular com GPS e saca-rolha... — Propicia-lhe, também, por meio de uma engenharia humana (Human Engineering) assentada na psicologia científica – no behaviorismo de Watson e Skinner, no cognitivismo comportamental e até na psicanálise – técnicas de estímulo-resposta com o objetivo de fazer com que as pessoas desenvolvam o “impulso” para a compra desses produtos (realmente, como bem demonstrou John K. Galbraith em sua obra clássica The New Industrial Stade [1978; capítulos 18 e 19], as grandes empresas oligopolistas não só produzem a oferta: os departamentos de marketing e propaganda, que antes se limitavam a divulgar pelos mass media os produtos aos consumidores, converteram-se, com a ajuda das ciências do comportamento, em “fábricas de consumidores”, em laboratórios montados com o fim precípuo de produzir e disseminar novas “necessidades”).

De outra parte, como contraprestação, a indústria capitalista fornece à comunidade científica novos e potentíssimos instrumentos de pesquisa, observação, medida e processamento de informações: os microscópios eletrônicos, os telescópios-satélites, as sondas espaciais, os radiotelescópios interferométricos, os relógios atômicos, os tomógrafos por emissão de pósitrons (PET scanners), os computadores…

Sim, não há dúvidas que existe, atualmente, uma relação simbiôntica entre a produção capitalista e a atividade científica. Mas disso não se infere que o capitalista e o cientista formam um casal perfeito, uma junção de caras-metades, uma união sólida tanto no amor como no crime, à la Bonnie e Clyde. Na verdade, trata-se de uma relação ciclotímica, de uma aliança que não se baseia numa identidade de propósitos, mas numa oposição conjunturalmente complementar que muitas vezes se rompe. Tanto é assim que, na literatura acadêmica, há muitos trabalhos que tratam desse conflito latente, destacando-se, entre eles, o ensaio do economista norte-americano Thorstein Veblen, The Theory of Business Enterprise (1904).

Em sua obra, Veblen identifica, no seio da empresa capitalista moderna, um choque de interesses entre os homens de ciência e os homens de negócios. Estes, com a atenção centrada no valor de troca dos produtos, buscam submeter o ímpeto criativo dos primeiros aos critérios da manutenção dos preços e da maximização do lucro, ao passo que os cientistas e engenheiros, por priorizarem o valor de uso de suas criações, frustram-se com as imposições mercantis à sua atividade. Realmente, eles – os homens de ciência – não se conformam com o fato de muitas inovações permanecerem indefinidamente congeladas na prancheta, no protótipo ou na maquete, porque, segundo os homens de negócios, não são “lucrativamente vendáveis”. Além do mais, os donos do dinheiro costumam vetar, por serem muito “arriscadas”, prospecções científicas de longo prazo, o que os indispõe com aqueles cientistas que levam demasiadamente a sério a asserção de Popper segundo a qual toda hipótese científica há de correr o “risco” de ser falseada. (Em La logique de la découverte scientifique, Popper defende que o cientista deve procurar as hipóteses menos prováveis, ou seja, as mais arriscadas, e tentar refutá-las).

Do mais, até os anos 30 do século XX a atividade científica tinha por paradigmas o racionalismo monista e o determinismo laplaciano. Com efeito, contra a suposição de uma evolução baseada em mutações ocasionais do germoplasma, Darwin defendeu a hipótese das gêmulas; [ii] em oposição à ideia da liberdade do sujeito histórico, Marx propunha que a vontade humana, longe de ser livre, é ferreamente determinada pelas condições materiais; Freud, por sua vez, aventou um estrito determinismo psíquico; e Einstein, incomodado com o indeterminismo físico-quântico proposto pela Escola de Copenhague (Bohr, Heisenberg…), defendeu até a data da sua morte (1955) a existência de uma causalidade escondida, isto é, de “variáveis ocultas”.

Nos campos ideológico e político, a expressão sistêmica desse determinismo avesso ao acaso e suas leis – desse culto à previsibilidade científica “precisa” e, ipso facto, ao progresso econômico “sem atritos” – é o positivismo tecnocrático, que, em oposição ao liberalismo ortodoxo dos homens de negócio, propunha minimizar ou mesmo suprimir a anarquia do mercado através da intervenção “racional” de um Estado-gerente, isto é, por meio de ações planejadas de médio e longo prazo (planos trienais, quinquenais…) de modo a contornar as situações de caos estocástico que o automatismo mercantil, cego e irrefletido, costuma gerar.

Como, por exemplo, as crises periódicas de sobreprodução: situação de extrema irracionalidade em que, grosso modo, “a abundância de cobertores e de alimentos é causa de mortes por hipotermia e desnutrição”. Ou seja, devido ao excesso de riqueza produzida – a existência de uma oferta de produtos para a qual não há demanda monetariamente solvível – empresas vão à falência, fábricas fecham suas portas, trabalhadores são demitidos e os espectros da fome e do frio passam a assombrar. — Por minorar o sofrimento das massas, por diminuir significativamente a margem de incerteza da vida e por evitar a destruição periódica de imensa quantidade de riqueza, as políticas econômicas anticíclicas elaboradas pela tecnocracia representam, sem dúvida, uma grande conquista da civilização.

A relação conflituosa entre teologia liberal e positivismo tecnocrático acusa uma luta pela hegemonia no seio da megaempresa capitalista moderna: embate entre os donos do capital-dinheiro e os titulares do capital-ciência. 

A INTELLIGENTSIA NA PERIFERIA DO CAPITALISMO — Uma das consequências da revolução técnico-científica foi a proliferação, por todo o mundo (inclusive em países muito atrasados), de escolas politécnicas, faculdades de engenharia e universidades voltadas não tanto para o saber humanístico, mas sobretudo para a formação de profissionais da área de ciência e tecnologia. Além disso, muitas famílias de aristocratas fundiários das nações periféricas mandavam seus filhos estudarem nos grandes centros do conhecimento: Londres, Berlim, Viena, Paris, Bruxelas etc. Esses jovens, após se formarem e se converterem à ideologia do progresso científico e econômico, voltavam para casa. Mas o que encontravam em seus países de origem? Um Estado dominado por uma oligarquia retrógrada e sua boracracia indolente, um capitalismo não só incipiente como também impotente para promover grandes mudanças estruturais; uma burguesia cartorial e tacanha que, tomada pelos hábitos e vícios da aristocracia dominante, dilapidava a maior parte de seus lucros em consumo conspícuo, ostentatório, nababesco.

O resultado disso é que, em muitas nações pobres, pré-industriais, desenvolveu-se uma numerosa e culta “burguesia de jaleco” (cientistas, engenheiros etc.). Nessas nações, entretanto, não havia uma base material capaz de propiciar emprego ao fator de produção do qual esse sujeito econômico é o titular: o conhecimento científico. Condenada a ociosidade e a humilhante condição de séquito dos senhores da riqueza, essa nova elite passou a alimentar profunda hostilidade não só à aristocracia da terra como também à exangue burguesia autóctone, vista como mais um fator de atraso. Em tal situação, o conflito de interesses apontado por Veblen logo se converteu em antagonismo social, em “luta de classes”.

Assim, uma fração dessa nova elite passou a propor a substituição do capitalismo de livre-mercado (anárquico) por um capitalismo “organizado”, inspirado no positivismo clássico, ou mesmo pelo socialismo “científico” de Marx/Engels. E contra as formas de Estado então existentes, isto é, o dos reis absolutistas “esclarecidos”, o Estado mínimo gendarme dos ideólogos do laissez-faire e até a democracia (que teria por titular uma maioria inculta e/ou iludida, submetida a uma “falsa consciência”), propunham eles a instauração, se necessário pela força, isto é, por meio da violência “revolucionária” (“armagedônica”!), de um Estado-Gerente criptomessiânico promotor de projetos radicais – estilo Parúsia – de engenharia social.

A ELITE TECNOCRÁTICA E A MASSA TRABALHADORA — De acordo com o materialismo histórico “autocompreensivo”, toda ideologia busca identificar – e assim legitimar – os interesses particulares de um determinado estrato, classe, estamento ou casta com os interesses do conjunto da sociedade — com o bem comum, a vontade de um deus benevolente, a necessidade história que conduz ao reino da liberdade, os anseios do povo, da massa, dos trabalhadores…

Neste sentido, os ideólogos do capitalismo defendem que, numa economia de mercado, “o consumidor é, por assim dizer, o rei” (Paul Samuelson); que todo o poder está nas mãos do consumidor: um sujeito racional (os lucrativos cassinos de Las Vegas City fornecem boa amostra desses consumidores altamente ponderados) que busca maximizar suas satisfações a um custo mínimo e que, manifestando sua vontade soberana no mercado, instrui o produtor, determinando o que deve ser fabricado e a que preço. Em miúdos, segundo essa apologética – esse canto de sereia liberista –, no capitalismo “o consumidor é o senhorio do produtor, sendo o lucro ‘apenas’ o termômetro que mede a eficiência do súdito”.

Ora, todos nós somos consumidores “monetários” de alguma coisa. Logo, é de se concluir que, no capitalismo, um barnabé, uma camareira e um operário são tão soberanos e altivos como o alto executivo que, hoje, acordou em Chicago, barbeou-se a bordo de um jato (em voo de cruzeiro sobre o Atlântico), participou de uma reunião de negócios em Londres, esteve com a amante em Tóquio – para manter a relação em sigilo, já que nessa cidade todos os caucasianos são aparentemente idênticos (conforme a anetota do chinês: "Rosenberg, Spielberg, iceberg, erbeg... tudo a mesma coisa!") – e, dependendo da conveniência do fuso horário, pernoitará em Johannesburg ou em São Paulo. Certamente que um discurso como este há de melhorar a autoestima de qualquer zé-ninguém, mesmo daqueles que jamais puseram os pés fora do seu arraial e que se valem de copas de árvore e das noites de lua nova para ocultarem suas “relações perigosas”.

Entretanto, se a ideia da soberania do consumidor é válida numa economia mercantil simples, não o é no capitalismo. Pois, neste sistema de mercado particular, como bem intuiu Adam Smith, “(...) a produção e não o consumo [é] o fim último e o objeto de toda a indústria e comércio”. No capitalismo, a sociedade está a serviço da economia, a economia tem por objetivo a máxima lucratividade – sendo o consumo apenas um meio de realizar lucros – e “o dinheiro é a religião” (E. Luttwak). Aliás, vimos que o departamento de marketing das grandes corporações – para as quais trabalham altos executivos, como o acima citado – são verdadeiras fábricas de consumidores, laboratórios que, com seu corpo de cientistas altamente qualificados – psicólogos, neurologistas, sociólogos, antropólogos… – estão sempre a produzir novas necessidades, valendo-se, para tanto, de técnicas pavlovianas (associações arbitrárias entre estímulos e respostas), exploração dos básicos instintos, apelo às pulsões narcísicas, indução à compulsão e incitamento, mediante efeitos sonoros, feromônios e outros truques, das regiões cerebrais mais arcaicas, aquelas que compartilhamos com pombos (a cobaia preferida de Skinner), ratos e até mesmo lagartos: o chassi neural, o bulbo olfativo etc. — Por isso, não é por funcionalidade ou puro critério estético (arte pela arte) que se fabricam automóveis arredondados; seus formatos têm uma razão mais mundana: sugerir curvas femininas. Quanto a seus faróis dianteiros, obviamente que muitos deles são projetados de modo a imitarem sedutores olhinhos infantis (observem o Honda Civic e o Toyota Corolla, ambos têm os “faroizinhos puxados”); ou então, em se tratanto de veículos off-road, o olhar determinado dos aventureiros. [iii]

No fim do século XIX e começo do século XX, a burguesia de jaleco que então flutuava no império dos czares e em outros arrabaldes do capitalismo decidiu largar a âncora não no recôncavo dos consumidores – como o fizeram os economistas acadêmicos adversários dos monopólios –, mas na enseada dos produtores, ou seja, no movimento operário e camponês. Para tanto, afinou a sua ideologia do progresso exponencial sem atritos com os anseios mais comezinhos do trabalhador simples: emprego estável e digno (isto é, livre de humilhação, insalubridade e despotismo), pão na mesa todos os dias e um pouco mais de tempo para amar, instruir-se ou simplesmente vadiar.

Nesse período de ebulição política – fase anômica de transição entre o capitalismo livre-concorrencional e o capitalismo corporativo – proliferavam sistemas filosóficos que pugnavam por mudanças sociais apocalípticas. Dentre essas construções teóricas, a que melhor convinha à intelectualidade lúmpen (os homens de ciência sem emprego, subempregados ou "mal empregados e mal pagos") dos países periféricos era o socialismo “científico” de Marx e Engels. Por quê? — Por aliar ciência com revolução (válvula de escape perfeita para a agressividade reprimida, descolada e decorrente de suas frustrações sociais); por entender que a atividade política dos trabalhadores deve elevar-se ao estatuto de práxis científico-experimental;  por conferir aos intelectuais um papel crucial nesse processo, a saber: inculcar no proletariado “a partir de fora” (cf. Kautsky e Lênin), por meio de um partido de vanguarda (o intelectual coletivo ou o “príncipe moderno”, para usar uma expressão de Gramsci), a consciência-de-classe operária em seu grau mais elevado, a “ideologia cientificamente fundamentada” pela qual o operariado toma consciência da sua missão histórico-universal “e a conduz até o fim”.

Se, de acordo com o materialismo histórico de Marx/Engels, o proletariado fabril é o sujeito da revolução socialista, não se trata, entretanto, na opinião de Kautsky e Lênin, da classe operária empírica com sua “burguesa” consciência sindical, “trade-unionista”. Ao contrário, a classe operária como sujeito revolucionário é o produto da ação “catequética” de uma elite de intelectuais, que para tanto se vale de uma organização espartana: o partido comunista, “a expressão tecnológica da ciência da história”. (Essa ideia se baseia no fato de os trabalhadores, por não disporem de tempo livre nem de meios de acesso à cultura, e por viverem sob o jugo da ideologia burguesa, não podem eles mesmos elaborar uma teoria científica revolucionária [uma teoria à altura da sua “missão histórica”]. Aliás, o próprio Marx por vezes manifestou esta compreensão. Em um de seus escritos juvenis [Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Introdução], afirmou que “[…] a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material; mas a teoria também se transforma em poder material logo que se apodera das massas [segundo outra tradução, ‘quando penetra nas massas’].” Ora, o apoderado ou penetrado é um agente “passivo” que “sofre” uma ação “externa”; no caso, a ação educadora dos intelectuais revolucionários.)

Não existe, porém, matéria-prima “absolutamente maleável” que não resista em algum grau ao processo de transformação. Assim como a criança – refém do narcisismo primário – é relativamente refratária ao processo de socialização, também a classe operária, entretida com seus “interesses imediatos”, há de manifestar alguma resistência à atividade prático-teórica que objetiva alterar radicalmente sua condição: de classe-em-si em classe-para-si; de um agente absorto no cotidiano “burguês” numa espécie de deus: o “sujeito-objeto idêntico da História” (Lukács). Isso significa que a relação entre a elite intelectual revolucionária e o proletariado, longe de ser aquele idílio rococó pintado pelos adeptos do “realismo socialista”, é na verdade tensa, contraditória, e, em situações de refluxo da maré revolucionária, fadada a rupturas. Em tais situações de prostração da classe operária, como de fato ocorreu na URSS durante os anos 20 do século passado, o partido da revolução, arvorando seu papel de guardião dos interesses de longo prazo dos trabalhadores, reclama o “direito histórico de afirmar sua ditadura” (Trotsky, X Congresso do Partido Bolchevique, 1921) e de se colocar não mais “à frente” do movimento operário, mas no seu lugar.

A autonomia do partido (isto é, da casta dos intelectuais revolucionários “profissionais”) em relação à classe operária – autonomia que lhe permite passar da condição de vanguarda para o estatuto de sucedâneo – é mesmo uma inferência implícita da teoria da revolução mundial.

Com efeito, até o advento da teoria do “socialismo em um só país”, era ponto pacífico entre os marxistas a ideia de que as relações de produção socialistas, por herdarem as forças produtivas “globalizadas” do capitalismo, haveriam de ter, necessariamente, um caráter internacional. Por essa razão, a revolução socialista seria, em princípio, um acontecimento global; ou seja, um movimento que, uma vez iniciado num determinado país, ultrapassa suas fronteiras, vindo a se concluir apenas a nível mundial. Vale salientar que essa tese implica a possibilidade de que o estopim – e somente a espoleta, frise-se – da revolução mundial venha a se dar não num país de capitalismo desenvolvido, mas em alguma nação periférica, de economia semifeudal ou mesmo patriarcal (logo, com uma classe operária incipiente ou mesmo inexistente). Essa possibilidade foi avaliada com profundidade pelos revolucionários russos, entre os quais Lênin – que criou a expressão “revolução ininterrupta” – e Trotsky, o teórico da revolução permanente e da tese do “desenvolvimento desigual e combinado”.

Acresce dizer que o próprio Marx já havia esboçado hipótese parecida numa carta dirigida à Vera Zasulich, uma ex-anarquista russa (narodnik) convertida ao socialismo “científico”. Na polêmica que então travava com seus antigos camaradas, Vera contestava a possibilidade de se queimar etapas históricas e, através de uma revolução levada a cabo não por operários, mas por camponeses, passar diretamente de uma economia agrária (comunal e não monetária) para o último estádio da civilização: o comunismo. Pois, ironicamente, na carta citada, Marx deu razão aos anarquistas, admitindo que um salto desta natureza seria possível na Rússia e em outros países asiáticos onde as comunas camponesas haviam sido preservadas, e caso recebessem a posteriori ajuda material dos Estados operários europeus, muito mais ricos e industrializados.

Nesse caso, mesmo que a força principal do movimento revolucionário seja o campesinato, a revolução tem um caráter operário, pois seu objetivo é realizar a “missão histórica” do operariado: a construção de uma sociedade industrial moderna, socialista, com uma agroindústria no lugar de pequenas propriedades camponesas. Obviamente que, numa situação anômala como esta, os intelectuais organizados no Partido da Revolução figuram não como vanguarda do proletariado urbano (já que este é incipiente ou sequer existe), mas como o seu substituto: um lugar-tenente.

Ressalte-se, entretanto, que o que legitima essa condição é a hipótese da revolução mundial. Ocorre que a revolução não se completou. Como diria Karl Popper, a hipótese “científica” aventada pelos clássicos do marxismo foi dramaticamente falseada. O que fazer, então, com o trabalho incompleto?

A história demonstrou que, livre de um controle institucional a partir de baixo e na falta da revolução mundial, essa tecnoburocracia de esquerda tende a endurecer, a perder a ternura com os oprimidos. Senhora absoluta do seu quintal, substitui paulatinamente, inclusive dentro do seu próprio círculo, a política pela polícia, o convencimento pela intimidação, a discussão interna pela disputa intestina, até que não reste mais nada entre o “príncipe moderno” – reduzido a uma confraria de homens de baixa estatura moral, como Beria – e o mito morto da lei do progresso histórico. Falando sozinha em nome dos interesses de longuíssimo prazo de um abstrato, hipostasiado e platônico “Proletariado Mundial” (solilóquio de cínico ou de demente), a casta dos “cientistas da História” não vacila em tiranizar os camponeses e também o raquítico operariado nacional, qualificado de “apático” “aburguesado”, desprovido da “verdadeira” consciência de classe. Isso aconteceu na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Camboja…

“O socialismo é igual a poder soviético mais eletricidade”, proclamou Lênin na tribuna do VII Congresso dos Sovietes (dezembro de 1920). Lênin morreu, amordaçaram os sovietes. O que restou? — Despotismo com eletricidade.

Um despotismo, aliás, que o próprio Lênin defendera como “saída honrosa de uma situação-limite”. Com efeito, em “O Capitalismo de Estado e o Imposto em Espécie”, Lênin escreveu que, na eventualidade de uma derrota da revolução na Europa, o Estado soviético deveria “seguir a escola do capitalismo de Estado dos alemães, imitá-la com todas (…) as forças, não temer os métodos ditatoriais para acelerar essa assimilação da civilização ocidental pela Rússia bárbara, não vacilar diante de nenhum meio bárbaro para combater a barbárie”. [iv]

Bem, não é minha intenção defender incondicionalmente preceitos morais abstratos, que, segundo Pareto, têm servido amiúde como instrumento de dominação: “faça o que digo, mas não faça o que faço”, diz o ébrio fidalgo para o vassalo embriagado, esperando que, no outro dia, graças à amnésia etílica, ninguém se lembre de nada. Aliás, até concordo com Trotsky quando este afirma que “o meio não pode ser justificado senão pelo fim”; razão pela qual “um tiro de arma de fogo (…) disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável, [ao passo que] disparado para matar ou praticar violência é um crime”. [v] Todavia, creio que Lênin (e Trotsky), ao superestimar a violência como meio – ao fazer dela uma ponte privilegiada entre o império da necessidade e o reino da liberdade –, negligencia uma verdade “darwiniana” elementar: que o emprego sistemático de meios bárbaros cria um ambiente estável de barbárie em que “somente os mais bárbaros sobrevivem” (afinal, em pântano quem melhor se movimenta é o rastejante de sangue frio, não o bípede de sangue quente), de modo que, no fim, em vez de civilização o que advém é uma “barbárie high-tech” — não o “homem integral” do comunismo ou sequer um pacato cidadão urbano, mas um babuíno montado numa bomba atômica.



BULCÃO NETO, Manuel Soares. Sombras do Iluminismo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, pp. 81-94 — Versão modificada e resumida.




[i] BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 3ª edição, p. 146.
[ii] “Admitiu ele [Darwin] que cada célula do corpo adulto derrama no sangue e em outros fluidos do corpo algumas ‘gêmulas’, que são diminutas cópias da célula que as produziu. As gêmulas então se fixam nos órgãos reprodutores e ali formam as células sexuais. Quando essas células dão origem a um embrião, as gêmulas se transformam em novas células do corpo, do tipo das que originalmente as formaram”. — DOBZHANSKY, Th. O Homem em Evolução. São Paulo: Ed. Polígono, 1968, p. 29.
[iii] Como vimos antes, as crises do capitalismo não são crises de penúria, de subprodução de bens de consumo, mas crises de sobreprodução. Vale dizer: “não é por haver demasiadamente pouco que comer, mas por serem relativamente demasiados os produtos alimentares que os desempregados bruscamente morrem de fome” (Ernest Mandel).  Esse fenômeno esdrúxulo demonstra que, se há racionalidade no mercado capitalista, esta se volta periodicamente contra o consumidor em particular e o homem em geral, deixando claro que tanto a Lei de Say como a ideia da soberania do consumidor não passam de mitos científicos. 
[iv] Apud BANDEIRA, Moniz. Lênin: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 191.
[v] TROTSKY, Leon. A moral deles e a nossa. São Paulo: Publicações Liga Bolchevique Internacionalista, 2ª edição; 2003, pp.  14 e 46.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ÂNGELA CALOU E A CAPTURA DO FUGIDIO (NILTO MACIEL)

Máximo Górki (1868-1936)

 
"Nessa hora em que o corpo enfraquece e a vida emudece, no urro
para dentro do grito calado pela desgraça de uma morte não planejada, escaparei ileso. Mas ele, Górki, da estante de minha menina pacóvia
e coxa às gavetas da Rua 116, será sempre o meio ocular
da reprovação. Eu tenho medo de Górki e nunca,
nunca vou tomá-lo em minhas mãos"
 _________________________________


É de 27 de agosto de 2011 a dedicatória de Ângela Calou, em Eu tenho medo de Górki & outros contos: “Ao caro Nilto Maciel, em suas luzes vermelhazuis de carnavalha, dedico este pequeno diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão. Desta, que nem sabe domar o próprio medo”. Para quem não sabe, dois de meus recentes livros são Luz vermelha que se azula e Carnavalha. Tenho um soneto intitulado “Nem sei domar meus próprios cães”. Górki eu li pela primeira vez (ou segunda, pois durante o curso ginasial li uma antologia de contos russos) nos conturbados anos 1967/70: Mãe ou A mãe, leitura obrigatória de todo comunista.

 
O que significam “diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão”? Todo escritor escreve um diário (a obra), mesmo aqueles que escrevem de vez em quando ou com lentidão. Todo diário de quem escreve literatura é constituído de sonhos. Todo sonho de escritor é imaginário. E isto é a desrazão. Ou a “captura do fugidio”, de que fala Tércia Montenegro. 


O impresso de Ângela é pequeno, traz nas abas uns elogios de Pedro Salgueiro, um prefácio (“Uma arte que vicia”) de Tércia Montenegro e um posfácio poético (“Para Ângela Calou, o método secreto das fechaduras”) de O Poeta de Meia-Tigela, além das 22 peças ficcionais, num total de 96 páginas. Talvez apenas 70 com texto. Entretanto, que beleza, que riqueza, que pujança! Sim, quantidade não quer dizer qualidade. Quem não sabe disso?


Como todo bom livro de prosa de ficção, este de Ângela Calou nos remete, inicialmente, a duas perguntas: Quem narra? O que narra? Vejamos “Antoine voltou a pé”. Quem é o narrador? “Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como”. Quem é esta mulher, cujos “cabelos começaram a cair”, para quem “a morte era um rato metafísico” e que pouco fala de si mesma, ocupada com a morte de Antoine? Talvez não seja tão importante para o leitor saber quem narra. Certamente os personagens são mais úteis à ‘trama’ do que os narradores. Pois Antoine está na primeira (“Antoine voltou a pé”) e na última (“Eleve-me! – foi o que lhe pedi”) composição do volume. O que isto significa? Que tudo é um círculo? Outros nomes se repetem ou voltam à baila (narração?): Céu (que nome mais inusitado!), Carlile, Amábile, Rudah, Querubim (presentes também em “Marca d’água”). Há ainda Alice, que pode ser aquela mesma de Lewis Carroll. Como não ser, se está até num dos títulos: “Sobreaviso para Alice em seu país”? Que assim se inicia: “Alice, se tu soubesses como o teu mundo é pequeno”. E assim termina: “Tudo de tal modo pequenino que, apenas tu, podes saber, Alice, que atrás do espelho existe apenas o papelão”. Será uma recriação dela? O Poeta de Meia-Tigela fala em ressurreição. Sim, alguns escritores criam, matam e fazem ressurgir seus seres ou suas criaturas: “Que das palavras emane / A morte desse Antoine / E sua ressurreição:” (são os primeiros versos do poema-posfácio). 


Ângela segue à risca a lição de Guimarães Rosa: a estória não quer ser história. Quem dirá que “Da anatomia de um enganado” (narrado por mulher) é conto? Calou não é uma regionalista e não faz questão de ser (ou parecer). No entanto, tal como o Graciliano de Angústia ou São Bernardo, não renega o vocabulário nordestino (ou português antigo), e expressões populares: “calças pegando marreca” (p. 24), “homem muito resolvido” (p. 30). Não tem preconceitos desse tipo. Também não se peja de recriar frases de Guimarães Rosa, o mais nordestino dos escritores do sudeste brasileiro: “Claus desaconteceu de repente”. Ou de aspirar enredos da literatura clássica. E ainda vai e vem num bamboleio de frases supinamente inventadas pela poesia guardada na memória. Além disso, de vez em quando, larga umas frases que nos pegam de surpresa: “como um guarda-chuva que esqueceram de perder”.


A narradora de “A teia e a aranha, mosca distraída fui” faz um passeio pela tradição literária do amor: Sofia e Capitu, “aquela náusea alegre que se quis chamar amor” (a lembrar o lírico Camões), a flauta e os ratos da lenda germânica (artes do encantamento), Der Blaue Wittelsbacher (o diamante azul de Filipe IV), “ofereceu-me uma maçã” (Branca de Neve). O que demonstra (mas a contista não faz questão de comprovar nada, erudição ou conhecimento literário) aguda percepção das entrelinhas das lendas, da história e da literatura. 


Os protagonistas e narradores (masculinos e femininos) de Ângela são todos enigmáticos. A de “Antoine voltou a pé” lamenta não ter “quebrado as duas pernas” de Antoine, no “exercício de minha maldade”. Esse Antoine aparece de novo em “Há coisas que devem morrer”, que assim se inicia: “E assim morreu Antoine”.

A morte está presente em quase toda a obra de Calou. Em “Marca d’água”, a mãe da que narra se suicida: “Eu tinha quatorze anos quando mamãe furtou-nos de sua presença” (...), “naquele dia de luz nenhuma” (Rosa). Nessa narrativa curta (pouco mais de duas páginas) há diversos personagens, todos com nomes explícitos, o que é uma marca de Ângela. 


Em “A teia e a aranha, mosca distraída fui”, Carlile é um vendedor ambulante, um mascate, desses que andavam pelos caminhos, a pé, montados em alimárias ou em carruagens, um cigano, vendedor de sedas, sabedor das artes do encantamento, prontos a seduzir meninas, adolescentes, donzelas, mulheres sonhadoras (“aprendi a desaprender meus modos de menina”), com ofertas de maçãs (Branca de Neve) e outros mimos. “Quando Joana enlouqueceu” (...) Assim se inicia “Joana em dia de seu avesso”, a lembrar aquele poema célebre do mineiro Alphonsus de Guimaraens: “Quando Ismália enlouqueceu, / pôs-se na torre a sonhar...” Até que (é o desfecho) “ateou, distraidamente, fogo ao próprio corpo”. Em “Naquele tempo, naquele lugar”, o que narra se refere a “ciclope adoecido”, “demônios incautos”, “errantes desapressados”, “um homem de roupa preta e pés rachados”, “o retratinho do noivo enforcado”. Nenhum nome de ser fictício é mencionado. Como num sonho interminável. 


O conto do título da coleção é narrado por um homem que não lê Górki, não tem coragem de ler o escritor russo: “Eu tenho medo de Górki”, afirma de chofre, logo no início do escrito. Mas, logo adiante, se justifica: “Eu tenho medo de Górki, e nunca vou lê-lo enquanto estiver sozinho, à mercê do deboche de todos os meus fantasmas reunidos sob o vidro dos meus desafetos”. É um assassino, um arrombador de casas, um louco. Confessa-se: “Sou eu o arrombador”. Sua nova vítima é Dóris, que “tem trinta e cinco anos e é manca da perna esquerda”.


Ângela não pratica o que chamam de “conto fantástico”. Entretanto, em algumas ocasiões, vai além do normal, do real, do razoável, como em “Do oco no meio das falas e coisas”. O narrador confessa: “meu pensamento vazando para fora, e todo mundo vendo”. Ora, quem vê pensamento? As falas (do paciente e de seu interlocutor, médico) se intercalam sem qualquer indicação. Quem mais fala, é claro, é o ‘doente’, que até ironiza o médico: “O senhor, doutor, é um técnico. Que posso eu contra palavra de um técnico?” Na verdade, a contista aboliu completamente certos cacoetes (não só nessa obra), como o diálogo com travessão, verbos dicendi ou aspas. Como se diz, vai direto ao assunto, sem lengalengas, sem quiprocós de quem só sabe contar história (quando sabe).


Não consigo ir além disto (já me sinto em sonho imaginário ou em plena desrazão). Preciso reler os enredos fugidios de Ângela Calou, se quiser me manter real e razoável.

          
Fortaleza, 3 de outubro de 2011.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...