terça-feira, 11 de outubro de 2011

CRÍTICA DO MATERIALISMO HISTÓRICO I – BURGUESIA DE JALECO E INTELLIGENTSIA PERIFÉRICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)


Ossada das vítimas do Khmer Vermelho (Partido Comunista do Kampuchea Democrático). No período em que esteve no poder (1975-1979) e sob a liderança de Pol Pot (1928-1998) essa organização pseudomarxista (na verdade, anarcocomunista) assassinou 1,7 milhões de pessoas: cerca de vinte por cento da população do Camboja. Pol Pot (Saloth Sar), de origem abastada, estudou engenharia eletrônica em Paris. Tiete do anarquista russo Kropotkin (infeliz Kropotkin... outra vítima do Khmer vermelho), fez do Estado totalitário do Kampuchea Democrático o único Estado clandestino da História até o momento. —  A nação sem um centro urbano administrativo (toda a população de Phnom Penh - então [e atual] Capital cambojana - e demais cidades foi transferida compulsoriamente – sob violência indescritível – para o campo). Suprimiram a moeda e qualquer intercâmbio, mesmo o escambo, passou a ser reprimido. A maioria dos intelectuais (considerada uma massa de dissidentes potenciais) foi fuzilada (bastava ter diploma de técnico em datilografia e pronto: mais um cadáver de "intelectual perigosíssimo!"). Estabeleceram uma tirania da juventude imberbe sobre as gerações mais velhas – conforme defendera Nikitichi Tkachev e outros anarquistas russos (narodiniks) ensandecidos –. O conjunto do aparato burocrático e agentes políticos vivendo em acampamentos provisórios, escondidos sob a folhagem densa da selva, deslocando-se regularmente como que envergonhados do seu próprio poder político… Tudo, enfim, a simular grotescamente uma sociedade anarcocomunista formada de produtores absolutamente iguais (sem Shakespeares, Dantes, Einsteins…) — um “paraíso” chigalieviano sem moeda, sem antagonismo campo/cidade, sem contradição entre trabalhos intelectual e manual, “virtualmente” sem Estado. A propósito, Pol Pot tinha aversão ao culto à personalidade, inclusive a dele; e – dizem – era meigo, gentil. Talvez até tivesse um bom caráter. Ah, o que ideias “parasitas” e esse senso de certeza absoluta são capazes de fazer com as pessoas! (Manuel Bulcão)
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BURGUESES E TECNOCRATAS — Segundo H. Braverman, contrariamente à Revolução Industrial do século XVIII, que se deu em virtude de uma invenção particular – a máquina a vapor –, a atual revolução científico-tecnológica não está associada a uma inovação específica ou a uma série de avanços, como a eletricidade, o aço, o motor de explosão… Na verdade, o que define esta nova revolução é a transformação do conhecimento científico numa mercadoria capitalista, a conversão de “toda a ciência” e sua engenharia num fator de produção (ao lado do trabalho, da terra, da capacidade empresarial e do dinheiro); ou, nas palavras do autor de Labor and Monopoly Capital (1974), “a inovação chave [da revolução técnico-científica] não deve ser encontrada na Química, na Eletrônica, na maquinaria automática, na Aeronáutica, na Física Nuclear ou em qualquer dos produtos dessas tecnologias científicas, mas antes na transformação da própria ciência em capital”. [i]

Na época do mercantilismo, o Estado absolutista incorporou ao sistema feudal os mais destacados membros da burguesia comercial, convertendo essa “nata”, mediante concessão de terras, cargos administrativos e títulos nobiliárquicos, numa “nobreza togada” (noblesse de robe). De modo semelhante, com a integração da ciência ao projeto do capital a partir da segunda metade do século XIX, uma fração da intelectualidade déclassé – isto é, da camada social que, segundo o sociólogo alemão Karl Mannheim, constitui uma “inteligência livremente flutuante” – passou a compartilhar com os capitalistas as mais finas iguarias da Civilização. Como coadjuvantes desse empreendimento irracional que é a busca insaciável da quantidade pura ou da riqueza abstrata (dinheiro ao qual se acresce mais dinheiro até o infinito), muitos intelectuais responsáveis pela produção do conhecimento científico vieram a formar um novo estrato da classe dominante: a “burguesia de jaleco”.

Com o advento do capitalismo das grandes corporações, o crescimento econômico passou a ser impensável sem um paralelo desenvolvimento científico e vice-versa. Significa dizer que a ciência, agora convertida num setor da produção, proporciona à indústria capitalista, além de ativos fixos com grau de produtividade em ascensão contínua (máquinas operatrizes cada vez mais automatizadas), uma miríade de novos produtos de consumo final, como automóveis, eletrodomésticos, metralhadoras, aparelhos de telefonia celular com GPS e saca-rolha... — Propicia-lhe, também, por meio de uma engenharia humana (Human Engineering) assentada na psicologia científica – no behaviorismo de Watson e Skinner, no cognitivismo comportamental e até na psicanálise – técnicas de estímulo-resposta com o objetivo de fazer com que as pessoas desenvolvam o “impulso” para a compra desses produtos (realmente, como bem demonstrou John K. Galbraith em sua obra clássica The New Industrial Stade [1978; capítulos 18 e 19], as grandes empresas oligopolistas não só produzem a oferta: os departamentos de marketing e propaganda, que antes se limitavam a divulgar pelos mass media os produtos aos consumidores, converteram-se, com a ajuda das ciências do comportamento, em “fábricas de consumidores”, em laboratórios montados com o fim precípuo de produzir e disseminar novas “necessidades”).

De outra parte, como contraprestação, a indústria capitalista fornece à comunidade científica novos e potentíssimos instrumentos de pesquisa, observação, medida e processamento de informações: os microscópios eletrônicos, os telescópios-satélites, as sondas espaciais, os radiotelescópios interferométricos, os relógios atômicos, os tomógrafos por emissão de pósitrons (PET scanners), os computadores…

Sim, não há dúvidas que existe, atualmente, uma relação simbiôntica entre a produção capitalista e a atividade científica. Mas disso não se infere que o capitalista e o cientista formam um casal perfeito, uma junção de caras-metades, uma união sólida tanto no amor como no crime, à la Bonnie e Clyde. Na verdade, trata-se de uma relação ciclotímica, de uma aliança que não se baseia numa identidade de propósitos, mas numa oposição conjunturalmente complementar que muitas vezes se rompe. Tanto é assim que, na literatura acadêmica, há muitos trabalhos que tratam desse conflito latente, destacando-se, entre eles, o ensaio do economista norte-americano Thorstein Veblen, The Theory of Business Enterprise (1904).

Em sua obra, Veblen identifica, no seio da empresa capitalista moderna, um choque de interesses entre os homens de ciência e os homens de negócios. Estes, com a atenção centrada no valor de troca dos produtos, buscam submeter o ímpeto criativo dos primeiros aos critérios da manutenção dos preços e da maximização do lucro, ao passo que os cientistas e engenheiros, por priorizarem o valor de uso de suas criações, frustram-se com as imposições mercantis à sua atividade. Realmente, eles – os homens de ciência – não se conformam com o fato de muitas inovações permanecerem indefinidamente congeladas na prancheta, no protótipo ou na maquete, porque, segundo os homens de negócios, não são “lucrativamente vendáveis”. Além do mais, os donos do dinheiro costumam vetar, por serem muito “arriscadas”, prospecções científicas de longo prazo, o que os indispõe com aqueles cientistas que levam demasiadamente a sério a asserção de Popper segundo a qual toda hipótese científica há de correr o “risco” de ser falseada. (Em La logique de la découverte scientifique, Popper defende que o cientista deve procurar as hipóteses menos prováveis, ou seja, as mais arriscadas, e tentar refutá-las).

Do mais, até os anos 30 do século XX a atividade científica tinha por paradigmas o racionalismo monista e o determinismo laplaciano. Com efeito, contra a suposição de uma evolução baseada em mutações ocasionais do germoplasma, Darwin defendeu a hipótese das gêmulas; [ii] em oposição à ideia da liberdade do sujeito histórico, Marx propunha que a vontade humana, longe de ser livre, é ferreamente determinada pelas condições materiais; Freud, por sua vez, aventou um estrito determinismo psíquico; e Einstein, incomodado com o indeterminismo físico-quântico proposto pela Escola de Copenhague (Bohr, Heisenberg…), defendeu até a data da sua morte (1955) a existência de uma causalidade escondida, isto é, de “variáveis ocultas”.

Nos campos ideológico e político, a expressão sistêmica desse determinismo avesso ao acaso e suas leis – desse culto à previsibilidade científica “precisa” e, ipso facto, ao progresso econômico “sem atritos” – é o positivismo tecnocrático, que, em oposição ao liberalismo ortodoxo dos homens de negócio, propunha minimizar ou mesmo suprimir a anarquia do mercado através da intervenção “racional” de um Estado-gerente, isto é, por meio de ações planejadas de médio e longo prazo (planos trienais, quinquenais…) de modo a contornar as situações de caos estocástico que o automatismo mercantil, cego e irrefletido, costuma gerar.

Como, por exemplo, as crises periódicas de sobreprodução: situação de extrema irracionalidade em que, grosso modo, “a abundância de cobertores e de alimentos é causa de mortes por hipotermia e desnutrição”. Ou seja, devido ao excesso de riqueza produzida – a existência de uma oferta de produtos para a qual não há demanda monetariamente solvível – empresas vão à falência, fábricas fecham suas portas, trabalhadores são demitidos e os espectros da fome e do frio passam a assombrar. — Por minorar o sofrimento das massas, por diminuir significativamente a margem de incerteza da vida e por evitar a destruição periódica de imensa quantidade de riqueza, as políticas econômicas anticíclicas elaboradas pela tecnocracia representam, sem dúvida, uma grande conquista da civilização.

A relação conflituosa entre teologia liberal e positivismo tecnocrático acusa uma luta pela hegemonia no seio da megaempresa capitalista moderna: embate entre os donos do capital-dinheiro e os titulares do capital-ciência. 

A INTELLIGENTSIA NA PERIFERIA DO CAPITALISMO — Uma das consequências da revolução técnico-científica foi a proliferação, por todo o mundo (inclusive em países muito atrasados), de escolas politécnicas, faculdades de engenharia e universidades voltadas não tanto para o saber humanístico, mas sobretudo para a formação de profissionais da área de ciência e tecnologia. Além disso, muitas famílias de aristocratas fundiários das nações periféricas mandavam seus filhos estudarem nos grandes centros do conhecimento: Londres, Berlim, Viena, Paris, Bruxelas etc. Esses jovens, após se formarem e se converterem à ideologia do progresso científico e econômico, voltavam para casa. Mas o que encontravam em seus países de origem? Um Estado dominado por uma oligarquia retrógrada e sua boracracia indolente, um capitalismo não só incipiente como também impotente para promover grandes mudanças estruturais; uma burguesia cartorial e tacanha que, tomada pelos hábitos e vícios da aristocracia dominante, dilapidava a maior parte de seus lucros em consumo conspícuo, ostentatório, nababesco.

O resultado disso é que, em muitas nações pobres, pré-industriais, desenvolveu-se uma numerosa e culta “burguesia de jaleco” (cientistas, engenheiros etc.). Nessas nações, entretanto, não havia uma base material capaz de propiciar emprego ao fator de produção do qual esse sujeito econômico é o titular: o conhecimento científico. Condenada a ociosidade e a humilhante condição de séquito dos senhores da riqueza, essa nova elite passou a alimentar profunda hostilidade não só à aristocracia da terra como também à exangue burguesia autóctone, vista como mais um fator de atraso. Em tal situação, o conflito de interesses apontado por Veblen logo se converteu em antagonismo social, em “luta de classes”.

Assim, uma fração dessa nova elite passou a propor a substituição do capitalismo de livre-mercado (anárquico) por um capitalismo “organizado”, inspirado no positivismo clássico, ou mesmo pelo socialismo “científico” de Marx/Engels. E contra as formas de Estado então existentes, isto é, o dos reis absolutistas “esclarecidos”, o Estado mínimo gendarme dos ideólogos do laissez-faire e até a democracia (que teria por titular uma maioria inculta e/ou iludida, submetida a uma “falsa consciência”), propunham eles a instauração, se necessário pela força, isto é, por meio da violência “revolucionária” (“armagedônica”!), de um Estado-Gerente criptomessiânico promotor de projetos radicais – estilo Parúsia – de engenharia social.

A ELITE TECNOCRÁTICA E A MASSA TRABALHADORA — De acordo com o materialismo histórico “autocompreensivo”, toda ideologia busca identificar – e assim legitimar – os interesses particulares de um determinado estrato, classe, estamento ou casta com os interesses do conjunto da sociedade — com o bem comum, a vontade de um deus benevolente, a necessidade história que conduz ao reino da liberdade, os anseios do povo, da massa, dos trabalhadores…

Neste sentido, os ideólogos do capitalismo defendem que, numa economia de mercado, “o consumidor é, por assim dizer, o rei” (Paul Samuelson); que todo o poder está nas mãos do consumidor: um sujeito racional (os lucrativos cassinos de Las Vegas City fornecem boa amostra desses consumidores altamente ponderados) que busca maximizar suas satisfações a um custo mínimo e que, manifestando sua vontade soberana no mercado, instrui o produtor, determinando o que deve ser fabricado e a que preço. Em miúdos, segundo essa apologética – esse canto de sereia liberista –, no capitalismo “o consumidor é o senhorio do produtor, sendo o lucro ‘apenas’ o termômetro que mede a eficiência do súdito”.

Ora, todos nós somos consumidores “monetários” de alguma coisa. Logo, é de se concluir que, no capitalismo, um barnabé, uma camareira e um operário são tão soberanos e altivos como o alto executivo que, hoje, acordou em Chicago, barbeou-se a bordo de um jato (em voo de cruzeiro sobre o Atlântico), participou de uma reunião de negócios em Londres, esteve com a amante em Tóquio – para manter a relação em sigilo, já que nessa cidade todos os caucasianos são aparentemente idênticos (conforme a anetota do chinês: "Rosenberg, Spielberg, iceberg, erbeg... tudo a mesma coisa!") – e, dependendo da conveniência do fuso horário, pernoitará em Johannesburg ou em São Paulo. Certamente que um discurso como este há de melhorar a autoestima de qualquer zé-ninguém, mesmo daqueles que jamais puseram os pés fora do seu arraial e que se valem de copas de árvore e das noites de lua nova para ocultarem suas “relações perigosas”.

Entretanto, se a ideia da soberania do consumidor é válida numa economia mercantil simples, não o é no capitalismo. Pois, neste sistema de mercado particular, como bem intuiu Adam Smith, “(...) a produção e não o consumo [é] o fim último e o objeto de toda a indústria e comércio”. No capitalismo, a sociedade está a serviço da economia, a economia tem por objetivo a máxima lucratividade – sendo o consumo apenas um meio de realizar lucros – e “o dinheiro é a religião” (E. Luttwak). Aliás, vimos que o departamento de marketing das grandes corporações – para as quais trabalham altos executivos, como o acima citado – são verdadeiras fábricas de consumidores, laboratórios que, com seu corpo de cientistas altamente qualificados – psicólogos, neurologistas, sociólogos, antropólogos… – estão sempre a produzir novas necessidades, valendo-se, para tanto, de técnicas pavlovianas (associações arbitrárias entre estímulos e respostas), exploração dos básicos instintos, apelo às pulsões narcísicas, indução à compulsão e incitamento, mediante efeitos sonoros, feromônios e outros truques, das regiões cerebrais mais arcaicas, aquelas que compartilhamos com pombos (a cobaia preferida de Skinner), ratos e até mesmo lagartos: o chassi neural, o bulbo olfativo etc. — Por isso, não é por funcionalidade ou puro critério estético (arte pela arte) que se fabricam automóveis arredondados; seus formatos têm uma razão mais mundana: sugerir curvas femininas. Quanto a seus faróis dianteiros, obviamente que muitos deles são projetados de modo a imitarem sedutores olhinhos infantis (observem o Honda Civic e o Toyota Corolla, ambos têm os “faroizinhos puxados”); ou então, em se tratanto de veículos off-road, o olhar determinado dos aventureiros. [iii]

No fim do século XIX e começo do século XX, a burguesia de jaleco que então flutuava no império dos czares e em outros arrabaldes do capitalismo decidiu largar a âncora não no recôncavo dos consumidores – como o fizeram os economistas acadêmicos adversários dos monopólios –, mas na enseada dos produtores, ou seja, no movimento operário e camponês. Para tanto, afinou a sua ideologia do progresso exponencial sem atritos com os anseios mais comezinhos do trabalhador simples: emprego estável e digno (isto é, livre de humilhação, insalubridade e despotismo), pão na mesa todos os dias e um pouco mais de tempo para amar, instruir-se ou simplesmente vadiar.

Nesse período de ebulição política – fase anômica de transição entre o capitalismo livre-concorrencional e o capitalismo corporativo – proliferavam sistemas filosóficos que pugnavam por mudanças sociais apocalípticas. Dentre essas construções teóricas, a que melhor convinha à intelectualidade lúmpen (os homens de ciência sem emprego, subempregados ou "mal empregados e mal pagos") dos países periféricos era o socialismo “científico” de Marx e Engels. Por quê? — Por aliar ciência com revolução (válvula de escape perfeita para a agressividade reprimida, descolada e decorrente de suas frustrações sociais); por entender que a atividade política dos trabalhadores deve elevar-se ao estatuto de práxis científico-experimental;  por conferir aos intelectuais um papel crucial nesse processo, a saber: inculcar no proletariado “a partir de fora” (cf. Kautsky e Lênin), por meio de um partido de vanguarda (o intelectual coletivo ou o “príncipe moderno”, para usar uma expressão de Gramsci), a consciência-de-classe operária em seu grau mais elevado, a “ideologia cientificamente fundamentada” pela qual o operariado toma consciência da sua missão histórico-universal “e a conduz até o fim”.

Se, de acordo com o materialismo histórico de Marx/Engels, o proletariado fabril é o sujeito da revolução socialista, não se trata, entretanto, na opinião de Kautsky e Lênin, da classe operária empírica com sua “burguesa” consciência sindical, “trade-unionista”. Ao contrário, a classe operária como sujeito revolucionário é o produto da ação “catequética” de uma elite de intelectuais, que para tanto se vale de uma organização espartana: o partido comunista, “a expressão tecnológica da ciência da história”. (Essa ideia se baseia no fato de os trabalhadores, por não disporem de tempo livre nem de meios de acesso à cultura, e por viverem sob o jugo da ideologia burguesa, não podem eles mesmos elaborar uma teoria científica revolucionária [uma teoria à altura da sua “missão histórica”]. Aliás, o próprio Marx por vezes manifestou esta compreensão. Em um de seus escritos juvenis [Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Introdução], afirmou que “[…] a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material; mas a teoria também se transforma em poder material logo que se apodera das massas [segundo outra tradução, ‘quando penetra nas massas’].” Ora, o apoderado ou penetrado é um agente “passivo” que “sofre” uma ação “externa”; no caso, a ação educadora dos intelectuais revolucionários.)

Não existe, porém, matéria-prima “absolutamente maleável” que não resista em algum grau ao processo de transformação. Assim como a criança – refém do narcisismo primário – é relativamente refratária ao processo de socialização, também a classe operária, entretida com seus “interesses imediatos”, há de manifestar alguma resistência à atividade prático-teórica que objetiva alterar radicalmente sua condição: de classe-em-si em classe-para-si; de um agente absorto no cotidiano “burguês” numa espécie de deus: o “sujeito-objeto idêntico da História” (Lukács). Isso significa que a relação entre a elite intelectual revolucionária e o proletariado, longe de ser aquele idílio rococó pintado pelos adeptos do “realismo socialista”, é na verdade tensa, contraditória, e, em situações de refluxo da maré revolucionária, fadada a rupturas. Em tais situações de prostração da classe operária, como de fato ocorreu na URSS durante os anos 20 do século passado, o partido da revolução, arvorando seu papel de guardião dos interesses de longo prazo dos trabalhadores, reclama o “direito histórico de afirmar sua ditadura” (Trotsky, X Congresso do Partido Bolchevique, 1921) e de se colocar não mais “à frente” do movimento operário, mas no seu lugar.

A autonomia do partido (isto é, da casta dos intelectuais revolucionários “profissionais”) em relação à classe operária – autonomia que lhe permite passar da condição de vanguarda para o estatuto de sucedâneo – é mesmo uma inferência implícita da teoria da revolução mundial.

Com efeito, até o advento da teoria do “socialismo em um só país”, era ponto pacífico entre os marxistas a ideia de que as relações de produção socialistas, por herdarem as forças produtivas “globalizadas” do capitalismo, haveriam de ter, necessariamente, um caráter internacional. Por essa razão, a revolução socialista seria, em princípio, um acontecimento global; ou seja, um movimento que, uma vez iniciado num determinado país, ultrapassa suas fronteiras, vindo a se concluir apenas a nível mundial. Vale salientar que essa tese implica a possibilidade de que o estopim – e somente a espoleta, frise-se – da revolução mundial venha a se dar não num país de capitalismo desenvolvido, mas em alguma nação periférica, de economia semifeudal ou mesmo patriarcal (logo, com uma classe operária incipiente ou mesmo inexistente). Essa possibilidade foi avaliada com profundidade pelos revolucionários russos, entre os quais Lênin – que criou a expressão “revolução ininterrupta” – e Trotsky, o teórico da revolução permanente e da tese do “desenvolvimento desigual e combinado”.

Acresce dizer que o próprio Marx já havia esboçado hipótese parecida numa carta dirigida à Vera Zasulich, uma ex-anarquista russa (narodnik) convertida ao socialismo “científico”. Na polêmica que então travava com seus antigos camaradas, Vera contestava a possibilidade de se queimar etapas históricas e, através de uma revolução levada a cabo não por operários, mas por camponeses, passar diretamente de uma economia agrária (comunal e não monetária) para o último estádio da civilização: o comunismo. Pois, ironicamente, na carta citada, Marx deu razão aos anarquistas, admitindo que um salto desta natureza seria possível na Rússia e em outros países asiáticos onde as comunas camponesas haviam sido preservadas, e caso recebessem a posteriori ajuda material dos Estados operários europeus, muito mais ricos e industrializados.

Nesse caso, mesmo que a força principal do movimento revolucionário seja o campesinato, a revolução tem um caráter operário, pois seu objetivo é realizar a “missão histórica” do operariado: a construção de uma sociedade industrial moderna, socialista, com uma agroindústria no lugar de pequenas propriedades camponesas. Obviamente que, numa situação anômala como esta, os intelectuais organizados no Partido da Revolução figuram não como vanguarda do proletariado urbano (já que este é incipiente ou sequer existe), mas como o seu substituto: um lugar-tenente.

Ressalte-se, entretanto, que o que legitima essa condição é a hipótese da revolução mundial. Ocorre que a revolução não se completou. Como diria Karl Popper, a hipótese “científica” aventada pelos clássicos do marxismo foi dramaticamente falseada. O que fazer, então, com o trabalho incompleto?

A história demonstrou que, livre de um controle institucional a partir de baixo e na falta da revolução mundial, essa tecnoburocracia de esquerda tende a endurecer, a perder a ternura com os oprimidos. Senhora absoluta do seu quintal, substitui paulatinamente, inclusive dentro do seu próprio círculo, a política pela polícia, o convencimento pela intimidação, a discussão interna pela disputa intestina, até que não reste mais nada entre o “príncipe moderno” – reduzido a uma confraria de homens de baixa estatura moral, como Beria – e o mito morto da lei do progresso histórico. Falando sozinha em nome dos interesses de longuíssimo prazo de um abstrato, hipostasiado e platônico “Proletariado Mundial” (solilóquio de cínico ou de demente), a casta dos “cientistas da História” não vacila em tiranizar os camponeses e também o raquítico operariado nacional, qualificado de “apático” “aburguesado”, desprovido da “verdadeira” consciência de classe. Isso aconteceu na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Camboja…

“O socialismo é igual a poder soviético mais eletricidade”, proclamou Lênin na tribuna do VII Congresso dos Sovietes (dezembro de 1920). Lênin morreu, amordaçaram os sovietes. O que restou? — Despotismo com eletricidade.

Um despotismo, aliás, que o próprio Lênin defendera como “saída honrosa de uma situação-limite”. Com efeito, em “O Capitalismo de Estado e o Imposto em Espécie”, Lênin escreveu que, na eventualidade de uma derrota da revolução na Europa, o Estado soviético deveria “seguir a escola do capitalismo de Estado dos alemães, imitá-la com todas (…) as forças, não temer os métodos ditatoriais para acelerar essa assimilação da civilização ocidental pela Rússia bárbara, não vacilar diante de nenhum meio bárbaro para combater a barbárie”. [iv]

Bem, não é minha intenção defender incondicionalmente preceitos morais abstratos, que, segundo Pareto, têm servido amiúde como instrumento de dominação: “faça o que digo, mas não faça o que faço”, diz o ébrio fidalgo para o vassalo embriagado, esperando que, no outro dia, graças à amnésia etílica, ninguém se lembre de nada. Aliás, até concordo com Trotsky quando este afirma que “o meio não pode ser justificado senão pelo fim”; razão pela qual “um tiro de arma de fogo (…) disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável, [ao passo que] disparado para matar ou praticar violência é um crime”. [v] Todavia, creio que Lênin (e Trotsky), ao superestimar a violência como meio – ao fazer dela uma ponte privilegiada entre o império da necessidade e o reino da liberdade –, negligencia uma verdade “darwiniana” elementar: que o emprego sistemático de meios bárbaros cria um ambiente estável de barbárie em que “somente os mais bárbaros sobrevivem” (afinal, em pântano quem melhor se movimenta é o rastejante de sangue frio, não o bípede de sangue quente), de modo que, no fim, em vez de civilização o que advém é uma “barbárie high-tech” — não o “homem integral” do comunismo ou sequer um pacato cidadão urbano, mas um babuíno montado numa bomba atômica.



BULCÃO NETO, Manuel Soares. Sombras do Iluminismo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, pp. 81-94 — Versão modificada e resumida.




[i] BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 3ª edição, p. 146.
[ii] “Admitiu ele [Darwin] que cada célula do corpo adulto derrama no sangue e em outros fluidos do corpo algumas ‘gêmulas’, que são diminutas cópias da célula que as produziu. As gêmulas então se fixam nos órgãos reprodutores e ali formam as células sexuais. Quando essas células dão origem a um embrião, as gêmulas se transformam em novas células do corpo, do tipo das que originalmente as formaram”. — DOBZHANSKY, Th. O Homem em Evolução. São Paulo: Ed. Polígono, 1968, p. 29.
[iii] Como vimos antes, as crises do capitalismo não são crises de penúria, de subprodução de bens de consumo, mas crises de sobreprodução. Vale dizer: “não é por haver demasiadamente pouco que comer, mas por serem relativamente demasiados os produtos alimentares que os desempregados bruscamente morrem de fome” (Ernest Mandel).  Esse fenômeno esdrúxulo demonstra que, se há racionalidade no mercado capitalista, esta se volta periodicamente contra o consumidor em particular e o homem em geral, deixando claro que tanto a Lei de Say como a ideia da soberania do consumidor não passam de mitos científicos. 
[iv] Apud BANDEIRA, Moniz. Lênin: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 191.
[v] TROTSKY, Leon. A moral deles e a nossa. São Paulo: Publicações Liga Bolchevique Internacionalista, 2ª edição; 2003, pp.  14 e 46.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ÂNGELA CALOU E A CAPTURA DO FUGIDIO (NILTO MACIEL)

Máximo Górki (1868-1936)

 
"Nessa hora em que o corpo enfraquece e a vida emudece, no urro
para dentro do grito calado pela desgraça de uma morte não planejada, escaparei ileso. Mas ele, Górki, da estante de minha menina pacóvia
e coxa às gavetas da Rua 116, será sempre o meio ocular
da reprovação. Eu tenho medo de Górki e nunca,
nunca vou tomá-lo em minhas mãos"
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É de 27 de agosto de 2011 a dedicatória de Ângela Calou, em Eu tenho medo de Górki & outros contos: “Ao caro Nilto Maciel, em suas luzes vermelhazuis de carnavalha, dedico este pequeno diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão. Desta, que nem sabe domar o próprio medo”. Para quem não sabe, dois de meus recentes livros são Luz vermelha que se azula e Carnavalha. Tenho um soneto intitulado “Nem sei domar meus próprios cães”. Górki eu li pela primeira vez (ou segunda, pois durante o curso ginasial li uma antologia de contos russos) nos conturbados anos 1967/70: Mãe ou A mãe, leitura obrigatória de todo comunista.

 
O que significam “diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão”? Todo escritor escreve um diário (a obra), mesmo aqueles que escrevem de vez em quando ou com lentidão. Todo diário de quem escreve literatura é constituído de sonhos. Todo sonho de escritor é imaginário. E isto é a desrazão. Ou a “captura do fugidio”, de que fala Tércia Montenegro. 


O impresso de Ângela é pequeno, traz nas abas uns elogios de Pedro Salgueiro, um prefácio (“Uma arte que vicia”) de Tércia Montenegro e um posfácio poético (“Para Ângela Calou, o método secreto das fechaduras”) de O Poeta de Meia-Tigela, além das 22 peças ficcionais, num total de 96 páginas. Talvez apenas 70 com texto. Entretanto, que beleza, que riqueza, que pujança! Sim, quantidade não quer dizer qualidade. Quem não sabe disso?


Como todo bom livro de prosa de ficção, este de Ângela Calou nos remete, inicialmente, a duas perguntas: Quem narra? O que narra? Vejamos “Antoine voltou a pé”. Quem é o narrador? “Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como”. Quem é esta mulher, cujos “cabelos começaram a cair”, para quem “a morte era um rato metafísico” e que pouco fala de si mesma, ocupada com a morte de Antoine? Talvez não seja tão importante para o leitor saber quem narra. Certamente os personagens são mais úteis à ‘trama’ do que os narradores. Pois Antoine está na primeira (“Antoine voltou a pé”) e na última (“Eleve-me! – foi o que lhe pedi”) composição do volume. O que isto significa? Que tudo é um círculo? Outros nomes se repetem ou voltam à baila (narração?): Céu (que nome mais inusitado!), Carlile, Amábile, Rudah, Querubim (presentes também em “Marca d’água”). Há ainda Alice, que pode ser aquela mesma de Lewis Carroll. Como não ser, se está até num dos títulos: “Sobreaviso para Alice em seu país”? Que assim se inicia: “Alice, se tu soubesses como o teu mundo é pequeno”. E assim termina: “Tudo de tal modo pequenino que, apenas tu, podes saber, Alice, que atrás do espelho existe apenas o papelão”. Será uma recriação dela? O Poeta de Meia-Tigela fala em ressurreição. Sim, alguns escritores criam, matam e fazem ressurgir seus seres ou suas criaturas: “Que das palavras emane / A morte desse Antoine / E sua ressurreição:” (são os primeiros versos do poema-posfácio). 


Ângela segue à risca a lição de Guimarães Rosa: a estória não quer ser história. Quem dirá que “Da anatomia de um enganado” (narrado por mulher) é conto? Calou não é uma regionalista e não faz questão de ser (ou parecer). No entanto, tal como o Graciliano de Angústia ou São Bernardo, não renega o vocabulário nordestino (ou português antigo), e expressões populares: “calças pegando marreca” (p. 24), “homem muito resolvido” (p. 30). Não tem preconceitos desse tipo. Também não se peja de recriar frases de Guimarães Rosa, o mais nordestino dos escritores do sudeste brasileiro: “Claus desaconteceu de repente”. Ou de aspirar enredos da literatura clássica. E ainda vai e vem num bamboleio de frases supinamente inventadas pela poesia guardada na memória. Além disso, de vez em quando, larga umas frases que nos pegam de surpresa: “como um guarda-chuva que esqueceram de perder”.


A narradora de “A teia e a aranha, mosca distraída fui” faz um passeio pela tradição literária do amor: Sofia e Capitu, “aquela náusea alegre que se quis chamar amor” (a lembrar o lírico Camões), a flauta e os ratos da lenda germânica (artes do encantamento), Der Blaue Wittelsbacher (o diamante azul de Filipe IV), “ofereceu-me uma maçã” (Branca de Neve). O que demonstra (mas a contista não faz questão de comprovar nada, erudição ou conhecimento literário) aguda percepção das entrelinhas das lendas, da história e da literatura. 


Os protagonistas e narradores (masculinos e femininos) de Ângela são todos enigmáticos. A de “Antoine voltou a pé” lamenta não ter “quebrado as duas pernas” de Antoine, no “exercício de minha maldade”. Esse Antoine aparece de novo em “Há coisas que devem morrer”, que assim se inicia: “E assim morreu Antoine”.

A morte está presente em quase toda a obra de Calou. Em “Marca d’água”, a mãe da que narra se suicida: “Eu tinha quatorze anos quando mamãe furtou-nos de sua presença” (...), “naquele dia de luz nenhuma” (Rosa). Nessa narrativa curta (pouco mais de duas páginas) há diversos personagens, todos com nomes explícitos, o que é uma marca de Ângela. 


Em “A teia e a aranha, mosca distraída fui”, Carlile é um vendedor ambulante, um mascate, desses que andavam pelos caminhos, a pé, montados em alimárias ou em carruagens, um cigano, vendedor de sedas, sabedor das artes do encantamento, prontos a seduzir meninas, adolescentes, donzelas, mulheres sonhadoras (“aprendi a desaprender meus modos de menina”), com ofertas de maçãs (Branca de Neve) e outros mimos. “Quando Joana enlouqueceu” (...) Assim se inicia “Joana em dia de seu avesso”, a lembrar aquele poema célebre do mineiro Alphonsus de Guimaraens: “Quando Ismália enlouqueceu, / pôs-se na torre a sonhar...” Até que (é o desfecho) “ateou, distraidamente, fogo ao próprio corpo”. Em “Naquele tempo, naquele lugar”, o que narra se refere a “ciclope adoecido”, “demônios incautos”, “errantes desapressados”, “um homem de roupa preta e pés rachados”, “o retratinho do noivo enforcado”. Nenhum nome de ser fictício é mencionado. Como num sonho interminável. 


O conto do título da coleção é narrado por um homem que não lê Górki, não tem coragem de ler o escritor russo: “Eu tenho medo de Górki”, afirma de chofre, logo no início do escrito. Mas, logo adiante, se justifica: “Eu tenho medo de Górki, e nunca vou lê-lo enquanto estiver sozinho, à mercê do deboche de todos os meus fantasmas reunidos sob o vidro dos meus desafetos”. É um assassino, um arrombador de casas, um louco. Confessa-se: “Sou eu o arrombador”. Sua nova vítima é Dóris, que “tem trinta e cinco anos e é manca da perna esquerda”.


Ângela não pratica o que chamam de “conto fantástico”. Entretanto, em algumas ocasiões, vai além do normal, do real, do razoável, como em “Do oco no meio das falas e coisas”. O narrador confessa: “meu pensamento vazando para fora, e todo mundo vendo”. Ora, quem vê pensamento? As falas (do paciente e de seu interlocutor, médico) se intercalam sem qualquer indicação. Quem mais fala, é claro, é o ‘doente’, que até ironiza o médico: “O senhor, doutor, é um técnico. Que posso eu contra palavra de um técnico?” Na verdade, a contista aboliu completamente certos cacoetes (não só nessa obra), como o diálogo com travessão, verbos dicendi ou aspas. Como se diz, vai direto ao assunto, sem lengalengas, sem quiprocós de quem só sabe contar história (quando sabe).


Não consigo ir além disto (já me sinto em sonho imaginário ou em plena desrazão). Preciso reler os enredos fugidios de Ângela Calou, se quiser me manter real e razoável.

          
Fortaleza, 3 de outubro de 2011.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O QUE HÁ DE NIETZSCHE EM RAUL SEIXAS (ARTIGO DE LUCIANO BONFIM) (*)

Friedrich Nietzsche por Edward Munch, pintura de 1906


Neste breve artigo apresentamos algumas possibilidades da presença do pensamento filosófico de Friedrich Nietzsche na obra musical de Raul Seixas. Para cumprir esse objetivo dividimos a argumentação em 6 (seis) momentos: no  primeiro momento denominado: primeiro acorde da canção, apresentamos as questões que motivaram a pesquisa; no segundo momento, o caso Nietzsche, sucintamente, apresentamos a vida e a obra de Friedrich Nietzsche; a vida e a obra de raul Seixas são apresentadas no terceiro momento, denominado: as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor; palavras cruzadas, é o quarto momento onde apresentamos as possibilidades da presença do pensamento filosófico de Nietzsche na obra musical de Raul  Seixas; no bloco denominado: à guisa de conclusão, realizamos as considerações finais e apontamos algumas possibilidades de aprofundamento da pesquisa, para em seguida apresentarmos a bibliografia consultada.


*

Sem música a vida seria um exílio
 Nietzsche

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Raul Seixas


Para Djacir Soares e Chico Barros.


PRIMEIRO ACORDE DA CANÇÃO


Muitos são sabedores das inclinações de Friedrich Nietzsche para a música e das  letras das canções de Raul Seixas apresentarem um quê de filosofia, tendo o primeiro realizado, para aquém do seu pensamento, algumas poucas composições e o segundo, para além da sua música, ter adquirido a fama de filósofo do rock.

Então, em que esquinas da vida poderiam se encontrar tais senhores? Em que momento, se é que existe mesmo esse momento, a música produzida por Raul Seixas se aproxima da filosofia de Friedrich Nietzsche? Vejamos...

O CASO NIETZSCHE

Nietzsche nasceu em Röcken, pequena cidade próxima a Leipzig, em 15 de outubro de 1844. Em homenagem ao rei da Prússia, que fazia aniversário naquela data, foi batizado Friedrich Wilhelm.
Nascido em uma família historicamente vinculada à Igreja Luterana, seu pai e seu avô haviam ensinado teologia e sua mãe era filha e neta de pastores luteranos; segundo RUSSELL [2001:372], esta circunstância conferiu ao seu lar um fundo de piedade e retidão;  matiz que se conserva no tom altamente moral das obras de Nietzsche, mesmo nas mais rebeldes.
Segundo nos informa HALÉVY (s/d),

O pequeno Nietzsche foi tardo em falar. Olhava para todas as coisas com olhos graves, e calava-se. Aos dois anos e meio, diz sua primeira palavra. O pastor gosta muito deste companheiro silencioso e leva-o com prazer nos seus passeios. [...]Nietzsche jamais se esqueceu do som dos sinos longínquos sobre a planície imensa e semeada de lagos, nem da impressão de sua mão apertada na forte mão de seu pai. [HALÉVY, s/d: 7]

Seu pai, no mês de agosto de 1848, enquanto tentava consertar o telhado da igreja da paróquia onde era pastor, tombou do alto de uma escadaria e bateu violentamente com a cabeça nas pedras da calçada. O choque precipitou a eclosão de uma terrível doença. Karl-Ludwig Nietzsche, homem culto e delicado, perdeu a razão e morreu depois de um ano de loucura e sofrimento.
No mesmo ano, 1849, morre Joseph, irmão caçula de Friedrich Wilhelm.
A mãe, por conta dos últimos acontecimentos, mudou-se com a família para Naumburg, pequena cidade às margens do Saale, onde durante os dez anos seguintes viveria o pequeno Nietzsche em companhia de sua mãe, Franziska, e de sua irmã, Elizabeth, dois anos mais moça que ele – além da avó e duas tias.
Como todos os homens da família, quis também um dia ser pastor – um dos eleitos que vivem perto de Deus e falam em seu nome; tanto era o seu intento e dedicação que chegou mesmo a ser cognominado, pelos seus colegas de escola, “pequeno pastor”.
Deste período registram-se suas primeiras tentativas como compositor e poeta.
Segundo HALËVI [s/d],

Aos nove anos, suas inclinações artísticas se estenderam: a música foi-lhe revelada por um coro de Haendel que ouviu na igreja. Estudou piano. Escreveu versos e, mãe, avó, tias e irmã receberam, em cada aniversário, um poema com sua respectiva música. [...]Tivera, desde a primeira infância, o instinto da frase e da palavra, do pensamento visível. Não cessou de escrever, e nem uma nuance de sua inquietação nos ficou escondida. [HALÉVY, s/d:14].

Com amigos de infância, em 1860, ainda em Naumburg, criou uma sociedade lítero-musical denominada “Germania”, em cujas reuniões apresentou peças musicais, poemas e ensaios de sua autoria.
Na literatura: Hölderlin, acima de tudo. Além deste, seus interesses e leituras estavam então voltados para a mitologia nórdica, Goethe, Byron, Shakespeare, Schiller e Lessing.
Na juventude, em certa ocasião folheou uma obra cujo autor lhe era desconhecido: O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer. Desde então, a filosofia passou a interessá-lo.
Nietzsche estudou letras clássicas na célebre Escola de Pforta e na Universidade de Leipzig. Foi professor, durante onze anos, de grego e latim na Universidade da Basiléia, na Suiça, e por outro igual tanto de tempo vagou errante, em pequenas cidades da Itália, Suíça, França e Alemanha.
Escreveu, entre tantos livros essenciais para o pensamento ocidental: “A Gaia Ciência”, “Humano, Demasiado Humano”, “Assim Falava Zaratustra”, “Além do Bem e do Mal”, “Genealogia da Moral”, “Ecce Homo”, etc., tornando-se o filósofo da potência, do além do homem, da crítica ao homem rebanho, da crítica à moral cristã, da crença otimista na vida construída pelo ótica dos fortes, dos que não se anulam porque aguardam a chegada de um mundo ideal ou fictício.
No início de 1889, como acontecera anteriormente com seu pai, Nietzshe perde a razão. Viveu, quando se agravaram as crises, sob os cuidados da mãe e da irmã, vindo a falecer, vítima de uma infecção pulmonar, no dia 25 de agosto de 1900.

AS AVENTURAS DE RAUL SEIXAS NA CIDADE DE THOR 

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, em 28 de junho de 1945 – 101 anos após o nascimento de Nietzsche,  e no ano da bomba atômica, como diria depois, em diversas entrevistas, o próprio Raul Seixas.
Filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Santos Seixas, teve um único irmão: Plínio Santos Seixas, nascido em 1948, para quem, mais tarde, Raul iria escrever e vender histórias e desenhos.
Em entrevista concedida a Ana Maria Bahiana, Raul Seixas relatou um trecho de sua história de vida assim:

Quando eu era guri, lá na Bahia, música pra mim era uma coisa secundária. O que preocupava mesmo eram os problemas da vida e da morte, o problema do homem, de onde vim, pra onde vou, o que é que eu estou fazendo aqui. O que eu queria mesmo era ser escritor. Desde pequeno eu fazia e vendia livros pro meu irmão menor, quatro anos mais moço que eu. [PASSOS, 2003: 13].

Durante os anos de 1952 a 1956 fez o curso primário. No ano de 1957 funda o Elvis Presley Rock Club e, no mesmo período, durante o curso ginasial, repete a 2a série três vezes, o motivo, segundo o próprio Raul Seixas, é que: matava aula pra ouvir discos de rock.
Cria em 1962 o grupo Os Relâmpagos que em 1963 muda o nome para The Panthers, em seguida modificado para Raulzito e os Panteras –  regularmente acompanhavam nomes consagrados da Jovem Guarda quando estes iam se apresentar na Bahia.
Raul Seixas sempre leu e gostou de filosofia, vindo mesmo, desde cedo, a desconfiar da existência da verdade absoluta. Ao iê-iê-iê ingênuo e romântico presente na cena musical brasileira dos anos de 1960, Raul Seixas, através das letras de suas canções, acrescentou desassossegos para a construção de uma sociedade galgada na lei e na moral do mais forte.
Em 1968 grava o primeiro LP, Raulzito e os Panteras, também neste período realiza composições que são gravadas por outros interpretes.
Após este momento, com outros companheiros de aventura, e sem a devida permissão, grava e lança o LP: Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 – o que resulta na sua demissão da gravadora CBS, onde era produtor musical.
Com os Beatles [ALVES: 1993, 27]Raul percebeu que poderia usar a música para dizer o que ele pensava – era isso que faziam os Beatles. Raul começa a compor, para dizer em suas músicas, o que ele pensava.
Em 1972 participa do Festival Internacional da Canção com Let Me Sing, Let Me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo. Gravou em 1973 o LP Kring-Há, Bandolo!, onde aparecem sucessos como “Ouro de Tolo’, “Metamorfose Ambulante”, “Mosca na Sopa”, entre outros. Ganhando, a partir de então, notoriedade nacional como cantor e compositor.
Grava, em 1974, o LP Gita, que lhe garante um disco de ouro e traz músicas como “Medo da Chuva”, “As Aventuras de  Raul Seixas na Cidade de Thor”, “Sociedade Alternativa”, “S.O.S”, “Gita” e “O Trem das Sete”.
Gravou muitos outros discos. Foi polêmico e controverso. Tornou-se um artista ímpar em nossa cultura brasileira. Disse não pertencer a nenhum grupo dentro da linha evolutiva da música popular brasileira e buscou abrir portas para “verdades” individuais, as suas e as dos outros.
Este mesmo Raul Seixas, vítima de uma parada cardíaca causada por pancreatite crônica, morreu em São Paulo em 21 de agosto de 1989.

PALAVRAS CRUZADAS

            Nietzsche escolheu e utilizou, principalmente, o aforismo como forma de inquietar o mundo através de seu pensamento. Em livros construídos com a matéria, perspicácia e maestria de um grande artista consciente da força e da beleza de sua arte, nos legou inconformismos e desconfianças que ainda hoje soam como marteladas que podem dobrar até os mais densos metais.
CHAUÍ [1994:354], aludindo ao pensamento de Nietzsche, nos diz que:

Contra a moral dos escravos, afirma-se a moral dos senhores ou a ética dos melhores, dos aristoi, a moral aristocrática, fundada nos instintos vitais, nos desejos e naquilo que Nietzsche chama de vontade de potência, cujo modelo se encontra nos guerreiros belos e bons das sociedades antigas, baseadas na guerra, nos combates e nos jogos, nas disputas pela glória e pela fama, na busca da honra e da coragem. Essa concepção encontra-se em Nietzsche e em vários filósofos contemporâneos.” [CHAUÍ, 1994: 354]


Incluímos neste rol o mago inglês Aleister Crowley que muito influenciou o pensamento de Raul Seixas e Paulo Coelho, este, seu parceiro mais constante.

Nas letras de suas canções, como propôs Nietzsche em sua filosofia, Raul Seixas realiza, e também sugere, uma “transvaloração” de valores – dos valores presentes e vigentes em nossa sociedade. Esta inquietação é passada para os seus fãs, capturados pela audição, de maneira rápida e agradável através da pulsante batida  do rock’n’roll, conseguindo assim, mesmo que não saibam da fonte primeira, um grande número de interessados para este pensamento – algo que a obra de Friedrich Nietzsche, pela natureza de sua filosofia, pela construção e não convencionalidade de suas idéias, ainda não conseguiu alcançar em nosso meio.
            Raul é um filósofo no sentido de manter acesa a chama das indagações sobre o mundo e a vida, possuindo frente a estas questões uma verdadeira atitude filosófica, pois segundo CHAUÍ [1994],
 
[...] interrogando-se a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são as nossas crenças e os nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica. Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido. [CHAUÍ,1994:12].


E segundo MARTON [2000: 47],


[...] é preciso coragem para praticar a desconfiança, descartar os pré-juízos, evitar as convicções. É preciso destemor para desfazer-se de hábitos, abandonar comodidades, renunciar à segurança. É preciso ousadia para abrir mão de antigas concepções, desistir de mundos hipotéticos, libertar-se de esperanças vãs. Enfim, é longo o processo para o espírito tornar-se livre [MARTON, 2000: 47].


Apesar de corajosamente manter esta atitude filosófica em sua obra e em sua vida, não se pode atribuir a Raul Seixas a denominação de “filósofo” no sentido de ele ter construído um sistema de pensamentos, valores, regras, escolas, ou de ter realizado uma investigação aprofundada sobre a vida e o mundo
Que a obra de Raul Seixas está repleta de referências filosóficas é um fato, e muitas vezes por não conter a identificação de seus autores primeiros, acaba-se creditando ao maluco beleza algo que não foi construído pela sua mente, como nos informa FRENETTE [1999], quando comenta o livro Baú do Raul:.

[...] deixando nesses textos mais qualidade literária do que aquela que pretendia exprimir nos textos “filosóficos”. Também há nesse Baú do Raul muitos textos escritos sem muito, digamos, rigor técnico, o que leva o leitor, sobretudo aquele menos afeito a leituras, a crer que quem disse que “O homem nasce livre mas em toda parte encontra-se acorrentado” e afirmou que “Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano e eu o declaro meu inimigo” tenha sido Raul Seixas; quando, na verdade, a primeira frase é o início do famoso Contrato Social de Rosseau, e a Segunda é uma premissa anarquista de Proudhon. Porém, como estamos no mundo do rock, e não numa academia de letras, está tudo certo. Mas essas observações são importantes para esclarecer aqueles que, por serem fãs de carteirinha, querem dar a Raul o que não é de Raul. Ele foi um roqueiro, e dos bons, mas não um filósofo. Tentou filosofar, e ganhamos com isso, pois, ao confundir egocêntricas divagações existencialistas com filosofia, trouxe ao rock nacional um discurso libertário que estava fazendo falta. [FRENETTE, 1999: 24].

Há homens que nascem póstumos, esta pérola do pensamento de Nietzsche, a encontramos dentro do referido livro Baú do Raul, sem nenhuma indicação de quem é o autor, o que, se não confirma o que esta indicado acima, aponta para esta possibilidade.
            Raul Seixas realiza este ato de livre “transposição de filosofias” para as letras de suas composições de maneira brilhante mas, parecendo não se contentar, também a realiza com algumas melodias e arranjos, por exemplo: Rock das ‘Aranha’ apresenta enormes coincidências com Killer Diller, do americano Jim Bredlove, e da guitarra presente na introdução de Rock do Diabo com o início da música It dos Beatles; quando perguntado sobre estas coincidências, Raul Seixas ria e depois, geralmente, dizia: Meti a mão!
            Mas como nos indica o próprio NIETZSCHE [2005a:123] quando a arte se veste de tecido mais gasto é que melhor a reconhecemos como arte;  e um bom escritor não tem apenas o seu espírito, mas também o espírito de seus amigos.
Ana Maria Bahiana, jornalista e pesquisadora, arremata a questão nos dizendo que:

[...]é possível discutir tudo em Raul Seixas: suas proposições, suas crenças, sua música, sua posição dentro da música. (É formidável que exista uma pessoa ainda capaz de provocar tais tumultos ideológicos.) Mas é um pouco difícil ficar imune ao fascínio que ele exerce. Raul Seixas, polígono de muitos lados, espelho de muitas imagens. (PASSOS, 2003: 30).

Assim: Raul Seixas realiza uma transmutação de pensamentos que, muitas vezes, pela formulação e profundeza originais, não se tornam de fácil entendimento, e os transforma em uma espécie de filosofia ao alcance de todos. Raul, vale lembrar, ousou perguntar de maneira inédita o que até então não havia sido considerado tema na história da música popular brasileira.
E, no que se refere especificamente ao pensamento de Nietzsche, ressaltamos os seguintes aspectos presentes na obra de Raul Seixas: a filosofia e a vida vinculadas à ação, a transvaloração dos valores, a possibilidade de nos tornarmos homens e espíritos livres, a construção de uma nova moral que se encontra presente na moral dos fortes, dos senhores[diferente da moral construída sob a ótica dos servos e escravos], uma constante atitude de desconfiar das verdades absolutas, a clareza e a coragem de se impor para que não se torne mais um “homem-rebanho”.
Onde encontramos estas manifestações na música de Raul Seixas?
“Aumente o volume”  e confira em canções como:

Ouro de Tolo
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Eu devia estar contente/Porque eu tenho um emprego/Sou um dito cidadão respeitável/E ganho quatro mil cruzeiros por mês// Eu devia estar contente/Por ter conseguido tudo o que eu quis/mas eu confesso abestalhado/que eu estou decepcionado// Porque foi tão fácil conseguir/E agora eu me pergunto: e daí?/Eu tenho uma porção de coisas grandes/Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado// É você olhar no espelho/Se sentir um grandessíssimo idiota/Saber que é humano, ridículo, limitado/ Que só usa dez por cento de sua cabeça animal// E você ainda acredita que um doutor, padre ou policial/ Que está contribuindo com sua parte/ Para o nosso belo quadro social// Eu que não me sento/No trono de um apartamento/Com a boca cheia de dentes/ Esperando a morte chegar.

Sapato 36
[Composição: Raul Seixas. Disco: O Dia em que a Terra Parou. Ano: 1977, Gravadora: WEA]
Eu calço é 37/Meu pai me dá 36/Dói, mas no dia seguinte/Aperto meu pé outra vez/Eu aperto meu pé outra vez// Por que cargas d’águas/Você acha que tem o direito/De afogar tudo aquilo que eu/Sinto em meu peito/ Você só vai ter o respeito que quer/Na realidade/No dia em que você souber respeitar/A minha vontade/Meu pai/Meu pai.

A Lei
[Composição: Raul Seixas. Disco: A Pedra do Gênesis. Ano: 1988. Gravadora: Copacabana]
A lei do forte/Essa é a nossa lei e a alegria do mundo/Faz o que tu queres há de ser tudo da lei/Fazes isso e nenhum outro dirá não/Pois não existe Deus  senão o homem.// Os escravos servirão/Viva a sociedade alternativa/ Viva viva.

Conserve seu medo
[Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho. Disco: Mata Virgem. Ano: 1978. Gravadora: WEA]
Conserve seu medo/Mas sempre ficando/Sem medo de nada/Porque dessa vida/De qualquer maneira/Não se leva nada/E ande pra frente/Olhando pro lado/Se entregue a quem ama/Na rua ou na cama/Mas tenha cuidado.


Carpinteiro do Universo
[Composição: Raul Seixas e Marcelo Nova. Disco: A Panela do Diabo. Ano: 1989. Gravadora: WEA]
O meu egoísmo é tão egoísta/Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar/Mas não sei porque nasci/Pra querer ajudar a querer consertar/O que não pode ser//Carpinteiro do universo inteiro eu sou, assim/No final/Carpinteiro de mim

Eu sou Egoísta
[Composição: Raul Seixas e Marcelo Motta. Disco: Novo Aeon. Ano: 1975 Gravadora: Philips]
Eu sou estrela no abismo do espaço/O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço/Onde eu tô não há bicho papão não, não/Eu vou sempre avante no nada infinito/Flamejando meu rock, o meu grito/Minha espada é a guitarra na mão.

Sociedade Alternativa
[Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho. Disco: Gita. Ano: 1974. Gravadora Philips]
Viva /Viva, viva, viva a sociedade alternativa/Faz o que tu queres/Há de ser tudo da lei/Viva, viva, viva a sociedade alternativa/Viva/A lei de Thelema/Viva, viva, viva a sociedade alternativa/A lei do forte, essa é a nossa lei e a alegria do mundo/Viva, viva, viva a sociedade alternativa.

Por Quem os Sinos Dobram
[Composição: Raul Seixas. Disco: Por Quem os Sinos Dobram. Ano: 1979. Gravadora: Warner Bros]
Nunca se vence uma guerra lutando sozinho// Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz/Coragem, coragem, que eu sei que você pode mais.

Mosca na Sopa
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Eu sou a mosca que pousou em sua sopa/Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar.

Metamorfose Ambulante
[Composição: Raul Seixas. Disco: Krig-Há, Bandolo! Ano: 1973. Gravadora: Philips.]
Prefiro ser esta metamorfose ambulante/Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. 

À GUISA DE CONCLUSÃO

Neste breve artigo apresentamos algumas possibilidades da presença do pensamento filosófico de Friedrich Nietzsche na obra musical de Raul Seixas.
Um artigo desta extensão não pretende esgotar tão fértil tema. Indicamos, sem falsa modéstia, veredas, neste grande sertão do conhecimento, que, posteriormente, poderão ser aprofundadas, , por outros pesquisadores.
Lembrando, como aprendemos, que o que conduz a pesquisa é a incerteza mesmo que a filosofia tenha nascido como pretensão de verdade. 
Assim como para RUSSEL[2001:374] Nietzsche foi um grande artista literário, e suas obras mais parecem prosa poética do que filosofia, para ALVES[1993:50-1], Raul tentou encorajar aqueles que se sentem acuados diante do medo da sociedade, em todo seu trabalho ele tenta mostrar que o homem é capaz de fazer o que quer se sua vontade for forte o bastante. Todas a músicas de Raul Seixas expressam a sua preocupação com a busca do EU. Elas estão voltadas para o despertar da lei do forte, da lei da vontade. Tal assim como falou Zaratustra, quando nos diz que:

Desgarrar muitos do rebanho – foi para isso que eu vim. Devem vociferar contra mim povo e rebanho: rapinante quer chamar-se Zaratustra para os pastores. Pastores digo eu, mas eles se denominam os bons e justos. Pastores digo eu: mas eles se denominam os crentes da verdadeira crença. Vede os bons e justos! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator : mas este é o criador. (NIETZSCHE, 1996: 212-13).

Nietzsche e Raul Seixas tiveram a coragem de rebatizar, cada um em seu tempo e a seu modo, o seu lado mau como o seu lado melhor, e buscaram, assim, deixar portas abertas para verdades individuais.
Assim sendo, a distância entre dois pontos, ou o sentimento de distância entre estes dois pontos, diminui, ou reduz-se, quando a dimensão de linha que antes, supostamente, os separava, serve agora, de fato, para uni-los - mesmo que as luzes sejam curvas quando dispersas em universos paralelos.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALVES, Luciane. Raul Seixas – O sonho da sociedade alternativa. São Paulo: Martin Claret, 1993.
BOEIRA, Nelson. Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
FRENETTE, Marco. O Mito Caboclo. Revista Caros Amigos Especial: Número 4 – Agosto de 1999.  Páginas 24-5.
HALÉVY, Daniel. Vida de Frederico Nietzsche. São Paulo: Editora Assunção, s/d. Tradução: Jerônimo Monteiro.
MARTON, Scarlett. Extravagâncias – ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial/Editora UNIJUÍ, 2000.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005a. Tradução: Paulo César de Souza
_____. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho.
_____. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005b. Tradução: Paulo César de Souza.
MUGNAINI JR. Ayrton. Eu quero cantar por cantar – Raul Seixas. São Paulo: Nova Sampa Editora, 1993.
PASSOS, Sylvio[Org.]. Raul Seixas por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2003.
RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental – A aventura das idéias dos pré-Socráticos a Wittgenstein. 3a ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. Tradução: Laura Alves e Aurélio Rebello.
SEIXAS, Kika e SOUZA, Tárik de. [Org.] O baú do Raul. 25a edição. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2001.




(*) Artigo publicado em Nietzscheanismos (Coleção Diálogos Intempestivos). Edições UFC, 2008. Organizadores: José Gerardo Vasconcelos, Cellina Rodrigues Muniz e Roberto Kennedy Gomes Franco. Luciano Gutembergue Bonfim Chaves é professor do Curso de Pedagogia da UVA (Universidade Estadual Vale do Acaraú, Mestre em Educação Brasileira - FACED/UFC e autor dos livros de contos Mobiles (2007) e Dançando com Sapatos que Incomodam (2002); e dos livros de poemas Beber Água é Tomar Banho por Dentro (2006) e Janeiros Sentimentos Poéticos (1992).
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