terça-feira, 20 de setembro de 2011

HOMO PHALLUS ERECTUS (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

Festival anual da fertilidade (Kanamara Matsuri) - Japão



HOMO PHALLUS ERECTUS
(e seus ancestrais)


“A origem do homem foi demonstrada. A metafísica deve progredir. Aquele que compreender o babuíno contribuirá mais à metafísica que Locke”.

Charles Darwin

“A psicanálise ainda é a visão da mente mais intelectualmente satisfatória e coerente”.

Eric R. kandel, Prêmio Nobel de 2000 em fisiologia ou medicina


Darwin e Freud

Uma das críticas mais correntes ao pensamento de Freud é aquela que aponta a acentuada ênfase que este autor deu à sexualidade.  Há até quem afirme que a psicanálise não passa de uma filosofia reducionista ou de um pansexualismo pseudocientífico, uma vez que tudo explica valendo-se de conceitos tais como o “Édipo-complexo”, a ”angústia de castração”, a “inveja do pênis” etc.

Além do que para muitos parece um contrassenso uma sexualidade não genital e desligada da sua função reprodutora. Como a que Freud observou nas crianças, mesmo nas de tenra idade – um erotismo difuso que o levou a chamar os bebês de “perversos polimorfos”. Acresce ainda que, para a psicanálise, a bissexualidade, longe de ser uma doença ou algo que o valha, é na verdade uma característica da espécie humana. Tanto que Freud, numa carta a Fliess, escreveu que todo ato sexual é na realidade um acontecimento entre quatro indivíduos.

Freud sempre buscou firmar suas teorias sobre uma base natural. Sua preocupação com o fundamento biológico dos fenômenos psíquicos por ele observados é uma constante em toda a sua obra.  Entretanto, em sua época o conhecimento acerca dos processos neurológicos e bioquímicos ainda era incipiente, além do que a etologia, ciência do comportamento animal, sequer tinha sido criada. De modo que se pode afirmar que Freud passou pela mesma dificuldade com a qual se deparou Darwin. Este, como se sabe, elaborou sua revolucionária teoria da evolução das formas de vida sobre um vazio: o desconhecimento dos mecanismos da transmissão hereditária – as leis da hereditariedade de Mendel, segundo a qual as informações que passam de uma geração a outra são quantizadas, isto é, tem por base “partículas elementares” denominadas genes, e que por isso não se combinam à maneira dos líquidos, permaneceu ignorada até que, em 1900, foi redescoberta pelos biólogos Erich Tschermak, Hugo de Vries e Carl Correns.

Esse vazio era o calcanhar de Aquiles da teoria de Darwin, o que a deixava vulnerável a toda sorte de críticas, mesmo as dos criacionistas; até que, em meados dos anos 40 do século XX, elaborou-se a “teoria sintética da evolução”. Sintética porque combinava o mecanismo da seleção natural, descoberto por Darwin-Wallace, com a genética moderna e a biologia molecular. A partir de então, o evolucionismo darwiniano firmou-se como uma teoria “acabada” (axiomatizada). [1]

De modo semelhante, a teoria freudiana careceu por muito tempo de uma firme base biológica. Esse hiato é a razão pela qual muitas das conjeturas de Freud, embora firmemente assentadas em dados empíricos, davam a impressão de serem “algo forçado”, malabarismos mentais ou explicações da realidade à maneira dos mitos. Tal lacuna também favoreceu o surgimento de escolas psicanalíticas dissidentes que negligenciam a continuidade que há entre o animal e o homem e que concebem a cultura como uma espécie de contranatureza.

Ciente desse problema, Freud confessou: “Não se esqueçam; não estamos de posse, atualmente, de um critério universalmente admitido da natureza sexual de um processo, a menos que seja, mais uma vez, o da relação com a função de reprodução, que devemos recusar como demasiado estreito. (...) as características químicas que temos o direito de supor aguardam apenas sua descoberta.” (Gesammelle Werke, XI, p. 331-332, Apud Bourgguignon. História Natural do Homem. André Bourguignon; Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1990, p. 172)

E, realmente, nos dias de hoje estamos a testemunhar significativas descobertas em todos os ramos da ciência biológica, descobertas estas que, longe de refutarem o freudismo (como pretendem alguns), corroboram-no em larga medida, isto é, sob a luz dos recentes progressos da biologia, as ideias de Freud já não parecem tão bizarras – a “coisa” começa a fazer sentido.

Crise hormonal pós-natal

Sobre a sexualidade infantil, a embriologia e a endocrinologia fornecem atualmente a chave para a sua compreensão.  Com efeito, sabe-se hoje que o processo de diferenciação sexual no indivíduo se dá em três fases: durante a primeira metade da gestação, após o nascimento e na puberdade. A partir da sexta semana de gestação, e sob a ação da testosterona e do hormônio antimullëriano, começa a se desenvolver no embrião geneticamente masculino (portador do cromossomo Y) a próstata, o pênis e o escroto. Também nesta fase, os andrógenos circulantes e outros esteróides gonadais agem sobre o sistema nervoso central em formação, ou seja, a diferenciação sexual in utero afeta também o cérebro – A ação da testosterona se dá particularmente sobre o hipotálamo.

Mas o desenvolvimento e a “sexualização” do sistema nervoso central não se conclui ainda no útero. Nos humanos, o processo de diferenciação sexual do SNC estende-se até aproximadamente o quinto ano de vida. Aliás, logo após o nascimento o que se verifica é um recrudescimento brutal deste processo. De fato, foi observado em recém-nascidos machos de várias espécies de mamíferos, entre as quais o homem, uma secreção de testosterona muito intensa, fenômeno este que ficou conhecido como “crise testicular pós-natal”. “No menino” – escreveu o neurologista André Bourguignon – “a taxa de testosterona chega à metade da do adulto já na segunda hora de vida e, após um decréscimo, continua alta do segundo ao sexto mês. Diminui depois, até atingir taxas muito baixas (1% da taxa adulta) que se mantêm até os oito-dez anos, depois voltam a subir progressivamente, até a puberdade. (...) Quanto às meninas, é entre o sexto e o décimo segundo mês que uma atividade ovariana se acentua muito nitidamente.” (Bourguignon; 1990; 173-174p)

É sabido que a testosterona, o hormônio masculino, é responsável pela sensação de prazer sexual não só no homem como também na mulher (Mulheres cuja taxa deste andrógeno é muito baixa ou nula são incapazes de terem orgasmos). Ora, tanto no menino quanto na menina estão presentes hormônios de ambos os sexos, embora em proporções inversas, de modo que, também nas crianças, a testosterona induz sensações prazerosas, de natureza sexual, e relacionadas àquelas zonas corporais de maior contato com os adultos que lhes dedicam cuidados, sobretudo a mãe: a boca, durante o período de amamentação, e a mucosa anal, quando a criança começa a adquirir controle sobre os seus esfíncteres, que é também a fase em que os pais lhe impõem normas sobre higiene. Foi com base nesta constatação – a existência, na criança, de outras zonas “erógenas” além da genitália – que Freud elaborou sua teoria da libido pré-genital.

A curva da testosterona coincide amplamente com a hipótese da evolução difásica da sexualidade humana aventada por Freud: a libido pré-genital, seguida do período de latência e, depois, a puberdade.

Como se pode constatar, os progressos da endocrinologia confirmaram a posteriori algumas das ideias mais importantes de Freud. Segundo Bourguignon, “a crise hormonal pós-natal arremata a diferenciação sexual do psiquismo e do comportamento. Sem ela, não haveria sexualidade infantil, complexo de Édipo, perversões.” (Bourguignon; 1990; 176p)

Nervo vago e prazer erótico não-genital

Uma importante descoberta da neurologia que vai ao encontro das conjecturas freudianas acerca de um erotismo não circunscrito à função reprodutora diz respeito ao nervo vago como mediador de estímulos e respostas sexuais.

Com efeito, experiências realizadas com ratos confirmaram a existência de uma via alternativa pela qual o cérebro recebe – e responde a – sinais de natureza sexual (como se sabe, o caminho usual é a medula espinhal). Trata-se do nervo vago, que vai diretamente da cérvix uterina, através do abdômen e tórax, até o pescoço e tronco cerebral, e que tem ramificações por toda essa região, inclusive na cabeça. Estímulos somato-sensoriais em quaisquer dessas partes do corpo (por exemplo, o contato da boca do lactente com o seio materno) induzem a secreção do peptídeo intestinal vasoativo que funciona como neurotransmissor que causa a sensação de prazer erótico no cérebro.

Essas ramificações vagais na parte superior do corpo é o que permite a muitas mulheres paraplégicas – ou que sofreram graves lesões na medula espinhal e que, por isso, nada sentem abaixo da linha do peito – a experiência do prazer orgástico “não-genital”, isto é, clímax erótico a partir de carícias no ombro, nos seios, no queixo, no pescoço, etc. A propósito, o professor Alwyn C. Scott (Science, Mind, and Society; University of Arizona Extension; 1999) [2], relata casos ainda mais bizarros de “algumas mulheres [que] podem induzir o orgasmo afagando suas sobrancelhas ou pressionando seus dentes ou acenando os dedos entre os olhos e o Sol numa freqüência de 5-10 hertz”.

No ano de 2002, pesquisadores da Universidade de New Brunswick, Nova Jersey, conseguiram isolar essa substância neurotransmissora da pulsão erótica através do vago. E, na ocasião, descobriram algo ainda mais surpreendente: nas palavras da neurocientista Silvia Helena Cardoso, constataram que “esta mesma substância química também tem efeito supressor da dor, rivalizando com a morfina, e fazendo dela um dia a fonte natural do alívio da dor. O achado poderia levar a uma pílula que daria a uma pessoa a mesma sensação de orgasmo e poderia ser usada no tratamento da dor”. [3]

Já se sabia que a beta-caseína presente no leite materno transforma-se, no intestino do bebê, em beta-casomorfina, uma substância da família das endorfinas que contribui para criar uma dependência do filho com relação à mãe. [4] E, num artigo publicado na revista Science em 25 de junho de 2004 (Francesca D'Amato do CNR, Instituto de Neurociência, Psicobiologia e Psicofarmacologia em Roma), apresentou-se mais indícios da existência de uma relação entre a dependência mãe-filho e os receptáculos opióides do cérebro.  Ou seja, esses novos achados das neurociências revelam uma justaposição ou, pelo menos, uma zona de interseção entre a base neuroquímica dos vícios e compulsões e a do prazer erótico. [5]

A sexualidade e o princípio darwiniano do deslocamento funcional

A existência de uma sexualidade não-genital e, portanto, desligada da função de procriação remete ao princípio darwiniano do deslocamento funcional das estruturas anatômicas. Com efeito, em A Origem das Espécies Darwin refere-se a órgãos que desempenham múltiplas funções, sendo uma principal e as demais, secundárias (havendo, inclusive, casos em que a função principal termina por ser relegada, desaparecendo ou sobrevivendo apenas como atavismo).

Exemplo de deslocamento funcional é a plumagem avícola – as penas, em sua origem, desempenhavam a função de termorregulação entre alguns dinossauros, como o Archaeoptery, uma espécie de transição entre os répteis de sangue quente e as aves (esses animais, por serem pequenos – logo, com a superfície do corpo [por onde perdem calor] grande em comparação ao seu volume – têm dificuldade de se manterem aquecidos). Posteriormente, entre os pássaros, a esta função termorreguladora originária se justapôs uma função aerodinâmica, de essencial importância na produção do voo.

Ademais, em algumas aves (como o pavão) as penas também têm um caráter ornamental de chamariz sexual – um produto da seleção sexual dos machos por fêmeas caprichosas –, beleza esta que pode ter um alto preço, como uma maior dificuldade de alçar voo, o que torna o dândi almofadinha muito mais vulnerável à ação dos predadores terrestres.

Pois bem: assim como as penas, também a sexualidade veio a desempenhar, em muitas espécies, principalmente em meio aos primatas, outros papéis além da sua função reprodutora originária. A título de ilustração, cito os bonobos (Pan paniscus), outrora conhecidos como chimpanzés-anões. Com efeito, entre esses macacos, o sexo, além da sua função usual de procriação, também é empregado para vários outros propósitos, funcionando inclusive como meio de troca, isto é, como “moeda”: sexo em troca de alimento, em troca de ajuda na proteção das crias, em troca de ingresso num determinado círculo de aliança... [6]

No que diz respeito à tese freudiana segundo a qual os instintos gregários seriam “todos eles” formações derivadas do instinto sexual, isto é, manifestações “sublimadas” [7] da sexualidade, essa ideia já não é mais corroborada pelos fatos, ao menos quanto à sua variante radical, omniabrangente. De fato, testes neurológicos demonstraram que algumas relações interpessoais “afetivas” antigamente consideradas como manifestações psicossexuais são, na verdade, sistemas completamente autônomos. Como, por exemplo, o sentimento de “apego” da mãe com relação aos filhos.

Mas, aparentemente, a versão “fraca” dessa tese de Freud permanece válida. Decerto, parece que, entre algumas espécies da classe mammalia, a argamassa neuropsíquica que mantém firmes as relações de cooperação entre indivíduos do mesmo sexo é, precisamente, o desejo erótico homossexual, seja numa forma sublimada ou direta, vestigial ou não.

Os indícios mais convincentes dessa relação entre pulsão erótica e laços cooperativos são os contatos homossexuais frequentes entre fêmeas de primatas que habitualmente cooperam entre si tendo em vista a criação da progênie, bem como para a defesa dos filhotes e delas mesmas (proteção mútua) contra as investidas de machos violentos — cooperação esta que se verifica entre as fêmeas de bonobo e nas macacas japonesas (macaca fuscata). Nas primeiras, é prática corrente o tribadismo ou esfregação gênito-genital (que os mongandus, nativos da região onde vivem os bonobos, chamam de hoka-hoka); quanto às macacas japonesas, essas fêmeas formam casais mais ou menos estáveis em que as “consortes” montam freqüentemente uma na outra.

Sobre a relação entre nervo vago, erotismo não-genital e o caráter multifuncional da sexualidade entre algumas espécies de animais, vale citar um texto do livro O que é sexo?, de Lynn Margulis e Dorion Sagan:

“A relação sexual, que hoje é pré-requisito da reprodução, poderá ser cooptada para outros papéis, nas futuras coletividades humanas. As técnicas médicas de hoje fecundam óvulos sem orgasmo nem prazer erótico. Já sabemos que o orgasmo não precisa ser experimentado apenas nos órgãos genitais. Orgasmos não-genitais foram documentados e analisados em mulheres que sofreram lesões na medula espinhal. (…) Barry R. Komisaruk e Beverly Whipple, da Universidade Rutgers, mostraram que o nervo vago, presente nos primeiros vertebrados, é ‘uma via primitiva e mais comumente encontrada para o orgasmo’(*). O prazer promete o desempenho dos atos que conduzem à reprodução. Mas, à medida que a densidade populacional torna-se relativamente estável, o sexo que leva à reprodução, já então excessivo, fica livre ou liberado para outras tarefas, que, do ponto de vista reprodutor, podem afigurar-se pervertidas. – * B. R. Komisaruk e B. Whipple demonstraram também a trajetória do vago nos ratos, cortando a medula espinhal, estimulando a cérvix e observando a dilatação das pupilas e o aumento do limiar de dor nesses animais. Retiraram ainda fragmentos da medula e obtiveram os mesmos resultados. Em 1990, Matthew J. Wayner, na Universidade do Texas em San Antonio, injetou um marcador químico na genitália de ratos e observou que o marcador era absorvido pelo nervo vago, indicando existir uma via que circunavegava a medula espinhal”.[8]

Cooperação e erotismo homossexual na espécie humana

A primeira divisão do trabalho que surgiu nas comunidades humanas assentou-se na diferença entre os sexos. No paleolítico, cabia às mulheres o labor atinente à economia doméstica e à coleta de vegetais, ao passo que os homens incumbiam-se da caça e da defesa do território.

A cooperação, seja simples (por exemplo, na coleta de frutos, tubérculos, etc.) ou complexa (sobretudo na caça a animais de grande porte), era a forma de execução de quase todas as tarefas sociais. Ou seja, na lida cotidiana, as mulheres operavam conjuntamente auxiliando-se mutuamente, da mesma forma que os homens colaboravam entre si.

Vale dizer que, como nos bonobos, macacos-japoneses e leões, também nas comunidades humanas existe cooperação entre indivíduos do mesmo sexo. E, assim como ocorre naqueles animais, é a sexualidade que fornece a base neuroquímica dos vínculos intersubjetivos sem os quais não há propensão ao trabalho cooperativo. Isto é, como já foi dito antes, o cimento afetivo que mantém coesos grupos de coletoras, de caçadores ou de guerreiro é, precisamente, aquilo que Freud identificou como “libido homossexual”.

Quanto à cooperação masculina para a guerra, é notável o fato de deuses pederastas como Horus e Set – que representavam tanto a homossexualidade como as virtudes marciais – terem sido as divindades padroeiras dos exércitos cartagineses, dórios, citas e normandos. É de se ressaltar, ainda, a existência nos exércitos de Tebas e Esparta de unidades formadas exclusivamente por casais homossexuais que se destacavam pela bravura e destemor.

No entanto, mister salientar que, embora existam muitos bissexuais que se sentem atraídos em igual medida por indivíduos de ambos os sexos e de acordo com as circunstâncias (um número que varia conforme o ambiente cultural), esse default à bissexualidade não implica necessariamente co-dominância simétrica das orientações sexuais. Aliás, Freud sempre se reportou a “resquícios” ou “sobrevivências” de feminilidade no homem maduro e de virilidade masculina na mulher adulta; ou seja, que o normal é a coexistência numa mesma pessoa de uma orientação sexual dominante e uma outra que se mantém sob uma forma subordinada, “vestigial”, correlação esta que depende sobretudo da constituição genética do indivíduo, mas também – em menor medida – de fatores ambientais, que podem ser “intra” ou extrauterinos, naturais ou culturais.

Essa orientação sexual de caráter residual, vestigial, manifesta-se amiúde de um modo “desgenitalizado”, cerimonioso e ritualístico, como um jogo erótico de conquista e sedução que se detém nas “preliminares”. Com efeito, nas confrarias masculinas (tipo “Clube do Bolinha”), são corriqueiras as atitudes que lembram relações heterossexuais apaixonadas, como ciumeiras ou tentativas de impressionar uns aos outros – comportamento de corte – seja de uma forma ativa e viril (pavoneamento) ou passiva a ponto do masoquismo (falsa esquiva, bajulação, “baba-ovismo”, “puxa-saquismo”). Manifestações mais diretas de erotismo homossexual são, via de regra, douradas pelo bom-humor, camufladas na forma de chistes, anedotas, piadas.

Nesta época de revolução científico-tecnológica permanente (em que a biotecnologia e a farmacologia figuram como disciplinas de ponta) a moda é explicar tudo em termos de determinismo genético ou distúrbios hormonais. Na esteira desse modismo, tenta-se explicar as tendências homossexuais como algo hereditário, congênito, determinado por uma marca genética na região Xq28 do cromossomo X ou por disfunções nas glândulas secretoras de esteróides — isso sem considerar qualquer influência cultural.

Certamente, os fatores genéticos e endócrinos são determinantes no que diz respeito ao homossexualismo exclusivo, particularmente em relação aos homossexuais masculinos exclusivamente passivos, isto é, as “bichas”, e as lésbicas exclusivamente ativas, ou seja, os “súcubos”, segundo a gíria corrente da tribo. O indício mais forte desta determinação genética é a existência de um padrão: o fato de a fatia da população exclusivamente homossexual “em qualquer cultura” corresponder a 5-10% dos indivíduos.

O fator genético, no entanto, não lança muita luz sobre os estranhos fenômenos dos homossexuais masculinos exclusivamente ativos – os gays varões – e das lésbicas exclusivamente passivas, também conhecidas como “fadas”. Afinal, se é mulher exclusivamente passiva, por que não escolher como parceiro um homem? E sendo-se homem exclusivamente ativo, qual a razão de preferir um macho com traseiro peludo em vez de uma bela dona com seios, coxas e nádegas sedosas? — A existência de “fadas” e gays varões indica que, mesmo tendo uma orientação sexual em conformidade com o sexo cromossômico ou biológico, podemos escolher parceiros de qualquer sexo. A escolha do parceiro é mais uma questão subjetiva, de gosto, uma determinação “psicológica”.

Demais, a tese fisicista que busca embasar o erotismo homossexual unicamente na constituição genética e em seus correlatos neuroquímicos não consegue explicar a existência de homens indubitavelmente masculinos sob quaisquer aspectos, mas que, no entanto, sentem desejo sexual (passivo ou ativo) tanto por mulheres como por outros homens; ou então de mulheres belíssimas, ultrafemininas – como Greta Garbo, Anaïs Nim… – que chegam ao orgasmo com parceiros de ambos os sexos. (A não ser que, apelando-se para a física dos quanta, avente-se a hipótese ad hoc segundo a qual esses indivíduos bissexuais possuem ao mesmo tempo um cérebro masculino e outro feminino, só que num estado de sobreposição quântica, e que, diante de um belo homem ou de uma linda mulher, dá-se então o colapso da função-de-onda).

De resto, o reducionismo genético não dá conta das múltiplas manifestações culturais da sexualidade humana. Realmente, como esta tese explica o fato de a bissexualidade ter sido uma instituição entre os caldeus, hititas, assírios, gregos e romanos?

E como explica os ritos de iniciação dos Sambia? – Nestes nativos da Papua-Nova Guiné, os meninos e adolescentes submetem-se cotidianamente a relações homossexuais passivas (felação) com jovens mais velhos. De acordo com a mitologia Sambia, o esperma engolido não só masculiniza o iniciante – a masculinidade é transmitida de uma geração a outra por contágio, através do sêmen – como também fortalece os ossos. Depois dos quinze anos, o jovem Sambia torna-se o pólo ativo dessas relações homossexuais, até conquistar, por volta dos vinte e cinco anos de idade, a heterossexualidade – que, no entanto, não é considerada um prêmio, mas um encargo: o custo da paternidade.

Além dos Sambia, há ainda os Siwa, povo do deserto da Líbia, que considera anormal não ser bissexual — e também os Kraô, uma nação indígena do Brasil em que os homens manifestam mais afetividade por outros homens do que pelas mulheres, e que, até os vinte e um anos de idade, costumam “fazer cunin”, isto é, coito homossexual.

Acresce citar ainda os Etoro, tribo da Nova Guiné (como os Sambia) em que a heterossexualidade é tabu – isto é, obrigatória – na maioria dos dias do ano, mas que, entretanto, nos dias restantes, as relações homossexuais não só são livremente praticadas como também incentivadas.

Etologia e psicanálise

Na Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreveu que “a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. O que nas espécies animais inferiores indica uma forma superior, não pode, ao contrário, ser compreendida senão quando se conhece a forma superior.” Há nesta afirmação um nítido viés teleológico, pois parte do pressuposto de que não se pode entender inteiramente um determinado fenômeno, neste caso o macaco, sem antes compreender a sua causa finalis, o homem.

No entanto, malgrado este desvio, julgo que na assertiva do filósofo alemão jazem implícitas duas verdades: a) que muitos dos caracteres de uma espécie ancestral encontram-se presentes nas “espécies-filhas”, porém, como ressalvou o próprio Marx, “de uma forma desenvolvida, esmaecida ou então disfarçada”; e b) que, dada esta continuidade, uma compreensão mais profunda de um determinado fenômeno biológico (por exemplo, o psiquismo humano), não é possível sem a inserção deste fenômeno na história da vida, ou seja, se o mesmo não for analisado sob a ótica da evolução.

Mas, no que diz respeito ao homem, a análise do seu comportamento sob a luz da história natural ou do ponto de vista “genético” (no sentido de gênese) depara-se com uma dificuldade insuperável. É que, por alguma razão ainda desconhecida, todas as espécies do gênero Homo com a exceção da nossa – Homo sapiens sapiens – desapareceram. Aliás, nossos parentes vivos mais próximos, os grandes símios do gênero Pan (chimpanzés e bonobos), nem mesmo pertencem à nossa família hominidae. Esta compreende, além dos homens, as espécies pertencentes ao gênero Australopithecus, todas igualmente extintas.

Há, portanto, um grande fosso a separar os homens dos macacos modernos, de modo que os estereótipos comportamentais compartilhados por ambos (formas de conduta homólogas) dizem respeito a ascendentes muito remotos, distantes de nós seis milhões de anos ou mais. Este desconhecimento acerca dos elos mais recentes da cadeia evolucionária que culminou no homem tem por corolário a impressão, largamente difundida, de que, sob muitos aspectos, há entre a nossa espécie e o resto do reino animália uma descontinuidade absoluta (ou seja, perde-se de vista a continuidade), a ponto de muita gente considerar alguns atributos humanos – nosso intelecto e senso moral – como fenômenos sobrenaturais. Aliás, até hoje não são poucos os antropólogos que consideram a cultura como a antítese da natureza. E algumas correntes da psicologia moderna compartilham a crença na existência de uma ruptura radical ou corte ontológico entre o psiquismo consciente do homem e o psiquismo sensório-motor dos animais.

Lamentavelmente, as origens de alguns comportamentos e processos mentais mais complexos do homem estão para sempre perdidas para a ciência. Decerto que os registros fósseis e arqueológicos nos podem dizer alguma coisa acerca de nossos antepassados extintos, porém, creio eu, não o suficiente. Temos, pois, que nos contentar com o que existe. E será que essa nova e promissora ciência, a etologia (particularmente o seu ramo dedicado aos primatas), no grau de desenvolvimento em que se encontra, pode lançar alguma luz sobre alguns fenômenos psíquicos e comportamentais humanos correntemente qualificados de “extravagantes” ou mesmo de “antinaturais”, como, por exemplo, a evolução difásica da atividade testicular, o papel ampliado da sexualidade, o sadomasoquismo (sexual e moral) e outros? Acredito firmemente que sim.

Falocracia

Freud denominou “estágio fálico” da libido o período do desenvolvimento psicossexual que se inicia por volta do terceiro ano de vida e culmina na crise edipiana. Este estágio se caracteriza por uma valorização exagerada do pênis, algo que a criança associa às ideias de completude e dominância; ou seja, o falo é considerado, nesta idade, não como órgão sexual propriamente dito (daí o caráter pré-genital desta fase da libido), mas como símbolo de poder e critério de diferenciação hierárquica: “tê-lo ou não tê-lo, eis a questão”.

Malgrado a referência ao órgão reprodutor masculino, esta fase é vivenciada pelas crianças de ambos os sexos, sendo que os sentimentos que passam a dominar o menino são os de euforia por possuí-lo e medo fóbico de perdê-lo (a angústia de castração). Quanto à menina, sua reação é de pasmo e de lamento ante a sua ausência – atitude análoga a de um melancólico que experimenta um grande vazio: a sensação de que lhe falta algo essencial.

A teoria do estágio fálico gerou mal-entendidos. A suposição freudiana – indevidamente retirada do contexto – de que a mulher seria um homem castrado é amiúde considerada como prova do sexismo de Freud e um viés que torna ainda mais inverossímil o seu “pansexualismo”. Essa interpretação distorcida tem servido de argumento aos céticos para os quais o freudismo pertence ao rebotalho das doutrinas pré-científicas (ou pseudocientíficas) repletas de hipóteses ad hoc justificadoras de preconceitos sociais – tais como a caracterologia de Cesare Lombroso, a eugenia de Francis Galton e o racismo “científico” de Ernest Haeckel.

O problema todo está na confusão que se faz entre o pênis – o órgão copulador do macho – e o fálus, que é um “paleossímbolo”, ou melhor, um dos poucos signos que não são criações culturais, mas algo pertencente à nossa memória filogenética, consistindo, portanto (muito provavelmente), numa herança gênica que remonta a nossos ancestrais primatas pré-hominídeos. [9]

Com efeito, há um grande número de registros históricos, arqueológicos (provenientes de escavações feitas em lugares muito distantes uns dos outros e até antípodas, como Alexandria, Argentina, Babilônia, China, Córsega, França, Índia, México, Palestina e Sudão) e inclusive paleantropológicos[10] que indica a existência de um culto fálico universal. Neste culto, o pênis é reverenciado como símbolo ou expressão teológica da fecundidade, da força e do poder.

A propósito, a psicóloga Mabel Cavalcanti [11] cita exemplos notáveis, como (na Alexandria) o de uma procissão em que, à frente, um imenso falo de cerca de cento e vinte braças de comprimento era conduzido; ou as representações líticas de falo com 1,8 a 3 metros de altura encontradas na Ilha de Córsega, bem como outras ainda mais monumentais (sessenta metros de altura) que jaziam no umbral do Templo de Vênus, em Herápolis; ou, ainda, os amuletos penisformes muito comuns na Roma antiga, sendo que um deles, representando um falo alado[12], era posto no pórtico das residências – com a mesma naturalidade com que, até bem pouco tempo atrás, colocava-se sobre as geladeiras pingüins de porcelana – com a seguinte inscrição acima: Hic habitat felicitas (aqui mora a felicidade).

Os resultados de pesquisas de campo realizadas por etólogos – e, mais especificamente, por primatologistas – evidenciaram o caráter pré-hominiano (ou extra-antropológico) do fálus como paleossímbolo. Já em 1932, as anotações de Sir Solly Zuckerman (anatomista britânico) acerca do comportamento “promíscuo” dos babuínos-hamadrias fornecem fortes indícios de que, entre esses primatas, a genitália masculina em particular (e a sexualidade em geral) desempenha outro papel além da usual função reprodutora. Textualmente: “[Os] machos jovens […] oferecem-se em situações que lhes provocam medo. Utilizam a abordagem sexual para obterem acesso uns aos outros e para aliciarem um companheiro para a brincadeira. Masturbam-se e montam-se uns aos outros. Montam e são montados tanto por machos adultos como por fêmeas adultas. […]” [13] — Nesta nota, o que há de mais relevante não é tanto a alusão às práticas homossexuais entre os jovens desta espécie ou ao sexo como meio de troca, mas, sobretudo, a referência a uma inusitada inversão dos papéis sexuais: o fato de fêmeas adultas “montarem” em indivíduos machos seja por motivos lúdicos ou rituais, como se elas próprias fossem os machos ou possuíssem um pênis simbólico.

Simulações de cópula dessa natureza – em que uma fêmea figura como pólo ativo (o que monta, isto é, o “fodão”) e um macho subalterno como passivo (o que é montado, ou seja, o “coitado”) – são vistas frequentemente entre primatas onde o alfa é uma matriarca, ou naqueles em que há co-dominância entre os sexos, como é o caso dos macacos japoneses e dos bonobos. [14] Como veremos a seguir, esse coito ritualístico ou cerimonial (o ato de montar, mas, via de regra, sem consumação) pertence a uma paleossimbologia comum a várias espécies animais, tendo sido registrado inclusive entre alguns répteis, classe em que o órgão reprodutor masculino é a cloaca e não o pênis. O que esse rito representa é patente: trata-se de uma demonstração de poder ou primazia hierárquica equivalente a uma “carteirada” e que, trocando em miúdos, significa: “aqui e/ou agora, quem manda sou eu”. O fato de ser praticado também por fêmeas dominantes indica inexistência de uma relação direta entre falocracia e dominação masculina.

No que diz respeito aos símios, o etólogo Irenäus Eibl-Eibesfeldt escreveu: “[As] ameaças fálicas, derivadas de um gesto de dominação sexual (o ato de montar) […] foram observadas entre muitas espécies de macacos tanto do Velho como do Novo Mundo. No caso dos macacos africanos e dos babuínos, há certos machos que se sentam sempre de costas voltadas para o campo, mantendo-se de guarda e exibindo o intensamente colorido pênis e os testículos, por vezes do mesmo colorido intenso. Se um estranho ao grupo se aproxima demasiado, os guardas têm mesmo uma ereção; as chamadas ‘cópulas de fúria’ também têm lugar”. [15]

Vale citar, ainda, o seguinte comentário de P. D. MacLean: “A variedade gótica do macaco-esquilo macho ilustra-se de uma forma extremamente gráfica. Ele revela (1) o propósito de dominar outro macho, (2) a intenção de o atacar e (3) as suas intenções em relação a uma fêmea – tudo isso –, apontando o falo ereto na direção da cara do outro macaco e rilhando, simultaneamente, os dentes. A sinalização da corte é semelhante à da agressividade. Os etólogos encontraram este fenômeno de cruzamento de linhas em numerosas espécies répteis e inferiores”.[16]

Num relatório sobre as bases neurológicas do comportamento de imitação no macaco-de-cheiro (Saimiri sciureus), MacLean cita uma importante observação de D. Ploog et al: filhotes desta espécie de macaco que ainda não foram expostos a outro animal além da genitora procedem a exibições fálicas a partir do segundo dia de vida. Segundo o autor, este fato demonstra de forma terminante o caráter inato desse comportamento. [17]

De resto, ao lesionar partes do cérebro de espécimes de macaco-de-cheiro, Paul MacLean descobriu que o correlato neural do ritual de exibição fálica não é o mesmo do comportamento sexual usual e o de combate. Lesões bilaterais na parte mais arcaica do prosencéfalo – o globo pálido – fazem com que o animal não mais demonstre nenhuma tendência de exibir-se, embora continue copulando normalmente e seja capaz de suplantar até mesmo o macho alfa numa luta. [18] Isso sugere que a exibição genital, apesar de ser um sinal derivado do comportamento sexual do macho, desempenha uma outra função que não a reprodutora.

A propósito, também se observou que, em muitas colônias, os exibidores mais ativos são, muitas vezes, os que menos copulam, sendo que alguns jamais foram vistos praticando coito. [19] Esses machos violentos agem como se a agressividade viril e auto-afirmativa que precede a relação sexual – a que se manifesta na luta entre os machos pela posse da fêmea e no ato mesmo de submeter uma fêmea refratária – é prazerosa por si mesma, e tão voluptuosa que muitas vezes torna dispensável o próprio coito. É provável que a explicação para isso esteja na molécula de testosterona, que serve tanto de feromônio como de substância indutora dos caracteres masculinos. Conforme já foi comentado, esse esteróide é o responsável pela sensação de orgasmo (o clímax do prazer erótico) tanto no macho como na fêmea. É esse hormônio que intermedeia, juntamente com outros neurotransmissores, os circuitos neurais atinentes às cerimônias de corte, ao ato da cópula e aos impulsos competitivos e territorialistas (nos cães, ratos-toupeira e doninhas, por exemplo, a micção e defecação que têm por propósito a demarcação territorial e não o mero alívio dos dejetos são desencadeadas pela testosterona). Aliás, os processos suscitados pela testosterona realimentam ampliadamente o organismo com esse mesmo esteróide, isso nos casos em que o indivíduo logra êxito. Ou seja, no fim de um combate ou disputa esportiva, o vencedor terá no sangue uma quantidade de testosterona maior do que antes. Pode ser que essa retroalimentação positiva seja, literalmente, um “círculo vicioso”, isto é, uma outra razão, além da já citada, pela qual algumas atividades de natureza sexual ou delas derivadas podem vir a tomar um caráter de vício e compulsão.

Com feito, como aqueles bebedores sem autocontrole que não se importam com o gosto ou a qualidade da bebida, mas apenas com o efeito, há muitos competidores arrivistas, barbas-azuis misógamos (ou mesmo misóginos) e fornicadores maníacos para os quais a competição esportiva ou profissional, o pavoneamento de corte e o ato sexual são menos relações intersubjetivas do que meios de encharcar o organismo com endorfinas. São toxicômanos como quaisquer outros: adictos da dopamina, da feniletilamina e da testosterona.

Homo phallus erectus

Além da sacralização do pênis comum a várias culturas, há muitos outros indícios de que, na alma do Homo sapiens sapiens, subsiste um macaco fálico hierarquista e xenófobo.

Nas lutas intergrupais de chimpanzés, é praxe que os machos vencidos, após serem mortos, tenham a sua genitália arrancada a mordidas por seus assassinos. Do mesmo modo, uma das práticas de guerra mais freqüentes entre os seres humanos – ao lado da degola, da empalação e do escalpamento – consiste na castração dos inimigos abatidos, sendo que, no antigo Egito, os soldados estrangeiros capturados em batalha eram punidos com uma emasculação mitigada: o corte do prepúcio ou circuncisão.

Originalmente um castigo e uma forma de marcar não só o corpo, mas também a alma do escravo e do subalterno indócil (pois, sendo o fálus um símbolo de poder inato, sua extirpação igualmente simbólica – através da magia imitativa – produz efeitos psicológicos profundos, condicionando o circunciso a uma resignada submissão), a prática da circuncisão tornou-se depois um rito de batismo. A este ritual doloroso e traumático, são submetidos os bebês ou os adolescentes da própria tribo.

Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, afirma que “os povos da Cólchida, Egito [20] e Etiópia são os únicos na Terra que sempre praticaram a circuncisão”. Hoje, porém, se sabe que o rito iniciático da supressão do prepúcio foi – e, em alguns casos, continua sendo – praticado por muitos outros povos de vários continentes, como os maias e astecas, os xhosa (uma tribo sul-africana), os polinésios e os aborígines australianos. [21]

Há várias teorias que tratam das origens do rito da circuncisão. A Enciclopédia de Hastings cita nada menos que treze teses diferentes. Como esse ritual subsiste, hoje, apenas à guisa de “resíduo” histórico, as explicações míticas dos povos que ainda a praticam certamente devem conter muito mais ruídos do que informações válidas.

Talvez os relatos mitológicos menos comprometidos pela crescente entropia sejam as das tribos culturalmente mais arcaicas (as de caçadores-coletores) e que por mais tempo permaneceram isoladas. O que seria o caso dos aborígines da Austrália, particularmente os Arunta, cujos costumes foram estudados por Strahlow. [22]

Segundo o testemunho desse etnólogo, a circuncisão entre os Arunta é um artifício que os gerontocratas (os membros do Conselho dos Anciãos) se valem para se resguardarem da “exuberância dos jovens púberes” e de, por meio de ameaças de castração ritualizadas – um dos equivalentes humanos das exibições fálicas (genital display) tão comuns entre macacos-esquilos, babuínos, macacas japonesas, chimpanzés... –, garantirem para si a melhor parte da caça, da colheita e também, muito provavelmente, o monopólio das mulheres jovens.[23]

Na mitologia Arunta transparece a raiz paleontológica – não apenas humana, mas antes de tudo “primata” – e o núcleo profano desse ritual sagrado. Ela mostra que, por trás de um discurso religioso pode existir, a embasá-lo, uma prosaica relação de poder entre estratos sociais.

…e seus símbolos

Porém, contrariando uma regra das comunidades primatas, não existe nas sociedades humanas um indivíduo alfa cuja vontade seja a lei inquestionável do grupo. Todo potentado humano, mesmo os déspotas, tiranos e reis absolutistas, só detêm o fálus (o símbolo metonímico do Poder e da dominância hierárquica) a título de outorgado, concessionário ou autoridade delegada.

Com efeito, os césares, dulces, führers, camaradas-mores e outros “chefes oceânicos” [24], por mais arbitrários e voluntariosos que sejam, jamais se impõem como alfa, mas como primus inter paris (primeiros entre iguais) que não falam nem agem por si mesmos ou em seu próprio nome. Para se legitimarem junto a seus comandados – e também, talvez, por temerem a solidão do poder absoluto –, alegam serem a voz e o instrumento de uma força superior, seja Deus (ou um panteão), o Destino, a comunidade dos ancestrais (os manes e os lares dos árias indo-europeus), o Volksgeist (Espírito do povo), a Volonté Générale, a Necessidade Histórica e outras abstrações.

Por isso que aqueles que executam a castração simbólica dos jovens arrancando-lhes o prepúcio são eles próprios circuncidados, simbolicamente castrados. Através dessa mutilação a qual todos são submetidos, fica estabelecido que, entre os membros do clã, ninguém mais tem poder absoluto sobre quaisquer outros: o poder supremo pertence agora ao totem, ao ancestral comum, a este substituto do alfa que vive num plano da realidade superior ao dos mortais. Ressalte-se, no entanto, que esse alfa espiritual (a metáfora do pai morto) pode delegar o seu poder fálico aos primus inter paris, isto é, aos sacerdotes e o chefes militares.

Ou seja, a circuncisão, antes uma marca mundana tanto somática como psicológica da sujeição de um homem a um outro homem, converte-se depois num ritual sagrado, “religioso”, de comunhão com (submissão a) um poder supra-humano, extramundano, sobrenatural, “abstrato” – e num emblema ou estigma a ser ostentado por todos os membros da tribo e independentemente da posição hierárquica do indivíduo.

Nesse contexto de “comunidade de irmãos castrados”, até mesmo o fálus se desmaterializa (ou se espiritualiza), no sentido de que sua forma por excelência de expressão não é mais o pênis ereto do alfa acintosamente apontado – em meio a caretas e gritos intimidadores – para a cara deste ou daquele subalterno. Devido ao nosso cérebro grande e, conseqüentemente, à nossa capacidade superior de intelecção e simbolização, o fálus como significante de poder converte-se numa essência abstrata ou “ideia” – o fálus genérico, impessoal, “conceitual” – designável ricoos. gnos linggens acora).m) que tspor outros objetos materiais (significantes de segunda ordem) que têm com o pênis relações de contiguidade (metonímia) ou similaridade (metáfora). Aliás, pode mesmo ter por representação imagens acústicas ou gráficas mais ou menos arbitrárias, isto é, “símbolos linguísticos”.

Por isso que, em vez de exibições fálicas explícitas, os homens da cultura acheulense (Homo ergaster) valiam-se de distintivos com aspecto fálico feitos com pré-molares de hipopótamos, pingentes que eram usados tanto por machos como por fêmeas co-dominantes.

Outros símbolos fálicos dignos de nota seriam o “cetro” (bastão penisforme empunhado por reis e chefes militares) e a “mitra” (barrete alto e pontudo – uma glande alegórica? – usado por sacerdotes de várias culturas).

Mas, entre nós, seres humanos, além do cetro e da mitra (representações fálicas pudicas, “sacras”) manifestam-se, na linguagem gestual e na verborragia chula, outros símbolos fálicos mais “imediatos” e “profanos” que acusam nosso parentesco com os babuínos, macacos-esquilos e outros monos despudorados e concupiscentes. São signos que denotam claramente o entrecruzamento entre sexo e agressividade: a relação sexual como relação de dominação em que a bipolaridade macho-fêmea é substituída pela díade ativo/passivo ou, mais especificamente, pela oposição complementar “fodão/fodido”.

Esses sucedâneos simbólicos requintados de exibições fálicas tipicamente humanos acontecem cotidianamente, em brigas de bar, desentendimentos no trânsito, confrontos na fábrica ou no escritório ou em rusgas entre vizinhos e condôminos. Exclamações verbais de intensa hostilidade como “f…!” ou “vá tomar no r…!” – em que o agente agressor impinge ao agredido a condição de “montado”, “coitado” e “passivo” sexual – são ilustrações claras de “genital display” com equivalentes em várias culturas. A propósito, em seu livro Os Dragões do Éden, Carl Sagan observa que “o uso do sexo para estabelecer e manter domínio é por vezes evidente nas práticas humanas heterossexuais e homossexuais (embora não seja, naturalmente, o único elemento em tais práticas), assim como na expressão verbal ‘obscena’. Considere a situação peculiar de que a agressão verbal de duas palavras mais comuns em inglês [fuck yourself] e em outras línguas refere-se a um ato de prazer físico transbordante; (…) Esse estranho uso pode ser compreendido como um equivalente verbal da linguagem simbólica dos macacos, com a palavra inicial ‘Eu’ não expressa, mas compreendida por ambos os parceiros”. [25]

Afora os substitutos verbais das exibições fálicas, também há, entre os homens, vasta gama de equivalentes gestuais. Como, por exemplo, a “banana” (o antebraço erguido formando com o braço um ângulo de 90 graus), o “cotoco” (o dedo médio em riste simulando o membro e os anelar e indicador dobrados, numa alusão aos testículos), o polegar erguido (na Nigéria e na Austrália esse gesto é ofensivo, com a mesma conotação da banana e do cotoco), a figa (que, no Brasil, significa boa sorte, mas que na Grécia, Turquia, Holanda e Tunísia é uma ofensa fálica), o ato de segurar o saco escrotal por cima da calça e balançá-lo na direção do desafeto, além do gesto bastante inocente – executado principalmente por crianças – de “mostrar a língua”.

O pequeno Édipo

Como disse antes, o caráter inato do fálus-símbolo-de-poder (sua natureza de paleossímbolo ou de significante arquetípico) restou cabalmente demonstrado com a observação de que filhotes de macacos-de-cheiro sem qualquer contato com outros espécimes a não ser a mãe passam a realizar exibições fálicas logo no segundo dia de vida.

E, considerando a vasta coleção aqui apresentada de dados paleantropológicos, antropológicos, histórico-culturais e psicológicos, fica evidenciado que, também entre os seres humanos, o fálus é um elemento importante da nossa memória arquetípica, filogenética.

Ocorre que, ao contrário do macaco-esquilo, do babuíno e mesmo do bonobo, a ontogênese humana se dá num ritmo muito lento, inclusive – e sobretudo – no que tange ao processo de maturação do sistema mente-cérebro. Por isso, somente por volta do terceiro ano de idade – o começo da etapa do desenvolvimento ontogenético que corresponde ao estágio fálico da teoria da libido de Freud – é que o pênis como símbolo de dominância hierárquica irrompe no psiquismo da criança; ou seja, nessa fase relativamente tardia, os genitais do menino passam a ter para ele um caráter de “significante” cujo significado é Poder: poder dentro da horda, no interior do clã e, no presente caso, no seio da família.

Entretanto, a constante ameaça de perda da condição de “queridinho da mamãe”, de centro de todas as atenções, ou seja, de pequeno alfa (o pai e os irmãos constituem essa ameaça), a criança a vivencia como medo de perder o fálus, isto é, como angústia de castração. Essa angústia é particularmente intensa porque o sistema nervoso central ainda imaturo do menininho não o permite distinguir o pênis-significante do pênis anatômico, de modo que, para ele, a perda de um implica a perda do outro.

Como a criança lida com a sua angústia de castração? O normal, isto é, a maneira sadia de se lidar com ela consiste numa mudança radical de atitude: a criança passa a concentrar sua atenção no mundo que existe além das fronteiras da família: doravante sua orientação é para fora, em direção aos objetos exteriores. É na rua e não mais em casa que o indivíduo fará suas escolhas objetais, sobretudo as sexuais. Ou seja, consoante a tragédia de Sófocles Édipo Rei, a maneira de escapar desse imbróglio semiótico altamente patogênico (desse perigoso entrecruzamento de circuitos neurais) é fugir de casa e buscar novas relações com o mundo, outros vínculos além desses que marcam a infância — o que significa, entre outras coisas, buscar parceiras sexuais que não sejam a mãe ou as irmãs.

Ocorre que esta fuga tem um quê de tragédia: Édipo, na tentativa de escapar do terrível vaticínio, terminou por realizá-lo: sem saber, assassinou Laio, seu pai, e desposou Jocasta, sua fogosa mãe — e assim tornou-se rei, isto é, passou a “empunhar o cetro”.

O interessante é que, na etologia, existe um conceito que pode conferir a esta tragédia grega alguma verossimilhança (porém ao preço de rebaixá-la a condição de ópera “bufa”, de conto tragicômico). Trata-se de uma forma de aprendizado, típica da infância, que Konrad Lorenz denominou imprinting ou estampagem. No caso ora sob comentário, “estampagem sexual”.

 Em 1998, Keith Kendrick e equipe, da Universidade de Cambridge, induziram ovelhas a adotarem filhotes recém-nascidos de caprinos e vice-versa. Quando adultos, esses animais foram levados a um estábulo, onde, para acasalar, teriam que escolher entre uma cabra e um bode ou entre um carneiro e uma ovelha. O resultado dessa experiência foi surpreendente. Segundo Kendrick, “ficou claro em muito pouco tempo que esses animais optaram por ficar na companhia de e acasalar-se com animais da espécie à qual pertencia sua mãe adotiva”.

Ou seja, o resultado da experiência foi, em 90% dos casos, bode cruzando com ovelha e carneiro cobrindo cabra (entre as fêmeas, no entanto, essa tendência mostrou-se muito mais fraca e reversível). Disso se pode concluir que, por mais que Édipo fuja do incesto, termina se apaixonando por uma mulher que lembra Jocasta – por uma equivalente ou “metáfora” da mãe.

De resto, como comentei no texto “Eternas crianças, eternos filhos”, em algumas espécies de primatas de grande porte – chimpanzés, bonobos e humanos – os indivíduos retêm na idade adulta algumas características físicas e mentais (traços neotênicos) típicas da infância, entre as quais “aquela emoção presente em todos os jovens mamíferos: a dependência psíquica na relação com a genitora”.

Realmente, entre nossos primos do gênero Pan, a relação afetiva genitora-progênie permanece sólida durante a vida toda, não sendo raros os casos de chimpanzés adultos que adoecem fatalmente em conseqüência da morte da mãe. Nos bonobos (símios em cuja hierarquia social os sexos são co-dominantes), esse laço estreito e permanente entre mãe e filho é, inclusive, o principal fator determinante do status dos indivíduos machos na comunidade. Ou seja, “o status do filho adulto depende do status da mãe, e quando a mãe de um bonobo macho morre, este cai na hierarquia do grupo”.   

Ora, é patente que também entre nós, indivíduos humanos, o vínculo com os pais (principalmente com a mãe) tem um caráter permanente. Tal característica “específica” reforça sobremaneira a situação edipiana, fazendo com que sua superação seja difícil e custosa.

Há razões para crer que esse vínculo duradouro genitora-progênie verificável em várias espécies seja, de fato, uma “adaptação” no sentido darwiniano do termo. No entanto, devido ao seu grande potencial de gerar doenças mentais – neuroses e psicoses psicogênicas –, trata-se de uma adaptação problemática, obtida por vias tortuosas e semelhante a outras duas adaptações: o nervo laríngeo do camelo (sobre o qual comentei no texto O Evangelho de Sócrates) e a masculinização das hienas fêmeas. [26]

Essas adaptações grosseiras são fatos que deitam por terra a crença hiperselecionista – não, porém, a teoria sintética da evolução – que faz da seleção natural um novo deus e de Darwin o seu profeta. Elas demonstram que a evolução, longe de ser uma sábia engenheira, é na verdade uma engenhocadeira astuta, mas imprevidente – sem uma visão de longo prazo – e que, com freqüência, lança mão de perigosas gambiarras.



Manuel Soares Bulcão Neto
Junho/2005


Obs.: O Presente texto é versão modificada e incompleta do ensaio Homo penis erectus, inserto na coletânea As esquisitices do óbvio, ISBN: 859864203-7. (BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio. Fortaleza: APEX, 2005, pp. 249-282.)


[1] O neurocientista Mark Solms (diretor do Centro Arnold Pfeffer de Neuropsicanálise do instituto Psicanalítico de Nova York), numa entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo em 20 de junho de 2004, escreveu que “com essa integração [da psicanálise] com a neurociência (…) a grandeza de Freud no campo mental vai acabar sendo algo como a de Darwin no campo biológico”.
[2] http://eebweb.arizona.edu/faculty/winfree/O.html
[3] CARDOSO, Silvia Helena; Como o cérebro organiza o comportamento sexual; Revista eletrônica Cérebro & Mente; Setembro/novembro de 1997; http:// www.cerebromente.org.br.
[4] CÁRCERES, Hugo Munoz; Lactancia Natural; Edicion Servicio Neonatologia Hospital Clinico Universidad de Chile; Noviembre 2001; p. 103; http://www.redclinica.cl/html/archivos/14.pdf.
[5] Segundo Mark Solms, professor de neuropsicologia na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, “o sistema de busca, controlado pelo neurotransmissor dopamina, apresenta uma incrível semelhança com a ‘libido’ freudiana. De acordo com Freud, os impulsos sexuais ou libidinosos são um sistema de busca de prazer que move a maioria de nossas interações com o mundo. Pesquisas recentes mostram que seu equivalente neural está diretamente envolvido em quase todas as formas de compulsão e vício .” (SOLMS, Mark; Freud está de volta; Scientific American Brasil, nº. 25)
[6] “Os chimpanzés-anões utilizam a excitação sexual no dia a dia com muitas finalidades, para além da mera satisfação dos impulsos eróticos — para acalmarem as crias (uma prática que, diz-se, foi em tempos também muito usada pelas avós chinesas), como forma de resolver conflitos entre adultos do mesmo sexo, em troca de alimentos, e como uma abordagem genérica e de várias finalidades com vista a uma união social e organização comunitária. Os machos roçam os traseiros uns nos outros ou entregam-se ao sexo oral de uma forma nunca observada entre chimpanzés, mais pudicos; as fêmeas acariciam mutuamente as regiões genitais e por vezes preferem isso aos contatos heterossexuais. (…) Em ocasiões de stress, um chimpanzé-anão macho chega mesmo a abrir as pernas, oferecendo o pênis ao adversário, num gesto amigável” (SAGAN, Carl; DRUYAN, Ann. Sombras de Antepassados Esquecidos. Lisboa: Gradiva, 1996. p. 314).
[7] De acordo com a teoria psicanalítica, “sublimação” é um mecanismo de defesa do ego pelo qual impulsos sexuais e agressivos censurados e recalcados terminam por retornar à consciência (o retorno do reprimido) sob uma forma modificada e socialmente aceita.
[8] (MARGULIS, Lynn; SAGAN, Dorion. O Que É Sexo? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, pp. 172 e 191-192).
[9] Existem dois tipos de memória: uma memória “extragenética” que se forma no transcurso da vida individual, mediante a interação do indivíduo com o meio e através do processo de aprendizado; e uma outra memória, mais primitiva, cujos dados são transmitidos de uma geração a outra por meio da herança genética. Trata-se esta última de uma memória “arquetípica”, que começou a se formar quando o primeiro organismo vivo surgiu sobre a face da Terra (logo, uma memória que, em larga medida, é anterior ao gênero humano), e por meio daqueles mecanismos mais gerais, que são a mutação genética e a seleção natural.
Entre os seres humanos, um outro paleossímbolo (símbolo inato) digno de nota é o sinal gestual de indicação, que se faz com a mão ou com o dedo “indicador”, e que aparece no psiquismo da criança em meados do segundo ano de idade. De acordo com o antropólogo vietnamita Trân Duc Thao, trata-se de um significante que vale para qualquer significado, “um signo fundamental, cuja significação consiste precisamente em estabelecer uma relação direta entre a palavra e a coisa”; logo, o único signo cujo sentido não é “um outro signo pelo qual pode ser traduzido” (R. Jacobson), mas a própria coisa tal como se apresenta a nossa visão (THAO, Trân Duc.  Estudos sobre a origem da consciência e da linguagem. Lisboa: Editorial Estampa, 1974, pp. 11-52).   
[10] Segundo Trân Duc Thao, “no jazigo acheulense [a cultura acheulense foi fundada pelo Homo ergaster, que viveu entre 1,8 e 1,2 milhões de anos atrás] de Burbarch (Baixo-Reno), Forrer descobriu num nicho formando um esconderijo um depósito contendo metades de pré-molares de hipopótamos de aspecto fálico” (THAO, Trân Duc. Op. cit.; p. 261).
[11]  CAVALCANTI, Mabel; Sexualidade Humana: Uma Perspectiva Histórica; in Revista Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH; Ensaio 5; Volume 1 – nº. 1 – Janeiro/Junho de 1990; p. 47.
[12] Amuleto romano este que, presume-se, deve ter algo a ver com a expressão chula da língua portuguesa “caralho de asa”, ainda de uso corrente no Nordeste do Brasil.
[13] ZUCKERMAN, Solly. The Sociel Life of Monkeys and Apes; Nova Iorque: Harcourt Brace, 1932; p. 259; Apud SAGAN, Carl; DRUYAN, Ann. Sombras de Antepassados Esquecidos. Lisboa:  Gradiva, 1996, p. 320.
[14] Sobre o comportamento sexual dos chimpanzés jovens, a Professora Eunice Ribeiro Durham, coordenadora do NUPES-USP, em seu artigo “Chimpanzés também amam: a linguagem das emoções na ordem dos primatas” (Revista de Antropologia, vol.46, nº. 1, São Paulo, 2003, pp. 85-154 – http://www.scielo.br/pdf/ra/v46n1/a03v46n1.pdf), escreveu o seguinte: “Há também, entre os chimpanzés imaturos, contatos eróticos freqüentes durante as brincadeiras, do tipo que Freud caracteriza, para os seres humanos, como perverso polimorfo. Nessa fase, parece que as diferenças entre machos e fêmeas não estão ainda consolidadas no plano instintivo e breves manipulações genitais, assim como tentativas de montar o parceiro, ocorrem indiscriminadamente, independentemente de sexo” (O grifo é nosso). Quanto a essa peculiar inversão dos papéis sexuais (fêmeas montando em machos) entre os macacos japoneses, as pesquisas de campo de Paul Vasey - cientista da University of Lethbridge em Alberta – realizadas em Kioto, Japão, fornecem vários exemplos. E o neuropsicólogo Paul D. MacLean, em seu ensaio “Bases Neurológicas do Comportamento de Imitação no Macaco-de-cheiro”, refere-se a exibições fálicas (genital display) modificadas realizadas por fêmeas dessa espécie quando estão a competir por alimentos seja com outras fêmeas ou com machos.
[15] Apud SAGAN, Carl e DRUYAN, Ann.Sombras de Antepassados Esquecidos. Lisboa: Gradiva, 1996, p. 316).
[16] MACLEAN, P. D. MacLean, “New findings on brain and sociosexual behavior”, in Contemporary Sexual Behavior, de Zubin e Money [Eds.].
[17] D. Ploog, S. Hopf e P. Winter, “Ontogenese des Verhaltens von Totenkopf-Affen (Saimiri sciureus)”, Psychol. Forsch., nº. 31, 1967, pp. 1-41.
[18] Paul D. MacLean, “Bases Neurológica do Comportamento de Imitação no Macaco-de-cheiro”, in A Unidade do Homem, Volume 1: Do Primata ao Homem – Continuidades e Rupturas, Cultrix e Ed. Da Universidade de São Paulo, 1978, pp. 186/187.
[19] SAGAN, Carl. Os Dragões do Éden, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1982, p. 35.
[20] Os judeus, os árabes e os fenícios aprenderam com os egípcios a prática da circuncisão.
[21] Além da circuncisão, existem outras formas de castração amenizada ou simbólica. Por exemplo, os bosquímanos hotentotes – povo da África Meridional – retiram dos seus filhos um dos testículos.
[22] Strahlow, Die Arunta und Loritja-Stamme in Zentral-Australien, IV, Teil, I. Abteilung, pp. 10-12.
[23] Trân Duc Thao, em seu ensaio Marxismo e psicanálise: As origens da crise edipiana, transcreve o seguinte relato de Strahlow: “1. Esta operação dolorosa deve submeter à autoridade dos homens idosos os jovens que, até então, não estavam habituados a qualquer obediência. Devem agora obedecer ‘knaribatana kankueritjika’ aos velhos. Esta razão encontra-se já indicada na lenda dos dois Homens – Gaviões, Lakabara e Linjalenga, que insistiam junto dos homens para uma estrita observação desse costume, e prevenia-os que o rapaz em que se tivessem esquecido de executar esse rito se tornaria um ‘erintja’, que mataria os homens da sua própria tribo e os comeria; 2. A circuncisão deve opor uma barreira às exuberâncias dos jovens púberes”. (Op. cit., pp. 270-271) .
[24] Em 1206, o chefe mongol Temujin adotou o título de Khaqan e o nome Gêngis Khan, que significa “soberano oceânico”.
[25] SAGAN, Carl. Op. cit., p. 35.
[26] “A opinião geralmente aceita é de que a imitação sexual da hiena é resultado de elevados níveis de androgênios no ambiente fetal. Segundo essa noção, os benefícios da agressividade levaram ao desenvolvimento evolutivo de altos níveis de androgênios nas fêmeas, e esses altos níveis levaram, acidentalmente, como um subproduto inútil, à masculinização da aparência física. Sem dúvida, há uma grande vantagem no fato de as fêmeas terem status elevado. (…) Entretanto, (…) as hienas fêmeas levam sua imitação do macho a um grau extraordinário. (…) As fêmeas não só urinam através do clitóris, como parem por eles! Esse procedimento é tão difícil que o clitóris tem que ser rompido pela passagem do bebê, fazendo com que as primíparas tenham uma elevada proporção de natimortos e um grande risco de mortalidade materna devido a partos anormais, talvez superior a 18%. (…) Até a cópula é dificultada, porque requer que o macho insira o pênis diretamente no clitóris da fêmea”. — WRANGHAM, Richard; PETERSON, Dale. O Macho Demoníaco: As origens da agressividade humana; Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda., 1998; pp. 228-230.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MÍSTICA E GEOMETRIA: A INTUIÇÃO DA UNIDADE EM NICOLAU DE CUSA E ESPINOSA (ARTIGO DE ALVES DE AQUINO) (*)



"O Geógrafo", pintura de Johannes Vermeer (1632-1675)

*


Apresentação

Tudo vem do Uno e ao uno deve voltar
Se não quiser desdobrado e múltiplo ficar

(TUDO DEVE VOLTAR AO UNO, aforismo 1 do Livro V 
de O Peregrino querubínico, de Angelus Silesius)


O que nos propomos é a instauração de uma reflexão acerca do princípio de unidade de todas as coisas tomado a partir de duas perspectivas: a da filosofia mística de Nicolau de Cusa (1401-1464), e a do racionalismo geométrico de Benedito de Espinosa (1632-1677). Os conceitos de “mística” e “geometria” expressarão aqui proximidades e diferenças que caracterizarão bem duas mundivisões acerca de um mesmo problema. O discurso de Nicolau de Cusa, à medida que busca superar o silêncio oriundo de uma consciência da inefabilidade do Absoluto, ultrapassa igualmente a perspectiva de uma Teologia Negativa como a de Maimônides (1135-1204), que somente admite enquanto dizer, o que não é a essência divina. A reflexão cusana pode ser assim caracterizada como renovada procura de uma nomeação de Deus, dialeticamente aceitando os limites da linguagem, mas ao mesmo tempo procurando desenvolvê-la em sua máxima amplitude. E nisso consistirá o maior distanciamento de Nicolau de Cusa em relação àquele com quem mais tarde dividirá a acusação de panteísmo: para Espinosa, a dedução da ordem das ideias por via geométrica representa a seguridade de que a ordem das coisas alcançara correta exposição. O mesmo objeto — o Uno como primado ontológico — será definido a partir de uma compreensão diferenciada de intuição: a intuição de que parte a Ethica de Espinosa é matemática e, assim, expressão secular de uma metafísica que, já em pleno século XVII, procura desocultar todo mistério.

1. Mística e Teologia Negativa: entre o Silêncio e a Linguagem

(...) todos, antigos e modernos, afirmam corajosamente que o Criador (exaltado seja!) não pode ser apreendido pelas inteligências, que só Ele pode abarcar “o que é”, e que percebê-lo equivale à incapacidade de reconhecê-lo plenamente. Todos os filósofos confessam: sua formosura nos deslumbra e se nos oculta pela mesma intensidade de sua manifestação, como o sol se encobre aos olhos demasiado débeis para contemplá-lo. Sobre isso se escreveu amplamente e não há por que repeti-lo. Porém o mais admissível a esse respeito é proclamado pelo salmista: “Para ti o silêncio é louvor” (Salmo 65, 2); (...) Em consequência, mais acertado é o silêncio e limitar-se às percepções intelectivas, como recomendaram os perfeitos, ao dizerem: “Pensai em vosso coração, em vosso leito, e guardai silêncio” (Salmo 4, 5). (1)

Em sua introdução ao Livro da divina consolação de Mestre Eckhart (1260-1328), afirma-nos Leonardo Boff que “toda mística, cristã ou pagã, vive de uma experiência radical: aquela da unidade do mundo com o supremo Princípio ou do homem com Deus. Trata-se de uma experiência imediata de Deus ou simplesmente do Uno”. (2) A ser assim, enquanto imediata uma tal experiência prescinde, para fazer-se realizar, de qualquer ulterior desdobramento linguístico, podendo mesmo culminar no silêncio: antecedente ao próprio dizer, dá-se com o simples apresentar-se àquele que intui. O calar apareceria aqui como resultante da intuição da unidade porque esta, ao mesmo tempo em que se apresentaria ao místico sem mediações quaisquer do pensamento e da fala, ultrapassaria igualmente a própria pretensão de uma sua reprodução pelo pensamento e, consequentemente, pela fala. Estaríamos diante do sentido originário do conceito de mística, enquanto mistério (mysterion, do grego). O místico seria a um só tempo o portador e guardião do grande segredo incomunicável: infelizmente deverá manter exclusivamente consigo “a chave” de seu sagrado conhecimento. Eis por que alguns, como São João da Cruz, iluminados pelo anseio de travessia da grande noite escura da alma, preferem expressar pela poesia sua experiência vivencial de unidade. Mas convenhamos que a poesia — embora veladamente — é já um dizer. (3)

Um semelhante esforço de articulação é aquele propugnado pela Teologia Negativa que, muito embora afastando de si o silêncio, aceita como unicamente articulável a propósito do Absoluto aquilo que não constitui a essência deste, a saber: toma como único discurso teológico possível a indicação dos limites pelos quais inteligimos a insuficiência do próprio dizer ante aquilo que paira sempre para além de toda razoabilidade e inteligibilidade. Nesse sentido a figura de Moisés Maimônides é exemplar, e o Capítulo L (e os seguintes LI-LII-LIII nos quais é desenvolvida a questão) do seu Guia dos perplexos nos serve primorosamente de referência. Nele encontramos as considerações segundo as quais Deus é defendido como Uno, mas sob a condição de que tal implica a negação de qualquer atributo como passível de expressar a essência divina, uma vez esta não ser constituída de modo algum por atributos essenciais. Se atributos diversos exprimem a essência de Deus, temos ameaçada a ideia de unicidade, posto que sua exata expressão deve evitar a multiplicidade de ideias, e com isso fica interditada a exposição de uma possível diversidade de atributos divinos positivos. Os atributos afirmativos configuram-se como uma apresentação equivocada da unitariedade divina e qualquer qualificação sua é imprópria, pois pela própria atribuição da diversidade de atributos a Deus, traímos o Uno substancial que este é.

Mas ainda com Maimônides (seguindo, finalmente, os capítulos LVII-LVIII de seu Guia), teríamos que nem mesmo atributos como existência, unidade e eternidade podem ser tomados como atribuíveis a Deus. A existência seria um atributo somado, acrescentado, sobrevindo à quidditas do ente, e como tal não deve ser afirmado de Deus, pois este “existe, mas não por uma existência; vive, mas não por uma vida; pode, mas não por um poder; conhece, mas não por uma ciência; tudo se reduz a uma só ideia, na qual não há multiplicidade”. (4) Assim, também o conceito de eternidade não Lhe deve ser fixado, pois tal conceito designa sobretudo uma relação com o tempo, o que é impróprio de Deus. A não-temporalidade divina O exime de qualquer vínculo com um conceito que, mesmo pretendendo significar duração indefinida, é ainda relativo à mensuração temporal. Finalmente, que dizer do próprio conceito de unidade, aquele que aqui nos é mais caro? Para Maimônides, Àquele que é isento de qualquer composição, Àquele que é de absoluta simplicidade, a atribuição da unidade é ainda um erro, posto vincular mais uma vez a essência divina ao múltiplo da quantidade: assim como existe, mas não em função da existência como acréscimo de sua essência, é Uno, mas não pela unidade como atributo que se Lhe adere. Se Deus é verdadeiramente Uno, a enumeração e exposição de seus atributos nada Lhe acrescentam porque traem pela diversidade a própria unicidade divina. Que nos resta dizer de Deus, por conseguinte?

Resta-nos a enunciação daquilo que não Lhe pertence, daquilo que não O constitui. Vejamos: se cada atributo positivo, enquanto diverso de outro atributo, limita a ideia da infinita singularidade de Deus, então haveremos de adotar como medida (não o silêncio, não o não-dizer, mas) o “dizer-não”. O dizer o que Deus não-é. (5) Semelhante postura não deve sob hipótese alguma confundir-se com a admissão da completa ignorância. Não se ignora aqui o uno primordial que é Deus, sabe-se que Ele é, mas não se sabe o que Ele é. Afirmá-Lo Uno é precisamente negar a diversidade de atributos e, com isso, a possibilidade de qualquer discurso que queira fazer-se seguir à sua apreensão como substância simples: fica impedida a dialética como desdobrar-se do conceito mediante a negação de si, fica aberta a via para a negação como discurso estático. Isto é, se pensarmos a negação em sua dinâmica como exposição mediante o movimento do conceito que se desdobra e se enriquece em determinações que expressam gradualmente aquilo que ele é, — tal dialética cai por terra já que para Maimônides o Uno primordial não é passível de conceituações particularizantes;  estas identificar-se-iam, em última instância, à diversidade, traindo mesmo a essência substancialmente única do divino. Permanece a negação como “afirmação estática”, isto é, renovado recomeço a partir do ponto originário, a saber: o de que de Deus só se diz com propriedade aquilo que Ele não é.

Mas dizer, por exemplo, que Deus não é corpóreo adianta muito mais ao entendimento do que dizer que se ignora tal coisa (bem como afirmar dele positivamente qualquer outra coisa, conforme já o vimos).  Assim, o dizer o que Deus não é, deve multiplicar-se de modo que nos aproximemos cada vez mais de uma ideia divina, ainda que nunca positivamente. Porque do contrário corremos o risco abissal de, para além de alcançar uma ideia imperfeita de Deus, perdê-Lo por inteiro. Afinal, aquele que pretende estabelecer a afirmação de atributos como qualidades parciais complementares de Deus, desliga-se deste por este não dever ser compreendido senão integralmente. O “dizer-não” é dizer acerca de Deus o que pode ser dito com acerto. Um passo intermédio entre a pretensão da palavra positiva, e a resignação do silêncio absoluto.

Ora, todo o esforço de uma teologia mística que não tome, por um lado, o silêncio absoluto como (in) expressão maior e única possível da intuição da unidade do mundo, e por outro a negatividade da qualificação dos atributos divinos, empreender-se-á no sentido de tentar traduzir verbalmente, reflexivamente, essa mesma unidade originária, sem que sua expressividade alcance jamais o esgotamento do objeto. A dupla referência da teologia mística catafática consiste na aceitação, por um lado, da necessidade de comunicação positiva da unidade intuída, e por outro na consciência de que o dizer permanecerá sempre aquém daquilo que o dito é em si mesmo. Embora algo sumária, tal constatação prepara-nos suficientemente a abordagem do pensamento de Nicolau de Cusa, ainda que também em suas linhas mais gerais.

2. Nicolau de Cusa e o Princípio de Unidade

Contudo, supera nossa mente o modo de complicação e explicação. Quem, por favor, poderia entender como da mente divina seja a pluralidade das coisas, admitido que o entender de Deus seja seu ser, o qual é a unidade infinita? Se continuas considerando a semelhança com o número, como o número é a multiplicação do uno comum feita pela mente, pareceria como se Deus, que é a unidade, se dê multiplicado nas coisas, admitido que seu entender é ser. E no entanto, entendes que não é possível que se multiplique aquela unidade que é infinita e máxima. (6)

A intuição de uma unidade que ultrapassa o dizer definitivo mas não elimina o dizer aproximativo, constitui de certo modo o cerne do esforço filosófico de Nicolau de Cusa. A propósito, o seu De docta ignorantia exprimiria precisamente tal ambivalência: o douto intui aquilo que é o princípio mais elevado de realidade, entretanto conhecendo igualmente a insuficiência de sua capacidade de expressar com exatidão a essencialidade dessa mesma intuição como princípio original de todas as coisas. Por isso a tarefa do pensador consistirá numa tentativa de aproximação paulatina e gradual ante a tradução do que constituiria sua verdade primeira, sempre fugidia: no caso de Nicolau de Cusa, tamanho empreendimento aponta para o encontro da mais precisa denominação de Deus enquanto unidade originária do mundo, bem como para o esclarecimento da relação dessa mesma unidade ante a pluralidade em que se manifesta. (7)  

A busca de uma nomeação exata de Deus, para além de qualquer teologia apofática, leva o filósofo de Kues ao uso contínuo de três figuras linguísticas essencialmente caras à mística em geral: referimo-nos à hipérbole, antítese e metáfora. A partir desses três recursos procuraremos desenvolver nossa abordagem da reflexão cusana acerca do princípio divino. O uso dessas figuras não é meramente estilístico, mas constitutivo daquilo que seria o cerne da filosofia mística, conforme a viemos aqui apresentando: uma interpolação, um situar-se positivamente entre o calar e o dizer. Nesse sentido é que a intuição da realidade do ponto de vista de sua absolutidade, não se esgotará jamais mediante a linguagem filosófica ordinária, devendo expressar-se a partir de imagens que suscitem por sua singularidade a mesma singularidade a que se referem, ainda que esta jamais se esgote por completo. Fica claro que a linguagem filosófica/teológica necessita engrandecer-se com novos elementos a fim de potencializar seu poder de expressão se realmente pretende apreender o mais eficazmente possível seu objeto máximo, este que é inapreensível por natureza. As figuras de retórica funcionarão em Nicolau de Cusa como elementos possibilitadores da constituição do próprio discurso acerca de Deus.

A consideração da realidade una como intuição da qual se parte, conduz ao esforço de uma reprodução intelectiva que, tendo em vista seu objeto, exige por sua vez uma linguagem inovadora. A recorrência à hipérbole no De docta ignorantia exprime exatamente a compreensão cusana de que o inaçambarcável só pode ser devidamente dito, se o é exageradamente. Ou seja, não há maior proximidade do “todo abrangente” (se quisermos usar um conceito de Jaspers) que aquela alcançada pela demonstração dos limites de tudo aquilo que ele não é; e esses limites serão ainda mais evidenciados, se a totalidade em sua desmesura é apresentada a partir do recurso hiperbólico da linguagem. A finitude em seu confronto com a totalidade unitária quedará ainda mais demarcada se anteposta perante a abrangência do conceito hiperbolizado do real como unidade: tal conceito é o de Máximo Absoluto. 

O Máximo Absoluto é a hiperbolização de toda realidade porque se apresenta como denominação positiva maior de tudo aquilo que pode cair sob domínio do intelecto humano, mas que ultrapassa infinitamente esse domínio, por ser ele mesmo a própria infinitude totalizante. Como Absoluto, o máximo totalizante ultrapassa infinitamente todas as coisas que nele estão, mas sem o qual não podem sequer ser pensadas. O Máximo Absoluto é o conceito hiperbólico a partir do qual – e somente a partir do qual – podemos pensar a existência das coisas finitas, é em suma, o próprio fundamento destas. É nesse sentido que se dá a estreita relação entre o Máximo Absoluto como primado ontológico maior da expressividade de toda a realidade, e a contradição dos opostos (a antítese como segunda figura).

A impossibilidade de uma apreensão da infinitude por um pensamento linearmente lógico implica a adoção da contradição como recurso (repetimos, mais do que retórico) filosófico somente mediante o qual as inconsequências do real se deixam postular. A antítese mesma faz-se hiperbólica tão logo nos damos conta de que o Máximo Absoluto enquanto absolutamente máximo, deve contrair o finito e o infinito, deve hipostasiar-se no infinitamente pequeno como no infinitamente grande; por ser fundamento de cada coisa particular, é particular sem que se esgote na particularidade.

Como unidade, deve o Máximo comprimir toda a realidade, sendo assim complicação de todas as coisas, complicatio. A infinita pluralidade do mundo, à medida que constitui a unidade de tudo mas dela sendo diferenciada, nada mais é que desdobramento, explicatio. A relação dialética entre complicatio e explicatio efetiva-se a partir da consideração de que a singularidade das coisas do mundo não fornece explicação de si por si, inserindo-se numa totalidade que enquanto identidade última de toda pluralidade, a um só tempo fornece a unidade ontológica na qual subjaz a diversidade, como se diferencia do mero conjunto de entes individuais. É na realidade una que todas as coisas se apresentam enquanto explicatio, mas a consideração da complicatio pela qual todas as coisas aparecem implicadas jamais se exaure na identificação de sua complicação. O princípio complicador é sempre um para além da mera consideração das singularidades conjuntamente: embora imanente à multiplicidade de seus desdobramentos, não se esgota quando pensado a partir de uma aglutinação dos seres diversos.

Assim, posto que cada coisa em particular é manifestação do Máximo Absoluto, como também uma sua ocultação (já que o Uno jamais se complicaria totalmente no finito), a aventura linguística pela qual o místico intenta expressar sua intuição original é sempre elíptica, parabólica. Esta talvez seja, dentre as três figuras, a mais cara às origens da tradição neoplatônica e cristã a que se filia. (8)

No De visione Dei encontramos grande exemplificação da metáfora como recurso imagético para definição aproximativa do Absoluto. Ali a imagem dos olhos de Deus é o símbolo pelo qual se estabelece a metáfora plena responsável por uma clarificação da compreensão da essência divina. A “comparação” realizada entre o olhar do ícone que se desloca conforme o ângulo do observador e a visão de Deus em tudo presente, parece ao cusano a ilustração mais sensível da unicidade e ubiquidade divinas. Mas no De docta ignorantia as metáforas dão-se principalmente sob o elenco de exemplos matemáticos, pois é “precisamente na caracterização do método do uso simbólico da matemática que está a marca profunda da originalidade do Cusano e da novidade da sua filosofia interpretativa”. (9) A adoção da simbologia matemática coincide com a pretensão de desenvolvimento de uma linguagem dotada de imagens as mais precisas do inimaginável, ilustrações de um método discursivo pelo qual são explicitadas aproximativamente as dobras do inefável. Esse recurso à simbologia matemática oferece-nos a passagem para o momento seguinte de nossa discussão.

3. Geometria e Metafísica

Essas longas cadeias de razões, todas simples e fáceis, de que os geômetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações, haviam-me dado ocasião de imaginar que todas as coisas possíveis de cair sob o conhecimento dos homens seguem-se umas às outras da mesma maneira e que, contanto que nos abstenhamos somente de aceitar por verdadeira qualquer que não o seja, e que guardemos sempre a ordem necessária para deduzi-las umas das outras, não pode haver quaisquer tão afastadas a que não se chegue por fim, nem tão ocultas que não se descubram. (10)

No Discurso do método, obra publicada em 1637, René Descartes (1598-1650) lança as bases do racionalismo moderno: o alicerce do pensamento ali postulado dá-se a partir da aceitação do que há de mais próprio às matemáticas, isto é, o encadeamento de ideias utilizado por essas ciências que são, enfim, as únicas a oferecerem conclusões indubitáveis. Não se trata da aprendizagem particular de todas as matemáticas (geometria analítica, álgebra ou aritmética), mas do que dá azo à certeza de suas proposições. E a utilização do método dedutivo matemático é em Descartes a descoberta de um caminho pelo qual podemos vir a atingir a ordem necessária das coisas, “nada havendo tão distante que não seja alcançado, nem tão escondido que não seja descoberto”.

A confiança na possibilidade de descoberta do que subjaz escondido, eis o que poderíamos alicerçar como típico do cartesianismo: não estamos mais perante a posição de suspeição e suspensão segundo a qual o fundamento último das coisas permanecerá velado a despeito do muito nomear; mas o próprio deslocamento do problema de uma via discursiva para uma via primacialmente cognitiva instaurará o otimismo científico moderno. A matemática é guia veraz porque a linguagem do mundo é matemática: assim o afirmara Galileu, (11) assim o assinalara também Descartes. Uma vez o entendimento guiado com seguridade através da reta via de um bom método que se lhe adeque, nada devemos temer: estará o erro afastado, e o mundo perfeitamente passível de tradução.

Nas Respostas às segundas objeções, o filósofo francês fará uso daquela que viria a consagrar-se como forma demonstrativa por excelência da filosofia espinosana: a demonstração sintética. Enquanto a análise consistiria na exposição do discurso de acordo com sua própria gênese, apresentando assim a gestação mesma pela qual um dado pensamento se dera, a síntese trataria de desenvolver-se a partir do resultado da inquirição, não seguindo a ordem de nascimento das conclusões, mas sim uma ordem mais apropriada à demonstração dos resultados alcançados. É esse o método expositivo adotado por Espinosa em sua obra máxima, a Ethica ordine geometrico demonstrata.

É inegável que a ordem geométrica de exposição seja a mais correspondente à pretensão espinosana de demonstração da unidade substancial da realidade: a geometria funciona a nosso ver como a mais adequada exposição da unicidade universal em sua concatenação intrínseca pela qual se vinculam singularidade e totalidade, a saber, em termos espinosanos, modalidade e substancialidade. A organicidade do sistema geométrico de Espinosa expressa exemplarmente sua tentativa de ultrapassagem dos limites de um discurso que tomasse como pressuposto a impossibilidade de esgotamento — mesmo que em suas linhas gerais — da trama interna da realidade. A articulação entre as definições, axiomas, proposições e demonstrações de sua obra magna atestam a certeza da eficácia da tessitura matemático-dedutiva como reprodutora da ordem do mundo, igualmente inter-relacionada em sua teia de causalidades a ligar a substancialidade originária às suas manifestações modais mais particulares. A ordenação logicomatemática mediante a qual de definições iniciais são extraídas consequências que reverberarão ao longo de toda a concatenação do discurso — uma ordenação tal nada é senão a formulação na esfera do pensamento daquilo mesmo que se passa na ordem do real, em sua mais intrínseca nervura.

A recorrência por Espinosa à geometria surge como estatuto ontológico, primado de exposição da intuição de uma ordem única de mundo graças à qual é possível finalmente alcançar a “união da mente e da Natureza” estipulada no § 14 do Tratado da emenda do intelecto. A mathesis universalis perde aqui o caráter simbólico (qual em De Cusa) e assume a configuração da própria realidade a ser exposta em sua dedução contínua, ininterrupta.

4. Espinosa e a Substância Única

Os requisitos, porém, da definição da coisa incriada são os seguintes: I. Que exclua toda causa, isto é, que o objeto não exija nada mais que seu próprio ser para sua explicação. II. Que, dada sua definição, não reste lugar para a pergunta: ‘Existe ou não?’ III. Que não contenha, no sentido real, substantivos que possam ser adjetivados, ou seja, que não possa ser explicada em termos abstratos. IV. Exige-se, por último (embora isto não precise muito ser anotado), que de sua definição se concluam todas as suas propriedades. Tudo isso são coisas manifestas a quem prestar bem atenção. (12)

A definição inicial da Ethica é a de causa sui: aquela que implica necessariamente a existência, aquela que não pode ser pensada senão como existente. Esse conceito é a formulação mesma da ideia de que se deve partir, e da qual se deve deduzir o conteúdo subsequente da realidade. Na verdade, com as deduções extraídas ao longo da Parte I da Ethica, chegamos ao conhecimento de que na definição da causa de si está já posta a identificação da realidade como unidade ontológica (conforme prescrito já na emenda do intelecto). A causa sui expressa toda a realidade possível porque nada além de Deus (ens realissimum) pode ser dito causa de si mesmo. Sendo a substância (pela definição III) “aquilo que é em si e se concebe por si”, os atributos (def. IV) “aquilo que o entendimento percebe da substância”, os modos “as afecções da substância” (def. V), Deus o “ente absolutamente infinito, isto é, substância que consta de infinitos atributos” (def. VI) (13) e dada enfim a impossibilidade (pela proposição XIV) da existência de outra substância além de Deus, toda a infinita diversidade não pode ser tomada senão como expressão de atributos divinos e, portanto, como manifestação da substância única: a saber, como expressão de uma mesma realidade unitária. Os atributos não são distintos, em última instância, da substância: são a substância mesma, mas a partir da diferenciação ocasionada pela percepção por parte do entendimento humano. Assim, pensamento e extensão expressam uma só substancialidade: e suas modificações particulares nada são senão individuações imanentes a uma mesma realidade singular. (14) A intuição inicial do princípio originário da realidade como causa sui, e a correspondência direta deste a Deus, implicam a aceitação de que em Deus se dá a identidade entre o ser e o existir pelo fato de que do ponto de  vista da substância única como única realidade, tudo aquilo que é, é na substância. Tudo que existe, existe na substância e deve ser concebido a partir desta (e esta meramente a partir de si): logo, a substância como causa de si exprime já desde seu inicial despontar como definição primeira, o “máximo absoluto” de força ontológica.   

O que fornece garantia à verdade da unidade de mundo aqui apresentada é precisamente sua reprodução lógica e matemática: a validação das deduções, à medida que estas se desenvolvem, dá-se pelo seu próprio feixe de entrecruzamentos. A auto-referência alcançada pela disposição geométrica procura atestar a impossibilidade do equívoco, posto que todo o edifício conceitual fora construído pari passo, reproduzindo na ordem do discurso e das ideias aquela ordenação originária, ontológica, de causa e efeitos entrelaçados. Por isso a Parte V da Ethica (da potência do entendimento ou da liberdade humana) é finalizada com o reenvio do homem a Deus, mediante o amor Dei intelectualis (o amor intelectivo de Deus). Se a causa sui como princípio máximo de realidade implica a contenção de todo existir, então o homem não pode ser senão modificação da e na substância infinita, Deus: e o conhecimento humano do mundo é conhecimento de Deus. Amar intelectivamente a Deus não quer senão dizer que o homem já integrado na ordem total da Natureza exprime agora como desejo maior o conhecimento gradual dessa mesma ordenação na qual se insere. Assim, o tecido constitutivo que se estende das primeiras definições da Parte I às últimas demonstrações da Parte V da Ethica explicita em linha discursiva a série nevrálgica das causas e efeitos que unem o indivíduo como modalidade da substância a Deus como totalidade, como unidade substancial.

Estamos aqui já distantes daquela perspectiva com que iniciamos nosso estudo, e segundo a qual é clara a aceitação do Uno como estatuto ontológico primeiro de realidade, mas indevida ou insuficiente sua tradução positiva como discurso. Em Espinosa, a inteligibilidade da unidade do mundo é garantida pela própria via expositiva dessa unidade, a via geométrica. (15)

À Guisa de Conclusão

A Teologia Negativa, aqui apresentada a partir das reflexões de Maimônides em seu Guia dos perplexos, postula os limites do dizer acerca de Deus. Deste não podemos dizer o que é, sob o risco de trairmos sua identidade unitária; podemos dizer apenas aquilo que Ele não é, e tanto mais rico será nosso discurso quanto mais determinações negativas houvermos elencado. Nesse sentido o direcionamento filosófico de Maimônides pode ser caracterizado como meio-termo entre o dizer e o calar absoluto. Propriamente, o silêncio absoluto seria a expressão mais adequada para aqueles que pensam a completa impossibilidade de se comunicar a experiência da unidade divina. Este não é o caso de Nicolau de Cusa, para quem a comunicabilidade aparece como insuficiente (dado o inefável do Absoluto) mas não de todo equívoca. A teologia mística de Nicolau de Cusa atesta o empreendimento de uma busca sempiternamente renovada em função da correta nomeação de Deus, princípio complicador de todas as coisas. O Cusano aceita ser apenas aproximativo o seu esforço, posto que um muro há de sempre inderditar a passagem direta ao Paraíso em que se poderia ver Deus face a face. Por isso a denominação tardia de Deus também como um Não-Outro que há de permanecer naquilo que se não nomeia: dizer algo é deixar de dizer o não-algo, nomear é deixar de nomear. O Não-Outro como si-mesmo escapa a todas as definições por ultrapassar o domínio da mens em sua (dele) imensurabilidade. Por isso ainda o socratismo cusano pelo qual o douto é irremediavelmente ignorante: sabe que sabe da unidade, mas ignora como exprimi-la plenamente.

Não gratuitamente a reflexão posterior de Espinosa haverá de aproximá-lo daquela empreendida pelo Cusano: partem ambos da possibilidade de expressão do Uno primordial, diferentemente embora. Se em relação a Maimônides Nicolau de Cusa pode ser visto como dotado de um otimismo linguístico, em relação a Nicolau de Cusa o mesmo pode ser dito do filósofo holandês. A pretensão de tradução do mundo a partir de seu estatuto ontológico mais elevado — como unidade — leva Espinosa à formulação de uma filosofia ordenada geometricamente, intrinsecamente concatenada. É esse primado da mathesis universalis (que já aqui não se configura como metáfora, mas a própria essência do mundo em sua identidade como ordem de ideias e ordem das coisas) o responsável pelo distanciamento da perspectiva moderna ilustrada por Espinosa, daquela medievo-renascentista ilustrada pelo Cusano. Fiel ao otimismo cartesiano de assunção da matemática universal (mas infiel no concernente a quase todo o restante cartesianismo), Espinosa desenvolve sua doutrina sem maior desconfiança frente à linguagem que emprega: pois acredita ser esta a correspondente adequada do mundo que quer traduzir. Esse ainda o elemento que nos permite afastar Espinosa da alcunha de místico, a despeito de alguns como Novalis o definirem como um “homem embriagado de Deus”. A geometria, ainda ela, é a marca secular de um racionalismo sóbrio que se impõe sobretudo como afirmação do intelecto e, assim, a própria intuição primordial da unio mystica reveste-se aqui do caráter de intuição matemática, scientia intuitiva: aquele nível de intelecção que se apropria imediatamente de seu objeto, prescindindo portanto de qualquer cálculo antecedente. A causa sui tal como definida na Parte I da Ethica é a tradução máxima do Absoluto como unidade primária de mundo: mas sua clareza e evidência já não implicam mistério; sua formulação enquanto definição é explicada pela potência do próprio entendimento daquele que intelige e, nesse sentido, é humana, demasiadamente humana, secular. E esse mesmo processo de secularização do saber pelo qual Espinosa buscou desvelar o oculto no século XVII haveria, em nossa contemporaneidade, de desconfiar de toda palavra acerca de Deus que se pretenda fundada racional e ontologicamente, devolvendo assim o discurso acerca do Uno à sua impossibilidade originária, ao seu silêncio.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(*) Publicado na Revista KALAGATOS, do Curso de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Volume V, N. 9, 2008 (pp. 157-182). 
(1) MAIMÓNIDES, M. Guia de perplejos, p. 161.
(2) BOFF, Leonardo. “Mestre Eckhart: a mística da disponibilidade e da libertação”; introdução a ECKHART, Mestre. Livro da divina consolação e outros textos seletos, p. 16.
(3) “Entréme donde no supe,/ y quedéme no sabiendo,/ toda ciencia transcendiendo./ 1. Yo no supe dónde entraba,/ pero cuando allí me vi,/ sin saber dónde me estaba,/ grandes cosas entendí;/ no diré lo que sentí,/ que me quedé no sabiendo,/ toda sciencia transcendiendo”: Cruz, San Juan de la. Cántico espiritual, pp. 25-26.
(4) MAIMÓNIDES, M. Op. cit., p. 205.
(5) “Os atributos negativos são os que necessariamente hão de empregar-se para direcionar o intelecto até o que d’Ele (exaltado seja!) devemos crer, pois daí absolutamente nenhuma ideia de multiplicidade haverá de resultar, e são os atributos negativos que encaminham o intelecto até a meta do acessível ao homem na percepção de Deus”: MAIMÓNIDES, M. Op. Cit., p. 158.
(6) CUSA, Nicolás de. Acerca de la docta ignorantia, pp. 37-38.
(7) Eis por que em sua introdução ao diálogo Directio speculantis seu de non aliud, traduzido para o espanhol como El No-otro (p. 5), Angel Luis González afirma do cusano que “(...) sua teoria filosófica geral poderia entender-se como uma doutrina sobre os nomes de Deus, uma investigação das possíveis fórmulas de designação do Absoluto, que de seu é inefável”.
(8) Realmente, já no platonismo a alegoria cumpre a função de alternativa ao discurso dialético: ilustra o cerne da doutrina em questão, sem que a esgote conceituamente; em Jesus o recurso à parábola é uma forma de fazer entender seus ensinamentos por parte daqueles que o ouvem, em geral ignaros. Por isso Gianluca Cuozzo procura assentar em seu Mystice videre — esperienza religiosa e pensiero especulativo in Cusano (pp. 14-16), a necessidade de não se tomar a filosofia-teologia de Nicolau de Cusa como simples antecipação do cartesianismo ou do kantismo (dada sua crítica original ao conhecimento) ou mesmo pensamento de transição; o pensamento do Cusano não pode ser entendido se não for localizado no mundo imagístico medievo, alegórico, simbólico, uma vez sua reflexão permanecer sempre entre a indagação especulativa e o mistério da revelação. Jaspers também aponta (em “Nicolás de Cusa — a los quinientos años de su muerte”, p. 49) a importância da simbologia matemática em Nicolau de Cusa, já que “esse aspecto matemático de sua descoberta é a diretriz ou o símbolo da coincidência de todos os contrários no Infinito, que é Deus”.
(9) Cf. a Introdução de João Paulo André ao De visione Dei, p. 95.
(10) DESCARTES, R. Discurso do método, p. 40.
(11) GALILEI, Galileu. O Ensaiador (p. 119): “A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo) que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem ele nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto”.  
(12) ESPINOSA, B. Tratado da correção do intelecto, p. 65. Todas as citações da obra de Espinosa far-se-ão a partir da edição Abril Cultural, 1983 (Col. Os Pensadores). Para a Ética, utilizamos como cotejo a edição bilíngue latim-francês das edições Seuil: apresentada, traduzida e comentada por Bernard Pautrat.
(13) Conforme o original latino: “III. Per substantiam intelligo id, quod in se est, & per se concipitur: hoc est id, cujus conceptus non indiget conceptu alterius rei, à quo formari debeat. IV. Per attributum intelligo id, quod intellectus de substantiâ percipit, tanquam ejusdem essentiam constituens. V. Per modum intelligo substantiae affectiones, sive id, quod in allio est, per quod etiam concipitur. VI. Per Deum intelligo ens absolutè infinitum, hoc est, substantiam constantem infinitis attributis, quorum unumquodqueaeternam, & infinitam essentiam exprimit”. Éditions du Seuil, p. 14.
(14) O elenco da extensão e do pensamento como dois dos infinitos atributos que constituem o ser da substância, ao mesmo tempo que visa em Espinosa uma maior determinação daquilo que constitui a essência de Deus, enfrenta a aporia do conflito unidade-diversidade legado por Maimônides, a quem o filósofo parece responder diretamente quando no escólio da Proposição X da Parte I afirma: “(...) embora dois atributos sejam concebidos como realmente distintos, isto é, um sem contributo do outro, nem por isso se pode concluir que constituam dois entes, isto é, duas substâncias, por ser da natureza da substância que cada um dos seus atributos seja concebido por si; (...) Por consequência, está longe do absurdo a atribuição de vários atributos a uma substância”. Para um confronto Espinosa-Maimônides, cf. BENSUNSSAN, Gérard. “Spinoza lisant Maimonide: antifinalisme et contingence”, in: Les Études Philosophiques, octobre-décembre. — Paris: Presses Universitaires de France, 1995, pp. 441-455. 
(15) Nesse sentido, assinalamos nossa concordância com as considerações de similitude entre as metafísicas cusana e espinosana, desenvolvidas por José González Rios (em “La coincidencia de los opuestos: actus et potencia en Nicolas de Cusa y Baruch de Spinoza”), segundo as quais a indeterminação da substância de Espinosa como pura potência em ato coincidiria com o possest de Nicolau de Cusa: mas a diferença radical aqui apontada, à medida que remete à própria intuição da unidade como diferenciada nos dois filósofos, parece instaurar um distanciamento maior que qualquer proximidade doutrinal.
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