sexta-feira, 15 de julho de 2011

A ESCRITURA DE DOSTOIÉVSKI: ÉTICA E METAFÍSICA POLIFÔNICAS (ENSAIO DE ALVES DE AQUINO)

Dostoiévski em Xilogravura de 1927 de Lasar Segall


“Na mecânica estatística, é conhecida a figura hipotética do demônio de Maxwell: ser inteligente microscópico que age, deliberadamente, no sentido de subverter a probabilística 2ª lei da termodinâmica. Pode-se, por analogia, considerar a hipótese de um homem demoníaco que viola a lei moral fundamental por ato puro da vontade: Optima video, deteriora sequor (vendo o bem, escolhe o pior). Essa transgressão como afirmação da liberdade do espírito é um viés que, segundo Kant, representa a malignidade da natureza humana (vitiositas). — Considero Stavróguin, insondável personagem d’Os Possessos de Dostoiévski, um fantasma muito próximo desse demônio.” (M. Bulcão, A eloquência do ódio)
___________________________________
“Todos os heróis de Dostoiévski se interrogam sobre o sentido da vida. É nisso que eles são modernos: não temem o ridículo. O que distingue a sensibilidade moderna da sensibilidade clássica é que esta se nutre de problemas morais e aquela de problemas metafísicos. Nos romances de Dostoiévski a questão é apresentada com uma tal intensidade que só pode levar a soluções extremas. A existência é mentirosa ou ela é eterna. Se Dostoiévski se satisfizesse com esse exame, seria filósofo. Mas ele ilustra as consequências que esses jogos do espírito podem ter numa vida humana e é nisso que ele é artista.” (O Mito de Sísifo, Albert Camus)

* * *

1. Introdução

“(...) Mas será melhor que lhe conte o encontro que tive, o ano passado, com outro indivíduo. (...) O referido indivíduo tinha sido conduzido, juntamente com outros, ao cadafalso e lhe haviam lido a sentença condenando-o à morte: fuzilamento, por delito político. Vinte minutos depois leram-lhe também o decreto de indulto, condenando-o a outra espécie de castigo. Mas no intervalo entre as duas leituras, vinte minutos, ou quando menos, um quarto de hora, teve o nosso homem a convicção absoluta de que haveria de morrer dentro de poucos momentos. (...) Depois de ter-se despedido de seus camaradas, achou-se dono daqueles dois minutos que havia destinado a pensar em suas coisas; sabia de antemão em que havia de pensar; toda a sua ânsia era imaginar, com a maior rapidez e clareza possíveis, como haveria de ser aquilo: que ele, naquele instante existisse e vivesse e, ao fim de três minutos, tivesse de ser já outra coisa, alguém ou algo diferente... O quê? E onde? Tudo isso pensava ele resolvê-lo naqueles dois minutos. (...) A ignorância e o horror daquela coisa nova com que dali a um momento iria defrontar-se eram espantosos; mas assegurava o homem que em todo aquele momento não tinha havido nada de mais terrível para ele que este contínuo pensamento: ‘E se não tivesse de morrer? E se voltasse à vida? Que eternidade! E tudo isso seria meu! Então converteria eu cada minuto num século, não perderia nada, pediria contas a cada minuto, não gastaria nem um só em vão.’ Dizia que este pensamento chegou a inspirar-lhe tal raiva, finalmente, que a única coisa que queria era que o fuzilassem quanto antes”. [1]

... Eis a forma pela qual, através da personagem Míchkin de O Idiota, pormenorizadamente nos relata Dostoiévski o episódio de sua própria execução, quase ocorrida em 22 de dezembro de 1849, quando contando apenas 27 anos de idade. O motivo da condenação? Um certo envolvimento político... Escapara o escritor à morte, mas não ao cárcere de indeléveis memórias: se estas resultaram no escrito intitulado Recordações da casa dos mortos (1860), aquela experiência política de juventude haveria de ser explicitada apenas mais tarde, numa muito mais complexa trama, singularmente denominada — Os Demônios...

* * *

A simples menção de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski talvez justificasse por si só um estudo como este. Juntamente com Leon Tolstoi ocupa o autor indubitavelmente o lugar de mais importante escritor da História da Literatura Russa. E se falamos de Literatura Universal, ainda será entre os primeiros que estará posicionado. Mesmo Freud, a despeito das inúmeras ressalvas que antepõe ao “neurótico, ao moralista, ao pecador” em Dostoiévski, não deixa de legar ao “artista criador” um lugar de destaque, “onde dificilmente qualquer valorização será suficiente”.[2]
Ora, justamente dão azo (e asas) às presentes páginas os aspectos neurótico, moralista e pecador, de uma igual maneira encontráveis no artista criador. Procuraremos desenvolver propriamente a intrínseca relação em Dostoiévski, entre sua postura perante um problema específico (o ateísmo) e as consequências de tal posicionamento no que diz respeito à sua obra, em particular ao romance Os Demônios. Realmente, neste escrito de fôlego e fogo estão acumuladas todas as considerações características de nosso autor: a introspecção das personagens, a exaltação do instinto e do inconsciente, o combate interior travado pelo bom e pelo maléfico agir, a fé perdida ou procurada (e quase nunca encontrada). Os dois tópicos finais constituirão o que chamaremos relação ético-metafísica: veremos como os heróis dostoievskianos inserem-se no interior de uma problemática que procura articular direta e necessariamente a moral transcendente de um “além-mundo” (para utilizarmos uma expressão nietzschiana) à moral terrena; perceberemos o quanto para Dostoiévski é cara a aproximação ou dicotomia das duas esferas. E de tal maneira que, seja pela temática que aborda, seja pela forma como aborda a temática, a criação romanesca do escritor russo torna-se uma discussão dilacerada acerca dos valores humanos, e principalmente acerca da ausência desses mesmos valores.[3] O que faz com que sua escritura profunda conturbe-se por vezes com reflexões típicas de um tratado filosófico: mas Dostoiévski é (!) um escritor imerso em conjecturas filosóficas; somente, sua criação ultrapassa os limites de uma logística fria e intemporal, mostrando-se a ideia não como algo a ser realizado “objetivamente”, a despeito do indivíduo, mas como algo com que o próprio indivíduo se unifica. A ideia em Dostoiévski é sobretudo carne, e todo pensamento, pensamento-sentimento, pensentimento.
Não trairemos o autor, portanto, ao afirmarmos serem seus romances uma autobiografia disfarçada, esfacelada, multifacetada em diversas e antagônicas personagens, em situações extremas e dilacerantes, mas sempre uma autobiografia. Contudo, importa acrescentarmos que os fatos biográficos dizem respeito não necessariamente a um acontecimento concreto de sua existência histórica individual, porém relatam as peripécias da alma, as circunvagações afetomentais, retratam a interioridade tornada exterior. Uma aventura do espírito...[4]

2. O Duplo, O Múltiplo: Um Problema Preliminar

“Aquele mundo estranho e doente, em que os Evangelhos nos introduzem — um mundo como que saído de uma novela russa, onde o lixo da sociedade, a enfermidade nervosa e a idiotia “infantil” parecem ter marcado encontro — deve em todas as circunstâncias ter tornado mais tosco o tipo. Os primeiros discípulos, em particular, traduziram primeiro para a sua crueza própria um ser flutuando em símbolos e enigmas [o Cristo] e incompreensibilidades para dele compreenderem em geral alguma coisa — para eles, só existiu após uma moldagem a formas conhecidas... (...) Deveria lamentar-se que um Dostoievski não tenha vivido na proximidade desse interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, de doentio e infantil”. [5]


Muito embora a referência ao romancista russo acima transcrita (extraída de O Anticristo, cap. 31) não represente mais do que um momento do nietzschiano anátema sobre o cristianismo; muito embora a citação não diga respeito mais que a uma passageira alusão — entretanto, com toda a agudeza que lhe é peculiar, soubera Nietzsche sintetizar o que agora haveremos de explorar com maior vagar. Em primeiro lugar, a afirmação de similitude entre aquele mundo social presente nos Evangelhos, e o subsolo da narrativa russa (a dostoievskiana, especificamente); em segundo lugar, a capacidade dostoievskiana de apreensão do múltiplo, apreensão expressa pela intuição de uma atmosfera em que não deixa o supino de estar mesclado ao maligno, em que elevação e decadência reúnem-se, fornecendo forma e matéria a uma mesma (id)entidade. Capacidade que Nietzsche designaria por senso de “psicologia”: isto é, uma extraordinária percepção do obscuro e do complexo, do oculto sob camadas espessas e sobrepostas, do não-dito, o escondido nas entrelinhas...[6]
A partir daqui desejamos pôr em relevo sobretudo a propriedade dostoievskiana de trazer à luz a intimidade da natureza de suas personagens, numa maiêutica sui generis. Algo que sintetizaremos grosso modo mediante a abordagem do duplo e, num sentido bem mais amplo, do múltiplo em Dostoiévski.
O Duplo é propriamente a denominação da segunda publicação do então jovem romancista, obra tão desconsiderada quando de sua divulgação (1846). Atualmente, porém, tem a crítica reconsiderado sua avaliação, enxergando nesta segunda novela (Pobre gente fora a primeira) o germe de toda a autêntica produção posterior, sobretudo no que concerne ao problema do — desdobramento das personagens. Trata-se justamente disto, em O Duplo: Goliádkin, funcionário público, é um humilhado e ofendido; com mania de perseguição e elevado complexo de inferioridade, acaba por imaginar um ente fisicamente igual a si, mas dotado com todas as disposições às quais não se concebe, ele mesmo, afeito. O funcionário projeta no tempo e no espaço uma sua personificação, uma sua cópia idêntica, apenas mais capaz e socialmente mais aceita, um alter ego que em todas as situações o ultrapassa. Desesperado ao ser vencido por esse outro que sempre o supera, Goliádkin finda por enlouquecer, chegando ao final da história a caminho do manicômio. Assim, em O Duplo, o desdobramento do protagonista dá-se numa concretização do mesmo em um sósia idealizado; consequentemente, dois seres isolados que lutam em igual plano físico. O passo decisivo de Dostoiévski foi, em textos posteriores, inverter a proposição: ao contrário de desdobrar um ente em dois, absorver vários entes no interior de um só (como no caso de Viersílov, pai do Adolescente) — o que de qualquer maneira eleva a novela juvenil à condição de gênese da polifonia dostoievskiana.[7]
Segundo o crítico russo Mikhail Bakhtin, a polifonia é um dos principais elementos distinguidores da produção de Dostoiévski, frente a outros diversos romancistas. Opostamente ao romance tradicional, em que um mundo unitário, monológico e homofônico é apresentado, seguindo a narrativa um fim predestinado pela onipotência do autor, encontraríamos na escrita polifônica a presença da pluralidade e dialogicidade, em que ganham relevo as idiossincrasias de cada personagem, a despeito do posicionamento de seu criador.[8] No caso de Os Demônios bem podemos apontar a polifonia como realmente definidora de todo a tessitura do romance, múltiplo por excelência.
Mas uma tal consideração vem na verdade a constituir um problema: como conciliarmos a polifonia dostoievskiana defendida por Bakhtin e a finalidade de nosso estudo? Se, conforme postulamos, uma intenção primordial do romance a que nos atemos é a de enaltecer o vínculo necessário entre ação moral e escolha religiosa, até que ponto não seria tal intenção a real condutora da ação e mentalidade das personagens? Até que ponto a interferência do autor incide sobre a construção narrativa e, por conseguinte, vem a romper a própria estrutura polifônica do escrito?
— Não fosse exatamente a complexidade típica da personalidade dostoievskiana e Os Demônios seria um fracasso enquanto romance: mais lucraria o escritor elaborando livros de feitio pregatório, qual o último Leon Tolstoi.[9] Mas há em Os Demônios uma pluralidade quamanha de personalidades e acontecimentos, uma tamanha quantidade de situações e reflexões, que o múltiplo e o dialético se contrapõem ao unívoco e monológico, daí decorrendo uma gama inúmera de quadros e figuras imensamente diversificados entre si. Realmente a diversidade convive num plano nivelado, sem que a escolha do autor chegue a indicar qualquer relevo ou preferência significativa de contorno a este ou aquele herói: as teses e antíteses são apresentadas com uma tonalidade similar, alcançando as oposições uma expressividade em tudo equivalente. Sim, diríamos que em Dostoiévski a expressão narrativa é tal que muito natural é nos perdermos numa suspensão insatisfatória e chegarmos ao final do livro com a pergunta nos lábios: afinal, que posicionamento tomarmos diante de — ? O que, de certo modo, eleva o texto da condição de simples panfleto, propaganda ideológica, à condição de literatura, boa literatura, literatura ímpar. O que também nos conduz à conclusão de que, a despeito do autor mesmo e da intenção que para si programara no concernente à finalidade do escrito, este acaba por ultrapassar programas preestabelecidos, ganhando corpo e espírito próprios, rompendo os limites de uma ideologia previamente tracejada. Não procuraremos, portanto, conciliar a perspectiva polifônica e a finalidade de nosso estudo, porque não há dissociação entre uma e outra: na verdade, nada há a ser conciliado. Certamente o universo no qual se movem Raskólhnikovs e Alióchas é um universo que primariamente diz respeito aos anseios e projetos de um Dostoiévski singular. Mas uma vez posto o problema, o tratamento oferecido é plural. E o que a princípio poderia parecer unívoco, estende-se e expande-se a ponto de alcançar o multívoco e o polifórmico. Enfim, se uma visão geral do romance vem a confirmar que podemos estabelecer a relação ético-metafísica como questão, entretanto a partir do mesmo romance chegamos à conclusão de que tal relação apresenta-se sob os mais variados matizes, conforme sejam abordados estes ou aqueles heróis e anti-heróis. Seguiremos com uma pequena explanação acerca das razões motivadores de — Os Demônios...

3. Niilismo Russo: Os Demônios, de Dostoiévski

“Dostoiévski começou a escrever Os Demônios, no outono de 1870 para a revista de Katkov, Ruskii Vestnik (O Mensageiro da Rússia), onde foi aparecendo parceladamente até 1872. O romance, pelo seu tom combativo e pela sua crítica violenta e feroz, provocou as maiores reações, tanto a favor como contra. É que Dostoiévski, dominado por um nacionalismo de fundo messiânico e profético, punha-se ao lado da ordem vigente e da monarquia, investia contra o liberalismo, o cientificismo, o europeísmo, o socialismo e o niilismo, num tom bíblico e condenatório.”[10]

Sergei Netchaev passou à posteridade a reputação de um caráter no mínimo, maquiavélico: seus impulsos exacerbadamente niilistas bem condiziam com as proclamações que redigia e as ações que empregava. Jovem revolucionário de um ímpeto astuto e perigoso, não se importava com a utilização de quaisquer meios, desde que visando a um fim determinado: a Revolução. Importante para Netchaev foi a ligação que veio a estabelecer em 1869 com o mais renomado ativista russo do período: Mikhail Alexandrovitch Bakunin. Valendo-se justamente da notoriedade do célebre anarquista (de quem tomou emprestada a assinatura),[11] Netchaev publicara na ocasião opúsculos quais o Catecismo Revolucionário e Princípios da Revolução, em que apareciam defendidas suas práticas duvidosas, seus arroubos destrutivos.
E essas práticas, e esses arroubos haveriam de culminar a 21 de novembro daquele ano quando Netchaev, já desligado de Bakunin, lidera o assassínio do estudante Ivanov em nome da organização Vingança Popular: por querer desligar-se do grupo (ao qual também pertencia), foi Ivanov executado. Descoberto o crime, evade-se o mentor rapidamente, deixando à polícia o trabalho de julgar os quatro demais cúmplices.
Como vemos, Netchaev representa uma certa parcela de ativistas que, sob a égide da transformação fulgurante, disseminavam pela Rússia do século XIX anseios de destruição, aniquilamento, privilegiando os aspectos demolidores do pensamento socialista. Lutavam, não somente contra o czarismo, mas contra a existência de qualquer “antiga” ordem... E no entanto, a despeito do interesse que por si só Netchaev pudesse vir a despertar para um estudo maior, as considerações agora apresentadas têm como fundamento uma outra motivação mais específica: o fato de haver sido o caso Netchaev o responsável exatamente, pela configuração de uma das mais tensas/intensas obras dostoievskianas.
Percebendo a oportunidade e a urgência de ceifar com um só golpe (um só romance) todo o ideário que lhe repugnava, Dostoiévski tencionara a redação de uma obra que denunciasse e combatesse os exageros de um tempo cada vez mais afeito à cientificidade sistematizada, ao amoralismo e à ocidentalização, acabando por oferecer ao mundo (o ocidental, inclusive) uma tragédia de proporções escabrosas.[12]
Os Demônios é, consequentemente, um romance engajado, um romance “de tese”, ainda que extrapolando (como o salientamos anteriormente) essas considerações primeiras. O episódio da morte do estudante Ivanov (no romance, Chátov) abre perspectivas para que as elucubrações do autor atinjam um cume de morbidez superior ao encontrado em Crime e castigo ou em O Idiota. Toda a angústia metafísica, todo o desespero recôndito, toda a ira, todas as trevas, todo o inferno agonizante de uma alma — estão presentes em Os Demônios. O escritor moldara ali a visão de um apocalipse sem redenção, sem vitória e eleição dos justos, sem elevação do Bem, e tendo como pano de fundo um acontecimento político! Também não é de se estranhar que um fato político, aparentemente de tão pouca monta, possa vir a servir como tema ao autor: com sua aguda visão, enxerga Dostoiévski a possibilidade única de instaurar ali um combate a vários elementos então vistos como grandes males — a crescente onda socialista entre os estudantes e intelectuais do período (e com o socialismo, o niilismo); a disseminação do cientificismo e do liberalismo; o crescimento, enfim, da ideia de ocidentalização: isto é, a integração gradual da Rússia no modelo e mundo (e mercado) europeus.
— Dostoiévski quis expurgar todos os endemoninhados que impediam a velha Rússia de realizar sua devida condição de Terra Prometida, Terra abençoada, única ainda não absolutamente contaminada pelas promessas do desenvolvimento social, científico, tecnológico (neste sentido o conto Sonho de um homem ridículo, presente no Diário de um escritor, pode ser visto como perfeita metáfora de um povo puro — o russo — que se perverte pela implantação de valores estranhos à população inocente). Dostoiévski é conservador porque vê na conservação das origens russas uma missão imbuída de caráter universal: a de oposição à crescente desumanização e objetificação deflagradas, seja por um capitalismo que se fazia cada vez mais avassalador, seja por um socialismo que instaurava no materialismo (dialético ou histórico) seu ponto de partida.
Tamanho enfrentamento resume-se, conflui para o combate a um Mal único — o Ateísmo — assumidor de diversas faces: o Ateísmo dentro e fora de Dostoiévski.[13] Sim, Os Demônios reflete a tragédia vivenciada pelo autor: uma tragédia particularíssima, a tragédia da existência de Deus. “(...) Não sei como é com os outros e sinto que não posso fazer como toda a gente. Cada qual pensa, depois, imediatamente, pensa em outra coisa. Eu não posso pensar em nenhuma outra. Penso a vida inteira na mesma coisa. Deus me tem atormentado a vida inteira.” [14]
 Combater o ceticismo crescente de seu século era para ele uma necessidade, como era uma necessidade enfrentar e derrotar seus duplos diabólicos. O questionar-se acerca de Deus é o questionar-se acerca de si, do homem. Negar Deus é negar a humanidade no homem, contemplar o Nada! ... Um Nada compreendido como anulação, nulificação do ser — tornado, ele mesmo, nada...
...O mais terrível dentre os escritos de Dostoiévski é nada menos que um abismo, um precipício, um despenhadeiro iniludível!...
Os Demônios é, em verdade, um desfile interminável de maus espíritos uma vez infiltrados em corpo são (a Rússia), espíritos que necessitam ser agora exorcizados. A apreciação dessas entidades malignas interessa por implicar uma demarcação de “tipos ideais”, personificações que de certo modo demarcam, para além de uma simples individualidade, uma — idealidade: precisamente, são indivíduos-ideias em vertiginoso movimento...
        
4. Absurdo Experimental e Absurdo Racional

“— Tenho muitas vezes pensado no suicídio. Mas sempre me vinha uma nova ideia: se por exemplo se cometesse um crime e algo de condenável, isto é, de vergonhoso, uma vilania, mas perfeitamente covarde e... ridícula; alguma coisa de que a humanidade conservaria a lembrança durante séculos, de que falaria, e sobre a qual escarraria ainda dentro de mil anos. E de repente este pensamento: uma bala na cabeça e nada mais restará. Que importa o mundo então? Que importa que ele conspurque o ato infame durante séculos, não é?” [15]

Da extensa galeria de maníacos, apresentaremos duas figuras primeiramente: Nikolai Vsiévolodovitch Stavróguin, e o engenheiro Kirílov. O primeiro é controvertido, sensualista, desde o início do enredo realizador das ações mais estranhas e gratuitas; o segundo, um idealista peculiar, acuado e amuado, nietzschiano por excelência. Ambos negadores de Deus, embora cada qual com suas justificativas particulares.
Assim Stavróguin, ousando rebelar-se contra o Criador, desce um a um os degraus da — degradação. A todo instante busca redimir-se, intercalando contudo entre tais tentativas, uma nova infâmia, uma nova vilania. Busca a correção, porém não encontra razões pelas quais deva ser bom. Então torna a agir malignamente: puxa a um velho senhor pelo nariz diante da sociedade, humilhando-o sem outro motivo aparente senão o prazer de o fazer; morde simplesmente a orelha do governador da província; bate-se em duelo tão tranquilamente, qual se não fosse sua existência posta em risco; mas ao mesmo tempo leva uma bofetada e não a retribui; casa-se com uma infeliz mulher coxa e louca (qual a mãe de Smierdiákov, dos Karamázovi); intenta tornar públicas todas as suas atrocidades como forma de expiação de culpa. — Stavróguin é morno: conforme o definiu o próprio Kirílov, quando crê, não crê que crê; e quando não crê, não crê que não crê.[16] Exerce porém estranha influência sobre todos os que o cercam: o estudante Chátov o admira como a um benfeitor; também Kirílov muito o respeita; Piotr Stiepânovitch dele espera algo de grandioso; Liebdiákin, o bêbedo, o teme; Lisa e Dacha o amam; inúmeros o detestam, mas indiferentes não podem nunca ser considerados. — Desmedida atração, que outra denominação poderia receber senão, demoníaca? Stavróguin, afinal (bem como seu sucessor Ivan Karamázov), não chega mesmo a instantes de alucinação em que diz dialogar com o próprio Diabo?
Em Stavróguin portanto a antiga e sempiterna luta do Bem e do Mal é travada: não como o conflito maniqueísta de duas entidades personificadas num mundo supra-sensível; e isto é o mais horrendo: o Bem e o Mal lutam no interior do indivíduo (no interior de Stavróguin e Dostoiévski), de tal maneira confundidos, de tal maneira entrelaçados, que há o perigo iminente de não se poder resistir ao embate, há o perigo da derrota fulgurante e definitiva, nada, nada assegurando a vitória do... Bem.
Ao contrário de Stavróguin, Kirílov não se manifesta através de atos caóticos ou desesperados: caótico e desesperado é, sim, seu raciocínio. “(...) A vida é um sofrimento, a vida é um terror e o homem é infeliz. Hoje tudo é sofrimento e terror. Hoje o homem ama a vida, porque ama o sofrimento e o terror. E assim age”.[17]
Mas Kirílov só agirá, propriamente, uma vez, e agirá definitivamente. — O engenheiro é a mais nova encarnação do homem do subterrâneo, adoentado, sorumbático, possuidor de clarividente consciência, sempre metido consigo mesmo. Stavróguin é a personificação da liberdade absurda, o homem com todas as suas possibilidades e escolhas à frente; realiza-se quando age — quando experimenta. Kirílov é igualmente absurdo e livre, mas de uma liberdade que se comprova através de uma bizarra lógica dedutiva, uma idealidade incréu. Seu próprio pensamento condu-lo ao aniquilamento, ao suicídio: Deus não existe, a não ser sob a forma de temor no homem. Logo, se o homem extermina tamanha temerosidade, transforma-se prontamente em Deus. “Haverá liberdade completa quando for totalmente indiferente viver ou não viver. Tal é o fim universal”.[18]
E Kirílov pretende dar o exemplo, tornar-se o homem-Deus, liquidando-se. Desvelando-se aos poucos através das mais escabrosas atitudes Stavróguin não racionaliza qual Kirílov, sua condição. Apenas a evidencia alucinadamente, tresloucadamente, através deste ou daquele inconcebível desvario.
A liberdade absurda do homem sem Deus configura-se, em Stavróguin, enquanto ausência de qualquer referencial pelo qual pautar a ação: liberdade torna-se libertinismo; e este, o absurdo experimental, culmina com uma corda no pescoço. Embora o fim de Kirílov não se mostre muito diverso (seu absurdo racional termina com um tiro nos miolos), contudo, deve ser contraposta sua morte àquela de Stavróguin: de acordo com sua personalíssima teoria, o suicídio (suprema negação de si) coincidiria no tempo com a suprema afirmação de si; para o engenheiro penseroso, negação e afirmação aliam-se temporalmente num gesto único, irrevogável.  

5. A Conspiração

“— Depois de ter-me consagrado inteiramente ao estudo da organização social que deve subsistir no futuro ao estado de coisas atual, cheguei à convicção de que todos os inventores de sistemas sociais, desde os tempos mais remotos até este ano de 187..., foram sonhadores, contadores de estórias de fadas, simplórios que se contradiziam a si mesmos e nada entendiam da ciência natural e desse estranho animal que se chama homem. Platão, Rousseau, Fourier são colunas de alumínio, boas quando muito para os pardais e não para a sociedade humana. Ora, como uma nova forma de organização social tornou-se necessária e já que estamos afinal decididos a passar à ação, para evitar mais longa hesitação diante do sistema a escolher, proponho o meu. Ei-lo (e [Chigáliev] bateu no próprio caderno)”. [19]

Piotr Stiepânovitch Vierkhoviénski, filho de Stiepan Trofímovitch (pseudoliterato fracassado), é o terceiro demônio digno de nota. Realmente é Stiepânovitch a personagem responsável pelo desenrolar do enredo central do romance, é ele o organizador da conspiração subversiva que planeja a total transformação da Rússia. É ele quem cumpre, na história, o papel de Netchaev.
Ora irônico, ora cruel, ora sarcástico, ora espirituoso, Vierkhoviénski desconhece qualquer indício do que seja moralidade, ignora o mínimo possível de honestidade. De modo oposto a Stavróguin e Kirílov, não é sincero em suas afirmações, não saltaria jamais rumo ao abismo (antes, empurraria um outro em seu lugar). Afirma empreender uma organização internacional do socialismo, liderando células espalhadas pelas mais diversas localidades, e entretanto de nosso real conhecimento, uma apenas há; mantém um constante clima de desconfiança e intranquilidade entre os companheiros de conventículo, vendo nisto algo de bastante positivo; conduz-se displicentemente nas reuniões do grupo como se nada tivesse com aquilo, assumindo um insuportável ar de superioridade; estimula o suicídio de Kirílov e participa, enfim, do assassinato de Chátov, membro já desligado do bando.
E o bando de Vierkhoviénski é composto em sua maioria por indivíduos grosseiros, sem qualquer maior formação política, a não ser suas particularíssimas opiniões tantas vezes discordantes. Dostoiévski chegou, por duas vezes, a participar pessoalmente dessa espécie de reuniões: a primeira vez foi a que motivou sua prisão quando da perseguição ao grupo de Pietrachévski (e a que aludimos, no princípio de nosso texto); a segunda quando do Primeiro Congresso da Liga da Paz e da Liberdade, na Genebra de 1867, ocasião em que teve a oportunidade de ouvir discursos pronunciados pelo próprio Bakunin. Seja como for, é cruel a pintura do conciliábulo bosquejada pelo escritor, às vezes incorrendo no aspecto caricatural e grotesco. Liámchim, Lipútin, os Virguinskis, o jovem seminarista e os demais participantes do conluio nada fazem senão discordar uns dos outros, numa patetice burlesca, da qual sequer Piotr Stiepânovitch escapa (e não deseja escapar). — Somente em Chigáliev parece haver um pouco mais de compostura.
Chigáliev é, afinal, o teórico do grupo, aquele que se preocupa fundamentalmente com a instauração e manutenção da nova sociedade, a ser inaugurada logo após a completa destruição dos antigos alicerces.
Muito embora Chigáliev não desperte a consideração dos comparsas (que até gargalham enquanto o estudioso fala), é ele o responsável pela exposição de uma ideia que mais tarde seria melhor desenvolvida em Os Irmãos Karamázovi — a ideia do necessário esquecimento (sufocamento) da liberdade em nome da igualdade. “Partindo da liberdade ilimitada, cheguei ao despotismo sem limites. Acrescento, portanto, que não poderia haver solução do problema social diferente da minha”.[20]
E a solução de Chigáliev consiste em: divisão da humanidade em duas partes desiguais, estando um décimo da sociedade destinado ao exercício da autoridade suprema sobre a outra parte, condenada esta, à sôfrega submissão, ao estado de — rebanho. Somente o estreito controle social impediria o aparecimento de qualquer individualidade capaz de se sobressair aos demais (fora Cíceros e Shakespeares!); somente o sistema de Chigáliev possibilitaria o nivelamento completo, absoluto (apenas seria um nivelamento por/para baixo!).
Em O Grande Inquisidor (na Segunda Parte d’Os Irmãos Karamázovi, Capítulo V), Ivan discute com Aliócha a mesmíssima questão, porém sob um prisma diferente. Imaginemos, conforme o poema de Ivan, que Jesus tenha voltado à Terra como prometido nas Escrituras; imaginemos que isto se haja passado na Idade Média... Como se daria a súbita recepção? O poema assim o conta: — encarcerados, teriam Jesus e sua Obra/seu Verbo sido novamente desacreditados, pois no falar do Grande Inquisidor, à população já não interessa a Palavra da liberdade oferecida pelo Filho do Homem. Ao contrário: a liberdade e a escolha (o reino dos céus) angustiam e desgostam, ao passo que o pão do mundo, este, contenta a humanidade. Diz o Inquisidor a Jesus:

“Mas, Tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que era ela incompatível com a obediência comprada por meio de pães. Replicaste que o homem não vive somente de pão; mas sabes que, em nome desse pão terrestre, o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá, que todos o seguirão, gritando: ‘Quem é semelhante a esse animal? Ele nos deu o fogo do céu!’ Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado; só há famintos. ‘Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!’ Eis o que se inscreverá sobre o estandarte da revolta que abaterá o teu Templo”.[21]

Indubitavelmente o Inquisidor é representação do materialismo incipiente, alvo da crítica dostoievskiana: recordemos, entretanto, que tal crítica faz-se bidimensionada — defrontando-se tanto com o materialismo liberal, quanto com aquele de cunho socialista.[22]

6. Os Imolados de Deus

“Nenhum povo — começou ele [Chátov], fixando em Stavróguin um olhar severo e parecendo ler a palavra em um livro — pôde edificar-se e organizar-se sobre os únicos princípios da ciência e da razão. Este exemplo não foi dado por nenhum povo, salvo talvez pela duração de um instante e somente por estupidez. (...) O fim de todo movimento popular, em cada povo em particular, em cada período de sua história, é unicamente a procura de seu Deus, de seu Deus próprio, de seu Deus dele; e a fé nesse Deus, como no único e o único verdadeiro”.[23]

Finalmente, citaremos um disforme grupo composto por aqueles que de certa maneira acabam por apresentar um contraponto à dissolução desenfreada dos possessos; referimo-nos a outros “pobres diabos” [24] que, mesmo parcialmente, oferecem ainda indícios de crença na autenticidade do povo sofrido (ou seja, na autenticidade de uma oposição à ocidentalização); temos Chátov, o estudante assassinado; a louca Maria Timofiéievna; e até o liberal arruinado Stiepan Trofímovitch.
Chátov é o jovem contido, resguardado, vítima fatal da demência dos possuídos. Consegue, a despeito dele próprio não conseguir acreditar em Deus (mas insistir por querer acreditar), manter a pureza e cordialidade daquele que sabe perdoar seu semelhante. É o cordeiro imolado, é o simples de coração, sacrificado pela inépcia dos perdidos.
Maria Timofiéievna, alucinada e vidente, também sacrificada no romance, vislumbra sempre através da insanidade a realidade encoberta — seja esta o interior do “príncipe encantado” Stavróguin, seja o futuro promissor de sua gente. Maria é uma esquisita pitonisa, massacrada cotidianamente pelo irmão Lebdiákin, mas destemida, mantenedora de extraordinária lucidez, apesar da infeliz loucura. É a face mais obscura da plebe russa.
E enfim, Stiepan Trofímovitch: que enclausurado em casa de sua protetora Varvara Pietrovna, já tão avançado em idade e distante da gente humilde (embora sempre com uma postura liberal), decide finalmente abandonar a existência fácil de consumado parasita — e procurar o seio do povo. Uma vez mais, desditoso final: repentinamente diante da revelação, Stiepan desvenda pouco antes de perecer, finalmente para si — e para os leitores — o enigma simbólico do enredo. Pede ele a uma enfermeira que lhe leia uma passagem do Evangelho de São Lucas (Cap. VIII, 32 e seguintes), e murmura:

“(...) Ocorrem-me agora muitas ideias. Veja, é justamente como a nossa Rússia. Esses demônios saindo dum doente e entrando em porcos, são todas as chagas, miasmas, impurezas, os grandes e pequenos demônios que, durante séculos e séculos, acumularam-se na nossa querida Rússia. Oui, cette Russie que j’amais toujours. Mas uma grande ideia e uma vontade poderosa velam por ela do alto como sobre aquele desgraçado demoníaco; por isso serão expulsos dela todos esses demônios, toda essa impureza, toda essa torpeza que supura à superfície... eles mesmos pediram para entrar nos porcos. Talvez mesmo já tenham neles entrado. Somos nós e eles e Pietruchka [Piotr Stiepânovitch]... et les autres avec lui, e eu talvez por primeiro. Enfurecidos e furiosos, precipitar-nos-emos do alto do rochedo no mar e nos afogaremos todos, e será bem feito porque não merecemos senão isso. Mas o doente curar-se-á e sentar-se-á aos pés e nós o contemplaremos com espanto. Querida, vous comprendez aprés, agora isto me agita demais. Vous comprendez aprés... compreenderemos juntos.”[25]

7. O Fogo Bento. Conclusão

“Na antiga Rússia, os mujiques costumavam, na noite de Páscoa, levar das igrejas uma chama do fogo bento e acender uma lâmpada em cada cabana. E na escuridão da noite que os cercava, esse lume sagrado parecia pontear de estrelas o negrume dos descampados e das encostas. Parece que isso se faz hoje com a luz e o fogo que emanam da obra de Dostoiévski. E talvez as lâmpadas que acendemos agora ajudem a afastar um pouco da treva que dizem estar caindo sobre a terra, e permitam aguardar a chegada de novos dias de sol e claridade”. [26]

Não fosse o angustiado clima que perpassa toda a história da peça, poderia o final sangrento de Hamlet ceder lugar à comicidade: é quase demasiada a carnificina e mortandade que desfecham o último ato. Mas ora, nisto certamente é que se encontra a tragicidade peculiar ao drama: o elevado número de vítimas (de Ofélia ao jovem príncipe filósofo) somente vem confirmar a fatalidade abatida sobre as personagens. Também em Os Demônios a Morte abre suas asas em forma de leque... Vemos Liebdiákin e a irmã assassinados por Fiédka, o prisioneiro foragido, mais tarde encontrado de uma mesma maneira, morto. Lisa (desafortunada amante de Stavróguin), Chátov, Stiepan Trofímovitch, Kirílov, o próprio Nikolai Vsiévolodovitch, todos, todos dramaticamente ceifados por uma possessão demoníaca geral.
Dostoiévski premeditara um final tamanhamente aterrador. Desejava desenvolver uma crítica tão ferrenha que nenhuma ambiguidade doravante pudesse persistir quanto aos malefícios do processo de inumanidade então apenas em princípio. Desejava convencer a Rússia inteira, desejava convencer o mundo, desejava convencer, sobretudo, a si mesmo... E, no entanto, não obstante sua intenção tão estreitamente definida, delimitada, o conjunto da desventurosa aventura finda por explicitar a multiplicidade de perspectivas diante da questão: se Stavróguin e Kirílov abraçam fatidicamente o suicídio (e por razões diversas), a mesma descrença leva Chátov à insistência em crer (ainda que, pateticamente, não o consiga) e Vierkhoviénski a traçar seus planos mórbidos de arrasadora destruição. Todas estas posturas equiparam-se no interior da narrativa, totalizando um grande painel em que as ações e exposições do pensamento-sentimento de cada personagem acabe por criar um discurso múltiplo, apesar de seu ponto de partida único, a saber: o que viemos tentando delinear, a inter-relação entre ação e ideiaação moral e opção “metafísica”.
Certamente a visão social de Dostoiévski incorria em exageros que inclusive chegavam a aproximá-lo do poder conservador russo, o que não deixaremos de assinalar. Entretanto, é esse expor-se de maneira vária, sem que venha a ser traída a sua própria criação literária, o que precisamente o torna um artista exímio; o que o engrandece e eterniza é que seu discurso sobrepassa todos os particularismos, elevando-se à esfera de — Verbo: Palavra universal da condição humana.
Enquanto discurso universal, fica-nos a certeza de que, ideários à parte, um romance como Os Demônios torna-se bendita, abençoada obra do século XIX, e de todos os séculos e séculos.




ALVES DE AQUINO é professor de Filosofia da Universidade do Vale do Acaraú – UVA e poeta (tem por pseudônimo “O Poeta de Meia-Tigela”). Participou em 2007 da Antologia Massanova. Publicou Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas (2008 – 1ª edição; 2011 – 2ª edição) e Concerto nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema – 1º movimento (2010).

Nota do autor — O presente ensaio é uma reelaboração do Capítulo III da Monografia de Graduação em Filosofia, apresentada na Universidade Estadual do Ceará, em 1997.
___________________________________

BIBLIOGRAFIA CITADA

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski; trad. Paulo Bezerra. — Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo; trad. e apresentação de Mauro Gama. — Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
—————— . Os Possessos; trad. Armando Ferreira. — Lisboa: Edição “Livros do Brasil”.
DOSTOIÉVSKI, Fédor M. Diário de um escritor; trad. E. Jacy Monteiro. — São Paulo: Edimax.
—————— . Obra Completa em quatro volumes; trad. Natália Nunes e Oscar Mendes. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.
EHRARD, Marcelle. Literatura russa. — São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1956. (Coleção Saber Atual)
FRANK, Joseph. Dostoiévski: as sementes da revolta, 1821-1849; trad. Vera Pereira. — São Paulo: Edusp, 1999. 
FREUD, Sigmund. “Dostoiévski e o parricídio”. In: Edição Standart das Obras Completas de Freud (vol. XXI); trad. José Octávio de Aguiar Abreu. — Rio de Janeiro: Imago.
NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo; trad. Artur Morão. — Lisboa: Edições 70, 1997. (Coleção Textos Filosóficos)
Norte, Sérgio Augusto Queiroz. Bakunin: sangue, suor e barricadas. — Campinas, SP: Papirus Editora, 1988.
PESSANHA, Rodolfo Gomes. Dostoiévski: ambigüidade e ficção. — Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
ROSA, Virgínio Santa. Dostoiévski: um cristão torturado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/INL, 1982.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. — São Paulo: Nova Cultural, 1982. (Coleção Os Pensadores)
WEBER, Max. O político e o cientista; trad. Carlos Grifo. — Lisboa: Editorial Presença, 1973.
WILSON, Edmund. Rumo à estação Finlândia. — São Paulo: Companhia das Letras, 1987.



[1] Dostoiévski, F. Obra completa (vol. III), pp.182-183.
[2] Freud, S. “Dostoiévski e o Parricídio”, p.205. A propósito, o biógrafo Joseph Frank apresenta-nos uma satisfatória apreciação do artigo de Freud, em apêndice ao seu Dostoiévski: as sementes da revolta (pp. 469-484).
[3] A respeito da associação entre os problemas moral e religioso, Sartre pontuaria em O Existencialismo é um Humanismo (p. 9): “Dostoiévski escreveu: ‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido.’ Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar”.
[4] Apesar de Os Demônios ser o centro deste empreendimento, a intenção verdadeira é a de chegarmos à última página com uma impressão geral da relação referida (ética/metafísica), em Dostoiévski: daí intitularmos o presente artigo enquanto Os Demônios de Dostoiévski, e não apenas — Os Demônios, de Dostoiévski.
[5] Nietzsche, F. O Anticristo, p. 49.
[6] Neste sentido, é comum o emprego do termo “psicologia” em Nietzsche e Dostoiévski: não se trata aqui de uma disciplina ou ciência constituída, dotada de princípios e fundamentos estabelecidos, mas de uma apreensão intuitiva e imediata da natureza íntima do ser com o qual se entra em contato. Não sem razão Nietzsche declararia em carta a Peter Gast (13/02/1887): “Você conhece Dostoiévski? Com exceção de Stendhal, não conheço ninguém que me tenha produzido tal prazer e surpresa: um psicólogo com o qual me entendo”.
[7] É claro que a duplicidade continuaria a exercer sua marca: em Os Irmãos Karamázovi, Ivan desdobra-se no próprio diabo, seu duplo bizarro. Contudo, também os quatro irmãos ultrapassam toda duplicidade, instaurando a multiplicidade não apenas conjuntamente, enquanto individualidades sobrepostas, mas sobretudo enquanto portadores do múltiplo em si mesmos.
[8] Conforme postulado por Mikhail Bakhtin, logo no início de seus Problemas da poética de Dostoiévski (p. 4): “A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência una do autor, se desenvolve em seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade. Dentro do plano artístico de Dostoiévski, suas personagens principais são, em realidade, não apenas objetos do discurso do autor mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente significante” (itálicos do autor).
[9] Ehrhard, M. Literatura Russa, p. 85: “Dostoiévski e Tolstói, ambos profundamente russos, tiveram em comum a ardente necessidade de encontrar a verdade redentora e anunciá-la ao mundo, mas seria difícil achar temperamentos e talentos mais opostos. A vida de Dostoiévski foi marcada por terríveis provações, a de Tolstói decorreu em aparente calma; Dostoiévski trabalhava com febre, Tolstói sem pressa; Dostoiévski transborda de vigor; num as revessas agitadas, os impulsos irracionais, noutro a lógica e a tenacidade; Dostoiévski era um místico apesar de suas dúvidas; Tolstói um racionalista apesar de suas crises religiosas; Dostoiévski desejava ser conservador, Tolstói destruidor. Ambos encheram seus romances de ideias, mas a filosofia de Dostoiévski procura-se a si própria em profundidade, hesita, discute; Tolstói apega-se a algumas idéias muito simples, que variam no curso de sua vida e que ele reafirma sempre com convicção total”.
[10] Dostoiévski, F., op. cit. p.795 (Nota preliminar de Oscar Mendes).
[11] Os textos eram da integral autoria de Netchaev; assinavam-se, no entanto, como fossem fruto de uma sua parceria com Bakunin. Para maior esclarecimento da relação Bakunin-Netchaev, Bakunin: sangue, suor e barricadas, de Sérgio Augusto Queiroz Norte, ou ainda Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson (cap. Personagens Históricos: Bakunin, p. 249).
[12] Não sem razão Camus levara à cena em 1959, Os Possessos, adaptação teatral de Os Demônios em três atos.
[13] Justamente o escritor planejou ser O Ateísmo sua última obra: mais tarde denominada A Vida de um Grande Pecador, não pôde, contudo, ser concluída.
[14] Dostoiévski, F., op. cit. p. 890.
[15] Ibidem, p. 988.
[16] Ibidem, p. 663.
[17] Ibidem, p. 888-889.
[18] Ibidem, p. 889.
[19] Ibidem, p. 1.125.
[20] Ibidem, p. 1.125.
[21] Dostoiévski, F., Obra completa (vol. IV), p. 224.
[22] Não resta dúvida de que a gênese de O Grande Inquisidor se encontra na teoria social de Chigáliev. “(...) Quem age em conformidade com uma ética da convicção não suporta a irracionalidade ética do mundo. É um “racionalista” cósmico-ético. Aqueles de entre vocês que conhecem a obra de Dostoievski recordarão a este propósito a cena do Grande Inquisidor, onde este problema é apresentado em termos muito profundos”: Max Weber, O político e o cientista, p. 128.
[23] Dostoiévski, F., Obra completa (vol. III), p. 1000.
[24] Pessanha, Rodolfo G. Dostoiévski: ambiguidade e ficção, p. 105.
[25] Dostoiévski, F., op. cit., pp. 1329-1330.
[26] Santa Rosa, Virgínio. Dostoievski, um cristão torturado, p. 442.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

PORTAL 2001: FICÇÃO, SIM (CRÔNICA DE NILTO MACIEL)

Cena da primeira adaptação cinematográfica do romance Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley, realizada em 1910 por Thomas Edison.

“Segundo Arthur Clarke, ‘a única forma de descobrir os limites do possível é indo mais além deles, ao impossível.’ De fato, Einstein, que sempre se valeu da intuição – como visualizar-se montado em um raio de luz – antes de pôr os pés no espaço-tempo da sua Teoria, visitou, na imaginação, muitos universos impossíveis. Quanto à ficção científica, esta nos leva, por meio de imagens e licença poética, às fronteiras ‘imprecisas’ da ciência, desempenhando, assim, como toda grande arte realista, importante função cognitiva. Também nos mostra, às vezes, situações absurdas — ‘absurdo’ no sentido de ‘possível, mas que não deve ser’ (o ‘proibido’ como equivalente moral do ‘impossível’). O romance gótico Frankenstein, por exemplo, é uma especulação literária sobre quais limites impor ao manejo da técnica científica.” (M. Bulcão)





Portal 2001 é um livro de contos. Pode ser lido como uma antologia de narrativas curtas. Na capa, apenas o nome (título). A segunda folha traz uma apresentação (prefácio) por Nelson de Oliveira, que anuncia: “Este é o quinto de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit”. Logo, não se trata de livro. Em um texto de divulgação do empreendimento vem explicação: “Projeto Portal é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit”. Por isso, não há ficha catalográfica, indicação de editora, etc. Apenas os créditos: data (inverno 2010) e nomes dos responsáveis pela publicação, como o de Nelson: Coordenação editorial. Em outra comunicação há esta descrição sucinta: “São 31 narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, utopias e distopias, de 16 autores contemporâneos”. Ou seja, composições de ficção científica.

Mas o que é ficção científica? Para Wilson Martins, “A chamada ficção científica, que não é ficção nem científica, tampouco alcança os planos da literatura porque nela a função catalítica do estilo é, por definição, posta à margem como desprezível”. Pois Tibor Moricz (que não tem o prestígio do intelectual considerado por muitos como o último crítico brasileiro por excelência), em “Gênero X Mainstream”, faz a seguinte observação: “A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone”.

Essa mudança de status se dá ao longo do tempo. Assim como “A invenção de Morel” (Bioy Casares) “desceu um degrau”, Poe subiu. Edifício literário como o de Uilcon Pereira, por exemplo, alcançará algum dia o Cânone? Ou ficará no limbo: nem popular, nem canônico?

Os males ou os defeitos da ficção científica, o que a afasta do Cânone assim como do mainstream, sua pobreza (como um todo, ressalvadas as peças mais louvadas pela crítica), assim como (em menor grau) da literatura fantástica, sua penúria talvez esteja no distanciamento que o narrador guarda (nelas) de seus semelhantes, dando mais ênfase a objetos (máquinas, naves, etc.), ao espaço sideral e viagens pelo Cosmos, em detrimento dos problemas pessoais (humanos) dos personagens. O leitor se vê diante de seres sem estofo, ocos, quase máquinas, “sem alma”, sem sentimentos, inumanos. Em consequência, a trama foge dos seres e suas ações e sentimentos para se voltar para o espaço, as coisas (espaçonaves), medidas, velocidade, etc. A ação é desvinculada do humano, dos dramas psicológicos. Só mesmo escritores mais criativos conseguem fazer com que a “coisa” sobrenatural e o espaço de atuação do alienígena ou do ser irreal não substituam a pessoa, como na literatura fantástica (o Horla, de Maupassant) ou em José J. Veiga (a estranha máquina extraviada).

Porém, à medida que os cultores desse gênero se aproximam dos modelos da literatura canônica (Casares, Poe) – pela técnica e pelo tratamento literário dos temas, das tramas, etc., sua “ficção científica” se revela como ficção, como literatura e perde o rótulo renegado pelos acadêmicos e críticos.

Braulio Tavares, no conciso “A república do recurso infinito”, lembra Kafka ou o mundo ficcional de 1984 (Orwell) e alguns clássicos da ficção científica. Em “Universos tangenciais (improviso)”, lê-se um sonho dentro de outro, e este de outro. “Aquele de nós (improviso)” é uma maravilha. Veja-se o epílogo a um tempo metaficcional e filosófico: “Ele sabe que todos os seus semelhantes são ficções, e que ele próprio não passa de um Terminal através do qual se manifesta a Nossa existência.”

Brontops Baruq, com “Planetas invisíveis: Diana”, segue a mesma linha de Braulio. Algumas vírgulas de menos não o impedem de ser muito criativo, além de ferino crítico da sociedade moderna. “Rebobinados” é ótimo como FC: a humanidade é a mesma aqui e agora (presente), nos idos da Roma Antiga (passado) e nos tempos fora da Terra (futuro). Onde houver homem, haverá “humanidade”, isto é, ódios, amores, ciúmes, inveja, todos os chamados pecados. E assim Baruq se distancia do descritivismo científico.

De Claudio Parreira é o estranho “Além do espelho”. Trata da solidão, o que o humaniza e o torna próximo da grande literatura. O drama não se dá no interior de uma nave nem em outro planeta. Ocorre na Terra, na famosa Rua Augusta, São Paulo: “Estava na padaria havia pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber”. (...) “A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas”.

Na mesma pegada vem Daniel Fresnot. Em “Exit”, o clima é de tragédia no espaço, em competição pela chefia da nave. E ainda o problema da solidão: “Agora estamos os dois flutuando fora d nave e o problema é que não há mais ninguém lá dentro para nos abrir a porta!” (...) “portanto, vamos morrer de sede.” Em sentido amplo, “A vida sexual dos dinossauros” é uma aula. Já em “Convenção” talvez se possa vislumbrar o próprio fazer Ficção Científica. Ricardo Delfin, em “Destino”, começa assim: “Prefiro estar morto...”. Em “Futuro do pretérito”, chama logo a atenção do leitor: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. Em “Gazeta marciana”, o mundo de Marte se assemelha ao da Terra. O planeta vermelho num futuro (mas o que é futuro, presente, passado, tempo no espaço?) será como na Terra hoje. Outro Delfin (sinto falta de sobrenome), com “Sentinela”, mostra excelente composição na 1ª pessoa feminina, o que é raro. Basta ver que dos 16 contistas da publicação só há uma mulher: Maria Helena Bandeira, que, em “Neve e sanduíches”, lida com o fundamental humano, como na fala de Ingborg: “De que adianta continuar a viver se não temos lembrança de quem fomos?”. Outra constatação muito lida em FC: “Humanidade que há muito desapareceu, tragada pelo frio”. Outra peça muito estranha é “A gruta de Vênus”. “Eblon” é o paraíso. Em “Mãos de borracha” e “Quem sabe?” há diálogos e uma sentença paradigmática: “no mundo virtual de agora, ninguém tem controle sobre o que é real ou imaginário”. Colóquios também são bem utilizados por Marco Antônio de Araújo Bueno. Como em “Sem nome”, dividido em duas partes distintas: a primeira de conversações, a segunda uma narração ou um relato em primeira pessoa. “Arquivo truncado” vem na 1ª pessoa. Em “Seguimento dezenove” também há diálogos. Outro que se vale bem deles é Rodrigo Novaes de Almeida. Em “Contato Alpha 9” lê-se um delírio em frases curtas e diálogo direto. “Zaratustra” é curto e estranho, diferente dos demais da coleção.

Um dos epistílios da FC é a “brincadeira” (FC é, sobretudo, entretenimento) com o tempo. De Mayrant Gallo é “A paz forçada”: o drama se dá num futuro próximo e tem assim o início: “A nave surgiu no céu de um azul intenso” (...). Sid Castro, em “Prometeu acorrentado reboot”, se refere à nave Prometheus Vinctus, em travessia pelo hiperespaço. Vinha de um planeta solitário. Alusões a mitos gregos: Prometeu e Érebo. Belíssima alegoria. Luiz Bras, em “Primeiro de abril: Corpus Christi”, oferece como cenário uma cidade chamada Primeiro de Abril. O narrador brinca com personagens da ficção cinematográfica, como Capitão América, Capitão Gancho, Homem de Lata. Roberto de Sousa Causo, com “Arribação rubra”, nos leva ao planeta Reiboro e nos põe em contato com o humano professor Neftaim Zibeon.

Há muito de alegoria, principalmente na crítica aos humanos, na Ficção Científica, o que às vezes a afasta do puro entretenimento. Marcelo L. Bighetti, em “Novo início”, faz aparecer em cena um Adolfo Hitler imaginário a quem é apresentado “um pequeno e mirrado ser humanóide”. A seguir, relata-se uma viagem ao passado (em FC viagem é, quase sempre, na direção do futuro) e a chegada de colonizadores ao Brasil de 1500. Essa viagem ao futuro se vê em Rogers Silva. Lê-se em “Amor-perfeito”: “Quando o Apocalipse sobreveio” (...). Uma novidade (para mim) é o tratamento dado ao tema do homossexualismo: “não porque sou ingênuo ou exagerado, mas apenas porque te amo”, diz um personagem a outro (anjo Gabriel e Lúci). Além disso, Rogers utiliza uma das técnicas da nova (?) narração: um narrador cede a voz a outro, mudando o ponto de vista.

Um dos momentos áureos da coletânea está em Mustafa Ali Kanso, principalmente com “Herdeiro dos ventos”. O protagonista, que nasceu prematuramente, “em um caderno amarrotado começou a ensaiar seus primeiros contos envolvendo fantásticas máquinas voadoras e extraordinárias viagens para a lua” e “tinha o pérfido costume de ler”. Mais adiante, “como todo bom escritor, a despeito das evidências, desafiou o que era correto e continuou voando.” Até que decidiram “acorrentá-lo a uma bola de ferro.” É composição fantástica belíssima. Em “Uma carta para Guinevere” há algo de romantismo nos tempos das viagens cósmicas.

Para finalizar: Portal 2001 é bom entretenimento, sobretudo para o leitor de Ficção Científica, exibe “textos” muito próximos da literatura canônica e, portanto, é ficção.


Fortaleza, 21 de novembro de 2010.

Nilto Maciel

segunda-feira, 4 de julho de 2011

POESIA & GEOMETRIA, JOAQUIM CARDOZO (CRÔNICA DE ANA MIRANDA)




Espiral de Fibonacci
  

A poesia dos ritmos, a simetria dos signos, a semântica dos números, a matemática dos sons, a música das cores, a cromodinâmica das ideias, a lógica das metáforas.

        

       
         Muitas vezes ouvi alguém dizer de alguém: ele é frio e calculista. Frio e calculista sempre foram duas palavras afins, inseparáveis, como se ninguém pudesse ser frio sem ser calculista, e vice-versa; e fazem supor que você precise ter cabeça fria para calcular, ou seja: o sentimento atrapalharia os cálculos. Então imaginamos que a expressão de um calculista é fria, por associação. Existe um calculista notável na história do Brasil, que simboliza todos os calculistas; ele é o engenheiro Joaquim Cardozo, que calculou as colunas do Alvorada, as hastes magníficas da catedral de Brasília, o chapéu de freira da igrejinha de Fátima dos joelhos de minha infância, e tantas outras estruturas que parecem suspensas, ou querendo voar, ou pairando no ar.
E esse engenheiro calculista era poeta. Claro, como diz um amigo meu, a poesia é uma ciência tão exata como a geometria.  Da geometria à poesia, um átimo, e vice-versa. Quem imagina que a poesia de Joaquim é fria e calculista, surpreende-se com o lirismo contido nas estruturas e cálculos de palavras, com o sentimento que ele expressa, suas iluminações instantâneas a partir de uma chuva no telhado (simetrias perpendiculares?), suas madrugadas eternas (linhas infinitas?), seu coração encerrado em grades de pedra (linhas paralelas?), suas saudades das ilhas e o desejo de desvendar (calcular?) o segredo das águas, sob a capa vazia do tempo (o infinito negro?), o tempo que cristaliza em dimensão natural (espaço?).
Ele acreditava que a poesia não carrega sempre o verdadeiro estado interior do poeta, pois se exprime por convenções e símbolos (tracinhos e rodinhas) e associações e decalques (abstrações); que as palavras escritas são frias (calculistas?) e mortas (o zero?); acreditava que o ser humano possui um campo infinito e mais ou menos contínuo de poesia (geometria?), mas nem sempre consegue vencer a repugnância de revelá-la (calculá-la?); que a revelação da poesia é uma impureza (interrupção?), pois exprimir um sentimento tão indefinido (interseção?) é tarefa inatingível (estrutura?). No entanto venceu a repugnância e revelou sua expressão límpida (matemática pura?), quase seca (física?), íntima (topografia?) e encantadora (poesia).
Nos velhos anos de Brasília falavam dele com tanta admiração que eu também a sentia, e nem sabia que era poeta, achava só que era calculista, coisa inimaginável em minha mente antimatemática; e, portanto, ele era superior (ou interior?) à arte, a arte era o meu cotidiano, coisa tão natural... Homem cultíssimo e declamador, conversava ali com os arquitetos usando a simplicidade de um guarda-livros (seu pai era escriturador de livros mercantis). Joaquim era um dos ídolos da construção da cidade, bastava dizer o nome, o Lúcio, o Oscar, o Juscelino, o Luiz Humberto, o Athos, o Joaquim...
Hoje conheço mais de sua pessoa, li muitos de seus poemas, que compreendem a beleza das prostitutas, das pontes, das cidades, dos rios, e sabem a cor da tempestade. Sempre em busca da “forma formante e formada”. Hoje entendo. Seu poema de que mais gosto (por ser literário?) talvez seja o do furo que ele vê num livro, apenas um pontinho na capa, e, à medida que ele vai passando as páginas, o furo vai se abrindo e fazendo uma escultura vazia no interior do livro e depois vai voltando a ser apenas um ponto. Mas também gosto das que escreveu para Recife, para as mulheres que amou, para os relógios, para as paisagens erguidas no prisma azul, calculando os esquadros, parafusos, as curvas das marés...

ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.


sábado, 25 de junho de 2011

MAGIA, MISTICISMO E MATEMÁTICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)



La reproduction interdite, obra de René Magritte (1898-1967)


"O que o homem busca por meio da religião e da metafísica? — Encontrar a mais bela simetria de reflexão entre o Eu e o Isso e, assim, reencontrar-se no Mundo. No entanto, segundo Wittgenstein, a verdade mais importante não pode ser dita na linguagem da Lógica: esse “indizível”, que o filósofo identifica com o “místico”, apenas se mostra no mundo silencioso das imagens especulares." (M. Bulcão)



“Meu objetivo é simples, é o entendimento completo do universo: saber por que ele é como é e por que ele existe em absoluto.

Stephen Hawking


Tenho observado que as críticas ao misticismo dirigem-se, na maioria das vezes, à acepção que o senso comum confere a este termo. Nesse sentido, o místico é uma pessoa que acredita em “qualidades ocultas ou poderes para os quais não se pode oferecer uma explicação empírica ou racional”, isto é, que crê em explicações absurdas para os fenômenos.

Essa acepção do termo “misticismo” não é injustificada. Afinal, são as próprias pessoas para as quais as explicações absurdas exercem grande magnetismo que primeiro qualificam a si mesmas como místicas. Ora, o significado das palavras não é determinado apenas pelos etimologistas ou pela intenção de quem as elabora, mas também pela prática, pelo uso que se faz delas.

Essa subcategoria de misticismo, constituída de indivíduos cujas crenças têm por critério unicamente a fé, é a expressão cabal do Paradoxo de Tertuliano. Segundo este paradoxo, credo quia absurdum est; vale dizer, “acredito porque é absurdo”. Por quê? Entre outros motivos, porque algumas proposições absurdas têm o poder de encantar e, assim, de arrebatar algumas pessoas da sua rotina tediosa e desse mundo “desencantado” pelos limites que as leis da física e as regras da lógica impõem à sua existência.

Com exceção dos que amam a verdade (pois, quem ama sem hipocrisia, aceita as dores que o seu amor lhe inflige), as pessoas acreditam no que as faz sentirem-se bem, acreditam porque se sentem bem em acreditar. Cenestesia positiva ou bem-estar, eis o que elas mais esperam de suas crenças. Infelizmente, a verdade nem sempre nos faz sentirmos bem. Com frequência, a verdade dói, incomoda, é causa de desconforto e de sofrimento. Por isso que é comum o divórcio entre crença e evidência e, por conseguinte, o concubinato daquela com o absurdo. De resto, teorias absurdas apresentam um grande trunfo em relação às demais: a vantagem de que suas lacunas podem ser logo preenchidas por outras explicações igualmente absurdas.

Essas pessoas, “místicas” num certo sentido, também são do tipo que não consegue nunca superar o pensamento mágico da infância. Ora, nas crianças o pensamento ainda está preso às leis de formação da linguagem – o processo de significação se dá associando-se signos e coisas por meio de metáforas (relações de similaridade) e metonímias (relações de contiguidade) –, por isso que elas levam as explicações metonímicas e metafóricas a sério demais e elaboram seus raciocínios da mesma forma como se constroem sonhos. Por exemplo: se, quando o silêncio é total, mesmo assim a gente escuta um zunido (o barulho do sangue circulando na cabeça, penso eu), se esse zunido é similar ao rangido agudo das rodas de uma carroça, e se é verdade que a Terra é uma esfera que gira “igualzinho” às rodas de uma carroça, então esse zunido que escuto no silêncio da noite, como escreveu Gabriel Garcia Márquez em um de seus contos, é “o barulho da Terra girando em torno do seu eixo enferrujado”. Não há dúvidas que há beleza nesta explicação. Se nenhum resquício desse pensamento mágico permanecesse na idade adulta, viveríamos num mundo sem poesia. Só que, ao contrário desses que se autodesignam “místicos”, os poetas e os que gostam dos poetas (pelo menos os que não são místicos) apenas brincam com a magia das palavras, ou seja, não a levam tanto a sério a ponto de confundir realidade com sonho.

Mas vale lembrar que o termo “misticismo” tem outro significado mais antigo. Denota, desde a sua origem, uma tradição religiosa que se desenvolveu em oposição a algumas idéias que toda corporação eclesiástica tende naturalmente a impor como tabu: a ideia de que a natureza divina é incognoscível e, também, que é impossível estabelecer-se uma união direta do indivíduo com Deus (devido ao mal que há em nós, porque já nascemos em pecado ou porque é necessário obedecer a uma hierarquia em que sacerdotes, mortos e anjos figuram como elos intermediários dessa união). Contrapondo-se a essas ideias – meras justificações do ofício sacerdotal – os místicos sustentam a crença de que a natureza de Deus pode ser contemplada pelo homem e que, por meio desta contemplação, o indivíduo une-se a Deus, união esta que tem por corolário um sentimento de êxtase. Os místicos também creem num acesso espiritual a domínios do conhecimento que são inacessíveis ao pensamento comum, ao pensamento empírico que apenas “mede”: que é possível uma experiência com o Real não filtrada pelos órgãos sensoriais e intermediada por um pensamento não-verbal, como o é grande parte do pensamento matemático – um pensamento geométrico que não fala nem escuta, mas que aponta e “vê”, e que ao ver “reconhece”; vale dizer, um pensamento que é um esforço para “recordar” a verdade e cujos insights são como déjà vus. (Antes de atirar esta ideia “intuicionista” no limbo do antiintelectualismo, lembre-se que, ao contrário do que postula um tipo ingênuo de intelectualista, nem sempre a verdade de uma proposição tem que ser necessariamente demonstrada pelo raciocínio ou pela experiência. Existem proposições matemáticas cuja verdade não pode ser provada pela própria matemática, mas que, no entanto, pode-se – em princípio – “ver” que são verdadeiras, como é o caso da proposição aritmética Pk(K) de Gödel. Isso indica que até mesmo a matemática elementar, que talvez seja a base da razão ou a “razão mínima”, não é apenas análise, mas também intuição, e, provavelmente, pensamento intuitivo de natureza não-algorítmica. Ora, é um nonsense o enunciado “a intuição matemática é irracional”.)     

Ao contrário dos "místicos" que falamos há pouco, a maioria desses outros místicos, embora não muito chegada ao conhecimento empírico, é racionalista no sentido de “inatista”, pois crê que a Verdade – isto é, o conhecimento do Todo – pode ser alcançada operando-se unicamente com as categorias inatas do pensamento. Sua concepção de Deus é também mais refinada, mais filosófica (apesar de aforística) e menos alegórica ou folclórica: Deus é a totalidade que compreende tudo que existe, o Uno Primitivo (Plotino) ou então o princípio ordenador da Natureza. Para os teólogos hinduístas, Brahman não é a sua popular representação sensível, mas, segundo a definição que consta nos Upanixades (seções conclusivas e filosóficas dos Vedas), é Ele “a base de todo o ser; aquilo em virtude do qual todas as outras coisas existem; a realidade última que possibilita o tempo, o espaço e a ordem natural.” [1] Ou seja, Deus é a mais geral de todas as leis, algo indistinto daquilo que o filósofo racionalista Spinoza denominou de natura naturans (a natureza gerando ou a geratriz da natureza) ou do que Leibniz, também filósofo racionalista, definiu como a “razão suficiente” do Universo: razão pela qual o Universo existe em vez de nada existir.

A imaginação desses místicos, longe de ser livremente poética, assenta-se em variedades de lógica difusa (Hegel, o elaborador da lógica dialética, sofreu grande influência da mística especulativa judaico-cristã, não tendo sido à toa, portanto, o fato de Bertrand Russell ter qualificado a sua dialética como uma lógica mística) e, em muitos casos, na matemática; tanto que vários deles foram matemáticos, como Pitágoras e o grande místico hinduísta Mahavira. Este último, que foi contemporâneo de Heráclito, Buda, Lao-Tsé e Zoroastro, é autor de ensaios matemáticos escritos na forma de versos, por entender ele ser esta a forma que mais facilita a memorização.

O pensamento matemático parte de determinados entes (números, axiomas...) que são puramente abstratos, isto é, não são sensíveis e apenas existem no pensamento. No entanto, partindo dos mesmos axiomas todo e qualquer matemático chega inevitavelmente à mesma conclusão. Ou seja, partindo-se de entidades subjetivas, chega-se a algo tão “objetivo” quanto os objetos do mundo exterior. Por exemplo, eu posso escrever uma função matemática escolhendo ao acaso as grandezas. Não sei ainda o seu resultado, mas ele já existe, é objetivo, e pelo raciocínio qualquer um pode chegar a ele antes de mim. É como se o pensamento puro tivesse uma autonomia em relação aos sujeitos que pensam; uma autonomia que produz coisas objetivas e independentes da nossa vontade tanto quanto o Sol, a Lua, as estrelas e outros entes sensíveis. O interessante é que as regularidades e padrões que se verificam no mundo físico podem ser expressos no sistema de notação matemático e, mediante cálculos com essas “fórmulas”, podemos prever fenômenos sensíveis, antever acontecimentos futuros, conhecê-los antes de experimentá-los. E, o que não é só interessante, mas também esdrúxulo: os matemáticos puros, que não se interessam muito pelo mundo físico, com base apenas no pensamento abstrato costumam inventar modelos matemáticos para o mundo com propriedades tão estranhas que é impossível não descartá-los como irreais. Até que, décadas depois, aparece um cientista empírico nada afeito a especulações puras que descobre, muitas vezes consternado, que os resultados de seus experimentos e observações só são possíveis caso a realidade apresente aquelas propriedades estranhas, aparentemente irreais, de modo que não há outro jeito a não ser trabalhar, a partir de então, com aquele modelo matemático que um fetichista das formas ejaculou sem sair do gabinete. Isso aconteceu com Einstein, que enquadrou suas hipóteses acerca da estrutura do espaço-tempo em modelos matemáticos preexistentes e que, na época em que foram construídos, despertaram interesse apenas marginal: a geometria não-euclidiana de Riemann (geometria elíptica) e as transformações de Lorentz.

Na história do pensamento, houve épocas em que a ideia da existência de Deus (de um princípio ordenador “anímico”) e a crença na inexistência do acaso (determinismo teleológico)  eram tradições tão arraigadas – as pesadas heranças deixadas pela humanidade arcaica, naqueles tempos ainda um passado próximo – que sequer imaginavam questioná-las. Espíritos mais exigentes, mas de homens que pertenciam ao seu tempo, quando muito punham em dúvida os significados correntes da palavra Deus, bem como suas representações populares. Mantinham, entretanto, o significante “Deus” em suas novas explicações indubitavelmente mais racionais das questões fundamentais e atemporais, como os problemas da origem e destino do Universo ou de por que existe algo quando bem poderia não existir nada e, também, o do sentido da existência.

Os místicos stricto sensu pertenciam à categoria desses “espíritos mais exigentes”: por serem apaixonados pelo conhecimento, não aceitavam o incognoscível. Assim como Steven Weinberg, o cientista que descobriu a força eletrofraca, viviam estes místicos obcecados pelo “sonho de uma teoria final”, pois entendiam eles que o acesso ao conhecimento da natureza de Deus, do real significado da palavra Deus – a raison d'être finalmente reduzida à evidência – não é nada menos que o sentido da vida, isto é, que a Verdade é a Beleza e a Beleza é o Bem; de modo que a contemplação dessa verdade (da Verdade com “V” maiúsculo) ou a visão dessa evidência representa o momento de êxtase em que a razão subjetiva e a Razão objetiva se reconhecem e se identificam. Aliás, a seguinte sentença do físico John Wheeler pode ser perfeitamente atribuída a alguns desses místicos: “Certamente, um dia, perceberemos que a verdade central é tão simples, tão bela, tão óbvia que não poderemos deixar de nos perguntar: Oh, como poderia ser de outra forma? Como pudemos permanecer cegos por tanto tempo?”.

Não se resignavam os místicos da velha cepa com o pensamento mágico indiferente ao absurdo das pessoas comuns, que dava sentido e norte à vida criando fadas e anjos para encantá-las e, ao mesmo tempo, demônios e dragões para castigá-las. Por outro lado, sua preocupação era com o todo e com a razão profunda. Ora, o todo é muito grande, talvez infinito e, portanto, imensurável. E, assim como o fundo de um poço muito profundo perde-se na escuridão mesmo quando é meio-dia (devido à sombra da cabeça de quem tenta observá-lo), a razão última pode ser profunda demais para o alcance dos órgãos dos sentidos e de suas extensões mecânicas. Demais, o Universo entendido como a “unidade” de tudo que existe é “um”, algo singular, de sorte que não há nada fora dele – uma alteridade material – com que se possa compará-lo e, desta comparação, extrair um padrão ou a lei que implique a sua existência. Sendo assim, o pensamento empírico que mede e compara não seria o mais apropriado para esta empreitada. Melhor, então, apelar para este outro pensamento que não mede, mas “conta”, que não é só análise, mas também intuição, e que é tão objetivo quanto o mundo físico à nossa volta.

Até porque não é inadmissível supor que um segmento desse pensamento objetivo (o assentamento do Mundo 3 da epistemologia de Karl Popper) tenha uma relação de antecedência com a objetividade do mundo natural. O físico teórico Roger Penrose é um dos que defendem este ponto de vista “platônico”, um entre muitos físicos matemáticos que “preferem pensar o mundo físico (...) como algo que emerge do mundo (‘atemporal’) da matemática”; pois que, “quanto mais entendemos sobre o mundo físico, quanto mais profundamente entramos nas leis da natureza, mais parece que o mundo físico quase se evapora e ficamos apenas com a matemática”.[2]

Essa ideia torna-se menos inaceitável quando se tem em mente o comportamento estranho dos componentes fundamentais da realidade física: fótons, elétrons etc. Os experimentos realizados com esses elementos subatômicos (como, por exemplo, o da “dupla fenda”), sugerem que, ao se deslocarem, eles percorrem não apenas uma trajetória, mas todas as trajetórias que lhes são possíveis. Vale dizer, um fóton viajando no espaço encontra-se em todos os lugares em que é possível ele estar e, ao mesmo tempo, não se encontra em lugar nenhum. Nos termos da matemática das probabilidades, uma onda luminosa – e a cada fóton “punctual” está associada uma onda – seria um “espaço amostral” ou um conjunto de possibilidades cujos elementos são as trajetórias virtuais de um quantum de luz. Ora, se o fóton percorre todas as trajetórias possíveis simultaneamente (podendo mesmo haver interferência entre elas), então, neste mundo subatômico, o que se entende por possibilidade matemática – elemento de um conjunto denominado espaço amostral – não é um artifício que criamos para preencher as lacunas do nosso conhecimento do real; ao contrário, trata-se de um ente “real”, algo que existe de fato neste nível da realidade. Do mesmo modo, também nessa nanorrealidade em que o virtual é real, o contrafactual é factual e o que pode ser efetivamente “é”, abstrações matemáticas como “espaço amostral” (conjunto de possibilidades) e “eventos estatísticos” (subconjuntos do espaço amostral) também são entidades concretas que se manifestam como onda: onda de probabilidades. Em suma, se, no mundo “newtoniano”, os entes matemáticos afiguram-se a todos nós como ficções úteis, no microcosmo dos quanta, ao contrário, eles não são pura forma, mas algo que tem “substância”: são entes concretos, reais, cuja existência pode ser indiretamente observada ou inferida a partir da análise do comportamento de um único fóton, de um elétron singular ou mesmo de partículas mais massivas como um próton ou um nêutron.[3]

Sim, é possível que a racionalidade matemática no que tem de fundamental seja anterior ao universo e que a realidade subatômica consista numa zona de transição entre esta razão fundamental e o mundo em que vivemos, mundo cuja razão é incerta e que se manifesta mais frequentemente como “leis do acaso” (de fato, até a “ciência” da matemática – não devemos confundi-la com o seu “objeto” – não é totalmente precisa, haja vista que, de seus axiomas, não se chega apenas a verdades, mas também a paradoxos). Se assim for, a Deus se poderia atribuir uma existência objetiva. Não se trata de objetividade física, é claro, nem mesmo de objetividade cultural (“objetivo” no sentido de “intersubjetivo”), mas objetividade matemática.  A epifania de Deus seria, então, uma fórmula lógico-matemática autorreferente, isto é, autodemonstrativa (Deus como causa sui ou causa de si mesmo) e da qual se inferiria a lei física fundamental do universo em que vivemos, se não as de muitos outros — afinal, nosso universo particular pode ser apenas um entre muitos outros universos possíveis, todos coexistindo de certa maneira.

Mas não é preciso denominar de Deus essa razão-de-ser imanente ao mundo ou, talvez, anterior a ele. Eu próprio não a chamaria assim, atitude esta que me distancia dos místicos e dos teólogos. Não a designaria por este termo porque considero o significante “deus” como tendo um valor essencialmente afetivo. Considero-o um termo que reflete particularidades da condição humana e não uma forma lógica que designa algo geral da natureza “exterior”. Pois, para nós – uma espécie de macaco que retém na idade adulta muitos caracteres da infância, inclusive psicológicos, como, por exemplo, a dependência emocional na relação com os genitores – Deus é, antes de tudo, o substituto dos pais, ou melhor, a sua metáfora. Deus é um significante intrinsecamente ligado a outro significante (pais) que por sua vez significa “aqueles que nos geraram e que cuidam de nós”. Ora, dos pais o que mais nos importa não é o fato de eles nos terem gerado, mas o cuidado que nos dedicam, sua proteção, amor, o fato deles serem nossos provedores. Logo, não se nomina “Deus” essa razão fundamental que tanto se procura – às vezes com o mesmo desespero das crianças que se perdem da mãe – apenas porque ela gerou o universo e, portanto, em última análise, também nos gerou. Quem chama de Deus seja a Razão-de-ser do universo ou o próprio universo como um todo está pressupondo que essa razão e esse todo têm alguma preocupação ou interesse por nós e que a felicidade dos homens é necessária para a harmonia universal. Não creio que seja assim.

Deem, portanto, a essa Fórmula que explica o porquê de haver algo e não nada o nome que quiserem. Pode ser O Princípio Universal, A Razão-de-Ser, O Ser Necessário, A Geratriz da Natureza ou, simplesmente, A Fórmula. Mas convém escrever esses termos e expressões com iniciais maiúsculas, como fazemos com a palavra Deus. Seria um modo de sinalizar e de reconhecer a continuidade que há entre a fase mística e a secular desta eterna busca do sentido – desta procura ora esperançosa, ora desesperada, por uma simetria de reflexão entre o pensamento e o ser.

Postscriptum — Sobre a intuição matemática

Para Immanuel Kant (1724–1804), os enunciados matemáticos não são tautologias estendidas — sentenças analíticas cujos predicados apenas repetem, de modo implícito ou “confuso”, o que já está contido nos sujeitos. Ao contrário, em sua obra Crítica da Razão Pura, o Filósofo sustenta que a matemática só se ocupa com “objetos e conhecimentos que podem ser representados na intuição”; que “todos os juízos matemáticos são, sem exceção, sintéticos” — sintéticos a priori. Significa dizer que o pensamento matemático, baseando-se em axiomas derivados de propriedades da intuição pura e, ademais, operando com a ajuda recorrente da intuição – i.e., do raciocínio por analogia (abdução), da imaginação geométrica, da orientação por critérios estéticos (a beleza das simetrias) – desenvolve o seu próprio objeto; acrescenta, no decorrer do tempo, qualidades novas ao Constructo; produz, constante e cumulativamente, conhecimentos inauditos.[4]

Admitindo-se, portanto, a existência da intuição matemática (a propósito, uma das conclusões dos teoremas da incompletude é que a verdade matemática – ou melhor, a de qualquer sistema formal de axiomas – ultrapassa, de certo maneira, a demonstrabilidade), isto posto não é insensato conjeturar que dela derive uma intuição mística; que, de acordo com algumas correntes da filosofia antiga, entre as quais o estoicismo grego, é possível o acesso por apreensão direta (katalêpsis) de um e outro juízo verdadeiros (phantasia kataleptikê), verdades estas não triviais.

Ora, Gödel “mostrou” uma proposição aritmética – a fórmula Pk(K) – cuja verdade é “óptica”, apesar de inexistir regra aritmética que a demonstre. Dadas as conclusões, cogita-se que a revolução gödeliana reintroduziu, no campo do saber possível, determinada variedade do pensamento místico, certamente a com menos ruídos folclóricos e dissonância máxima da mimese mágica: o misticoidismo — que a prova Pk(K) da verdade indemonstrável é razão suficiente para que a Mystica seja vista com deferência, não só pela perspectiva da moral de convivência – o devido respeito às opiniões diferentes – como, também, pelo restrito prisma da Gnosiologia.

Sobre Kurt Gödel, era esse filósofo um platônico convicto, e se platonismo não é misticismo, a afinidade entre ambos configura-se patente. Aliás, famosa é sua versão do argumento ontológico favorável à existência de Deus, elaborada no rigor da lógica simbólica. Quanto aos seus teoremas da incompletude, numa carta à mãe escrita em 20 de outubro de 1963, ele afirmou com regozijo: “É de esperar que, mais cedo ou mais tarde, minha prova se torne útil à religião, pois isso se justifica em certo sentido.” [5]


BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio. Fortaleza: APEX, 2005, 81-90 p. — Nova versão do ensaio Magia, misticismo e matemática.






[1] BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 45.
[2] PENROSE, Roger. O grande, o pequeno e a mente humana. São Paulo: Ed. UNESP, 1998, p. 19.
[3] A onda-de-probabilidades dos quanta não como noema (produto do pensamento), mas como onda-matéria — “matéria” no sentido filosófico e leninista do termo, isto é, objeto que existe independentemente da consciência.
[4] Ver Dicionário Kant, de Howard Caygill (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000, verbetes Intuição, Juízo analítico, Juízo sintético a priori, Matemática e outros).
[5] Apud GOLDSTEIN, Rebecca. Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.162. 













Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...