segunda-feira, 11 de julho de 2011

PORTAL 2001: FICÇÃO, SIM (CRÔNICA DE NILTO MACIEL)

Cena da primeira adaptação cinematográfica do romance Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley, realizada em 1910 por Thomas Edison.

“Segundo Arthur Clarke, ‘a única forma de descobrir os limites do possível é indo mais além deles, ao impossível.’ De fato, Einstein, que sempre se valeu da intuição – como visualizar-se montado em um raio de luz – antes de pôr os pés no espaço-tempo da sua Teoria, visitou, na imaginação, muitos universos impossíveis. Quanto à ficção científica, esta nos leva, por meio de imagens e licença poética, às fronteiras ‘imprecisas’ da ciência, desempenhando, assim, como toda grande arte realista, importante função cognitiva. Também nos mostra, às vezes, situações absurdas — ‘absurdo’ no sentido de ‘possível, mas que não deve ser’ (o ‘proibido’ como equivalente moral do ‘impossível’). O romance gótico Frankenstein, por exemplo, é uma especulação literária sobre quais limites impor ao manejo da técnica científica.” (M. Bulcão)





Portal 2001 é um livro de contos. Pode ser lido como uma antologia de narrativas curtas. Na capa, apenas o nome (título). A segunda folha traz uma apresentação (prefácio) por Nelson de Oliveira, que anuncia: “Este é o quinto de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit”. Logo, não se trata de livro. Em um texto de divulgação do empreendimento vem explicação: “Projeto Portal é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit”. Por isso, não há ficha catalográfica, indicação de editora, etc. Apenas os créditos: data (inverno 2010) e nomes dos responsáveis pela publicação, como o de Nelson: Coordenação editorial. Em outra comunicação há esta descrição sucinta: “São 31 narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, utopias e distopias, de 16 autores contemporâneos”. Ou seja, composições de ficção científica.

Mas o que é ficção científica? Para Wilson Martins, “A chamada ficção científica, que não é ficção nem científica, tampouco alcança os planos da literatura porque nela a função catalítica do estilo é, por definição, posta à margem como desprezível”. Pois Tibor Moricz (que não tem o prestígio do intelectual considerado por muitos como o último crítico brasileiro por excelência), em “Gênero X Mainstream”, faz a seguinte observação: “A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone”.

Essa mudança de status se dá ao longo do tempo. Assim como “A invenção de Morel” (Bioy Casares) “desceu um degrau”, Poe subiu. Edifício literário como o de Uilcon Pereira, por exemplo, alcançará algum dia o Cânone? Ou ficará no limbo: nem popular, nem canônico?

Os males ou os defeitos da ficção científica, o que a afasta do Cânone assim como do mainstream, sua pobreza (como um todo, ressalvadas as peças mais louvadas pela crítica), assim como (em menor grau) da literatura fantástica, sua penúria talvez esteja no distanciamento que o narrador guarda (nelas) de seus semelhantes, dando mais ênfase a objetos (máquinas, naves, etc.), ao espaço sideral e viagens pelo Cosmos, em detrimento dos problemas pessoais (humanos) dos personagens. O leitor se vê diante de seres sem estofo, ocos, quase máquinas, “sem alma”, sem sentimentos, inumanos. Em consequência, a trama foge dos seres e suas ações e sentimentos para se voltar para o espaço, as coisas (espaçonaves), medidas, velocidade, etc. A ação é desvinculada do humano, dos dramas psicológicos. Só mesmo escritores mais criativos conseguem fazer com que a “coisa” sobrenatural e o espaço de atuação do alienígena ou do ser irreal não substituam a pessoa, como na literatura fantástica (o Horla, de Maupassant) ou em José J. Veiga (a estranha máquina extraviada).

Porém, à medida que os cultores desse gênero se aproximam dos modelos da literatura canônica (Casares, Poe) – pela técnica e pelo tratamento literário dos temas, das tramas, etc., sua “ficção científica” se revela como ficção, como literatura e perde o rótulo renegado pelos acadêmicos e críticos.

Braulio Tavares, no conciso “A república do recurso infinito”, lembra Kafka ou o mundo ficcional de 1984 (Orwell) e alguns clássicos da ficção científica. Em “Universos tangenciais (improviso)”, lê-se um sonho dentro de outro, e este de outro. “Aquele de nós (improviso)” é uma maravilha. Veja-se o epílogo a um tempo metaficcional e filosófico: “Ele sabe que todos os seus semelhantes são ficções, e que ele próprio não passa de um Terminal através do qual se manifesta a Nossa existência.”

Brontops Baruq, com “Planetas invisíveis: Diana”, segue a mesma linha de Braulio. Algumas vírgulas de menos não o impedem de ser muito criativo, além de ferino crítico da sociedade moderna. “Rebobinados” é ótimo como FC: a humanidade é a mesma aqui e agora (presente), nos idos da Roma Antiga (passado) e nos tempos fora da Terra (futuro). Onde houver homem, haverá “humanidade”, isto é, ódios, amores, ciúmes, inveja, todos os chamados pecados. E assim Baruq se distancia do descritivismo científico.

De Claudio Parreira é o estranho “Além do espelho”. Trata da solidão, o que o humaniza e o torna próximo da grande literatura. O drama não se dá no interior de uma nave nem em outro planeta. Ocorre na Terra, na famosa Rua Augusta, São Paulo: “Estava na padaria havia pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber”. (...) “A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas”.

Na mesma pegada vem Daniel Fresnot. Em “Exit”, o clima é de tragédia no espaço, em competição pela chefia da nave. E ainda o problema da solidão: “Agora estamos os dois flutuando fora d nave e o problema é que não há mais ninguém lá dentro para nos abrir a porta!” (...) “portanto, vamos morrer de sede.” Em sentido amplo, “A vida sexual dos dinossauros” é uma aula. Já em “Convenção” talvez se possa vislumbrar o próprio fazer Ficção Científica. Ricardo Delfin, em “Destino”, começa assim: “Prefiro estar morto...”. Em “Futuro do pretérito”, chama logo a atenção do leitor: “Eu me lembro de tudo como se fosse amanhã”. Em “Gazeta marciana”, o mundo de Marte se assemelha ao da Terra. O planeta vermelho num futuro (mas o que é futuro, presente, passado, tempo no espaço?) será como na Terra hoje. Outro Delfin (sinto falta de sobrenome), com “Sentinela”, mostra excelente composição na 1ª pessoa feminina, o que é raro. Basta ver que dos 16 contistas da publicação só há uma mulher: Maria Helena Bandeira, que, em “Neve e sanduíches”, lida com o fundamental humano, como na fala de Ingborg: “De que adianta continuar a viver se não temos lembrança de quem fomos?”. Outra constatação muito lida em FC: “Humanidade que há muito desapareceu, tragada pelo frio”. Outra peça muito estranha é “A gruta de Vênus”. “Eblon” é o paraíso. Em “Mãos de borracha” e “Quem sabe?” há diálogos e uma sentença paradigmática: “no mundo virtual de agora, ninguém tem controle sobre o que é real ou imaginário”. Colóquios também são bem utilizados por Marco Antônio de Araújo Bueno. Como em “Sem nome”, dividido em duas partes distintas: a primeira de conversações, a segunda uma narração ou um relato em primeira pessoa. “Arquivo truncado” vem na 1ª pessoa. Em “Seguimento dezenove” também há diálogos. Outro que se vale bem deles é Rodrigo Novaes de Almeida. Em “Contato Alpha 9” lê-se um delírio em frases curtas e diálogo direto. “Zaratustra” é curto e estranho, diferente dos demais da coleção.

Um dos epistílios da FC é a “brincadeira” (FC é, sobretudo, entretenimento) com o tempo. De Mayrant Gallo é “A paz forçada”: o drama se dá num futuro próximo e tem assim o início: “A nave surgiu no céu de um azul intenso” (...). Sid Castro, em “Prometeu acorrentado reboot”, se refere à nave Prometheus Vinctus, em travessia pelo hiperespaço. Vinha de um planeta solitário. Alusões a mitos gregos: Prometeu e Érebo. Belíssima alegoria. Luiz Bras, em “Primeiro de abril: Corpus Christi”, oferece como cenário uma cidade chamada Primeiro de Abril. O narrador brinca com personagens da ficção cinematográfica, como Capitão América, Capitão Gancho, Homem de Lata. Roberto de Sousa Causo, com “Arribação rubra”, nos leva ao planeta Reiboro e nos põe em contato com o humano professor Neftaim Zibeon.

Há muito de alegoria, principalmente na crítica aos humanos, na Ficção Científica, o que às vezes a afasta do puro entretenimento. Marcelo L. Bighetti, em “Novo início”, faz aparecer em cena um Adolfo Hitler imaginário a quem é apresentado “um pequeno e mirrado ser humanóide”. A seguir, relata-se uma viagem ao passado (em FC viagem é, quase sempre, na direção do futuro) e a chegada de colonizadores ao Brasil de 1500. Essa viagem ao futuro se vê em Rogers Silva. Lê-se em “Amor-perfeito”: “Quando o Apocalipse sobreveio” (...). Uma novidade (para mim) é o tratamento dado ao tema do homossexualismo: “não porque sou ingênuo ou exagerado, mas apenas porque te amo”, diz um personagem a outro (anjo Gabriel e Lúci). Além disso, Rogers utiliza uma das técnicas da nova (?) narração: um narrador cede a voz a outro, mudando o ponto de vista.

Um dos momentos áureos da coletânea está em Mustafa Ali Kanso, principalmente com “Herdeiro dos ventos”. O protagonista, que nasceu prematuramente, “em um caderno amarrotado começou a ensaiar seus primeiros contos envolvendo fantásticas máquinas voadoras e extraordinárias viagens para a lua” e “tinha o pérfido costume de ler”. Mais adiante, “como todo bom escritor, a despeito das evidências, desafiou o que era correto e continuou voando.” Até que decidiram “acorrentá-lo a uma bola de ferro.” É composição fantástica belíssima. Em “Uma carta para Guinevere” há algo de romantismo nos tempos das viagens cósmicas.

Para finalizar: Portal 2001 é bom entretenimento, sobretudo para o leitor de Ficção Científica, exibe “textos” muito próximos da literatura canônica e, portanto, é ficção.


Fortaleza, 21 de novembro de 2010.

Nilto Maciel

segunda-feira, 4 de julho de 2011

POESIA & GEOMETRIA, JOAQUIM CARDOZO (CRÔNICA DE ANA MIRANDA)




Espiral de Fibonacci
  

A poesia dos ritmos, a simetria dos signos, a semântica dos números, a matemática dos sons, a música das cores, a cromodinâmica das ideias, a lógica das metáforas.

        

       
         Muitas vezes ouvi alguém dizer de alguém: ele é frio e calculista. Frio e calculista sempre foram duas palavras afins, inseparáveis, como se ninguém pudesse ser frio sem ser calculista, e vice-versa; e fazem supor que você precise ter cabeça fria para calcular, ou seja: o sentimento atrapalharia os cálculos. Então imaginamos que a expressão de um calculista é fria, por associação. Existe um calculista notável na história do Brasil, que simboliza todos os calculistas; ele é o engenheiro Joaquim Cardozo, que calculou as colunas do Alvorada, as hastes magníficas da catedral de Brasília, o chapéu de freira da igrejinha de Fátima dos joelhos de minha infância, e tantas outras estruturas que parecem suspensas, ou querendo voar, ou pairando no ar.
E esse engenheiro calculista era poeta. Claro, como diz um amigo meu, a poesia é uma ciência tão exata como a geometria.  Da geometria à poesia, um átimo, e vice-versa. Quem imagina que a poesia de Joaquim é fria e calculista, surpreende-se com o lirismo contido nas estruturas e cálculos de palavras, com o sentimento que ele expressa, suas iluminações instantâneas a partir de uma chuva no telhado (simetrias perpendiculares?), suas madrugadas eternas (linhas infinitas?), seu coração encerrado em grades de pedra (linhas paralelas?), suas saudades das ilhas e o desejo de desvendar (calcular?) o segredo das águas, sob a capa vazia do tempo (o infinito negro?), o tempo que cristaliza em dimensão natural (espaço?).
Ele acreditava que a poesia não carrega sempre o verdadeiro estado interior do poeta, pois se exprime por convenções e símbolos (tracinhos e rodinhas) e associações e decalques (abstrações); que as palavras escritas são frias (calculistas?) e mortas (o zero?); acreditava que o ser humano possui um campo infinito e mais ou menos contínuo de poesia (geometria?), mas nem sempre consegue vencer a repugnância de revelá-la (calculá-la?); que a revelação da poesia é uma impureza (interrupção?), pois exprimir um sentimento tão indefinido (interseção?) é tarefa inatingível (estrutura?). No entanto venceu a repugnância e revelou sua expressão límpida (matemática pura?), quase seca (física?), íntima (topografia?) e encantadora (poesia).
Nos velhos anos de Brasília falavam dele com tanta admiração que eu também a sentia, e nem sabia que era poeta, achava só que era calculista, coisa inimaginável em minha mente antimatemática; e, portanto, ele era superior (ou interior?) à arte, a arte era o meu cotidiano, coisa tão natural... Homem cultíssimo e declamador, conversava ali com os arquitetos usando a simplicidade de um guarda-livros (seu pai era escriturador de livros mercantis). Joaquim era um dos ídolos da construção da cidade, bastava dizer o nome, o Lúcio, o Oscar, o Juscelino, o Luiz Humberto, o Athos, o Joaquim...
Hoje conheço mais de sua pessoa, li muitos de seus poemas, que compreendem a beleza das prostitutas, das pontes, das cidades, dos rios, e sabem a cor da tempestade. Sempre em busca da “forma formante e formada”. Hoje entendo. Seu poema de que mais gosto (por ser literário?) talvez seja o do furo que ele vê num livro, apenas um pontinho na capa, e, à medida que ele vai passando as páginas, o furo vai se abrindo e fazendo uma escultura vazia no interior do livro e depois vai voltando a ser apenas um ponto. Mas também gosto das que escreveu para Recife, para as mulheres que amou, para os relógios, para as paisagens erguidas no prisma azul, calculando os esquadros, parafusos, as curvas das marés...

ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.


sábado, 25 de junho de 2011

MAGIA, MISTICISMO E MATEMÁTICA (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)



La reproduction interdite, obra de René Magritte (1898-1967)


"O que o homem busca por meio da religião e da metafísica? — Encontrar a mais bela simetria de reflexão entre o Eu e o Isso e, assim, reencontrar-se no Mundo. No entanto, segundo Wittgenstein, a verdade mais importante não pode ser dita na linguagem da Lógica: esse “indizível”, que o filósofo identifica com o “místico”, apenas se mostra no mundo silencioso das imagens especulares." (M. Bulcão)



“Meu objetivo é simples, é o entendimento completo do universo: saber por que ele é como é e por que ele existe em absoluto.

Stephen Hawking


Tenho observado que as críticas ao misticismo dirigem-se, na maioria das vezes, à acepção que o senso comum confere a este termo. Nesse sentido, o místico é uma pessoa que acredita em “qualidades ocultas ou poderes para os quais não se pode oferecer uma explicação empírica ou racional”, isto é, que crê em explicações absurdas para os fenômenos.

Essa acepção do termo “misticismo” não é injustificada. Afinal, são as próprias pessoas para as quais as explicações absurdas exercem grande magnetismo que primeiro qualificam a si mesmas como místicas. Ora, o significado das palavras não é determinado apenas pelos etimologistas ou pela intenção de quem as elabora, mas também pela prática, pelo uso que se faz delas.

Essa subcategoria de misticismo, constituída de indivíduos cujas crenças têm por critério unicamente a fé, é a expressão cabal do Paradoxo de Tertuliano. Segundo este paradoxo, credo quia absurdum est; vale dizer, “acredito porque é absurdo”. Por quê? Entre outros motivos, porque algumas proposições absurdas têm o poder de encantar e, assim, de arrebatar algumas pessoas da sua rotina tediosa e desse mundo “desencantado” pelos limites que as leis da física e as regras da lógica impõem à sua existência.

Com exceção dos que amam a verdade (pois, quem ama sem hipocrisia, aceita as dores que o seu amor lhe inflige), as pessoas acreditam no que as faz sentirem-se bem, acreditam porque se sentem bem em acreditar. Cenestesia positiva ou bem-estar, eis o que elas mais esperam de suas crenças. Infelizmente, a verdade nem sempre nos faz sentirmos bem. Com frequência, a verdade dói, incomoda, é causa de desconforto e de sofrimento. Por isso que é comum o divórcio entre crença e evidência e, por conseguinte, o concubinato daquela com o absurdo. De resto, teorias absurdas apresentam um grande trunfo em relação às demais: a vantagem de que suas lacunas podem ser logo preenchidas por outras explicações igualmente absurdas.

Essas pessoas, “místicas” num certo sentido, também são do tipo que não consegue nunca superar o pensamento mágico da infância. Ora, nas crianças o pensamento ainda está preso às leis de formação da linguagem – o processo de significação se dá associando-se signos e coisas por meio de metáforas (relações de similaridade) e metonímias (relações de contiguidade) –, por isso que elas levam as explicações metonímicas e metafóricas a sério demais e elaboram seus raciocínios da mesma forma como se constroem sonhos. Por exemplo: se, quando o silêncio é total, mesmo assim a gente escuta um zunido (o barulho do sangue circulando na cabeça, penso eu), se esse zunido é similar ao rangido agudo das rodas de uma carroça, e se é verdade que a Terra é uma esfera que gira “igualzinho” às rodas de uma carroça, então esse zunido que escuto no silêncio da noite, como escreveu Gabriel Garcia Márquez em um de seus contos, é “o barulho da Terra girando em torno do seu eixo enferrujado”. Não há dúvidas que há beleza nesta explicação. Se nenhum resquício desse pensamento mágico permanecesse na idade adulta, viveríamos num mundo sem poesia. Só que, ao contrário desses que se autodesignam “místicos”, os poetas e os que gostam dos poetas (pelo menos os que não são místicos) apenas brincam com a magia das palavras, ou seja, não a levam tanto a sério a ponto de confundir realidade com sonho.

Mas vale lembrar que o termo “misticismo” tem outro significado mais antigo. Denota, desde a sua origem, uma tradição religiosa que se desenvolveu em oposição a algumas idéias que toda corporação eclesiástica tende naturalmente a impor como tabu: a ideia de que a natureza divina é incognoscível e, também, que é impossível estabelecer-se uma união direta do indivíduo com Deus (devido ao mal que há em nós, porque já nascemos em pecado ou porque é necessário obedecer a uma hierarquia em que sacerdotes, mortos e anjos figuram como elos intermediários dessa união). Contrapondo-se a essas ideias – meras justificações do ofício sacerdotal – os místicos sustentam a crença de que a natureza de Deus pode ser contemplada pelo homem e que, por meio desta contemplação, o indivíduo une-se a Deus, união esta que tem por corolário um sentimento de êxtase. Os místicos também creem num acesso espiritual a domínios do conhecimento que são inacessíveis ao pensamento comum, ao pensamento empírico que apenas “mede”: que é possível uma experiência com o Real não filtrada pelos órgãos sensoriais e intermediada por um pensamento não-verbal, como o é grande parte do pensamento matemático – um pensamento geométrico que não fala nem escuta, mas que aponta e “vê”, e que ao ver “reconhece”; vale dizer, um pensamento que é um esforço para “recordar” a verdade e cujos insights são como déjà vus. (Antes de atirar esta ideia “intuicionista” no limbo do antiintelectualismo, lembre-se que, ao contrário do que postula um tipo ingênuo de intelectualista, nem sempre a verdade de uma proposição tem que ser necessariamente demonstrada pelo raciocínio ou pela experiência. Existem proposições matemáticas cuja verdade não pode ser provada pela própria matemática, mas que, no entanto, pode-se – em princípio – “ver” que são verdadeiras, como é o caso da proposição aritmética Pk(K) de Gödel. Isso indica que até mesmo a matemática elementar, que talvez seja a base da razão ou a “razão mínima”, não é apenas análise, mas também intuição, e, provavelmente, pensamento intuitivo de natureza não-algorítmica. Ora, é um nonsense o enunciado “a intuição matemática é irracional”.)     

Ao contrário dos "místicos" que falamos há pouco, a maioria desses outros místicos, embora não muito chegada ao conhecimento empírico, é racionalista no sentido de “inatista”, pois crê que a Verdade – isto é, o conhecimento do Todo – pode ser alcançada operando-se unicamente com as categorias inatas do pensamento. Sua concepção de Deus é também mais refinada, mais filosófica (apesar de aforística) e menos alegórica ou folclórica: Deus é a totalidade que compreende tudo que existe, o Uno Primitivo (Plotino) ou então o princípio ordenador da Natureza. Para os teólogos hinduístas, Brahman não é a sua popular representação sensível, mas, segundo a definição que consta nos Upanixades (seções conclusivas e filosóficas dos Vedas), é Ele “a base de todo o ser; aquilo em virtude do qual todas as outras coisas existem; a realidade última que possibilita o tempo, o espaço e a ordem natural.” [1] Ou seja, Deus é a mais geral de todas as leis, algo indistinto daquilo que o filósofo racionalista Spinoza denominou de natura naturans (a natureza gerando ou a geratriz da natureza) ou do que Leibniz, também filósofo racionalista, definiu como a “razão suficiente” do Universo: razão pela qual o Universo existe em vez de nada existir.

A imaginação desses místicos, longe de ser livremente poética, assenta-se em variedades de lógica difusa (Hegel, o elaborador da lógica dialética, sofreu grande influência da mística especulativa judaico-cristã, não tendo sido à toa, portanto, o fato de Bertrand Russell ter qualificado a sua dialética como uma lógica mística) e, em muitos casos, na matemática; tanto que vários deles foram matemáticos, como Pitágoras e o grande místico hinduísta Mahavira. Este último, que foi contemporâneo de Heráclito, Buda, Lao-Tsé e Zoroastro, é autor de ensaios matemáticos escritos na forma de versos, por entender ele ser esta a forma que mais facilita a memorização.

O pensamento matemático parte de determinados entes (números, axiomas...) que são puramente abstratos, isto é, não são sensíveis e apenas existem no pensamento. No entanto, partindo dos mesmos axiomas todo e qualquer matemático chega inevitavelmente à mesma conclusão. Ou seja, partindo-se de entidades subjetivas, chega-se a algo tão “objetivo” quanto os objetos do mundo exterior. Por exemplo, eu posso escrever uma função matemática escolhendo ao acaso as grandezas. Não sei ainda o seu resultado, mas ele já existe, é objetivo, e pelo raciocínio qualquer um pode chegar a ele antes de mim. É como se o pensamento puro tivesse uma autonomia em relação aos sujeitos que pensam; uma autonomia que produz coisas objetivas e independentes da nossa vontade tanto quanto o Sol, a Lua, as estrelas e outros entes sensíveis. O interessante é que as regularidades e padrões que se verificam no mundo físico podem ser expressos no sistema de notação matemático e, mediante cálculos com essas “fórmulas”, podemos prever fenômenos sensíveis, antever acontecimentos futuros, conhecê-los antes de experimentá-los. E, o que não é só interessante, mas também esdrúxulo: os matemáticos puros, que não se interessam muito pelo mundo físico, com base apenas no pensamento abstrato costumam inventar modelos matemáticos para o mundo com propriedades tão estranhas que é impossível não descartá-los como irreais. Até que, décadas depois, aparece um cientista empírico nada afeito a especulações puras que descobre, muitas vezes consternado, que os resultados de seus experimentos e observações só são possíveis caso a realidade apresente aquelas propriedades estranhas, aparentemente irreais, de modo que não há outro jeito a não ser trabalhar, a partir de então, com aquele modelo matemático que um fetichista das formas ejaculou sem sair do gabinete. Isso aconteceu com Einstein, que enquadrou suas hipóteses acerca da estrutura do espaço-tempo em modelos matemáticos preexistentes e que, na época em que foram construídos, despertaram interesse apenas marginal: a geometria não-euclidiana de Riemann (geometria elíptica) e as transformações de Lorentz.

Na história do pensamento, houve épocas em que a ideia da existência de Deus (de um princípio ordenador “anímico”) e a crença na inexistência do acaso (determinismo teleológico)  eram tradições tão arraigadas – as pesadas heranças deixadas pela humanidade arcaica, naqueles tempos ainda um passado próximo – que sequer imaginavam questioná-las. Espíritos mais exigentes, mas de homens que pertenciam ao seu tempo, quando muito punham em dúvida os significados correntes da palavra Deus, bem como suas representações populares. Mantinham, entretanto, o significante “Deus” em suas novas explicações indubitavelmente mais racionais das questões fundamentais e atemporais, como os problemas da origem e destino do Universo ou de por que existe algo quando bem poderia não existir nada e, também, o do sentido da existência.

Os místicos stricto sensu pertenciam à categoria desses “espíritos mais exigentes”: por serem apaixonados pelo conhecimento, não aceitavam o incognoscível. Assim como Steven Weinberg, o cientista que descobriu a força eletrofraca, viviam estes místicos obcecados pelo “sonho de uma teoria final”, pois entendiam eles que o acesso ao conhecimento da natureza de Deus, do real significado da palavra Deus – a raison d'être finalmente reduzida à evidência – não é nada menos que o sentido da vida, isto é, que a Verdade é a Beleza e a Beleza é o Bem; de modo que a contemplação dessa verdade (da Verdade com “V” maiúsculo) ou a visão dessa evidência representa o momento de êxtase em que a razão subjetiva e a Razão objetiva se reconhecem e se identificam. Aliás, a seguinte sentença do físico John Wheeler pode ser perfeitamente atribuída a alguns desses místicos: “Certamente, um dia, perceberemos que a verdade central é tão simples, tão bela, tão óbvia que não poderemos deixar de nos perguntar: Oh, como poderia ser de outra forma? Como pudemos permanecer cegos por tanto tempo?”.

Não se resignavam os místicos da velha cepa com o pensamento mágico indiferente ao absurdo das pessoas comuns, que dava sentido e norte à vida criando fadas e anjos para encantá-las e, ao mesmo tempo, demônios e dragões para castigá-las. Por outro lado, sua preocupação era com o todo e com a razão profunda. Ora, o todo é muito grande, talvez infinito e, portanto, imensurável. E, assim como o fundo de um poço muito profundo perde-se na escuridão mesmo quando é meio-dia (devido à sombra da cabeça de quem tenta observá-lo), a razão última pode ser profunda demais para o alcance dos órgãos dos sentidos e de suas extensões mecânicas. Demais, o Universo entendido como a “unidade” de tudo que existe é “um”, algo singular, de sorte que não há nada fora dele – uma alteridade material – com que se possa compará-lo e, desta comparação, extrair um padrão ou a lei que implique a sua existência. Sendo assim, o pensamento empírico que mede e compara não seria o mais apropriado para esta empreitada. Melhor, então, apelar para este outro pensamento que não mede, mas “conta”, que não é só análise, mas também intuição, e que é tão objetivo quanto o mundo físico à nossa volta.

Até porque não é inadmissível supor que um segmento desse pensamento objetivo (o assentamento do Mundo 3 da epistemologia de Karl Popper) tenha uma relação de antecedência com a objetividade do mundo natural. O físico teórico Roger Penrose é um dos que defendem este ponto de vista “platônico”, um entre muitos físicos matemáticos que “preferem pensar o mundo físico (...) como algo que emerge do mundo (‘atemporal’) da matemática”; pois que, “quanto mais entendemos sobre o mundo físico, quanto mais profundamente entramos nas leis da natureza, mais parece que o mundo físico quase se evapora e ficamos apenas com a matemática”.[2]

Essa ideia torna-se menos inaceitável quando se tem em mente o comportamento estranho dos componentes fundamentais da realidade física: fótons, elétrons etc. Os experimentos realizados com esses elementos subatômicos (como, por exemplo, o da “dupla fenda”), sugerem que, ao se deslocarem, eles percorrem não apenas uma trajetória, mas todas as trajetórias que lhes são possíveis. Vale dizer, um fóton viajando no espaço encontra-se em todos os lugares em que é possível ele estar e, ao mesmo tempo, não se encontra em lugar nenhum. Nos termos da matemática das probabilidades, uma onda luminosa – e a cada fóton “punctual” está associada uma onda – seria um “espaço amostral” ou um conjunto de possibilidades cujos elementos são as trajetórias virtuais de um quantum de luz. Ora, se o fóton percorre todas as trajetórias possíveis simultaneamente (podendo mesmo haver interferência entre elas), então, neste mundo subatômico, o que se entende por possibilidade matemática – elemento de um conjunto denominado espaço amostral – não é um artifício que criamos para preencher as lacunas do nosso conhecimento do real; ao contrário, trata-se de um ente “real”, algo que existe de fato neste nível da realidade. Do mesmo modo, também nessa nanorrealidade em que o virtual é real, o contrafactual é factual e o que pode ser efetivamente “é”, abstrações matemáticas como “espaço amostral” (conjunto de possibilidades) e “eventos estatísticos” (subconjuntos do espaço amostral) também são entidades concretas que se manifestam como onda: onda de probabilidades. Em suma, se, no mundo “newtoniano”, os entes matemáticos afiguram-se a todos nós como ficções úteis, no microcosmo dos quanta, ao contrário, eles não são pura forma, mas algo que tem “substância”: são entes concretos, reais, cuja existência pode ser indiretamente observada ou inferida a partir da análise do comportamento de um único fóton, de um elétron singular ou mesmo de partículas mais massivas como um próton ou um nêutron.[3]

Sim, é possível que a racionalidade matemática no que tem de fundamental seja anterior ao universo e que a realidade subatômica consista numa zona de transição entre esta razão fundamental e o mundo em que vivemos, mundo cuja razão é incerta e que se manifesta mais frequentemente como “leis do acaso” (de fato, até a “ciência” da matemática – não devemos confundi-la com o seu “objeto” – não é totalmente precisa, haja vista que, de seus axiomas, não se chega apenas a verdades, mas também a paradoxos). Se assim for, a Deus se poderia atribuir uma existência objetiva. Não se trata de objetividade física, é claro, nem mesmo de objetividade cultural (“objetivo” no sentido de “intersubjetivo”), mas objetividade matemática.  A epifania de Deus seria, então, uma fórmula lógico-matemática autorreferente, isto é, autodemonstrativa (Deus como causa sui ou causa de si mesmo) e da qual se inferiria a lei física fundamental do universo em que vivemos, se não as de muitos outros — afinal, nosso universo particular pode ser apenas um entre muitos outros universos possíveis, todos coexistindo de certa maneira.

Mas não é preciso denominar de Deus essa razão-de-ser imanente ao mundo ou, talvez, anterior a ele. Eu próprio não a chamaria assim, atitude esta que me distancia dos místicos e dos teólogos. Não a designaria por este termo porque considero o significante “deus” como tendo um valor essencialmente afetivo. Considero-o um termo que reflete particularidades da condição humana e não uma forma lógica que designa algo geral da natureza “exterior”. Pois, para nós – uma espécie de macaco que retém na idade adulta muitos caracteres da infância, inclusive psicológicos, como, por exemplo, a dependência emocional na relação com os genitores – Deus é, antes de tudo, o substituto dos pais, ou melhor, a sua metáfora. Deus é um significante intrinsecamente ligado a outro significante (pais) que por sua vez significa “aqueles que nos geraram e que cuidam de nós”. Ora, dos pais o que mais nos importa não é o fato de eles nos terem gerado, mas o cuidado que nos dedicam, sua proteção, amor, o fato deles serem nossos provedores. Logo, não se nomina “Deus” essa razão fundamental que tanto se procura – às vezes com o mesmo desespero das crianças que se perdem da mãe – apenas porque ela gerou o universo e, portanto, em última análise, também nos gerou. Quem chama de Deus seja a Razão-de-ser do universo ou o próprio universo como um todo está pressupondo que essa razão e esse todo têm alguma preocupação ou interesse por nós e que a felicidade dos homens é necessária para a harmonia universal. Não creio que seja assim.

Deem, portanto, a essa Fórmula que explica o porquê de haver algo e não nada o nome que quiserem. Pode ser O Princípio Universal, A Razão-de-Ser, O Ser Necessário, A Geratriz da Natureza ou, simplesmente, A Fórmula. Mas convém escrever esses termos e expressões com iniciais maiúsculas, como fazemos com a palavra Deus. Seria um modo de sinalizar e de reconhecer a continuidade que há entre a fase mística e a secular desta eterna busca do sentido – desta procura ora esperançosa, ora desesperada, por uma simetria de reflexão entre o pensamento e o ser.

Postscriptum — Sobre a intuição matemática

Para Immanuel Kant (1724–1804), os enunciados matemáticos não são tautologias estendidas — sentenças analíticas cujos predicados apenas repetem, de modo implícito ou “confuso”, o que já está contido nos sujeitos. Ao contrário, em sua obra Crítica da Razão Pura, o Filósofo sustenta que a matemática só se ocupa com “objetos e conhecimentos que podem ser representados na intuição”; que “todos os juízos matemáticos são, sem exceção, sintéticos” — sintéticos a priori. Significa dizer que o pensamento matemático, baseando-se em axiomas derivados de propriedades da intuição pura e, ademais, operando com a ajuda recorrente da intuição – i.e., do raciocínio por analogia (abdução), da imaginação geométrica, da orientação por critérios estéticos (a beleza das simetrias) – desenvolve o seu próprio objeto; acrescenta, no decorrer do tempo, qualidades novas ao Constructo; produz, constante e cumulativamente, conhecimentos inauditos.[4]

Admitindo-se, portanto, a existência da intuição matemática (a propósito, uma das conclusões dos teoremas da incompletude é que a verdade matemática – ou melhor, a de qualquer sistema formal de axiomas – ultrapassa, de certo maneira, a demonstrabilidade), isto posto não é insensato conjeturar que dela derive uma intuição mística; que, de acordo com algumas correntes da filosofia antiga, entre as quais o estoicismo grego, é possível o acesso por apreensão direta (katalêpsis) de um e outro juízo verdadeiros (phantasia kataleptikê), verdades estas não triviais.

Ora, Gödel “mostrou” uma proposição aritmética – a fórmula Pk(K) – cuja verdade é “óptica”, apesar de inexistir regra aritmética que a demonstre. Dadas as conclusões, cogita-se que a revolução gödeliana reintroduziu, no campo do saber possível, determinada variedade do pensamento místico, certamente a com menos ruídos folclóricos e dissonância máxima da mimese mágica: o misticoidismo — que a prova Pk(K) da verdade indemonstrável é razão suficiente para que a Mystica seja vista com deferência, não só pela perspectiva da moral de convivência – o devido respeito às opiniões diferentes – como, também, pelo restrito prisma da Gnosiologia.

Sobre Kurt Gödel, era esse filósofo um platônico convicto, e se platonismo não é misticismo, a afinidade entre ambos configura-se patente. Aliás, famosa é sua versão do argumento ontológico favorável à existência de Deus, elaborada no rigor da lógica simbólica. Quanto aos seus teoremas da incompletude, numa carta à mãe escrita em 20 de outubro de 1963, ele afirmou com regozijo: “É de esperar que, mais cedo ou mais tarde, minha prova se torne útil à religião, pois isso se justifica em certo sentido.” [5]


BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio. Fortaleza: APEX, 2005, 81-90 p. — Nova versão do ensaio Magia, misticismo e matemática.






[1] BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 45.
[2] PENROSE, Roger. O grande, o pequeno e a mente humana. São Paulo: Ed. UNESP, 1998, p. 19.
[3] A onda-de-probabilidades dos quanta não como noema (produto do pensamento), mas como onda-matéria — “matéria” no sentido filosófico e leninista do termo, isto é, objeto que existe independentemente da consciência.
[4] Ver Dicionário Kant, de Howard Caygill (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000, verbetes Intuição, Juízo analítico, Juízo sintético a priori, Matemática e outros).
[5] Apud GOLDSTEIN, Rebecca. Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.162. 













terça-feira, 14 de junho de 2011

A METAFÍSICA COMO ARTE DO CONCEITO (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

 

Sistema dos mundos elaborado por Johannes Kepler, em que os poliedros regulares pitagóricos definem as distâncias entre as esferas planetárias. Para Kepler, a beleza das simetrias geométricas era um dos critérios da Verdade.
  


BULCÃO NETO, Manuel Soares. Sombras do Iluminismo. Rio de Janeiro: Ed. 7Letras, 2006, p.149-167.


OBJETOS TEÓRICOS BELOS — Todo indivíduo humano, como qualquer animal, nasce por acaso (contrariando todas as expectativas) e morre por necessidade. De um ponto ao outro da sua existência, ele ocupa o tempo consumindo, amando, divertindo-se, entristecendo-se, cogitando, sonhando e, sobretudo, “criando”. Sim, o homem é um espírito que suja as mãos na matéria e “cria”: produz deliberadamente, e em complexa cooperação com outros homens, seus víveres, suas indumentárias, sua moradia, suas armas e seus instrumentos de trabalho. E se produz tudo isso, porque não haveria de produzir, também, o sentido da sua vida? Não seria correto, ao menos em parte, o postulado romântico de que “os objetivos são criados, e não descobertos”? Ou seja, que o sentido, a razão de ser da existência, longe de ser alguma coisa dada de antemão, incriada e que existe alhures – uma verdade absoluta de difícil acesso para o nosso entendimento – é, ao contrário, um produto da atividade humana, atividade esta livre e criadora?

A especificidade da atividade humana e a sua relação com o sentido é uma questão de suma importância. Graças ao processo criativo, pode o homem superar a distância, aberta pela consciência, [1] entre o “Eu” e o “Isso”, reduzindo, deste modo, a um nível suportável – metabolizável – aquela sensação de estranheza e de absurdo a qual já nos referimos. Pois o produto do trabalho humano, como todos nós sabemos, não vale apenas pela sua utilidade: ele vale também pela sua beleza; isto é, o homem, ao produzir objetos de uso, ele os produz de tal modo e com tanto esmero que, ao término do processo produtivo, terá diante de si um objeto não só consumível, mas, igualmente, agradável aos sentidos (um jarro “bonito”, um automóvel “elegante”, uma casa “encantadora”, um prato “cromaticamente harmônico” etc.). Disso se infere que o trabalho humano é uma atividade regida por dois tipos de finalidades: a finalidade utilitária e a “estética”. Aliás, existem artífices que não estão nem um pouco preocupados em produzir coisas úteis: eles despojam a sua atividade de todos os entraves utilitaristas, passando então a produzirem, conforme uma expressão de Marx, apenas “de acordo com as leis da beleza”. A esses artífices damos o nome de “artistas”, que se distinguem entre si pela matéria-prima sensorial com que trabalham. Há, pois, os artistas que lidam com as cores (os pintores), com as formas da matéria (os escultores), com os sons (os músicos), com os sabores (os mestres-cucas), com os odores (os perfumistas), com os movimentos do corpo (os dançarinos) e há também os que, como os escritores e poetas, vão além da sensação e, trabalhando com a linguagem, constroem estruturas semânticas em que o anímico predomina sobre o lógico e o afeto sobre a intelecção.

Pois bem, se perguntarmos a um artista o que é o belo, talvez ele não saiba responder a esta pergunta em termos conceituais (em regra, os artistas são demasiado sintéticos e pouco dados a análises); mas, com certeza, concordará que o sentimento do belo, assim como o orgasmo e a embriaguez, suprime as fronteiras do eu com o não-eu; que a beleza é o corolário emocional de uma identidade, estabelecida pela atividade criadora, entre o espírito e a matéria; e que, portanto, conforme uma expressão de Rubem Alves, “no êxtase estético sujeito e objeto se unificam numa mesma estrutura significativa”. [2]

“É criando coisas boas e belas ou recriando o mundo no pensamento” — escrevi no ensaio “O alter ego noturno” [3] — “que o espírito humano se liga à matéria num patamar superior (uma reunião precária, frágil, mas mesmo assim uma união). É criando que o homem põe a serviço da vida o seu demônio de Dostoievski; pois, afinal, criar é negar afirmando ou afirmar negando (…). Sendo assim, quando o processo de criação é bloqueado, tolhido, inicia-se a partir daí um movimento no sentido contrário; isto é, em vez de Mefistófeles – o espírito que tudo nega [segundo Goethe] – servir à vida, é esta que se torna serva do demoníaco. E o que antes era apenas insatisfação se transforma em infelicidade, naquele ódio que arrasta tudo de volta à origem inorgânica, ao ventre da natureza morta, ao passado mineral – em suma àquele nirvana primevo onde não havia dor… nem orgasmo”.

Além das atividades práticas – práxis material-produtiva, artística, política e científico-experimental – existem outras atividades humanas que, apesar de não implicarem uma transformação direta da matéria, têm as mesmas características do “fazer” material. Tal é o caso do processo de conhecimento ou atividade teórica. Realmente, como salientou Kant, o conhecimento humano não apenas reflete: ele também cria, e só reflete na medida em que cria. Ou seja, a atividade cognitiva é um processo de produção que tem por matéria-prima os dados sensórios e os conceitos; por instrumentos de “trabalho” as regras metodológicas, a matemática aplicada e os princípios da lógica; e por produto final, aquilo que Althusser denominou de objeto teórico (as hipóteses, os teoremas, os filosofemas etc.), sendo este objeto teórico uma reprodução, permanentemente inacabada, do objeto real.

Ora, se a atividade teórica, que visa a estabelecer uma correspondência entre os juízos e os fatos, é um processo de produção, não há, em razão disso, uma possibilidade de o sujeito do conhecimento agir como o artesão que realiza em seus produtos, além da sua finalidade prático-utilitária, uma finalidade estética? Ou seja, não pode o “trabalhador intelectual”, movido pela mesma necessidade de se religar ao mundo, vir a produzir objetos teóricos “belos”?

Com efeito, vislumbra-se em todas as variantes do pensamento metafísico a existência – ora tênue, ora ofuscante – de uma dimensão estética. Até mesmo no materialismo mais radical, onde a subjetividade humana “parece” estar ausente, nota-se em certos traços a presença do belo (uma beleza agreste, como a de uma composição de Mondrian). Destarte, a impressão que se tem é a de que todo metafísico procura, mediante esforço intelectual, alguma coisa além do mero conhecimento do Ser; que o filósofo, munido com os seus bisturis mentais, “esculpe” as representações da realidade de modo a torná-las menos banais e mais simétricas. Dito em outras palavras, o filósofo metafísico é um artesão que, como qualquer outro, também trabalha poeticamente a sua matéria-prima, que, no caso, são os conceitos.

Diga-se, no entanto, que esse tropismo do pensamento em relação ao belo não é uma idiossincrasia do saber metafísico. Também os cientistas, embora impedidos pelo princípio da objetividade – e pelo permanente contato com a matéria – de alçarem grandes vôos líricos ou épicos, também são orientados em suas pesquisas por preocupações tanto racionais como estéticas. É o que sustenta o físico teórico Paul Davies. Em seu livro Superforça, o autor afirma que “por mais nebuloso que seja o conceito de beleza, não há dúvida de que ele serve de fonte de inspiração a muitos cientistas profissionais. Quando, por vezes, o caminho a seguir não é suficientemente claro, é à beleza matemática e à elegância que cabe o papel de guias. O cientista professa intuitivamente a fé irracional de que a natureza deve preferir o belo ao desagradável”. Corroborando esta asserção, Steven Weinberg declarou, numa entrevista concedida ao escritor Timothy Ferris, que “talvez a natureza seja fundamentalmente ‘feia’, caótica e complicada. Mas se assim for, eu desisto”. [4]

O PENSAMENTO ARTÍSTICO DE NIETZSCHE — Se a beleza de uma teoria científica não é senão a beleza da verdade “objetiva” (segundo John Keats, “o belo é verdadeiro e a verdade é bela”), há, entretanto, uma região do espectro metafísico em que a beleza de uma construção teórica se dá a expensas da verdade. Esse matiz extremo é o irracionalismo nietzschiano.

Com efeito, no pensamento de Nietzsche o senso da beleza agigantou-se de tal modo que obnubilou por completo o sentido da verdade. Ou seja, na sua filosofia, o sentimento do belo não surge de uma identidade, estabelecida pela experiência, entre a simetria do pensamento e a do mundo real; ao contrário, o elemento estético agiu no espírito de Nietzsche tal como um “estranho atrator” que quebra simetrias e tudo arrasta para o caos.

Nietzsche não era um desses metafísicos criadores de sistemas que buscam reproduzir no plano das idéias a racionalidade do mundo; em vez disso, sua filosofia opõe-se à Razão, e se lhe opõe em nome da arte: da arte que – declara o filósofo – consiste numa forma superior de pensamento.

O irracionalismo de Nietzsche, consoante as palavras de Gilles Deleuze, não é do tipo que “opõe à razão alguma coisa que não o pensamento: os direitos do dado, os direitos do coração, do sentimento, do capricho ou da paixão. No irracionalismo [nietzschiano] , trata-se apenas do pensamento, apenas do pensar. O que se opõe à razão é o próprio pensamento; o que se opõe ao ser razoável é o próprio pensador”.[5] Esse pensador que nega a razão é, precisamente, o filósofo-artista: o filósofo que não quer conhecer a verdade, mas criar valores novos. Para esta estirpe de filósofo, o elemento do pensamento não é a verdade, mas o sentido e o valor; suas categorias não são o verdadeiro e o falso, mas o nobre e o vil, não sendo, portanto, a lógica – ou seja, as leis da razão – um dos critérios da verdade, mas tão-somente um meio de adequar o mundo a uma falsificação útil. [6] O que Nietzsche quis dizer com isso? Quis dizer que o pensamento autêntico não é aquele que chamamos de conhecimento. Este, por ser um pensamento submisso à razão, a serviço das forças reativas (um pensamento de escravo, segundo este filósofo), visa acima de tudo à verdade por mais vil que ela seja; ao passo que aquele – o pensamento artístico e legislador – prefere a nobre mentira à verdade baixa. Pois o pensamento ativo, senhoril, afirma a vida tal como ela é: não a vida “verdadeira”, considerada em sua essência, mas a vida vivida “em conformidade com a aparência, isto é, para errar, enganar, dissimular, ofuscar, cegar (…)”.[7] E se o filósofo é um artista, a arte, por sua vez, “é o mais alto poder do falso, ‘magnifica o mundo enquanto erro’, santifica a mentira, faz da vontade de enganar um ideal superior”.[8] “Precisamos da arte” – proclamou Nietzsche em A Vontade de Poder – “para não morrer da verdade”.

Na história do Pensamento Ocidental, o irracionalismo nietzschiano representa a mais bem elaborada reação ao iluminismo, para o qual a verdade – obtida por meio da razão metódica – é o próprio bem. Os iluministas tinham a correta percepção de que os despotismos, os sistemas sociais assentados na exploração da maioria por uma minoria, eram mantidos não só pela força das armas, mas também pelo embotamento das consciências suscitado pelas superstições, crenças infundadas, mentiras deliberadas e, sobretudo, pelo culto ao mistério (segundo o ultra-reacionário filósofo católico Joseph De Maistre [1753/1821], o obscuro e o misterioso formam os alicerces da vida social e política; sustentava que a autodestruição dos homens só pode ser evitada pelo terror que lhes incute o Mistério. É por medo dos mistérios da vontade divina – sustentava esse filósofo, considerados por alguns o “anti-Voltaire” – que os indivíduos se organizam, e, desta forma, reproduzem a existência da espécie).

Mas se a mentira, o engodo tático, o obscurantismo e o desconhecido como fonte de angústia representam, de fato, instrumentos de dominação, isso não implica que o seu oposto, isto é, o conhecimento da verdade, seja algo em princípio bom, “libertador”. Afinal de contas, se a faculdade de “fantasiar” é uma característica que a seleção natural reteve, preserva e aprimora, em que consiste, então, o seu valor adaptativo? Será que a fantasia consiste tão-somente na matéria prima com a qual os projetos são fabricados ou, mais que isso, não serviria ela, também, para preencher as lacunas do conhecimento ou mesmo para dourá-lo e até, em certas situações-limites, para substituí-lo? Pior que a dor é a dor sem esperança e propósito. A ilusão religiosa de que todo sofrimento tem uma razão de ser – por exemplo, consiste ele numa reação cármica – e uma finalidade – libertação através da expiação – torna a existência dorida suportável, preferível à não-existência, ao auto-aniquilamento. Em alguns casos de psicose psicogênica, o indivíduo, não mais suportando a cruel “realidade dos fatos”, dela se evade, passando a viver no mundo “sem limites” dos delírios e alucinações.

No meu ensaio Magia, Misticismo e Matemática escrevi que, “com exceção dos que amam a verdade (pois, quem ama sem hipocrisia aceita as dores que o seu amor lhe inflige), as pessoas acreditam no que as faz sentirem-se bem, acreditam porque se sentem bem em acreditar. Cenestesia positiva ou bem-estar, eis o que elas mais esperam de suas crenças. Infelizmente, a verdade nem sempre nos faz sentirmos bem. Com freqüência, a verdade dói, incomoda, é causa de desconforto e de sofrimento. Por isso que é comum o divórcio entre crença e evidência e, por conseguinte, o concubinato daquela com o absurdo”. [9]

É inegável a contribuição para o avanço da civilização da ação do iluminismo – e, atualmente, de algumas correntes neo-iluministas, como é o caso do movimento cético-racionalista – no sentido de destruir os ardis dos charlatões, as prestidigitações dos magos, os sofismas dos “advogados do diabo” e, num sentido mais amplo, de dissipar a ignorância – a “falsa consciência” – que dá suporte espiritual à escravidão, à exploração do homem pelo homem. No entanto, não compreenderam os iluministas (incompreensão que se mantém em muitos dos seus herdeiros) que a religião é maior que a casta sacerdotal e seus corporativos interesses econômicos e políticos; que, assim como a tecnologia que a ciência proporciona pode servir tanto à vida como à morte (a bomba H é a ilustração mais cabal dessa última serventia), também o mito, malgrado a sua instrumentalização pelos usurpadores, classes e castas dominantes (clérigos, guerreiros, aristocratas fundiários etc.), propicia aos homens consolo e conforto: com suas explicações fantasiosas, contorna as aporias e os limites da condição humana, mitiga a sensação de absurdo, confere significado ao sofrimento e propósito à vida.

Ora, ao destruir o mito, o que a ciência põe no seu lugar? — Um conjunto de leis que opera às cegas e sem nenhuma consideração pelos anelos e paixões humanas; a visão de um mundo complexo, porém imperfeito, e que, obedecendo ao princípio universal da degradação da energia, ruma inelutavelmente para a friagem inóspita, o silêncio absoluto e a escuridão eterna. Diante dessa paisagem desoladora, desse vasto e gratuito universo em que nossa existência não passa de um “ponto matemático [onde] o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa” (Ivan Turguêniev, Pais e Filhos), não é de admirar que até homens de ciência e os espíritos mais esclarecidos sintam, vez por outra, vívida nostalgia pelos mitos e lendas da infância da raça (o mundo fantástico de Homero), suspiro que o poeta Willian Wordsworth expressou nos seguintes versos:

“(…) Meu Deus, preferiria ser
Um pagão absorvido por um credo obsoleto,
De modo que pudesse, de pé neste belo prado,
Vislumbrar o que me tornaria menos desamparado,
Avistar Proteu emergindo das ondas
Ou ouvir o velho Tritão soprar sua enfeitada cornucópia”.

Por isso que uma fração do iluminismo, para sobreviver, converteu-se em cientificismo. Este, longe de destruir o mito, limita-se a secularizá-lo, a reconstruí-lo por meio do pensamento conceitual (com efeito, a “Humanidade” hipostasiada de Comte, a “mão invisível” do ultra-liberalismo, a “seleção natural” do social-darwinismo – que produziu o olho da águia, o comportamento estereotipado das abelhas, a “verdadeira” ética [10] etc. – e as “férreas leis da História” do marxismo-leninismo representam os grandes mitos científicos da nossa época, as divindades laicas que reclamam o trono de Iavé e Alá). E, como qualquer mitologia, também o cientificismo pode servir tanto de porto seguro – as ideologias científicas “arrumam” o universo de forma a lhe dar uma aparência de lar – como de instrumento de dominação.

Nietzsche, por sua vez, em oposição ao “mundo-verdade” da ciência e da filosofia racionalista, celebrou o pensamento artístico que, como foi dito, “prefere a nobre mentira à verdade vil”, o fértil mundo fenomênico ao deserto das essências puras, a arte que encanta ao conhecimento desencantado.

Acontece que, se a verdade não é em princípio boa (no sentido moral), o mesmo se pode dizer sobre o belo e outras categorias estéticas, como o sublime. Aliás, a universalidade de uma obra de arte manifesta-se em seu poder de proporcionar gozo tanto ao condenado como ao carrasco. A orquestra de Auschwitz, cujos músicos eram judeus cativos, tocava Beethoven, Schumann e árias de Puccini com o fim de entreter os verdugos da SS e, ao mesmo tempo, para consolar os desgraçados a caminho das câmaras de gás.

A atividade artística é capaz de realizar transfigurações paradoxais: pode evocar o feio e repulsivo por meio de belas e atraentes metáforas; pode transformar a cadência triste do choro ou do lamento em agradável melodia (p.ex., um blues); pode moderar a dor da solidão apenas fazendo-a rimar com multidão. Também transforma os infortúnios da vida em arte trágica (vamos ao cinema e ao teatro para nos “deleitar” com a infelicidade de Otelo, Hamlet, Willy Loman etc. — Segundo Edmund Burke, “o deleite [delight] se nutre ao mesmo tempo de prazer e dor”). Até da crueldade, da humilhação, do asqueroso, do terror e do horrível pode-se obter gozo estético, bastando para tanto que sejam intensos, desmedidos, transbordantes. Pois, como afirmou o filósofo mexicano Adolfo Sánchez Vázquez, a experiência estética do sublime “surge na relação entre a grandiosidade e a infinitude de um fenômeno e as limitadas forças humanas, ou quando estas alcançam um poder que ultrapassa desmesuradamente o cotidiano ou o normal”. (…) “O sublime é o desmedido na natureza e na vida humana”. [11]

Com efeito, a ética aristocrática professada por Nietzsche é desmesurada em seu reacionarismo, anti-humanismo, crueldade, maldade, arrogância, desprezo pelos fracos, ojeriza à democracia e apologia do despotismo. Por isso que sua obra, particularmente o poema Zaratustra, é sublime, capaz de incitar tanto em seus discípulos como em seus críticos as mais fortes emoções e fascínio (“este livro me atraiu com aquela força que possui tudo quanto nos contradiz, tudo que nos é antípoda” – A Genealogia da Moral, Prefácio, IV). Sua terrível filosofia, que renega o conhecimento em nome do pensamento livremente criador – portanto, sem qualquer compromisso com a verdade – não é outra coisa que uma tentativa de fazer com que a arte acumplicie o obscurantismo e revigore a mentira e o sofisma como instrumentos de poder.

Transcrevo abaixo algumas "pérolas" do pensamento artístico de Nietzsche que corroboram ad nauseam o julgamento acima: [12]

Desprezo pela maioria: “Os homens efeminados, os filhos de escravos e sobretudo a populaça mestiça, tudo isso quer hoje ter nas mãos o destino humano – ó nojo, ó nojo, ó nojo!” (Zaratustra, IV, Do Homem Superior); “As camadas inferiores são tratadas humanamente demais” (Vontade de Potência, I)
Extermínio dos fracos: “Morram os fracos e os fracassados: primeiro princípio de nosso amor dos homens. E que sejam ajudados a desaparecer!” (Anticristo, 2)
 Justificação da escravidão: “Toda elevação do tipo humano sempre foi e sempre será obra de uma sociedade aristocrática, de uma sociedade que crê em múltiplos modelos de hierarquia e de valores entre os homens e que, sob uma ou outra forma, requer a escravidão”. (Além do Bem e do Mal, 257); “Uma boa e verdadeira aristocracia [deve aceitar] sacrificar de bom grado uma multidão de pessoas que deverão ser, no interesse dessa aristocracia, humilhadas e reduzidas à condição de seres mutilados, de escravos, de instrumentos”. (Além do Bem e do Mal, 258)
Anti-semitismo: “Será ainda preciso que eu diga que em todo o Novo Testamento só aparece uma única figura que se deva honrar? Pilatos, o governador romano. Ele não conseguia levar a sério uma briga de judeus. Um judeu a mais ou a menos – que importa?” (Anticristo, 46); “Os Romanos eram os fortes e os nobres, mais que todos os povos da terra… Os judeus, pelo contrário, eram um povo levita e rancoroso por excelência, um povo que possuía um singular gênio para a moral plebéia…” (A Genealogia da Moral; Dissertação Primeira; XV)
Racismo: “Quem nos garante que a democracia moderna, o anarquismo ainda mais moderno e sobretudo essa tendência à Comuna, à forma social mais primitiva, hoje cara a todos os socialistas da Europa, não sejam, em sua essência, um monstruoso efeito de atavismo – e que a raça dos conquistadores e dos senhores, a raça dos arianos, não esteja sucumbindo até fisiologicamente?…” (A Genealogia da Moral); “São esses heróis dos instintos de rebaixamento e de ódio, herdeiros de tudo que na Europa ou alhures nascera para a escravidão, esses resíduos de elementos pré-arianos em particular – são eles que representam o recuo da humanidade!” (A Genealogia da Moral); “No fundo destas raças aristocráticas é impossível não reconhecer a fera: o bruto de loiros cabelos em busca da presa”. (A Genealogia da Moral)
 Negação da Democracia: “Nós que reivindicamos uma outra fé, que consideramos a tendência democrática não só uma forma degenerada da organização política, mas também uma forma decadente e diminuída da humanidade, que ela reduz à mediocridade e cujo valor ela rebaixa, onde poremos nossa esperança? Em filósofos novos, não temos outra opção… Para tanto precisaremos um dia de uma espécie nova de filósofos e de chefes, cuja imagem fará empalidecer e se encarquilhar tudo o que a Terra já viu de espíritos secretos, temíveis e benévolos”. (Além do Bem e do Mal; 203)
 Apologia da crueldade: “O ser mais transbordante de vida, o dionisíaco, deus ou homem, pode se permitir não apenas encarar o enigmático e o pavoroso, mas também cometer o pavoroso, e se entregar a qualquer luxo de destruição, de perturbação, de negação; considera que a maldade, a insanidade e a feiúra lhe são permitidas em virtude de um excesso de forças criadoras que podem fazer do próprio deserto um solo fértil”. (A Gaia Ciência; 370); “O pior mal é indispensável ao bem do super-homem”. (Zaratustra, IV)
Anti-humanismo: “O homem é algo que deve ser superado”. (…) “Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso e de dolorosa vergonha. E é justamente isso o que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso e de dolorosa vergonha”. (…) “O sentido da Terra é o super-homem.” (…) “O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso”. (Zaratustra; prólogo)
Sexismo: “É preciso que o homem seja educado para a guerra, e a mulher, para o descanso do guerreiro. Tudo o mais é estultice”. (…) “Vais ter com mulheres? Não esqueças o chicote”. (Zaratustra; das mulheres velhas e jovens)
Defesa da guerra: “Deveis amar a paz como meio para novas guerras. E mais a paz curta que a longa.” (…) “Dizeis que a boa causa santifica até a guerra? Eu vos digo: a boa guerra santifica qualquer causa” (…) “A guerra e a coragem realizaram grandes coisas, muito mais do que o amor ao próximo” (Zaratustra; da guerra e dos guerreiros)

É mister salientar que, ao contrário do que podem alegar algumas viúvas de Nietzsche, as sentenças transcritas não estão descontextualizadas, uma vez que o estilo do autor é aforístico. Ora, os aforismos, apotegmas, máximas e ditados são textos sem contexto, já que encerram em si todo o argumento. Ah!… Quanto às reticências, devo dizer que elas não omitem nada que não sejam “belas” redundâncias. Qualquer dúvida é só ir à fonte, devidamente indicada.

Pode-se, ainda, em favor de um improvável Nietzsche humanista e até filo-iluminista (para a arte da eloqüência, nada é impossível), sustentar que a expressão ipsis litteris é tão-somente uma entre as inumeráveis interpretações que o texto permite; pois, como sublinhou o próprio filósofo, “não há fatos, só interpretações” (a propósito, esta sentença é fato ou interpretação?). Aos que sustentam esse argumento de desespero, somente me resta desafiá-los a apresentar uma versão não literal que seja algo mais que um amontoado de arabescos retóricos, isto é, alguma coisa minimamente inteligível e sensata. Evidentemente que alguns eruditos podem, em defesa de um Nietzsche mais “palatável” aos espíritos racionalistas, citar um ou dois de seus textos, como, por exemplo, O andarilho e sua sombra (1880) e Aurora (1881). Acontece que, como frisou Lucio Coletti, o Nietzsche de Aurora não é o “verdadeiro” Nietzsche (entrevista a G. Mughini; Mondoperaio; 1977): não é por Aurora que Nietzsche atualmente ocupa o lugar de destaque na história da Filosofia. As obras que fizeram deste filósofo uma “dinamite” e que talvez, um dia, farão dele uma espécie de santo (como ele próprio previra em Ecce Homo)são aquelas através das quais fala, com luminosa erudição, a besta-fera narcisista que habita esse labirinto escuro que é o Id: Zaratustra, Além do Bem e do Mal; Genealogia da Moral, O Anticristo e os ensaios reunidos em A Vontade de Potência.


METAFÍSICA E PENSAMENTO OBJETIVO — O pensamento é, antes de tudo, ferramenta de sobrevivência, uma vez que produz conhecimento da natureza, conhecimento este que permite ao ser pensante transformar essa mesma natureza e, assim, convertê-la em objeto útil, condizente com suas necessidades materiais prementes.
Mas a produção do conhecimento não é a única função do pensamento. Este também produz sentido e valores; isto é, não contribui apenas para criar abrigo para o corpo, mas também lar para o espírito – espírito atormentado que, não raro, renega a própria carne, que não se resigna aos limites e imperfeições da vida e que não cessa jamais de perguntar: “comer, sobreviver, reproduzir… o que isso significa?” (Hardin).

O pensamento como instância psíquica independente do sentimento e da vontade – portanto, pensamento rigoroso e crítico – é uma conquista relativamente recente. Surgiu na Antiguidade Clássica, entre os gregos, e, mais especificamente, naquelas cidades-Estados de regime democrático em que os litígios entre os cidadãos eram resolvidos não pela força, mas por um juízo a princípio “neutro”, através da argumentação “lógica” e por meio da busca do “consenso”. Ora, para que as contendas fossem resolvidas desta forma, era necessário um critério “objetivo”, “universal”, independente dos interesses particulares, das paixões, e aceito por todos. Esse critério poderia ser – como de fato o foi em outros cantões do Planeta – as escrituras sagradas de um culto monoteísta. Felizmente, a religião grega não só era politeísta como o seu panteão vivia em permanentes brigas intestinas. Que justiça esperar de deuses passionais, caprichosos, eles próprios vivendo em dissensão, capazes de devorar os próprios filhos ou de, por que alguém (deus ou mortal) lhes roubou o sono, perpetrar catástrofes indescritíveis? Realmente, as divindades olímpicas – demasiadamente humanas até em suas “desumanidades” – não eram confiáveis; ou melhor, na nova forma de governo então vigente (a democracia), não mais condiziam com a função de manter a sincronia social, de integrar os indivíduos. À que, então, apelar? — Às regras do pensamento correto, aos rigorosos princípios da Lógica, sistematizados pela primeira vez por Aristóteles em sua grande obra Organon.

Antes dessa revolução, o pensamento humano era mágico, volitivo, orientado sobretudo pelo princípio do prazer. Esse pensamento paleológico, operando através de signos (um sistema de notações que, segundo C. Lévi-Strauss, situa-se entre a imagem e o conceito), transfigurava o mundo mais que o refletia, organizava as fantasias em vez de dissipá-las. As cosmovisões mitológicas da humanidade arcaica, produtos desse pensamento silvícola, são, precisamente, construções mentais cujo valor está em sua capacidade de “justificar” a vida, de dar à existência uma medida humana, ao mundo um “significado”, e, desta forma, dirimir nos homens as sensações de absurdo, gratuidade, alheamento, solidão, desamparo e remorso.

Pois bem: seria o pensamento conceitual, metódico, científico e submetido ao princípio da realidade capaz de satisfazer esta humana necessidade de “transcendência”, isto é, de aplacar este anseio de integração ao mundo num patamar superior?

As ciências empíricas lidam exclusivamente com juízos de fato. Suas retrodições e predições consistem em possibilidades fatíveis, constatáveis no tempo factual: o pretérito e o futuro do presente. Ocorre que o movimento intencional da consciência humana não se dá apenas nesse tempo factual (“assim foi, assim é, assim será… que banalidade!”). Com efeito, o homem é capaz não só de “pensar” o contrafactual como também de “preferi-lo” à realidade. Ou seja, podemos “imaginar” um passado que não aconteceu – o pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo – e, com base nesse passado irreal, “sonhar” com um futuro não mais viável, impossível de ocorrer: o futuro do pretérito do indicativo. De resto, o homem (animal dotado da faculdade de presciência), como que contrariando o princípio da anterioridade temporal da causa, pode fazer com que situações futuras orientem sua atividade prática e, desta forma, alterar o rumo dos eventos.

Em síntese, devido à faculdade da imaginação (imaginação “matemática”, inclusive), nossa relação com o real stricto sensu – i.e., com o mundo paroquial da experiência – é de relativa autonomia e liberdade. O homem, conforme declarou o escritor austríaco Robert Musil, não é “um fio na trama do tecido universal, [mas] um fio que se ergue sobre esse tapete”. Comparado ao vasto campo do possível e ao universo ainda mais amplo do fantástico, o real é algo demasiadamente pobre (nele, muitas coisas ruins e outras tantas boas não cabem) e disso temos consciência. Assim, a ciência empírica, por ser a ciência do real e do factual, tem-se mostrado canhestra em suas tentativas de construir moradas para o espírito. Aliás, pensando bem, melhor que não tente mais; pois, como vimos antes, nas vezes em que cientistas e diletantes amigos da ciência tomaram para si essa empreitada, ensejaram ideologias que, longe de serem alternativas aos mitos e suas mazelas, consistiam elas próprias em mitologias com sinal trocado: em outras religiões intolerantes que não propõem suas crenças, antes as impõem – só que, desta vez, pela força da objetividade científica, valendo-se da autoridade dos fatos.

Portanto, no lugar de tentar produzir, através do processo do conhecimento, os fins últimos da existência (como se o método científico fosse capaz de esgotar toda a existência), melhor que a ciência concentre-se na função de promover mais e mais a liberdade negativa: de, por meio do esclarecimento e da sua tecnologia, diminuir a margem de incerteza da vida; de livrar os homens do acicate da fome, do frio e dos sofismas dos rábulas a serviço da escravidão; de estabelecer condições para que a vida não se restrinja a um exaustivo e doloroso esforço de reproduzir a si mesma “sem quê nem pra quê” (vida vivida no limite da morte); de substituir a infelicidade neurótica, se não pela bem-aventurança, ao menos pelo descontentamento normal. (Freud)

Diga-se, no entanto, que entre o factual – objeto das ciências empíricas – e a fantasia pura – a matéria-prima dos mitos – existe o universo riquíssimo das possibilidades lógicas e das imaginações plausíveis. Trata-se do domínio da Razão especulativa, do campo de atuação de um pensamento ao mesmo tempo objetivo e artístico, criterioso e livre, racional e criador (A propósito, acresce dizer que entre as suas mais belas criações figura o método científico-experimental) e que, segundo o matemático Alfred North Whitehead, tem por função “desvendar as razões gerais, situadas acima das razões restritas”. — Pensamento que “busca o inatingível”; que se move “em direção à finalidade última das coisas”; que “se volta para leste e para oeste, para o começo e para o fim, como que espreitando além das fronteiras do mundo”. [13]

Se, como afirmamos no começo deste capítulo, um dos conhecimentos científicos mais sólidos é, precisamente, o conhecimento dos limites da ciência, então uma cosmovisão cientificamente fundamentada não pode deixar de ser a visão de um mundo que jamais se revela por inteiro, que não pode ser conhecido in totum, de forma cabal. Seria isso uma fraqueza da ciência em relação ao mito, o qual, como se sabe, é onipotente em seu poder explicativo (afinal, a fantasia é um fluido luminescente capaz de preencher qualquer falha ou lacuna)? Não, e por um motivo simples: o desconhecimento previsto pela ciência não é absoluto, impossibilidade de se conhecer a verdade, mas tão-somente conhecimento incerto. Ou seja, o campo do desconhecido – a superfície da esfera do conhecimento, segundo Pascal – não jaz submerso em escuridão total, mas sob um permanente lusco-fusco em que se pode vislumbrar vasta gama de afirmações sobre o mundo e a vida que, embora possivelmente verdadeiras (i.e., em conformidade com a Lógica e a Matemática, inclusive a "intuição" matemática), não podem jamais ser demonstradas ou refutadas pela experiência. É por essas plagas que podemos encontrar, por exemplo, o Deus “razão de ser” de Leibniz, o id quo maius cogitare nequit de Boécio e Anselmo, as n dimensões espaciais extras e compactadas da teoria das cordas cósmicas (superstrings) e até, quiçá, num cantinho escondido, o demônio de Laplace.

Logo, onde termina o domínio da ciência empírica – as fronteiras do mundo como totalidade dos fatos e possibilidades factíveis – começa não o vale-tudo da mitologia e do irracionalismo, mas o vale-o-que-não-for-impossível da Lógica e das ciências matemáticas. Nesse multiverso, coexistem todas as respostas logicamente possíveis dos problemas propostos pela metafísica ou religião; vale dizer, as questões éticas e as que tratam do Todo, do Infinito e do significado da existência. Entre essas muitas respostas (todas igualmente pardas, digo, válidas) podemos escolher a que melhor nos aprouver, ou seja, a mais bela ou sublime segundo o nosso gosto, a que melhor combine com o nosso temperamento e caráter.

Ao contrário da razão cientificista (sectária, excludente, monolítica, em suma, uma mal-disfarçada variedade pseudo-secular do monoteísmo fundamentalista), a razão crítica – que não só antecedeu a razão metódica como a criou e permanentemente a questiona, até com o fim de aperfeiçoá-la – é pluralista por definição. Esta razão estabelece que os problemas mais inquietantes, as questões mais perturbadoras, se por um lado são universais (pois que afligem todos os homens, alguns mais que outros), por outro lado suas resoluções, pela incapacidade mesma de serem unívocas, devem ser objetos de livre (porém criteriosa) escolha individual.

Mesmo que estejam certos aqueles que afirmam ser a razão uma divindade laica, não se pode, entretanto, embasar nela um monoteísmo rígido; pois uma razão que pressupõe o diálogo, o confronto das opiniões dissentâneas como única via para o consenso e que inclusive admite-se como incapaz de demonstrar a sua própria consistência (conforme os teoremas da incompletude de Kurt Gödel), tal razão é, quando muito, “o Deus dos deuses… que ama o estranho, dando-lhe pão e roupa” – Deuteronômio 10; 17-18.




[1] Sobre a consciência como distanciamento do mundo, o filósofo Gerd A. Bornheim, em seu livro Introdução ao Filosofar (Rio de Janeiro: Ed. Globo, 7ª edição), diz o seguinte: “A consciência torna o mundo objeto, pois o reconhecimento da heterogeneidade é precisamente o que faz afirmar o mundo como objeto contraposto a um sujeito. Por isto mesmo, (...) a distância reveladora da heterogeneidade pertence à própria estrutura da consciência” (p. 27). Neste livro, o autor também cita a seguinte análise de F. J. J. Buytendijk (Apud Mensch und Tier): “O homem pode resolver a sua ligação a uma situação, pode distanciar-se, perceber a situação objetivamente. (...) A possibilidade de distância em relação a uma situação — e, por isso, a liberdade — falta ao animal. Por isto, mesmo o comportamento de uma criança em face de uma ameaça deve ser distinguido do comportamento de um chimpanzé” (p. 25).
[2] ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Campinas: Papirus, 1984, p.. 120.
[3] Inserto na coletânea As Esquisitices do Óbvio. Fortaleza: APEX Gráfica e Editora, 2006, pp. 17-28.
[4] FERRIS T. O Despertar na Via Láctea; Rio de janeiro: Editora Campus Ltda., 1990, p. 260.
[5] DELEUZE, G. Nietzsche e a Filosofia. Portugal: Ed. RÉS, s/d, p. 141.
[6] NIETZSCHE, F. Vontade de Potência. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 233.
[7] NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Rio de Janeiro: Ediouro; s/d, p.. 171.
[8] DELEUZE, G., Op. cit., p. 154.
[9] BULCÃO NETO, m. s. As esquisitices do óbvio. Fortaleza: Apex, 2005; p. 82.
[10] Segundo Herbert Spencer, “os que são capazes de viver, viverão e é justo que vivam; os que não são capazes de viver morrerão, e é justo que morram”.
[11] VÁZQUEZ Adolfo Sánchez. Convite à estética. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1999; pp. 239-240.
[12] Algumas dessas assertivas de Nietzsche foram extraídas do ensaio de André Comte-Sponville “A besta-fera, o sofista e o esteta: a arte a serviço da ilusão”, inserto na coletânea “Por que não somos nietzschianos” (São Paulo: ed. Ensaio, 1994, pp. 42-96).
[13] WHITEHEAD A. N. A Função da Razão. Brasília: Ed. UNB; Brasília, 1988, p. 31.


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