segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O RACISMO "CIENTÍFICO" E O BRASIL (MANUEL SOARES BULCÃO NETO)

“Aqueles que põem em dúvida os efeitos perniciosos da mistura de raças e são levados, por falsa filantropia, a romper todas as barreiras colocadas entre elas deveriam vir ao Brasil.” (Louis Agassiz, Viagem ao Brasil – 1867)



O racismo “científico” de Joseph-Arthur, Conde de Gobineau

Não vedes que da vossa doutrina saem naturalmente todos os males que a permanente desigualdade espoleta, o orgulho, a violência, o desprezo pelo semelhante, a tirania e a abjeção sob todas as suas formas? Há todo um mundo intelectual entre a vossa doutrina e a minha.
Carta de Alexis de Tocqueville a Arthur de Gobineau, 1853.

Faíscas da Revolução Francesa salpicaram além do Atlântico, dando início, em 1791, no domínio francês da ilha de São Domingos, a um incêndio que espalhou cinzas pela Europa e em todo o continente americano. Refiro-me, aqui, à grande Revolução Haitiana, liderada pelos “jacobinos negros” Toussaint L'Ouverture, Moïse, Dessalines, Christophe, Clairveaux, Maurepas e Pétion.
A revolução antilhana foi violenta desde o começo, porém se radicalizou com a decisão de Napoleão Bonaparte, então primeiro-cônsul da República, de reaver a próspera colônia americana e nela restabelecer a escravidão. Em 1801, Napoleão enviou a São Domingos 25 mil soldados sob o comando do general Leclerc. No ano seguinte, o líder mais influente dos insurgentes, o moderado Toussaint L'Ouverture, foi capturado e levado à França, vindo a falecer no cárcere em abril de 1803. Apesar disso, Bonaparte não logrou êxito. Sob a direção do crudelíssimo Dessalines, os revolucionários negros prosseguiram a luta, dizimaram quase a totalidade da classe dominante branca, ou seja, cerca de trinta mil indivíduos – em retaliação, diga-se, às crueldades perpetradas por Leclerc –, expulsaram o exército francês e, em 31 de dezembro de 1803, declararam a independência definitiva do Haiti.
Por décadas e décadas, o espectro do “haitianismo” assombrou as elites brancas da América e os colonialistas europeus, enrijecendo ainda mais seus preconceitos raciais. Quanto aos ideais filocientíficos de liberdade, igualdade e fraternidade, estes se empalideceram durante o Terror e, a partir de 27 de julho (9 Termidor) de 1794, quando a Convenção prendeu e executou os líderes jacobinos, ingressaram num longo período de latência. Esse refluxo somente chegou ao fim com a Revolução de 1848 na França e com a proclamação da II República. Nesse ínterim, entretanto, o Antigo Regime foi restaurado, e as monarquias vencedoras, agrupadas na Santa Aliança, radicalizaram o contra-ataque à liberal-democracia não só no enfrentamento político como, também, e sobretudo, no front das ideias.
Para o pleno sucesso no confronto ideológico, porém, muitos intelectuais orgânicos da nobreza e da burguesia enobrecida (os “esnobes”[1]) defendiam que se deveria fazer uso da mesma arma do inimigo iluminista, isto é, valer-se também da ciência para reforçar as fundações axiológicas do colonialismo, do hierarquismo aristocrático e da monarquia. Surgia, assim, o embrião do “modernismo reacionário” (expressão cunhada por Jeffrey Herf [2]), que só viria a nascer no começo do século XX através das obras dos protonazistas Oswald Spengler, Ernst Jünger e Werner Sombart.
Mas, retornando aos meados do século XIX: foi com esse novo ânimo que um fidalgo francês, o Conde Joseph-Arthur de Gobineau (1816-1882), espremeu os miolos até excretar a primeira concepção de mundo racista “cientificamente fundamentada”. A obra em que ele expôs o seu racismo “científico” intitula-se Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1855-1858). Suas ideias tiveram alguma repercussão. Na Áustria, foram assimiladas entusiasticamente por Guido Von List, fundador de uma corrente místico-racista germanófila, o “armanismo”, que por sua vez exerceu profunda influência no pensamento de muitos destacados membros do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), notadamente Rudolf Hess, Heinrich Himmler e Walther Darré.
As linhas gerais do racismo pseudocientífico do Conde de Gobineau são os seguintes princípios: a) existe uma hierarquia das raças humanas; b) Os arianos dolicocéfalos – de cabeça comprida – loiros constituem a raça superior, portadora de uma “aptidão civilizadora” (segundo esse filósofo, foram os navegadores vikings que fundaram as civilizações pré-colombianas); c) A principal força motriz da História é a vitalidade racial; d) A queda das civilizações é uma consequência da degenerescência das raças, e que esta tem por causa a mistura de sangue (Gobineau deduziu deste princípio que, num ambiente democrático, torna-se fácil e até corriqueiro o intercurso sexual entre indivíduos de raças diferentes, pelo que, sendo este o contexto atual, a raça “superior” dos arianos à qual pertence a elite europeia tende a declinar em sua vitalidade).
O que impediu uma maior aceitação da sua teoria no círculo da elite europeia foi o seu pessimismo político – do ponto de vista aristocrático – e o “degeneracionismo” biológico que professava. Assim como seu amigo Alexis de Tocqueville, do qual foi secretário particular enquanto este ocupou o cargo de Ministro de Negócios Estrangeiros no governo de Louis Bonaparte (antes do golpe de Estado de 1852), Gobineau era um antidemocrata que aceitava com tristeza o fato de o processo de democratização ser inevitável e irreversível.
O mal-estar de Tocqueville na democracia, entretanto, era o de um liberal temeroso que o ideal igualitário conduzisse ao nivelamento por baixo, à destruição da autonomia individual e, consequentemente, ao despotismo da maioria. Após visitar os Estados Unidos, porém, a opinião de Tocqueville mudou: passou a crer na compatibilidade do liberalismo com o ideal igualitário; que a democracia que presenciara na América é desejável, uma vez que tem por fundamento “a igualdade na liberdade” (a partir de então, o objeto da sua crítica negativa passou a ser o socialismo).
Já Gobineau manteve-se o tempo todo pessimista e amarguradamente resignado: “admito, mas não me conformo!”. Isso porque sua oposição à democracia não era a de um liberal, mas a de um reacionário nostálgico do estilo de vida dos senhores feudais. Seu antidemocratismo era aquele típico de autoritarista cujo principal prazer na vida consiste em se submeter ao poder do superior e em exercer poder sobre o subalterno, e que extrai sua autoestima, sobretudo, do fato de existirem indivíduos “inferiores” a ele.
Diria que, para o Conde, a democracia obriga o cidadão nobre a se ladear com a cidadã plebleia na fila de votação, muitas vezes atrás dela (em posição de inferioridade), ocasião em que se vê forçado a sentir o cheiro da “crioula”, a inalar seus feromônios. Ora, entre o ladear-se e a cópula não há grande distância, de sorte que a democracia é mesmo instrumento da miscigenação; fomento da mediocridade biológica; meio de contaminação da elite pelo sangue vil da arraia-miúda; caminho para a degeneração da raça dos hiperbóreos. Gobineau era tão conhecido pela sua convicção no degeneracionismo que o disse-me-disse terminou por lhe atribuir a seguinte frase: “Não creio que viemos do macaco, mas acredito que vamos nessa direção”.
Em 1869, Napoleão III enviou o Conde ao Rio de Janeiro para exercer missão diplomática. O breve período em que permaneceu no Brasil (1869-1870) foi-lhe de grande sofrimento. Vivia isolado, padecendo de melancolia e abatimento profundos. Só mantinha contatos com D. Pedro II, em regra pela via epistolar. Logo, formou sua opinião sobre o povo brasileiro, manifestada em cartas enviadas à esposa. Numa delas exclamou: “ignominiosa canalha brasileira. Todos mulatos, todos, todos, menos a família imperial!”[3]
Noutra missiva, é ainda mais contundente em sua repulsa:
O Brasil só pode tornar-se alguma coisa se os brasileiros desaparecerem; trata-se de uma população inepta, viciada até a medula, pela qual não se pode fazer nada, que se utilize a força física ou moral. [4]
O anti-iluminista Joseph-Arthur, Conde de Gobineau, concebia a Revolução Francesa como um divisor de águas, momento histórico a partir do qual o processo de decadência dos árias dolicocéfalos loiros, antes um movimento uniforme, tornou-se acelerado. Segundo esse teórico, quem se insurgiu e tomou o poder na França em 1789 não foi propriamente o povo, mas a raça inferior largamente predominante nos baixos estratos da população, a saber, a raça celto-romana (dolicocéfala morena). Nessa guerra decisiva, os vencidos foram os franco-germânicos, linhagem superior, à qual o Conde acreditava pertencer (a propósito, são muitos os indícios de que Joseph-Arthur era um “esnobe”), que dominava o país desde o século V.
Na interpretação gobineauna acima exposta, é notória a influência das ideias de outro nobre francês que teorizou no começo do século XVIII, o Conde de Boulainvillers. Esse aristocrata ultrarreacionário, ressentido com os apelos “demagógicos” do déspota esclarecido ao Tiers Etat, defendia que na França coexistiam duas nações, sendo uma de origem germânica (proveniente da Frísia) e a outra representada pelos gauleses, população nativa da região. Esses últimos tiveram suas terras conquistadas pelos frísios sob o comando de Clóvis e, com a derrota, reduzidos à condição de súditos.
Segundo Boulainvillers, o rei de França, pertencente à estirpe franco-germânica, não devia exercer o poder em nome e para o bem de “todos” os franceses (a “ralé” gaulesa do Terceiro Estado incluída), mas tão-somente em benefício da aristocracia daquele país, descendente dos conquistadores, pois, para esse nobre teorizador, o direito repousa na força e em nada mais, de sorte que os privilégios da nobreza franco-germânica – e o “dever de obediência” dos gauleses aos frísios mais fortes – derivavam exclusiva e “naturalmente” do “direito de conquista”. O Conde salienta que algumas prerrogativas desse “direito do mais forte” foram “apenas” outorgadas pelos aristocratas dominantes ao seu primus inter pares: o monarca. Disso se segue – conclui Boulainvillers – que o rei da França, ao atuar como representante, também, do Terceiro Estado, estaria descumprindo a função que lhe foi delegada, função esta que constitui o fundamento da sua legitimidade. O Conde de Boulainvillers, porém, ao contrário de Gobineau, não se valeu do conceito de raça em sua interpretação da História (ou, pelo menos, não se utilizou do termo “raça” em sua acepção estritamente biológica), mas de uma categoria mais fluídica: o conceito “sociocultural” de “povo” ou “etnia”.     
Gobineau acreditava que, devido ao avançado processo de mestiçagem, não mais existia, no mundo, arianos que fossem “puro sangue”. Um dos seus leitores, entretanto, o inglês Houston Stewart Chamberlain (genro de Wagner, filho de uma alemã e adepto de uma seita mística pangermânica), alegou o contrário: em seu livro Fundamentos para o século XX (1899), escreveu que a raça superior a qual Gobineau se referia ainda subsiste em estado puro na Alemanha e no norte da Europa (Península Escandinava). Obviamente que o ensaio de Chamberlain foi amplamente divulgado e muito bem recebido na pátria de Bismarck, principalmente entre os vistosos teutônicos de extrema-direita.
O filósofo húngaro György Lukács, em seu livro A Destruição da Razão (Die Zerstörung der Vernunft, 1954), afirma que
Gobineau lançou no mundo pela primeira vez um panfleto pseudocientífico realmente eficaz contra a democracia e a igualdade, baseada na teoria racista. A obra de Gobineau constituiu, além disso, a primeira tentativa ambiciosa de reconstruir toda a história universal por meio do racismo teórico, reduzindo a simples problemas raciais todas as crises da história, todos os conflitos e as diferenças sociais.
O gobineauismo, porém, devido ao seu decadentismo, não era uma arma ideológica das mais eficazes. Em razão disso, foi substituído, ou melhor, superado por outro racismo cientificista, desta vez “progressista” – o inverso de “degeneracionista” –, visto que propugnava a “purificação” da raça superior dos arianos nórdicos por meios biotecnológicos (Galton) e sua “revitalização” mediante a luta pelo Lebensraum ou Espaço Vital (Ratzel), por meio da guerra interracial em que “a mais forte sobrevive”.
Esse racismo pós-gobineauano foi uma combinação eclética de várias correntes de pensamento (místicas, filosóficas e pseudocientíficas), entre as quais a teosofia de Helena P. Blavatsky e o vitalismo de Nietzsche. Aquela, pelo culto orientalista à “quinta raça raiz”, os arianos, humanidade “superior” pela qual “o Espírito recomeçaria sua subida da escuridão para a luz” (A Doutrina Secreta, 1888)[5], e, também, por suas ideias contrárias à miscigenação, sua defesa de que a reprodução sexual deveria se submeter, novamente, à direção dos Kummaras: uma casta de seres divinais (conforme As Estâncias de Dzyan, suposto manuscrito muito antigo a “que somente Blavatsky teve acesso”). — Sobre os judeus, Blavatsky os definiu como “uma raça ariana artificial, nascida na Índia e pertencente à divisão caucasiana.”[6]
Quanto à segunda – o irracionalismo nietzscheano –, sua influência se deu pela beleza da sua retórica em prol do extermínio dos fracos (“morram os fracos e os fracassados […] e que sejam ajudados a desaparecer.” – Anticristo: 2); por seu aristocratismo escravocrata (“toda elevação do tipo humano sempre foi e sempre será obra de uma sociedade aristocrática […] que, sob uma forma ou outra, requer a escravidão.” – Além do Bem e do Mal: 257); pelo elogio do bárbaro germano (“no fundo destas raças aristocráticas é impossível não reconhecer a fera: o bruto de loiros cabelos em busca de presa.” – A Genealogia da Moral: Dissertação Primeira, XI); através do culto da guerra (“a guerra e a coragem realizam grandes coisas, muito mais do que o amor ao próximo.” – Assim Falou Zaratustra: da guerra e dos guerreiros); devido ao seu antissemitismo (“os judeus […] eram um povo levita e rancoroso por excelência, um povo que possuía um singular gênio para a moral plebeia…” – A Genealogia da Moral: Dissertação Primeira, XV); e graças ao elogio do anti-humanismo e da crueldade.
Além do mais, o racismo que sucedeu ao do Conde alimentou-se, também, e à maneira dos parasitas, de uma ciência revolucionária, recém-nascida naquela época, com o sistema imunológico ainda imaturo e, portanto, sujeita a contrair vários tipos de doenças infantis. Trata-se do evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Wallace (1823-1913).

O poligenista Louis Agassiz e o Brasil

Foi o desenvolvimento da cultura que impediu a espécie humana de dividir-se em várias espécies, e ao mesmo tempo favoreceu a variação humana e o polimorfismo.
              Theodosius Dobzhansky

Antes de tratar da relação entre o evolucionismo de Darwin-Wallace e o racismo, convém um comentário a respeito das ideias do grande zoólogo suíço Louis Agassiz (1807-1873), discípulo de Curvier que se tornou o primeiro cientista eminente a se opor ao darwinismo.
Agassiz emigrou para os Estados Unidos na década de 1840. Nesse país e naquela época, a escravidão dos negros era uma instituição e ainda se travava encarniçada luta contra os ameríndios. Tratava-se, portanto, de campo fértil para concepções racistas as mais radicais, entre elas o poligenismo, hipótese segundo a qual as raças humanas não possuem uma origem comum, isto é, ou foram criadas separadamente ou então, segundo o transformismo lamarckista, evoluíram a partir de fontes diferentes. Vale observar que, mesmo tendo sido uma corrente antropológica marginal na Europa, mormente por ser a antítese do monogenismo cristão (o mito de que toda a humanidade descende de um único casal, Adão e Eva), naquele continente o poligenismo fora antes professado por ilustres figuras, como o médico e físico suíço Paracelso (1493-1541), que não acreditava na origem “adâmica” dos autóctones americanos, e por ninguém menos que o grande filósofo empirista britânico David Hume (1711-1776). Este último, em um de seus ensaios políticos, defendera que “os negros e outras espécies, pois há quatro ou cinco diferentes, estão todas abaixo da espécie dos brancos”[7], e que “uma diferença tão uniforme e constante [entre negros e brancos] não poderia acontecer […] se a natureza não houvesse estabelecido uma distinção original entre essas raças de homens.” (acresce dizer, à guisa de nota, que na era pós-darwin um dos mais destacados defensores do poligenismo na Europa foi o psicólogo francês Gustave Le Bon).
Quando aportou na América, Agassiz ainda era um criacionista, monogenista e partidário do abolicionismo. Manteve sua convicção cristã no criacionismo e continuou defendendo a extensão da igualdade jurídica para todos. Todavia, devido à péssima impressão que lhe causou o primeiro contato com os negros (nunca havia visto um na Europa), às pressões dos seus novos colegas poligenistas da comunidade científica americana e, também, segundo Stephen Gould[8], porque nele já havia uma predisposição em razão de ideias que há muito defendia e de hábitos profundamente arraigados (não só desenvolvera antes a teoria biogeográfica dos “centros de criação” como também pertencia à facção dos taxonomistas “separacionistas”, propensos a distinguir espécies levando-se em conta detalhes mínimos), Agassiz terminou por abraçar o poligenismo, tornando-se o seu principal teórico.
Seu heterodoxo criacionismo poligenista e seus preconceitos cientificamente envernizados contra as raças não brancas o levaram a propugnar o segregacionismo racial e a condenar com veemência o processo de “hibridização” em andamento, ou seja, a miscigenação e sua causa: o intercurso sexual entre indivíduos do gênero humano, porém de “espécies” diferentes e “desiguais”.
Apesar de se adequar perfeitamente aos interesses político-econômicos dos norte-americanos brancos escravocratas e afins, o poligenismo de Agassiz, por motivos religiosos, não fincou raízes na população leiga, mesmo porque o hierarquismo racista não era incompatível com o monogenismo cristão. Os pastores protestantes antiabolicionistas, que atacavam as ideias hereges de Agassiz, continuaram justificando sua posição com a velha tese degeneracionista segundo a qual, malgrado a ascendência comum (o casal Adão e Eva), a partir do pecado original algumas linhagens humanas degeneraram mais que outras, sendo os negros a raça mais degradada — algumas seitas mais intratáveis chegavam mesmo a sustentar que, no processo de decadência, os negros atingiram o ponto da irreversibilidade, o que significa que, aos indivíduos dessa raça, é impossível a salvação final que advirá com a segunda vinda de Cristo.
Por ironia da História, um dos argumentos de Agassiz e demais cientistas defensores do poligenismo (hipótese que está sendo refutada pela ciência) contra seus opositores religiosos postulantes da versão lendária do monogenismo (tese fartamente corroborada por pesquisas paleantropológicas e genéticas), é o mesmo argumento que, atualmente, os evolucionistas e céticos racionalistas alegam na contenda teórica com os criacionistas, a saber: que os religiosos, ao se imiscuírem no campo científico, confundindo relato de escritura sagrada com história natural, não estão senão travando o progresso da ciência e contribuindo para um revival do obscurantismo.
Não obstante essa forte oposição dos católicos e pastores protestantes estadunidenses, o poligenismo “científico” de Agassiz foi incorporado à pregação cristã de alguns heresiarcas dos Estados sulinos da federação, sendo, até hoje, um dogma entre os WASP, sigla do movimento White Anglo Saxon Protestants. Aliás, outra seita cristã que, de forma independente e em versão diferente, passou a postular o poligenismo – ou, numa designação atual mais precisa, o “polifiletismo” – foi a Igreja Reformada Holandesa, ligada aos bôeres sul-africanos.
De resto, em época recente, o polifiletismo “científico” ensaiou um ressurgimento com a publicação do Origin of Race (1962), livro do antropólogo norte-americano Carleton S. Coon. Nessa obra, Coon defende que as cinco raças humanas principais – segundo a sua classificação, os caucasoides, mongoloides, australoides, congoides e capoides – descendem de subespécies diferentes do Homo erectus, hominídeos distintos estes que, em consequência de uma pressão seletiva que atua em todos os primatas, passaram por uma evolução “convergente” no sentido do grau ótimo de cerebração que caracteriza o homem moderno. Ainda segundo este cientista, foram os caucasoides e os mongoloides os primeiros a atravessarem o umbral do Homo sapiens, isto porque seus ancestrais viviam em ambientes mais desafiadores, isto é, seus hábitats de origem eram menos complacentes com a inércia e lassidão intelectuais que os das raças de pele escura.
O fato é que, a partir da segunda metade da década de 1980, análises genéticas baseadas em ampla amostra tanto do ADN mitocondrial como do cromossomo Y foram feitas e muitas vezes refeitas sempre com riqueza maior de dados. Todas essas pesquisas indicam que a humanidade inteira surgiu de uma mesma população “racialmente indiferenciada” de homens modernos, há cerca de 100 mil anos, no leste do continente africano (uma hipótese monofilética alternativa, recentemente corroborada[9], sustenta que o ser humano moderno surgiu no sul da África há 200 mil anos e migrou para o resto do globo nos últimos 100 mil anos). Outras pesquisas demonstram que as linhagens humanas atuais mais próximas dessa fonte são os bosquímanos Kung do deserto de Kalahari, sul da África, e os pigmeus Biaka da África Central. Ademais, os resultados dos estudos linguísticos de L. L. Cavalli-Sforza [10] e de Johanna Nicols, professora da Universidade de Berkeley, Califórnia, surpreendentemente fecham com os das análises genéticas; isto é, mostram que as cinco mil línguas atualmente faladas originaram-se de uma mesma protolíngua que existiu há aproximadamente cem milênios na África oriental ou no Oriente Médio. Em resumo, os dados empíricos reunidos pelos cientistas das mais diversas áreas corroboram ad nauseam a hipótese monofilética da origem dos tipos humanos.
Cento e vinte anos antes de a revista Nature publicar a primeira pesquisa que revelou ao mundo a existência da “Eva Mitocondrial”, africana e, provavelmente, negroide[11], cá estava Louis Agassiz, embrenhado na Amazônia brasileira, chefiando a expedição Thayer (1865-66). Na tentativa de conferir verossimilitude às suas conjecturas polifiletistas, retratou índios e mestiços em poses antropométricas, fora do contexto ambiental e sob ângulos que lhes acentuavam as características animalescas. (Imagine-se um daguerreótipo de Agassiz nu procurando os sapatos debaixo da cama. Um teratoide!) No livro Viagem ao Brasil (1867), escrito por sua esposa Elisabeth, o grande naturalista acrescentou notas. Em uma delas, reverbera a seguinte “pérola”:
Aqueles que põem em dúvida os efeitos perniciosos da mistura de raças e são levados, por falsa filantropia, a romper todas as barreiras colocadas entre elas deveriam vir ao Brasil[12].
* * *
Os racismos “científicos” de Gobineau e Agassiz deixaram marcas na elite intelectual brasileira. Entre os que produziram no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a maioria acreditava na superioridade biológica da raça ariana e muitos se declaravam poligenistas, como, por exemplo, Euclides da Cunha (1866-1909) – o autor de Os Sertões opunha o “selvagem bronco” autóctone do Novo Mundo aos “tipos superiores” de origem europeia –. Também não foram poucos os que – sob a influência de F. Galton, primo de Darwin e fundador da “eugenia” – vieram a defender uma política de melhoramento genético do povo ou de “formatação” da raça brasileira. Num aspecto, entretanto, eram originalíssimos: em oposição ao degeneracionismo do Conde francês e ao segregacionismo do Zoólogo suíço, defendiam a mestiçagem como técnica de aprimoramento racial. Não, porém, a mistura aleatória e espontânea, ao contrário, a miscigenação teria que ser planejada, submetida a critérios científicos e ter por objetivo de longo prazo o “branqueamento”.
O médico e romancista Afrânio Peixoto (1876-1947) sintetizou esse sonho numa frase elegante: “A albumina branca depura o mascavo nacional”. Outro ilustre defensor dessa estratégia eugenística – apesar de, como Euclides da Cunha, professar o poligenismo – foi o crítico literário Silvio Romero (1851-1914). Segundo este literato, a luta pela existência entre as raças e a automática sobrevivência da mais capaz (a branca, disso ele não tinha dúvida) não implica necessariamente antagonismos interindividuais: assim como uma correnteza muito profunda não perturba a superfície das águas, essa luta poderia se dar – como de fato, ao menos no Brasil, estava se dando – no plano invisível das moléculas, através desse enfrentamento de plasmas germinativos que é o processo de mestiçagem. Afinal, se, no homem misto, como escreveu Al. Carthill em The Lost Dominion (1924), “cada célula é o palco de uma guerra civil”, então é possível que todas as batalhas sejam travadas nesse nível molecular — graças ao intercurso sexual, essa guerra interracial, silenciosa e subterrânea, torna-se contínua, passa de uma geração a outra até a vitória final do homem branco sobre o bugre e o negro.
Nada impedia, porém, com o objetivo de abreviar a história, uma intervenção deliberada neste processo de branqueamento. Para tanto, defendia-se nessa época uma política restritiva de imigração, ou seja, a abertura das fronteiras nacionais apenas aos imigrantes europeus arianos, de cor branca.
Havia, entretanto, entre esses intelectuais, algumas vozes “mais democráticas” que defendiam a entrada de imigrantes “alvos” de outras raças. Por exemplo, Arthur Neiva, funcionário da Comissão de Imigração e Colonização do Rio de Janeiro, propunha que a seleção também contemplasse os judeus sefarditas de pele clara e assimiláveis. Até mesmo os japoneses eram vistos com complacência, principalmente os do tipo “chosu”, aristocráticos, de traços caucasoides e considerados por Quatrefages como os representantes “halófilos” da raça ariana.
Quanto aos fascistas da Ação Integralista Brasileira, também eram eles entusiastas da miscigenação; porém, não constava em seu programa de formação do povo brasileiro nenhuma ideia de branqueamento. Ao contrário, entre os integralistas havia o culto do “caboclo” como a síntese de todas as raças e representante da união cristã dos povos. Aliás, os integralistas se julgavam mesmo antirracistas, como demonstra a seguinte asserção de Plínio Salgado: “Não sustentamos preconceitos de raça. […] Em relação ao judeu, não nutrimos contra essa raça nenhuma prevenção.” Até a hostilidade de Gustavo Barroso aos judeus – ao ponto de ter defendido a política de extermínio promovida pelo nazismo – parece mais uma versão extremista do arcaico antijudaísmo cristão do que propriamente antissemitismo. Como já assinalei, esse escritor, alcunhado pelo jornal nazista argentino Deutsche La Plata Zeitung de “o führer do integralismo brasileiro”, criticava “o judaísmo como um racismo” e a recusa dos judeus de se deixarem “assimilar” através do processo de mestiçagem. “Não se pode admitir” – escreveu Barroso – “que o povo de Israel entenda de não se misturar com os outros, de ser um quisto irredutível no seio de todos os povos.”[13]
Esse antirracismo integralista, no entanto, se me afigura um racismo invertido, com sinal trocado, ou seja, uma espécie de ideologia “antirraças” que não é outra coisa que o “racismo” do mestiço. Até porque, como qualquer racismo, longe de celebrar a exuberante heterogeneidade biológica da espécie humana (nosso politipismo e polimorfismo), propugna a homogeneidade, a indiferenciação, a “purificação” da humanidade mediante a mestiçagem, ou melhor, a diluição de todos os particularismos biológicos – raças, tipos, táxons… – em um universal “puro sangue”: o caboclo. No caso específico da facção barrosiana da AIB, esse antirracismo resvalou na mais intolerante e perversa alofobia. — Observo que havia, no seio da AIB, relação tensa entre a facção de Barroso e a de Plínio; tanto que, como escreveu E. Diatahy B. de Menezes,
Em discordância pública das teses antissemitas de Gustavo Barroso, num artigo que divulgou na revista Fon-Fon de 24 de abril de 1934, Plínio Salgado apoiou decisivamente o boicote que o principal jornal integralista – A Ofensiva – impôs por seis meses a seu correligionário[14].
Tal antirracismo universalista que, paradoxalmente, almeja uma síntese racial superior – a ser alcançada pelo matrimônio entre indivíduos de tipos humanos diversos – também é popular no México. Nos Estados Unidos, tornou-se mesmo um ideal defendido por muitos intelectuais: os ideólogos do melting-pot (expressão criada pelo filósofo Israel Zangwill em 1909 e que pode ser traduzida por “caldeirão de raças”). O precursor dessa ideia foi o escritor Michel Guillaume Jean de Crevecouer (1735-1813), autor do ensaio What is an American, This is New Man (1782). Nas últimas décadas do século XX, o mais destacado defensor da política do melting-pot foi Ronald Reagan. — Diga-se, a bem da verdade, que muitos apologistas do “novo homem americano” (por questão de justiça, lembro que Reagan não era um deles) incluíam na caldeira de fusão racial apenas indivíduos de origem europeia (alemães, irlandeses, suecos, franceses, italianos e outros). Negros, indígenas e imigrantes latino-americanos não eram levados em conta.

Os palpites infelizes do Sir

Há Grandeza nessa visão da vida.
Charles Darwin

Em 1859, ano em que foi publicado A Origem das Espécies, o darwinismo surgiu. E, devido ao seu grande poder explicativo, não demorou muito para se tornar uma teoria conhecida, amplamente debatida na comunidade científica e no círculo dos leigos esclarecidos.
A incipiente Teoria da Evolução de Darwin-Wallace, entretanto, era também insipiente em várias questões. Pois, até 1888, quando August Weismann apresentou suas ideias sobre o germoplasma e o somatoplasma, nada se sabia acerca dos mecanismos da hereditariedade. No que tange ao quantum da informação genética, isto é, o gene, malgrado tenha sido desvelado em meados da década de 1860 pelo monge Gregor Mendel, somente veio a se tornar conhecido no ano de 1900 através das “redescobertas” independentes e simultâneas de Hugo de Vries, Carl Correns e Erich Tschermak. Demais, apesar do que supunha o título da opus magnum do evolucionismo, a Teoria era razoavelmente adequada apenas para explicar as mudanças ao longo do tempo no interior das espécies (microevolução) e não propriamente a origem destas (macroevolução)[15]. Uma explicação satisfatória, fundamentada em experiências laboratoriais, da multiplicação das espécies a partir de uma ancestral, isto é, da gênese da biodiversidade (cladogênese), somente veio à luz em 1937 pela obra de Th. Dobzhansky Genetics and the origin of species. Outros trabalhos profícuos sobre a macroevolução – de Ernst Mayr, G. G. Simpson, Julian Huxley, Ledyard Stebbins e Bernhard Rensch – se seguiram, até que, em 1947, darwinistas, geneticistas matemáticos, biólogos moleculares e taxonomistas chegaram a um consenso e estabeleceram a síntese que ficou conhecida como “Teoria Sintética da Evolução”.
Nesse ínterim, e em consequência dessas lacunas, o evolucionismo darwiniano era uma teoria baseada em vagas inferências e em mecanismos muito simples – como o postulado da descendência comum, o gradualismo, a reprodução diferencial dos seres vivos e a seleção natural – porém capaz de explicar tudo, não só A como não-A, valendo-se para tanto, nas ocasiões em que fosse conveniente, da teoria lamarckiana da herança dos caracteres adquiridos, da ortogênese (evolução direcional) de T. Eimer (até hoje alguns darwinistas creem numa pressão seletiva universal no sentido da mais alta inteligência) e, também, da suposição segundo a qual os plasmas germinais dos genitores se combinam à maneira das substâncias solúveis entre si (resultando em misturas homogêneas) e não de forma quantizada. Consistia, pois, num “programa metafísico de pesquisa” que produzia a granel pares de hipóteses ao mesmo tempo irrefutáveis e mutuamente excludentes. Hipóteses racistas e antirracistas, por exemplo. Como, na primeira fase desse período, Karl Popper (1902-1994) ainda não havia surgido com sua teoria epistemológica da demarcação entre ciência e não-ciência (o falsificacionismo, ou falseabilidade), a cientificidade do darwinismo infante e de suas crias prematuras não era questionada.
Em suma, nessa condição inicial, o darwinismo era, ao mesmo tempo, o campo em que apascentavam mentes equilibradas e a “lama onde chafurdavam porcos”. Significa dizer que, por meio de suas categorias, muitos preconceitos sociais e chauvinismos foram racionalizados, supostamente reduzidos à evidência. Imunizados com uma carapaça ou couraça científica, tornaram-se um tanto desenvoltos e prepotentes, não mais se propondo como opiniões, mas se impondo pela “autoridade da Ciência”.
Além disso, o próprio Darwin era, como qualquer um de nós, um homem histórica e socialmente condicionado; ou seja, além de cientista consciencioso, era também Sir: súdito inglês abastado da Era Vitoriana com interesses de classe arraigados, porém dos quais não se dava conta, e que, ao respirar, involuntariamente absorvia os valores aristocráticos disseminados na atmosfera da época – ambiente sociocultural este em que, nas palavras de Stephen J. Gould, “a crença na desigualdade sexual e racial era inquestionável e canônica entre os homens da classe alta […] e sujeita a tanta controvérsia quanto, digamos, o teorema de Pitágoras.”[16]
Darwin era sensível e generoso, como comprova seu abolicionismo exaltado e militante, o horror e a repulsa que sentiu durante a estadia do Beagle no Rio de Janeiro, quando então testemunhou os maus tratos, crueldades e atrocidades revoltantes aos quais eram submetidos os negros cativos de ambos os sexos e de qualquer idade. Ao deixar a costa brasileira, escreveu no seu diário de bordo: “nunca mais hei de visitar um país escravocrata”. E, invertendo sarcasticamente o racismo da “Casa Grande”, registrou no mesmo caderno:
É impossível ver-se um negro e não sentir um impulso afável por ele; expressões tão alegres, abertas e honestas, e belos corpos musculosos; jamais consegui olhar para um dos diminutos portugueses, com suas expressões assassinas, sem quase desejar que o Brasil seguisse o exemplo do Haiti[17].
Não obstante sua generosidade e humanismo, Sir Charles Darwin, tendo sido educado para seguir e se inspirar nos padrões estéticos e normas de convivência da metrópole britânica, às vezes se incomodava até a náusea com alguns traços muito destoantes dos indivíduos de outros tipos e culturas. Ao entrar em contato com os fueguinos, povo da extremidade meridional da América do Sul, implicou com suas “peles vermelhas imundas e ensebadas”, sua “cabeleira emaranhada”, suas “vozes dissonantes”, seus “gestos furiosos”. Observou, então, com espanto: — “Vendo esses homens, mal dá para crer que são nossos semelhantes, habitando o mesmo mundo” (The Voyage of the Beagle, 1845).
O título completo da obra revolucionária de Darwin é “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou das raças favorecidas na luta pela existência”. Embora o livro trate apenas de organismos “inferiores”, não humanos, a expressão “raças favorecidas…” é sintomática. O racismo de Darwin, no entanto, só veio a transparecer de forma clara doze anos depois, em sua obra madura – ou, como preferem alguns, “tardia” – The Descent of Man (1871). No Capítulo 3, por exemplo, reporta-se o autor às “diferenças entre homens superiores de raças superiores e os ínfimos selvagens” (reparem bem os adjetivos). O trecho mais citado por seus detratores “politicamente corretos”, porém, é a “pérola” seguinte:
No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo o mundo. No mesmo período os símios antropomorfos […] terão sido sem dúvida exterminados. A fratura entre o homem e os seus mais próximos afins se tornará então ainda mais ampla, visto que será fratura entre os homens, num estádio ainda mais civilizado do que aquele caucásico (é o que esperamos nós) e alguns símios inferiores como o babuíno, ao invés de ser entre o negro ou o australiano e o gorila[18].
As raças selvagens exterminadas pelas civilizadas no Planeta inteiro: vaticínio tétrico, sobretudo porque, como complementa o autor no mesmo ensaio (p. 217), a extinção seria, “principalmente”, o resultado da guerra entre tribos e raças. Mas não teria Darwin professado isso apenas baseado numa infeliz constatação e não num anseio chauvinista de caucasiano civilizado? Afinal, por que na família Hominidae atualmente só há um único gênero, o Homo, quando o normal entre as famílias é a existência de uma vasta ramificação? E por que o Homo é um dos raros gêneros que apresentam apenas uma solitária espécie, no caso o Homo sapiens sapiens? Como se deu o extermínio do gênero Australopithecus inteiro, de todas as demais espécies humanas e, inclusive, da subespécie sapiens neanderthalensis? Buscando respostas para essas perguntas, o bioquímico Jacques Monod (1910-1976), que não era racista, sugeriu que, se a luta direta – o struggle for life de Spencer – realmente desempenhou papel secundário na evolução das espécies, o mesmo não se pode dizer acerca do Homem; que, a partir de certo estádio da expansão geográfica, “a luta intraespecífica direta [entre raças ou grupos], a luta de morte, tornou-se […] um dos principais fatores de seleção na espécie humana.”[19]
O aposto “principalmente”, constante na asserção de Darwin, é realçado, creio eu, pelo desejo do cientista de que o processo não mais se dê sob a forma padrão de antes. Por sinal, na página 218 é destacada a possibilidade de que, em vez de destruição, verifique-se a “absorção” da tribo fraca pela forte. Reporta-se o autor, também, a Gerland (nota 32, ibidem), que apresentou fatos em apoio à outra forma de extinção não violenta: “uma tribo mais fraca […] uma vez iniciada sua involução, a mesma vai lentamente minguando, reduzindo-se, até extinguir-se”.
Apesar do seu antiescravismo e do seu pacifismo, a proximidade que Darwin estabeleceu “entre o negro ou o australiano e o gorila”, bem como expressões tais como “raças superiores” e “ínfimos selvagens”, não deixam dúvida quanto ao seu racismo – racialismo ao qual se resignou após abandonar, em parte, suas juvenis veleidades paternalistas.

BULCÃO NETO, Manuel Soares. A eloquência do ódio: reflexões sobre o racismo e outras alofobias. São Paulo: Livropronto, 2009, 132-150 pp.


[1]  Nessa época, na Inglaterra, plebeus abastados (comerciantes ricos, grandes industriais e banqueiros), desejosos de se tornarem nobres, compravam títulos nobiliárquicos. Como esses aristocratas cartoriais não tinham nobreza ancestral, eram eles chamados de conde (ou duque, ou visconde…) sine nobilitate. Da abreviatura dessa expressão, s. nob., surgiu o termo pejorativo snob (em português, “esnobe”). - Informação obtida em um artigo de Olavo de Carvalho.
[2] Ver HERF, Jeffrey. O Modernismo Reacionário. São Paulo: Ed. Ensaio; Campinas - SP: Ed. da UNICAMP, 1993.
[3] GOBINEAU, Conde de. Cartas Brasileiras. Paris: Delta, 1969, carta de 29 de junho 1969, p. 97.
[4]  GOBINEAU, Conde de. Idem, carta de 18 de julho de 1869, pp. 110-111.
[5] A guerra civil do Sri Lanka entre a maioria cingalesa (budista) e os minoritários tâmeis (hinduístas) fez surgir, entre os cingaleses (inclusive em suas organizações juvenis armadas e adeptas do maoísmo), um inusitado racismo budista: a certeza de que eram racialmente superiores, uma vez que, ao contrário da língua tâmil, a sua era de origem indo-europeia (“ariana”, portanto). — Ver a respeito, o livro de Eric Hobsbawm: Globalização, Democracia e Terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 122-123. 
[6] BLAVATSKY, H. P. A Doutrina Secreta – vol. IV. São Paulo: Editora Pensamento, 1973, p. 37, nota 36.
[7] Citado por CORBISIER, Roland. Introdução à Filosofia, tomo II, parte quarta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997, p. 374.
[8]  GOULD, Stephen. A Falsa Medida do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 1999, pp. 31-32.
[9] TISHKOFF, Sarah et al. The Genetic Structure and History of Africans and African Americans. Publicado online em 30 de Abril de 2009 [DOI: 10.1126/science.1172257] (in Science Express Research Articles).
[10] CAVALLI-SFORZA, L. Genes, pueblos y lenguas, Investigación y Ciencia, nº. 184, 1992, p. 4.
[11] CANN, R., STONEKING, M. e WILSON, A. C. Mitochondrial DNA and human evolution Nature, nº. 325, 1987, 31-36.
[12] AGASSIZ, Elizabeth Cary e Louis. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1975, p. 180.
[13]  Citado por CRUZ, Natália dos Reis. O Integralismo e a questão racial. Niterói, 2004, p. 199.
[14] MENEZES, Eduardo Diatahy B. de. Gustavo Barroso: um cearense “ariano”. Fortaleza: Museu do Ceará, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2006, p. 52.
[15] Ver BLANC, Marcel. Os Herdeiros de Darwin. São Paulo: Scritta, 1994, pp. 65-66.
[16] Ver GOULD, Stephen J. Dedo Mindinho e Seus Vizinhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 276.
[17] Citado por GOULD, S. Op. cit., p. 275.
[18] DARWIN, Charles. A Origem do Homem e a Seleção Sexual. Curitiba: Hemus, 2002, p. 84.
[19] MONOD, Jacques. O Acaso e a Necessidade. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 180.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

UMA LUZ VERMELHA NO BAZAR (PEDRO SALGUEIRO)



Há mais de três anos um programa de entrevistas e lançamentos de livros (idealizado pelo grupo de leitura “Abraço Literário” e executado pelo escritor Carlos Vazconcelos) vem mapeando os escritores cearenses com uma competência extraordinária. Todas as últimas terças-feiras de cada mês na Galeria do Teatro Sesc Emiliano Queiroz (Av. Duque de Caxias, 1701) um jovem poeta, uma escritora já consagrada, um teatrólogo de valor, um estudioso da literatura, estará sendo minuciosamente entrevistado pelo competente mediador.

E são iniciativas como estas, que passam quase desapercebidas nos nossos meios de comunicação, que fazem a verdadeira história cultural de um povo.

Mais de 40 escritores passaram por lá, do grande Jorge Tufic à estreante Ana Cristina Moraes, da talentosa Inez Figueiredo à jornalista Mônica Silveira, do contista Júnior Ratts ao poeta Elias de França, dos crateuenses Luciano Bonfim e Silas Falcão aos professores Batista de Lima e Aíla Sampaio, só para ficar em alguns poucos nomes.

Mas no próximo dia 30 de agosto uma luz vermelha se acederá no Bazar: o contista e mestrando da UFC, Carlos Vaz, vai entrevistar um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, o poeta, romancista, estudioso de literatura e principalmente contista Nilto Maciel.

Maciel é o mais importante escritor de sua geração no Ceará, fabulosa geração que nos deu nomes importantes como Gilmar de Carvalho, Airton Monte, Carlos Emílio Corrêa Lima, Barros Pinho, Paulo Veras, Marly Vasconcelos e muitos e muitos outros grandes artistas.

Luz Vermelha que se Azula é um livro marcante, de uma inventividade singular; obra mesmo de mestre da narrativa curta. Onde cada conto fica rodopiando em nossas cabeças, como obra inacabada que procura em nós (leitores) parceiros e cúmplices para sua perfeita execução. Contos curtos que se agigantam em nossas mentes, instigando nossas imaginações a continuarem infinitamente as histórias que ele talha, esmera e lima com precisão de artista consciente de seu valioso ofício.

Conclamo a todos os amantes da literatura a, desde logo, marcarem em seus calendários, botarem lembrete em seus celulares, pregarem bilhetinhos na estante, reservando o dia 30 de agosto (uma terça, às 19h, no Teatro do Sesc da Duque Caxias) para irem saber um pouco sobre a brilhante magia desse que é um dos maiores escritores que o nosso Ceará já produziu.

O projeto Bazar das Letras do SESC, mediado pelo escritor Carlos Roberto Vazconcelos, receberá Nilto Maciel e lançará Luz Vermelha que se Azula, ganhador do Prêmio Moreira Campos de Contos da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Informações: (85) 3452.9032

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAETANO XIMENES ARAGÃO E O CANTO PELA UNIDADE DO HOMEM (ENSAIO D'O POETA DE MEIA-TIGELA) (*)




(Caetano Ximenes Aragão
em desenho de João Monteiro)

*

Para Ângela Aragão, anja-guardiã do espólio do poeta;
para Ralphe Alves Bezerra, amigo schilleriano.


            1. Poesia Ingênua e Sentimental. Segundo o poeta alemão Friedrich Schiller (1759-1805), podemos conceber a poesia como ingênua ou sentimental. (1) Todos sentimos um quê de nostalgia quando em contato com o bucolismo do cantar de um pássaro ou com a visão do verde do campo. Tal nostalgia mais não seria que nossa percepção do quanto distamos, hoje, da natureza, enquanto manifestação espontânea de uma realidade cujas leis são seu próprio ser sem artifícios. A artificialidade, a técnica, à medida que se apresentam como instâncias primordiais para o viver humano contemporâneo, mostram-se como elementos cruciais a fim de que nos percebamos distantes daquele ideal de naturalidade a que já não correspondemos. Talvez por isso voltemos os olhos para a infância e a vejamos denunciadora do que já não somos e, também, do que queremos voltar a ser. O desejo de reingresso na ordem natural e de abandono da nossa atual condição social, antinatural por excelência, — o desejo de retorno ao paraíso perdido de uma infância da humanidade marca o olhar sentimental com que nos dirigimos à natureza e à ingenuidade pré-moderna. Ingênuo é, pois, aquele envolto pela inocência de uma ação direcionada pela espontaneidade de sua natureza, não pela imposição artificial do decoro ou regra do estamento a que pertence; aquele cuja moralidade e honradez dão-se imediatamente, simples resposta aos apelos de seu ser-se, apenas. À medida que não somos ingênuos, mas apreciamos a ingenuidade como estágio da inocência a que aspiramos retornar, nutrimos o sentimento nostálgico de perda, de deslocamento, despertencimento. O ingênuo é o que naturalmente o é, e o sentimental o que deseja sê-lo. Eis por que a antiguidade clássica parece-nos exemplo de integração entre humanidade e natureza, sem que esta apareça então como uma instância a que aquela aspira reunir-se: não se trata na Grécia Antiga — essa infância de nossa cultura ocidental — de se desejar o natural, porém de se ser a natureza. A poesia sentimental, se não é expressão de uma naturalidade sua constitutiva, por outro lado pode configurar-se um anseio primordial de reintegração do humano, busca de reunião de si no seio da natureza de onde se originara. Esse ideal de renaturalização do humano é a um só tempo reinstauração do homem na morada inaugural da natureza (renaturalização), e retomada (ou intenção de —) do que há de mais humano no homem (sua naturalidade): logo, renascimento (renaturalização) do homem natural, íntegro, integral. Eis o ponto de partida para que abordemos a poesia sentimental de Caetano Ximenes Aragão. (2)

*

            2. O Canto pela Unidade do Homem. “A poesia possuindo a consciência da perda e do resgate refaz a identidade do ser. Intuindo a vida como um todo e sendo o homem a medida de todas as coisas, o poeta deve possuir todas as medidas para que possa refletir em sua plenitude a vida com todas as cores do arco-íris”. Assim nos fala o poeta no Posfácio a Caetanias. Passaremos a investigar ao longo das obras o sentimento que nos parece essencial à poética de Caetano Ximenes Aragão, o de procura da unidade do homem. Se a poesia pode amplamente ser dita uma demanda de completude, para o vate de Alcântaras tal se dá duplamente. Primeiro porque o cantar maior de seus versos incide sobre a descoberta “de si mesmo/ em comunhão com todos” (poema O amor ignora a ciência, do supracitado Caetanias); segundo, porque essa incidência deu-se também na própria vida do profissional da medicina, plantonista do ex-SAMDU (conforme lembrado por Blanchard Girão numa das orelhas de O Pastoreio da Nuvem e da Morte). Sim, bem antes de assumir-se notoriamente poeta, Caetano Ximenes desde muito exercia seu ofício de médico. Nascido em 1927, e formado na Bahia em 1952, apenas em 1975 — aos trinta e oito anos, portanto —  publicaria seu primeiro livro. Ainda para recordamos Blanchard Girão: “Sofre o jovem médico. E todo esse seu sentimento de amor pela humanidade ele despeja no sonoro desabafo dos seus versos, onde até o amargor ganha doçura pela magia de sua sensibilidade”. E noutro lugar: “A condição de médico mais ainda o aproximaria das dores humanas”. (3) O poeta “completa” o médico, bem como sua poesia, ela mesma, será signo da procura de completude. Uma procura que se estenderá por toda a obra em versos de Caetano Ximenes, e que seguiremos apreciando. (4) Iniciaremos com o já citado O Pastoreio da Nuvem e da Morte, em que a principal aparição daquele sentimento-ideal de naturalização-integração recairá sobre as rememorações da infância, por oposição à decripta desesperança da morte; a seguir, o Romanceiro de Bárbara, no qual a infância retorna, mas como coadjuvante da revolta, Ave da Rebeldia; chegaremos a Sangue de Palavra, livro ainda marcado pela presença do lúdico e do infante, já em seu desabrochar para a sensualidade; de Sangue de Palavra a Caetanias, em que a unidade surge como simbolizada maximamente pela estrutura da obra, e finalmente alcançaremos o póstumo Canto pela Paz, cujo conceito encimado no título sintetiza a esperança de que um dia “o canto desencantado”, o “descante”, seja “canto de paz” (Canto pela Paz, § 21).

*

            3. O Pastoreio da Nuvem e da Morte (1975). Em sua obra de estreia Caetano Ximenes Aragão deixa transparecer, como em nenhuma outra, a condição de médico-poeta. A primeira tentação que nos vem, diante do binômio nuvem-morte, é a de associar as imagens sugeridas pelo conceito nuvem ao bardo, enquanto ao esculápio caberia a outra polaridade, a da morte. Talvez incorrêssemos em injustiça, caso o fizéssemos. Ao médico como ao poeta competem a “nuvem” (o sonho, o ideal) e a “morte”, esse “salão de anatomia”. O Poema da Intimidade com a Morte aos Profissionais da Medicina bem ilustra a inter/atividade ximeniana dos dois polos. Assim como é — ou deveria ser — por amor à vida que um médico se faz tal, sendo a morte uma inevitável circunstância do ofício, o vate, à medida que pastoreia noites brancas, torna ao contrário a morte uma constante em seu canto, pois a unidade pretendida pela poética não se pode dar sem o enfrentamento da marca do desengano — sem a denúncia do Carcinoma. E conforme em outro poeta-médico, o paraibano Augusto dos Anjos, também em Caetano Ximenes o retrato do Mal a denunciar acaba por trazer ao domínio da lírica todo um léxico proveniente daquele outro domínio exercido pelo poeta: surgem o “sol asséptico” e o “treponema”, as “mulheres gonocócicas”, as “flores venéreas”, os “olhos enoftálmicos”, “pálpebras barbitúricas”, e ainda “um gesto antálgico”, “um choque insulínico”, uma “morte hipotalâmica”. (5) Expressões de um vocabulário acolhido ou, antes, escolhido, com o proposital fito de maior enunciação da desnaturalização em que incorremos enquanto nos permitimos circundar pela “incomunicável/ solidão”. Engana-se quem imagina que o poeta se deixa contaminar pelo jargão médico e por isso, aqui, como em Augusto dos Anjos, concede habitem seus versos tantos termos técnicos: ora, nenhum outro glossário tão apropriado quanto este, quando a questão é precisamente constituir uma denunciação contra a solidão — a solidão do “poema/ que se ausenta”, “a solidão/ tecnológica”, “a solidão/ do consumo”, “a solidão/ do cristo crucificado”, “a solidão/ dos edifícios/ com muitas janelas/ com muitas solidões/ nas janelas”, “a solidão/ burocrática”, “a solidão/ da palavra”, “a solidão/ do amor ausente”. Como conclui o poeta, esse é o longo e difícil aprendizado da solidão comunicante. E a terminologia científica — a um só tempo faz-se elemento de consolidação da solidão (já que o tecnicismo habitaria, neste caso, a própria poética), e igualmente ponto de inflexão a partir da linguagem e, portanto, autoconsciente expressão da mesma solidão denunciada, agora transformada em comunicação. A solidão possui, assim, duplo vértice: o que restringe, limita, isola, isla o humano do humano; e o que diante do isolamento mesmo, intenta comunicar-se, remoendo a “redond(i)lha inconSolável” do solitário. (6) Um desejo de comunicabilidade cuja impossibilidade presente remete-nos ao passado, à infância como ideal de realização da comunidade — da comum idade, da comum unidade. Com a infância retornamos ao pastoreio da nuvem. Mais uma vez, não é que a infância esteja no livro como contraponto “puro” à morte: a morte mesma habita frequentemente a infância, qual no poema de abertura, através — por exemplo — dos sinos e do sineiro Abraão, com seus repiques de finados (sineiro Abraão que ressurgirá nas páginas de Sangue de Palavra e Caetanias). Mas como diria Schiller, olhamos para a infância, não do alto de nossa superioridade, porém do mal-estar de nossa limitação: adultos, somos muitos; se crianças, somos um. Opõe-se à limitada determinação com que somos, a naturalidade pela qual a criança é uma determinibilidade Ilimitada. Por mais permeada pela dor ou ulceração, pelo Carcinoma, a resposta infantil ao Mal será espontânea e natural, integral. Será exemplar e, enquanto tal, referencial: remetendo-nos à sonhada comunicabilidade, posto que identidade de nós conosco, de nós com o mundo, comundidade. Já o disse melhor outro poeta, grande amigo de Caetano Ximenes Aragão, Francisco Carvalho: “O apelo à infância significa que o poeta não se despojou da antiga pureza, que precisa voltar a ela para reaprender o rosto do menino, para não sufocar no desespero, para não ser esmagado pelas vigas de cimento armado, para se limpar da poluição metafísica, enfim, para se reencontrar a si mesmo” (apresentação a O pastoreio da Nuvem e da Morte). A infância recorrente é o desejo recorrente de reencontro, da unidade do eu consigo (com-si-ego), e com o outro: “tempo virá em que o homem/ ressuscitará de mil faces/ e em cada face perdida/ reencontrarei minha face” (do poema Balada da Face Reencontrada). 

“nos retiramos da infância
como pássaros perdidos.
se tentarmos o retorno
só o poeta sabe o caminho”

(Roteiro da Infância)

*

            4. Romanceiro de Bárbara (1980). No Posfácio à obra, o autor diz-nos ter laborado no Romanceiro durante três anos, de julho de 1975 a agosto de 1978. É indubitável que o tenha feito, dada a densidade de pesquisa que subjaz aos poemas. Se o título de seu livro anterior remetia-nos — ainda que implicitamente — a Cecília Meireles e seus pastoreios, agora somos explícita e imediatamente lançados à autora fluminense e ao seu Romanceiro da Inconfidência. (7) Nos dois romanceiros um livro-poema, um poema que ocupa todo o livro, um poema de poemas. Em Cecília, após a Fala Inicial e a descrição do Cenário, um total de oitenta e cinco romances a desenvolverem o retrato minucioso e multifacetado da Conjuração Mineira; em Caetano Ximenes, setenta e sete poemas a comporem o poema-livro, cuja temática analogamente é a tentativa de insurreição cearense nos anos de 1817 e 1824, quando da eclosão do que viria a ser chamado Confederação do Equador. No Ceará, o descontentamento de amplos setores com a política da Coroa Portuguesa conduz à incipiente tentativa de proclamação da República, inspirada em parte pela Guerra de Independência dos Estados Unidos da América, em parte pelo ideário das então ainda recentes Revolução Francesa e Inconfidência Mineira (eclodidas, ambas, em 1789). Não durara mais de uma semana o levante cearense de 1817: precisamente a semana iniciada a três de maio. Estivera a família Alencar diretamente envolvida na intentona, razão pela qual após seu fracasso foram Dona Bárbara e seus filhos José Martiniano (pai do Martiniano autor de Iracema), Tristão Araripe e Carlos José presos e transferidos para Recife, depois a Salvador, onde culminaria o processo da devassa. Se não há dúvidas quanto à participação efetiva de Dona Bárbara nesse primeiro movimento de insubordinação, quanto ao segundo, o de 1824 (quando contava ela já sessenta e quatro anos) é certo seu não-envolvimento direto. Contudo, dado o maior alcance do novo levante (em que Tristão chega mesmo a empossar-se como Presidente da Província do Ceará, contra todas as disposições de Dom Pedro I), não é de se estranhar igualmente a maior represália por parte do Governo Monárquico. Em nosso estado tivemos a morte em combate do próprio Tristão Araripe, bem como a execução dos cinco mártires Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Bolão e Carapinima, além de uma série de assassínios por vindita, qual o que vitimara mais um filho de Dona Bárbara, o padre Carlos José dos Santos. (8) Essa é a súmula dos acontecimentos que constituem nosso nativo épico oferecido como mote à glosa do Romanceiro de Caetano Ximenes. Porém, não obstante a amplitude e diversidade dos fatos a serem transcriados pela poética caetanoximeniana, certo é que em Dona Bárbara há de se concentrar a obra. E já que Bárbara de Alencar não pode ser apontada como presença nos sucessos de 1824, o poeta transfigura a personagem, dela extraindo todo o potencial mítico e supra-histórico. Pairará a imagem da Matriarca para além da limitação temporal, numa transmutação de sua pessoa na própria encarnação da rebeldia e da liberdade que, em si mesmas, não têm tempo: “Bárbara não tinha idade/ cinquenta e sete janeiros/ era a idade do seu sonho”. A Mulher transforma-se em símbolo, em sinal transtemporal de uma poética que, a exemplo de Pessoa e de Mensagem, fundem fato e mito numa única apresentação de realidade. Porque a Bárbara de Caetano Ximenes ultrapassa as dimensões da espaciotemporalidade, pode percorrer todo o poema-livro, “livre do dilema”, personificada ou, melhor, transubstanciada no “sal da terra”, no “primeiro canto”, na “boa-nova”. A transpessoalidade de Bárbara assignala-nos a vigência da segunda arquefigura mais incorrente no livro, a Ave da Madrugada: “a ave da madrugada/ canta de noite e de dia/ é sua maldição cantar/ cantares de rebeldia/ e aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia/ será sempre um encantado/ da ave da madrugada”. Tal como Bárbara de Alencar, a Ave da Madrugada perpassa todos os espaços e tempos, como que a espalhar através de seu canto o frêmito indômito de resistência à opressão, à exprobração do sonho. O canto da Ave da Madrugada é o canto de Bárbara que soma, com o passar dos anos, sempre novos exortados à sua “maldição”: ressurge no Romanceiro a infância a partir da evocação dos recém-encandeados. Desfilam pelo poema os amigos do poeta (alguns homenageados por terem sido cassados/caçados em 1964), todos — numa fulgural transposição de tempos — despertados pelo chamado: “à sombra dos oitões/ em Lavras da Mangabeira/ o menino Moreira Campos/ com as mãos limpas do rio/ meditava longos caminhos/ e o vento/ era o caminho dos mortos// Bárbara era o caminho/ dos vivos/ a pele verde da terra”; “onde viria de ser/ Morada-Nova”, “tecendo as tiras do amor/ foi crescendo este menino/ sofrendo por sofredor/ Blanchard Girão gerador/ do mesmo sonho que um dia/ Bárbara sem medo sonhou”. Em São Bernardo das éguas ruças, o “menino Francisco Carvalho”; em Assaré “o menino Francisco Auto”; em Maranguape, Joaquim Braga Montenegro, “o menino navegante”; “na antiga Praça dos Mártires/ o menino Raimundo Ivan/ pensou nas queixas sumidas/ no ar daquela manhã”. Mas a infância não é aqui a expressão máxima do anseio de unidade que tomamos como emblemático e condutor de nossa inteira apreciação da poética de Caetano Ximenes Aragão: no Romanceiro de Bárbara  é a Ave da Madrugada, Bárbara transfigurada, o princípio de identidade. Frente à maceração dos desejares, frente à perseguição à liberdade, o canto da Ave encerra a presentificação daquele anseio de humanização: percorre várias épocas e lugares e por isso habita todo o livro. Pode parecer que o canto-refrão da Ave contradiga a busca de unidade que viemos querendo demonstrar, pois afirma: “aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia”. Tal inconciliação não seria a difusão, fragmentação do indivíduo? Sim, não o negamos. Contudo, a quem a Ave enfeitiça com seu chamamento? Aos que circunvoltos por realidade dissoluta, em seu encantamento formarão oposição à escuridão de que despertam: “palavras explosivas/ eclodem na carne/ e dói a dor primeira/ do primeiro grito”. O grito de rebeldia da Ave da Madrugada — enquanto encanta e desconcilia, conclama à conciliação o já inconciliado: o que não se concilia nunca mais (never more), bem o faz, se estar conciliado é estar afeito à anulação; o inconciliar da Ave da Madrugada é o novel conclamar à unidade. Em tempo-espaço desfigurado, o que não se concilia é o que supera — ou procura superar — o estado dividido pelo qual se adequa à dilaceração; perceber-se, por conseguinte, dilacerado, é instaurar o sentimento de retorno à identidade perdida, ou jamais havida. Se a Ave é da inconciliação, a onipresença do seu piar ao longo do livro reafirma, ato-contínuo, a unidade desejada. O que o poema final comprova soberbamente: Dos Cantadores une em concílio, sob a anuência de IanSanta Bárbara, vários versejadores populares (Neco Martins, Zé Limeira, Cego Aderaldo, Patativa, Otacílio Batista e outros) a glosar o mote que, dizendo respeito a Bárbara de Alencar, por uma última vez permite desponte a Ave da Madrugada: Ave, Bárbara!

“o dia já trouxe o sol
para nossa cantoria
se a todos não convidei
não foi falta de valia
a ave da madrugada
canta de noite e de dia
aquele que ouvir seu canto
nunca mais se concilia
será sempre um encantado
da ave da rebeldia”

(Dos Cantadores)

*

            5. Sangue de Palavra (1981). Com esta terceira obra de Caetano Ximenes temos novamente a infância plenipresente, constante referência de uma dorida lembrança do que se foi. Dividido o livro em nove seções, duas são dedicadas integralmente à nostalgia da meninice: Canto de Maldizer e a que se lhe segue, Elegia para um Menino Morto. (9) Como no Pastoreio, trata-se de uma puerícia que anda às voltas com a morte, mas que nem por isso se faz menos saudosa. A rememoração do ido sempre suplanta o queixume doído da morte sendo: não importa se a morte é; a vida não deixa de ser vida por já ter sido. O ir à infância, o tornar a ir, é também ser, é renovar-se, refazer-se: “nós meninos; não temos idade/ somos todos/ de uma terra nova// somos todos/ de uma terra nova/ adubada de mortos”. Na verdade, o ser da morte é não-ser; a infância, mesmo não-mais-sendo, é, se a ela retornamos, se nela novamente somos. A morte é vida que se vai; a infância, eterno ser, infinitiva. Ser no infinitivo é ser uno, muito além da precariedade do tempo-finito, do tempo-fim, do tempo-morte. A infância é ser. Razão por que o poeta, em sua Elegia composta de seis sonetos,    lamenta a morte do menino que ele mesmo foi (“em solidão azul me consumindo/ foi quando me senti amortalhado/ carregando o cadáver do menino”). Voltar à meninidade é voltar a ser; daí que uma pletora de meninos invada a seção Canto de Maldizer. No primeiro poema da seção, seu homônimo, os versos: “em derredor de mim/ se fez o mundo/ e me tornei menino”; em Os Mágicos: “os meninos/ passeiam pedalando bicicletas/ na vertigem da velocidade/ morrem os homens”; em Os Destituídos: “os meninos/ encarnam o bem e o mal/ são carne do mesmo corpo/ na elevação e na queda”; o Poema para Dois Meninos já os traz no título; em Invenção da Infância: “do amor/ nada ficou// do menino/ e sua infância”; e em Noves Fora Nada, “os meninos que hão de vir/ se sabem maduros/ para o amor e a morte”. A meninitude continua a mostrar-se referencial: reconduzirmo-nos a ela, é voltarmos à idade sem idade. Entretanto, não só de meninos se fez povoar Sangue de Palavra. À puerilidade se acrescenta agora — com uma intensidade que talvez não se repita em nenhuma outra obra ximeniana — a sensualidade, a sexualidade. No Pastoreio, afora a série Maria dos Navegantes, em que a libido é volátil, escorregadia, fugidia, apenas o último poema, Mulher Azul-Celeste, despe-se marcado pela lubricidade, um desejo entre o cubismo das formas e o impressionismo das cores: “teus seios dois cubos de oiro/ relampejam agressivamente/ ponteando o azul”. Em Sangue de Palavra, porém, a seção inaugural Do Gênese já se imbrica, já se entremeia nas sendas do corpo, onde alcança a fusão, a unidade: “pelas verdes vertentes/ do teu corpo amado/ me nasço de dentro de ti/ para o áspero ofício/ de apascentar teu sexo/ e me desnaço/ quando somos um só/ num só momento”. O ardor, a força, o ímpeto, o vigor do amor instaura-se em tropel na seção Os Cavalos; entre estremeções, espasmos, a palavra relincha de prazer em fúria. São “cavalos suando orvalho/ por vir(i)lhas espumantes”; são “coxias coxas vir(ilhas.)/ retábulos rosa rosário/ pênis ponte pentagrama/ libélula bétula de mel”; são “relâmpagos/ nas curvaturas da noite”, são “montanhas de maremoto”. As imagens carnaválicas invadem inclusive poemas de denunciação (como aquele à cidade de Fortaleza): “não te louvo, amo tuas esquinas/ onde o vento modela o sexo/ e a bunda de tuas mulheres”. É toda uma lascívia que se aprofunda no intento de alcançar o bojo do gozo, o prazer último, fundante, o ápice da relação inter-humana, o ser do-outro. A cópula não é posse, é dar-se, é doar-se a outrem. O corpo-outro é fundação e renovação: em Sol de Mel, “teu corpo é fundação/ exatidão de espaço/ pássaro em voo amanhecido”; em A Nova Fala o outro se amplia, vira identidade maior com toda uma raça, com todo o desejo reprimido de um povo: “E o amor inocência original/ fecundará a noturna praia do teu ventre/ e entre nuvens de espermas e vagidos/ se fará teu corpo em fundação// E serás a nova fala do dia/ a luz dos olhos do teu povo/ a voz usurpada/ o novo canto”. Mesmo no apocalíptico Poema da Revelação, encerramento do livro, as imagens langorosas (“nas vaginas em flor/ despertará a primavera”) são convite ao amor como promessa otimista de uma “estrela da manhã” para um “novo homem”. A primavera, a estrela da manhã, o novo canto, a fundação — imagens polimórficas de um só anseio de plenitude, de cosmopolitude, de unidade.  

“da carne e de meu sangue
foi feita a minha amada
e fomos uma única encarnação”

(Do Gênese)
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            6. Caetanias (1985). Em Caetanias o signo originário é por excelência a unidade. Após os versos que servem de pórtico, os únicos não-intitulados, é dito em Orfeu: “por ti Orfeu/ desintegrado átomo em Hiroxima// retomarei a unidade/ de teu corpo e de teu canto// a nostalgia da perda/ o olhar para trás// o retorno inelutável/ ao ser dilacerado/ para recompor/ o homem agonizante”. A ânsia da unidade como sentimento nostálgico de naturalização ressurge como tema. Porém, antecede aos poemas mesmos o subtítulo da obra que, de antemão, já nos anuncia o caráter de vinculação do versejar aparentemente fragmentário do livro: trata-se do subtítulo — Poema. Como no Romanceiro de Bárbara, um poema de poemas; aqui, no entanto, uma distinção a nosso ver essencial no que concerne à unidade pretendida. No Romanceiro, os títulos sobrepostos aos textos (como é, aliás, ordinário fazer-se) separam-nos em individualidades autônomas, embora cada um deva ser lido numa referência aos demais. O Romanceiro vincula um texto aos outros (já que Da Unção ou Os Caminhos do Fim são mais bem compreendidos quando pensados em relação ao conjunto), mas concede igualmente caráter de individualidade aos versos em particular, pois o título que os encima também os isola numa unidade. Assim, sabemos que à página 53 A Herança deve ser visto no conjunto a que pertence, e até por isso ganha reforçado sentido; contudo, por ter título próprio é um todo-abrangente, podendo ser lido independentemente dos que o antecedem ou prosseguem. Em Caetanias os títulos postos ao lado, à direita dos versos, possibilitam uma sua leitura contínua, ininterrupta, o que fortalece seu vínculo como unidade, como um só Poema, fazendo valer o subtítulo da obra. E a numeração à esquerda, típico recurso das heroidas (Seara, de Luciano Maia, é outro bom exemplo), acentua a unidade reiterada. Unidade que, formalmente mais próxima do que nunca daquilo que se propõe como finalidade, não deixa porém de expressar em seu discurso ainda a irrealização, o não-alcance pleno. Enquanto ideal, o sentimento de retorno à natural manifestação do humano tende a querer realizar-se, seja com sua nostalgia de infância, seja com seu brado de revolta, seja com seu desejo de carnalidade; e por querer realizar-se é que é um não-ainda, um apenas tender à completude. O poeta volta-se para a própria poesia, ilustração máxima de seu desejo de ultrapassagem do fragmento. Por isso rende culto ao filho de Apolo e Calíope, esse a quem Jorge de Lima igualmente dedicara uma obra-prima. Sim, se vinculamos o Romanceiro de Bárbara a Cecília Meireles, inevitavelmente Caetanias transporta-nos ao portentoso Invenção de Orfeu. Com imensurável poder inventivo, Jorge de Lima dá vazão ao maior épico em versos da literatura brasileira, nivelando-se em engenho e arte a Camões e Os Lusíadas (com o perdão dos lusófilos). Apenas, a viagem do poeta alagoano é inespacial, ou melhor, é viagem para espaços interiores, de geografias insuspeitas. Decerto que diante das obras de seus predecessores Caetanias é de menor magnitude, o que de modo algum lhe retira a grandeza e importância. Aqui, guardadas as proporções, como em Os Lusíadas e Invenção de Orfeu, trata-se de se realizar estupenda “tr/ave/ssia” em que a poesia é a verdadeira nave. Que ruma à unidade do homem: “só a poesia/ unindo o verso/ ao universo/ refaz a cosmo-agonia/ do homem dilacerado”. Vemos, pois, que o plural do título principal do livro — assumindo na identificação do nome do autor a ordem do múltiplo —, vê esse mesmo múltiplo reduzido à busca da unidade pela poesia que no livro se apresenta, e sintetizada pelo subtítulo Poema. Chama-se a obra Caetanias porque o poeta se estilhaça (Orfeu destroçado pelas Mênades) em versos inúmeros (mais propriamente, em 1837 versos), unificados, no entanto, como fossem (e o são) expressão diversificada de um só poema que, enquanto se faz, faz-se único sob a ordem do múltiplo; ou múltiplo, sob a ordem do único: Caetania(s) — Poema(s). Já vimos que, em relação ao Romanceiro de Bárbara, temos agora um passo a mais em direção à unidade desejada pelo poeta (sobretudo no que concerne à organização e disposição dos versos). Mas não deixa de reutilizar um recurso posto já em andamento: a repetição do poema Do Sonho e da esperança, integralmente, como no Romanceiro a Ave da Madrugada em suas variações. Do Sonho e da esperança: “não percamos nunca/ o módulo de nosso sonho/ embora que todos os sonhadores/ tenham deixado de sonhar// não percamos nunca/ o módulo de nosso sonho/ embora todos que esperam/ tenham cessado de esperar”. Essa espécie de poema-ritornelo que surge pela primeira vez a partir do verso 100 e que retorna com certa regularidade a cada dez páginas; esse estribilho insistente sintetiza uma vez mais a poética caetanoximeniana como sentimental, à medida que se constrói aspirante à perdida naturalidade pela qual o humano é um todo em si e no mundo, e não um em-si mesmado. Deixemos, para finalizarmos nossa apreciação de Caetanias, que o próprio poeta fale, conforme o belíssimo Posfácio: “O homem desagregado, desnascido, teve seu cordão umbilical cortado e não mais se liga às fontes primárias da vida. (...) A vida é basicamente uma unidade que nega e afirma a permanência. A verdade está na gestação do novo que explode o odre. A verdadeira arte é uma síntese dialética do sonho e da realidade, onde os contrários são idênticos”. Onde os contrários são idênticos: onde realidade e sonho não se opõem, onde o sonho é a realidade, onde se põe a unidade.

“meu poema é
a dilaceração
do homem

um mural em desordem

meu verso é minha revolta
a rebeldia de minhas palavras
é a maldição de ser poeta

canto a unidade do homem”

(Pórtico de Caetanias)

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            7. Canto pela Paz (2004). Canto pela Paz foi publicado postumamente, nove anos após a morte do poeta, numa edição sob os cuidados de José Telles e da SOBRAMES-CE (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores — Regional do Ceará). Notamos na obra novamente o cuidado quanto à organicidade dos poemas, o que leva o poeta a conceber um livro cuja temática alinha-se sob uma égide estrutural bem definida. Como no Romanceiro e em Caetanias, um Canto de cantos e contracantos, um todo cuja unidade é mais do que garantida pela vigorância da palavra-seminal “paz”, e ainda pela disposição dos poemas como parágrafos ou seções (§), frações de um só painel, um poemosaico. Retornam os temas nitidamente caetanoximenianos, quais a denúncia — da guerra, da bomba, da cegueira tecnológica, da violência e da injustiça social, responsáveis pela “intimidade dilacerada do ser”; a infância, “lugar de origem”; a presença do feminino, “ave-mulher amada mensageira”; e agora a ênfase na paz como reinvenção do homem, refazimento da vida, “precária síntese”, a paz como a própria “poesia revelada em vida”. É sempre o Caetano Ximenes Aragão de uma poética sentimental como procura desenfreada e incessante da pacificação, da apreensão do humano como reintegrado, renaturalizado, para além da duplicidade do desconhecimento de si por si, e de si por outrem. Para além “da tragédia de sua ambiguidade”, pela qual o homem vive “contrário a si mesmo”. Ou, conforme José Telles, na segunda orelha do livro: “Caetano jamais aceitou a miséria como entidade mórbida autonômica. Nela, sempre houve para o poeta, um processo de retroalimentação, que se abastece na assimetria das relações humanas”. Canto pela Paz: quarenta e três orações, quarenta e três pedidos, quarenta e três gemidos, quarenta e três exortações: PAZ/ PEACE/ PAIX/ MIR. (10)

“combatente pela paz
o poeta sabe
só quando vivermos
o comum a todos

o mundo viverá em paz”

(Canto pela Paz, § 21)

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            8. Encerramento. O Canto pela Unidade do Homem (II). Chegamos ao encerramento de nosso estudo. A partir da reflexão schilleriana acerca do sentimental enquanto aspiração à reintegração do humano na ordem plena da natureza, desenvolvemos a procura da unidade. Em O Pastoreio da Nuvem e da Morte a infância nos aparece como essa instância de plenificação, oposição ao descalabro de uma realidade reificada. Temática indubitavelmente preponderante da lírica ximeniana, possível central-motivo de sua obra, bem poderíamos identificar a infância e a unidade — bem poderíamos intitular este ensaio de Canto pela Infância do Homem. Não o fizemos porque realmente queríamos evidenciar o quanto a própria incisão da puerilidade se associa, na poética de Caetano Ximenes Aragão, a um anseio maior que a tudo açambarca, anseio comum a todo aquele que sente em si a emergência da suplantação do distanciamento e do alheamento de si consigo, de si ante o outro, de si com o mundo. O anseio mítico/místico de que tudo seja Um. Retornar à meninice é, pois, uma das várias manifestações desse desejo maior, quais a contestação, a revolta e a insubordinação do Romanceiro de Bárbara são outra possibilidade-necessidade de retorno à unidade. Como também o é o sexo de Sangue de Palavra, a própria poesia em Caetanias, e a súmula dos anteriores, o projeto de — paz. Com a procura do conceito-chave da unidade e tudo o que sua aquisição implica, perpassamos algumas das diversas temáticas ximenianas, acentuando-as onde acreditávamos que, respectivamente, se sobressaíam: assim que no Pastoreio temos aliada à crítica social veemente a já tão conclamada paixão pela infância; paixão evidenciada em Sangue de Palavra, acrescida agora do erotismo jamais pornográfico, embora despudorado. No Romanceiro a infância, sim, porém como elemento de coesão e ao mesmo tempo difusão no tempo-espaço vário daquela que signaliza a própria denúncia, a Ave da Madrugada; em Caetanias a própria estruturação da obra consolidando a unidade cantada desde a abertura do livro: comparecendo a crítica social, a meninice, o apelo sexual, mas em muito menor plano se comparados à frequência com que o poeta discursa sobre a própria poesia (haja vista o personagem fundante e ressurgente, Orfeu). E finalmente, no opus póstumo retornam todos os temas anteriores e a própria poesia não é senão evocação à unidade agora chamada Paz. A crítica social (com tudo o que implica mortificação), a infância, o erotismo e a poesia mesma constituem um quadrivium nuclear que, se bem esmiuçado, nos conduzirá a uma mais ampla gama de outros tantos subtemas. Procuramos a unidade da obra de Caetano Ximenes Aragão, procuramos a unidade pretensa pela obra de Caetano Ximenes Aragão e, ao fazê-lo, retratamos a multiplicidade temática de seus livros. Tamanha diversidade se acentua se lembrarmos que o recorte aqui feito é apenas um, dentre tantos possíveis. Mas na verdade não desacreditamos de nosso fio-condutor: cremos em sua legitimidade. Sabemos que quando o poeta chama genericamente de “poema” a vários textos de seu Pastoreio, quer reforçar a unidade que os vincula a todos sob um mesmo signo; sabemos que quando um título como Poema da Denunciação à Cidade de Fortaleza desponta na sua terceira obra, o faz como reiteração do Poema da Denunciação já presente no livro de estreia; sabemos que as marias prevalecentes ao longo de sua poesia (a “Maria dos Navegantes” do Pastoreio, as “dialéticas Marias” de Sangue de Palavra, a “Maria clareou” e a “Maria Ave-Eva” de Caetanias) são uma só, a Maria-Todas, a Maria-Mulher, e que sua indefinida nomeação é maneira diversa de apelar ao Mesmo, ao Idêntico, ao Uno. Sabemos que o moto-contínuo da Ave da Madrugada e do Sonho e da Esperança reforça a contextura dos dois livros-poemas Romanceiro e Caetanias. Sabemos que o Orfeu do mesmo Caetanias já se anuncia nos Mortos de Picada do Romanceiro, onde desce aos infernos e tange sua lira. Sabemos dessa imensa destinação da poética de Caetano Ximenes Aragão à unidade, pois é essa a destinação de todo fazer poético, seja ou não cônscio de sua imensa tarefa. Que dizer, então, da diversidade estilística do autor? Da utilização em seus versos de rimas consoantes, toantes-assoantes, dissonantes e/ou destoantes? Da fabricação de metros os mais variados, da disposição estrófica tradicional ou espacialmente concretista? Que dizer dessa composição de inspiração originalmente popular, enraizadamente nordestina, como também erudita e universal? Que é o Romanceiro de Bárbara senão um laboratório poético? Em que por vezes o poema-praxis à la Chamie emerge, seguido logo de um martelar-versejar tipicamente cantador? O poeta dá-nos resposta a essas questões no preciosíssimo Posfácio a Caetanias: “Em poesia não dever haver uma só medida que limita, mas múltiplas medidas que libertam; só uma forma que aliena, mas várias formas que a transformam; só um ritmo monocórdio, que ensurdece, mas a diversidade rítmica, criadora e libertária”. E ainda: “Sonhando a esperança, canto a unidade do homem, ser contraditório que se busca na própria desintegração, reunificando os pedaços de sua finitude, para integrar-se a si mesmo, numa nova abordagem cosmogênica”. A diversidade de forma e temas da poesia de Caetano Ximenes Aragão não nega a busca da unidade a que se dedicara o poeta. Como vimos, antes a confirma. Afirma-a, e essa a imensurável beleza de uma poética sentimental, única. E de um altíssimo Canto pela Unidade do Homem. Canto que aqui cantamos.          

“O Homem é tenebroso e cruel como dizia Bertrand Russel, principalmente pelo seu lado demoníaco, mas nem por isso deixaremos de acreditar no seu lado luminoso. Se todas as coisas evoluem para o seu contrário, como queria Heráclito de Éfeso, é das sombras que vem a luz. É da Noite que vem o Dia. Acredito no Homem, apesar do Homem e que no 3º. Milênio que se aproxima, a ciência esteja a serviço da Vida e não da Morte. AMÉM”.

(Ciência da Vida — Utopia do 3º. Milênio)

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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———— . Canto Intemporal — Àqueles Que se Encantaram Antes do Tempo Chegado. Fortaleza: edição do autor, 1982.
———— . Canto pela Paz. Fortaleza: Gráfica LCR, 2004.
———— . “Ciência da Vida — Utopia do 3° Milênio”, in: Anais da Academia Cearense de Medicina. Volume VII — N° 7, Junho de 1994 a dezembro de 1996. Fortaleza: ACM, 1998.
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————. Tristão Araripe — alma afoita da revolução. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, 1993. (Perfis, 2)
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SIRIARÁ — UMA REVISTA LITERÁRIA. Fortaleza, Ano I — N° 1 — Julho/79.
XAVIER, Airton Fontenele Sampaio. “A Escrita de Caetano Ximenes”, in: LITERAPIA — Revista da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores — SOBRAMES-CE, N° 8, Julho de 2003.


(*) Ensaio publicado como Posfácio a ARAGÃO, Caetano Ximenes de. Romanceiro de Bárbara. Série luz do Ceará. Fortaleza, Secretaria de Cultura do Ceará, 2010. 

(1) Cf. SCHILLER, Friedrich. Poesia ingênua e sentimental; estudo e tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1991. (Biblioteca Pólen)
(2) Parece claro que por sentimental não entenderemos a poesia “derramada”, de estro lírico dominante; mas o estigma característico do que anseia reabrigar-se como um só no seio da natureza, o que assume por meta o retorno à unidade perdida.
(3) GIRÃO, Blanchard. “Análise Crítica” de Caetano Ximenes Aragão, in: D’ALGE, Carlos (org.). Antologia Terra da Luz — Poetas. Fortaleza: Diário do Nordeste, 1998.
(4) Salientamos a “obra em versos” porque neste ensaio não nos debruçaremos sobre A Ilha dos Cornos: Estudo das Cornopatias, livro póstumo, saído em 1996 pela Editora Maltese (com apoio da Imprensa Oficial do Estado do Ceará — IOCE). Pelo que contém de erudito e ao mesmo tempo hilário, eminentemente jocoso; pela diversidade de abordagens com que se implementa e, enfim, por dizer respeito a todos, direta ou indiretamente, mereceria tal volume estudo à parte, um ensaio apenas para si. Também não incluiremos em nosso estudo o discurso Ciência da Vida — Utopia do 3º. Milênio, publicado nos ANAIS da Academia Cearense de Medicina — Volume VII, N° 7, Junho de 1994 a dezembro de 1996, nem a plaqueta Canto Intemporal, composta de quatorze estrofes em oitavas camonianas, e ideada por ocasião da formatura da turma de médicos em 1952 da Faculdade de Medicina da Bahia. Trinta anos depois, em 1982, essa plaqueta seria publicada em pequena edição, com projeto gráfico de Rosemberg Cariry e Tarcísio Garcia.
(5) Como assinala muito bem Airton Fontenele Sampaio Xavier, em “A Escrita Poética de Caetano Ximenes” (Revista Literapia n° 8, julho de 2003), deve ser apenas “acidental” a aproximação entre Augusto dos Anjos e o autor do Pastoreio da Nuvem e da Morte. Na verdade, se pretendêssemos apontar influências do poeta cearense, estas deveriam ir do cantador popular a Maiakovski, da ciranda e do coco ao concretismo mais urbano. A título de ilustração, como não lembrarmos de Carlos Drummond de Andrade e do Poema de Sete Faces e, principalmente, de Convite Triste, em que o mineiro nomeia a si, fazendo-se uma segunda pessoa, evitando a primeira? Recurso também adotado por Caetano Ximenes, seguidamente no conjunto dos quatro primeiros textos do Pastoreio a intitularem-se, cada um, “Poema”: “caetano/ estou à espera/ de que não me convidem/ para nada”. E ainda em O Estrangeiro e Um Poema para Três Personagens. Mas percorrer a trilha das influências possíveis de nosso autor exigiria uma arqueologia em muito superior aos limites do presente estudo.  
(6) Essa dicotomia da solidão comunicante pode, de resto, ser percebida desde a epígrafe da obra: “Não tenho ambições nem desejos./ Ser poeta não é uma ambição minha./ É a minha maneira de estar sozinho” (Fernando Pessoa, poemas de Alberto Caeiro).  
(7) Normalmente, quando a questão é o Romanceiro da Inconfidência, é posta em relevo sua dimensão política, sua crítica ao mercantilismo e à exploração das almas em função do ouro. Mas em se tratando de Cecília Meireles, por que a ida a Minas Gerais e ao século XVIII? Talvez pelo estreito vínculo de Cecília e do Arcadismo, com seu bucolismo, rimances, madrigais e “pastoris”. “Todos querem ser pastores/ quando encontram, de manhã,/ os carneirinhos,/ enroladinhos/ como carretéis de lã” (Ou Isto ou Aquilo, poema Os carneirinhos).
(8) Desde 2007 vêm seguidamente sendo relembrados os trágicos episódios da Confederação do Equador em sua versão cearense através do Cortejo dos Confederados, grande festejo que reproduz no trajeto pelo centro de Fortaleza o itinerário percorrido pelos cinco condenados, antes de sua execução no Campo da Pólvora, atual Passeio Público. A festa dá-se em homenagem ao Dia do Patrimônio Cultural do Ceará, a 30 de julho, com direção geral de Oswald Barroso e apoio da Secretaria de Cultura do Estado. 
(9) “Encontro neste livro um poeta profundamente emocionado. Um poeta desfiando palavras encantadas e redescobrindo velhas mitologias. Um poeta em busca do tempo perdido. Um poeta tentando desesperadamente ressuscitar o menino morto. A infância é uma presença luminosa, uma presença comovida nestes poemas; uma presença, quase diria, avassaladora. Dos 50 poemas do livro, mais de 20 ou se referem especificamente ou aludem de passagem à infância do poeta”. Cf. “Caetano Ximenes Aragão ou a Indignação Que Faz Versos” (p. 43), in: CARVALHO, Francisco. Exercícios de  Literatura. Fortaleza, Edições UFC, 1990.
(10) Além das obras aqui analisadas (e das não-analisadas, mas já citadas), gostaríamos de acompanhar uma vez mais Airton Fontenele (“A Escrita Poética de Caetano Ximenes”, in: Revista Literapia n° 8, julho de 2003) e o excelente apanhado que fez da Fortuna Crítica do poeta: é apresentada de Caetano Ximenes uma “mini bio-bibliografia”, em “Presença do Médico na Literatura Brasileira”, de Geraldo Bezerra (1996 — VXI Congresso da SOBRAMES-CE); em A Poesia Cearense no Século XX, de Assis Brasil (cf. Bibliografia), são reproduzidos o Poema (“João vivia no precisado”) e Dia da Libertação, respectivamente do Pastoreio e do Romanceiro; aparecem estudos sobre o autor em Leitura e Conjuntura, 1995, de Dimas Macedo, e em Exercícios de Literatura de Francisco Carvalho (cf. Bibliografia); também comparece na apreciação de Adriano Espínola a Verdes Versos, obra coletiva; e ainda nas homenagens de Joaquim Eduardo de Alencar, Francisco Carvalho e Blanchard Girão, todas na Revista da Academia Cearense de Medicina (cf. Bibliografia). Acrescentaremos ao levantamento de Airton Fontenele, as obras de Sânzio de Azevedo, Literatura Cearense (cf. Bibliografia), em que o poeta ganha as páginas 561-565, e tem seu livro O Pastoreio da Nuvem e da Morte definido como “dos mais fortes que nos têm surgido ultimamente”; e a obra de Pedro Américo de Farias, NOR destinosColetânea Poética do Nordeste Brasileiro (cf. Bibliografia), em que são reproduzidos dois poemas de Caetano Ximenes, o primeiro dos dois presentes em Assis Brasil, e Um Poema para Três personagens, do Pastoreio (devemos a notícia dessa coletânea a D. Dulce, viúva, e a Ângela Aragão, filha do poeta). Finalmente, recordemos a importante participação de Caetano Ximenes na Revista Literária Siriará, de 1979, em que figura o poema Do Gênese, abertura também de Sangue de Palavra.      
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